Magníficos Estranhos
Trinta e seis ALISTAIR CALLOWAY
Trinta e seis
ALISTAIR CALLOWAY
4 DE AGOSTO DE 2007
Charlotte, ainda de fato de banho e sapatos de vela, rebolava-se pelo chão
da sala de estar com a irmã. Entretinham-se com um qualquer jogo que só
elas entendiam. Seraphina agarrava os tornozelos de Charlotte e esta
retaliava lançando uma framboesa à cara da irmã. Seraphina ria a bandeiras
despregadas.
– E se fossem lá para cima, para o vosso quarto, brincar? – sugeri, depois
de as ter contornado para me sentar no sofá com a pasta do escritório.
– Proooonto, está bemmm – respondeu Charlotte, com o mesmo tipo de
exasperação que deixaria qualquer adolescente orgulhoso, embora ela
tivesse apenas sete anos. Seraphina imitou-a.
– Proooonto, está bemmm.
Subiram a escadaria na risota e ouvi Grace entrar, vinda do pátio.
– Vou tomar um duche – disse ela. – Queres pôr os hambúrgueres no
grelhador daqui a uma hora?
Levantei a cabeça dos relatórios que tinha no colo.
– Combinado – respondi. – É boa ideia.
Semicerrei os olhos para ler as letras pequeninas no fundo da página e
estas desfocaram-se. Olhei à minha volta, em busca dos óculos de leitura
que costumava ter ali em casa. Não estavam na mesinha de apoio. Levantei-
me e dirigi-me ao meu escritório, do outro lado do vestíbulo. Procurei-os
em cima da secretária e abri as gavetas, em vão. Recordei-me então de que
os tinha deixado no quarto no fim de semana anterior. Estivera a ler na
cama e pousara-os na mesa de cabeceira.
No piso de cima, Grace tinha fechado a porta do quarto, por isso bati ao
de leve e rodei a maçaneta. Entrei. Ouvi a água do banho a correr. Ao
avançar na direção da mesa de cabeceira, reparei que a porta da casa de
banho estava entreaberta. Vi o espelho atrás do móvel e, nele refletido, a
minha mulher. Estava nua, em frente à cabine de duche. Com a mão sob a
torneira, avaliava a temperatura da água. Senti um nó no estômago ao
vislumbrá-la.
Na manhã a seguir à nossa discussão, mandara-lhe flores, um ramo de
jacintos e tulipas roxos. Telefonei-lhe do escritório no final desse dia. Disse
que tivera de ficar a trabalhar até mais tarde. Tinha uma caixa de comida
chinesa a arrefecer ao lado do teclado. Na verdade, não suportava regressar
ao nosso apartamento vazio, à cama onde dormia sozinho e aos quartos
silenciosos onde os brinquedos de Charlotte e Seraphina estavam
imaculadamente arrumados em caixas coloridas. Não queria estar sozinho
com os meus pensamentos, com a consciência do que fizera, do que Grace
fizera, do que tínhamos feito um ao outro.
Peguei no telefone e liguei para a casa do lago. Grace atendeu ao fim de
vários toques, ligeiramente ofegante, como se tivesse tido de correr para
atender antes que perdesse a chamada. Imaginei-a junto à mesa do vestíbulo
do piso superior, ajudando as nossas filhas na sua rotina antes de se
deitarem. Quase conseguia escutá-las às risadinhas na casa de banho, ao
mesmo tempo que escovavam os dentes. Grace teria vestido o roupão de
seda rosa-pálido que eu lhe oferecera no dia da mãe, há vários anos, e que já
começava a ficar coçado nas mangas.
– Estou? – disse ela, ao atender.
– Grace, sou eu – respondi.
Ela ficou calada. Era capaz de vê-la mentalmente, a morder o lábio e a
pensar se havia de desligar ou não.
– Recebeste as flores – indaguei.
– Sim – disse ela. Suspirou. – Ia deitá-las fora, mas as miúdas viram-nas
primeiro. Sabes que elas adoram o roxo.
Sorri.
– A Sera chamou-lhes flores para princesas – continuou Grace, mas o seu
tom era frio e triste. – Passámos a tarde a fazer grinaldas com as flores.
Senti um nó na garganta. Abri a boca para falar, mas fechei-a.
– Grace, a pessoa que fez aquelas coisas – confessei, ao fim de um momento – não era eu. Tu sabes isso.
Ouvia a respiração dela do outro lado da linha.
– Alistair, o que aconteceu naquela noite…
– Não voltará jamais a acontecer – completei eu. – Dou-te a minha
palavra de honra.
Ela não respondeu.
– Tu e… – Não conseguia sequer pronunciar o nome dele. – Acabou?
Grace fez uma pausa.
– Sim, acabou – afirmou ela.
– Muito bem – disse, como se fôssemos parceiros a negociar um acordo e
ambos tivéssemos abdicado de qualquer coisa que era importante para nós.
Na noite passada, quando chegara a casa, vindo da cidade, as miúdas já
dormiam e Grace estava de roupão na cama, a ver televisão. Levantou-se ao
ver-me entrar no quarto. Nenhum de nós falou. Dirigi-me a ela, ajoelhei-me
à sua frente e envolvi-lhe a cintura com os braços. Ao nó que lhe cingia o
roupão disse:
– Estou a tentar. Quero tentar.
Grace não se pronunciou. Limitou-se a pousar uma das mãos no meu
cabelo.
Dormi no quarto de hóspedes, ao fundo do corredor. Acertei o
despertador para as cinco e meia da manhã para poder acordar antes das
miúdas e meter-me na cama ao lado de Grace e preservarmos assim o ritual
das manhãs de sábado que elas tanto apreciavam: entrarem de rompante e
bem cedo no nosso quarto e acordar-nos com pulos na cama para nos
obrigar a descer e a fazer-lhes o pequeno-almoço. Senti o peso do corpo de
Grace no colchão quando me deitei. Ficámos à espera, ambos fingindo que
dormíamos. Ao fim de um tempo, abri os olhos e contemplei-a: o cabelo
escuro tombando em cascata sobre a almofada, as compridas pestanas
contra as maçãs do rosto. Quase estiquei o braço para lhe tocar, mas, nesse
instante, ouvi a porta abrir-se, as risadinhas de Seraphina e o pedido de
silêncio de Charlotte. O colchão abanou mal elas treparam para cima da
cama.
Julgo que Grace não me ouviu, entretanto, a entrar na casa de banho, pois
ao olhar para trás através do espelho ficou surpreendida por me ver ali.
Observei despudoradamente o corpo nu da minha mulher. A curva dos
seus seios, o seu pescoço. A sua pele, habitualmente translúcida, escurecera graças ao Sol. Quantas vezes tínhamos feito amor naquela casa de banho: na
cabine de duche, em cima do móvel, no chão de ladrilhos, com o vapor a
encaracolar as pontas do cabelo de Grace, o som da água a bater no granito
e abafando os gemidos dela? Aproximei-me e contornei o tronco dela com
os meus braços, cobri-lhe os seios com as mãos e puxei-a contra mim para
que percebesse o quanto a desejava.
Senti-a retesar-se nos meus braços.
– Não – disse ela.
Acariciei-lhe o pescoço. Apenas queria fazê-la sentir-se bem e recordar
como era bom quando estávamos juntos. Tínhamos concordado tentar, não
tínhamos? Um dos meus dedos sentiu uma aresta e parei. Vi-o no reflexo do
espelho: o penso no ombro esquerdo. Não o vira de início, por causa das
luzes fluorescentes da casa de banho. Mas lá estava ela, a prova irrefutável
de que a nossa briga no início daquela semana fora uma realidade. As
marcas que eu tinha deixado.
Havia sido um acidente. Ela tinha caído. Eu estivera lá, sim, mas não fora
culpa minha. É claro que eu estava perturbado, irritado. Era certo que
dissera coisas horríveis e talvez a tivesse tratado com alguma rudeza. Mas
ela tinha mentido. Traíra-me, traíra a nossa família.
Peter Hindsberg. Aquele merdas. Porquê ele? Quem raio é que ele era?
Um investigador de seguros de Hillsborough? Que tinha ele que fizesse
Grace achar que valia a pena renunciar à vida que ela e eu tínhamos
construído juntos?
– Alistair – disse ela.
Inclinei-me e fechei a torneira. O granito desprendia vapor. Sentia-se o
calor que a água emanava.
– Entra – ordenei.
Vi o medo nos olhos de Grace, mas isso só serviu para alimentar a minha
raiva. Beijei-a para calar os seus protestos. Vi-a fechar os olhos e ir para um
outro sítio na sua mente, bem longe de mim. Um lugar até ao qual não podia
segui-la.
*
No final, fiquei alguns minutos sentado sob o chuveiro, sozinho. Quando
emergi da cabina de duche, o espelho da casa de banho estava todo embaciado. Prendi uma toalha à volta da anca e fiz a barba. Chegado ao
quarto, vi Grace de calças de ganga e t-shirt larga.
Foi então que reparei que a minha mala estava aberta em cima da cama e
que Grace estava junto à cómoda e despejava a gaveta das camisas para
dentro da mala.
– Quero que te vás embora – disse Grace. – Nunca mais voltarás a fazer-
me uma coisa daquelas, jamais.
– Então, ele pode tocar-te, mas eu não? – indaguei.
Grace não reagiu.
– Pensei que tínhamos combinado que iríamos tentar – fiz notar.
– Tu disseste que ias tentar – contrapôs Grace, e deitou-me um olhar duro
e frio.
– Que quer isso dizer?
Ela desviou o olhar e não respondeu.
– Vai-te embora – disse ela.
– Raios partam, Grace – reclamei, contornando a cama para me aproximar
dela. Grace deu um passo para se afastar, como se o meu toque, iminente,
lhe causasse repulsa. Agarrei-a pelo pulso e puxei-a para mim, com a
intenção de a abraçar.
– Olha para mim – ordenei.
– Tira as mãos de cima de mim! – gritou Grace.
– Mamã?
Rodámos a cabeça e constatámos que a porta do quarto estava
ligeiramente aberta. Com a mão na maçaneta, Charlotte olhava para nós.
Grace virou-se de maneira que ela não lhe visse o rosto.
– Porque é que a mamã está a chorar? – perguntou Charlotte.
Merda. Isto estava mesmo a acontecer?
Dirigi-me à porta e peguei na minha filha mais velha ao colo.
– E se fôssemos ao frigorífico roubar um gelado? – propus, ao mesmo
tempo que rasgava um sorriso.
– Está bem – acedeu Charlotte.
Levei-a ao colo até à cozinha no piso térreo e tirei dois gelados do
congelador. Depois, fomos para o pátio das traseiras e sentámo-nos nos
degraus, com vista para o lago. Nem há uma hora, estivéramos todos ali, na
água, a divertir-nos. Quando é que tudo descambara?
– A mãe não vai ficar zangada por estarmos a comer gelados antes do jantar? – inquiriu Charlotte. Lambeu um pedaço de chocolate derretido que
lhe pingara para o dedo.
Suspirei. Não sabia como estar ali naquele momento. Sentia uma raiva
demasiado grande, contra Grace, e, se ficasse, sabia que acabaria por fazer
alguma coisa de que me arrependeria.
– Charlotte, preciso que sejas uma menina crescida e tomes conta da mãe
enquanto eu estiver ausente – pedi. – Achas que és capaz de fazer isso?
– Já vais voltar para a cidade? – perguntou ela.
– Tenho uma reunião amanhã bem cedo – menti.
– Não vás – pediu Charlotte. – Prometeste que me levavas a andar de
barco outra vez amanhã.
– No próximo fim de semana, está bem? – sugeri.
– Posso ir contigo? – indagou ela.
Interroguei-me se as coisas por ali seriam assim tão más a ponto de
Charlotte não querer ficar. Quando era miúdo, teria matado por um lugar
como aquele para passar os verões. Mas talvez Grace andasse demasiado
absorta a lamber as feridas do seu caso amoroso fracassado para prestar
atenção às nossas filhas.
Uma parte de mim queria levar Charlotte comigo, queria meter Seraphina
e Charlotte no carro e sair dali. Sabia, porém, que Grace armaria uma cena
se eu tentasse semelhante coisa. Por certo que se poria aos gritos e em
pranto e pregaria um susto de morte às nossas filhas, e depois eu teria de
pagar sessões de terapia a ambas até o resto da vida para que apagassem das
suas mentes a imagem da mulher ridícula que tinham como mãe.
– Preciso que fiques aqui e tomes conta da tua mãe – insisti. – Fazes isso
por mim?
Charlotte respondeu que sim com a cabeça e eu fiz-lhe uma festa na
cabeça e pus-me de pé. Subi para acabar de fazer a mala. Grace não estava
no nosso quarto quando entrei. Não sei onde se enfiara, mas também não
me dei ao trabalho de a procurar para me despedir. Dirigi-me ao carro,
lancei a mala para a bagageira e fui-me embora dali.
Peter Hindsberg. A merda de Peter Hindsberg. As fotografias não me
saíam da cabeça e também não parava de invocar imagens mentais deles os
dois juntos.
A meio caminho da cidade, parei o carro. Tamborilei o volante com os
dedos. Dei meia volta e inverti a marcha.