Magníficos Estranhos
Catorze ALISTAIR CALLOWAY
Catorze
ALISTAIR CALLOWAY
1996
No final de dezembro, a minha família reuniu-se em casa dos meus pais, em
Greenwich, para comemorar a quadra festiva. Como sempre, Eugenia
superou-se a si mesma. A casa cheirava a azevinho por todo o lado, havia
uma árvore de Natal de seis metros de altura no vestíbulo da entrada, junto à
escadaria, o corrimão estava engalanado de fitas e visco branco, havia
enfeites em todas as lareiras e luzes a brilhar em todos os ramos das árvores
do jardim.
Todos levávamos companhia para as festas, porque daríamos em doidos
se tivéssemos de aturar-nos uns aos outros. Levei Margot, como acontecera
no Natal do ano anterior. Olivia convidou o seu amigo Porter, de Vassar,
que usava camisolas de losangos e óculos de armação de tartaruga e gostava
de dissertar acerca de arte e de Sartre. Presumi que Teddy fosse aparecer
meio bêbado no dia a seguir ao Natal com um dos seus compinchas do
clube; em vez disso, chegou três dias antes do Natal, com Grace.
Margot e eu tínhamos passado a tarde toda no Bergdorf a fazer a lista de
casamento e só vi o meu irmão e Grace ao final do dia, quando nos
sentámos todos juntos na sala de estar.
A lareira estava acesa; Teddy e Grace estavam sentados no sofá comprido
ao lado de Margot e de mim; Eugenia afadigava-se a tratar das bebidas.
– Quando foi a última vez que cortaste esse cabelo? – perguntou Eugenia,
sempre muito dedicada a Teddy, ao mesmo tempo que lhe entregava o
uísque que ele pedira.
Subconscientemente, Teddy passou a mão pelo cabelo e penteou a franja
rebelde.
– Tenho andado ocupado – defendeu-se ele.
– Eu ligo ao Robert – decidiu Eugenia. – Peço-lhe que venha cá e te corte
o cabelo e a barba.
Inclinei-me para a frente e fiz passar o arame da tábua do queijo pela
casca descorada do Parmigiano-Reggiano que Eugenia colocara em cima da
mesa do café. Imaginei que o bloco de queijo era o pescoço elegante e
pálido de Grace.
Estava irritado por ela estar ali. Era como se, com a nossa última
conversa, ela tivesse reaberto uma ferida que há muito sarara, obrigando-me
a lidar com ela de novo. Andava a ter um sonho recorrente: encontrava-me
no cimo de um precipício, às escuras. Estava tão escuro que não via nada à
minha volta. Sabia instintivamente onde me encontrava e o que havia ao
fundo do precipício. Esforçava-me por me afastar dele. Certo de que estava
à minha frente, dava um passo atrás. Ou então, crente de que estava mesmo
nas minhas costas, avançava. Os meus esforços saíam sempre gorados. Caía
e caía e caía até chegar à água. Engolia-me, fria e negra, e eu tentava nadar,
mas nunca chegava à superfície a tempo. Por muito depressa que nadasse,
nunca chegava ao cimo. Acordava ofegante, a esbracejar, encharcado em
suor.
Por duas vezes, Margot estava a dormir ao meu lado quando isso
aconteceu. Ficou suficientemente alarmada para me incitar a consultar um
médico. Marquei uma consulta com o meu médico de família, o Dr.
Carmichael, que me mandou fazer uma bateria de análises e alguns exames.
Não revelaram nada. Estava tudo normal.
– Respira saúde – disse-me o Dr. Carmichael na última consulta.
– Então, porque acordo a meio da noite, ensopado em suor? – perguntei.
– É ansiedade – respondeu o Dr. Carmichael. – Houve assim algum
acontecimento stressante nos últimos tempos? Alguma coisa fora co
comum?
Pensei em Grace. «Namorávamos quando aquilo aconteceu», dissera ela.
– Vou-me casar – disse. – Em setembro. Em Vineyard.
– Lá está – concluiu o Dr. Carmichael, com uma risada. – Um caso típico
de nervosismo pré-nupcial.
Receitou-me Xanax; tomava-os como se fossem rebuçados, para ao
menos conseguir dormir descansado.
E agora ali estava Grace de novo, sentada na sala de estar, como se fizesse parte da família. Era irritante, no mínimo. Que raio fazia ela ali?
Teddy ainda não teria acabado com a porcaria do seu joguinho ridículo?
– Chama-se Duas Verdades e Uma Mentira – dizia Eugenia ao grupo. – É
um pequeno jogo que gostamos de jogar.
– Eu quero ser a primeira – declarou Olivia, encarrapitando-se numa
cadeira junto à lareira.
– Primeiro, temos de explicar as regras do jogo – fez notar Eugenia.
Acomodou-se no seu cadeirão com um copo de vinho tinto. – E a Grace
devia ser a primeira, uma vez que é nossa convidada.
Olivia encostou-se ao espaldar da cadeira e suspirou.
– Não é justo. Como não sabemos praticamente nada acerca dela, a Grace
tem uma enorme vantagem sobre nós.
– Temos mesmo de jogar a isso? – resmungou Teddy. – Não podemos ser
normais e jogar às cartas ou assim?
– Dizes isso, porque perdes sempre – alegou Olivia. – Ele não tem jeito
nenhum – informou ela, dirigindo-se a Grace.
– Bem, tendo em conta que neste jogo campeiam os mentirosos
patológicos, encaro isso como um elogio – replicou Teddy. – Não é de
admirar que sejas uma verdadeira campeã.
Olivia mostrou-lhe a língua.
Olivia e Teddy brigavam sempre que se jogava ao Duas Verdades e Uma
Mentira. Da última vez, o jogo terminara com Olivia a lançar um copo de
vinho à cara de Teddy: o copo todo, não apenas o vinho.
– Cada pessoa faz três afirmações; duas delas verdadeiras e uma falsa –
explicou Eugenia a Grace e a Porter. Margot já tinha tido o prazer de jogar
connosco. – Cabe aos restantes descobrir qual das afirmações é a mentira.
– E podemos fazer perguntas para tentar adivinhar – acrescentou Olivia. –
E tu podes mentir à vontade para nos enganares.
– Se não acertarmos, a Grace continua em jogo – disse Eugenia. – Se
acertarmos, fica eliminada. O vencedor é a última pessoa em jogo,
obviamente.
– E o vencedor tem direito a um prémio – prosseguiu Olivia. – É sempre
uma coisa que vale a pena. Qual é o prémio desta vez, Eugenia?
– O prémio é o meu relógio – afirmou Eugenia.
Desapertou a bracelete de ouro branco do pulso e exibiu o relógio para
que todos o vissem. Era um Rolex com o mostrador cravejado de diamantes.
– Oh, deixe-me ver – pediu Olivia, estendendo o braço para alcançar o
relógio. – É lindíssimo.
– Ora bem, Grace, pode dar o pontapé de saída – desafiou Eugenia.
– Okay, três coisas – disse Grace, segurando o pé alto do seu copo vinho.
– Não tens de jogar se não quiseres – alertou Teddy.
– Sim, tem de jogar – contradisse Olivia. – Porque não haveria de ter de
jogar?
– Tudo bem – disse Grace, pousando a mão sobre o joelho de Teddy.
Mordeu o lábio, absorta em pensamentos. – A primeira coisa é que
costumava praticar natação no liceu e ganhei um título de campeã estadual –
começou ela, ao fim de um momento. – A segunda coisa é: nunca terminei a
faculdade. E a terceira: tenho quatro irmãos.
– Que estilo nadavas? – quis saber Margot.
– Bruços, ou de peito – respondeu Grace.
– Curioso – comentou Olivia. – O Teddy também adorava peitos quando
andava no liceu.
– Cala a boca, Liv – ripostou Teddy.
Margot inclinou a cabeça para o lado e olhou fixamente para Grace.
Rodava o anel de noivado, como era seu costume quando pensava.
– É possível que seja verdade – disse. – A Grace não é alta, mas parece
ter de facto uma constituição de nadadora.
– Sim, não tem peito – acrescentou Olivia.
– Mas que te deu, Olivia? – reclamou Teddy.
As faces de Grace ruborizaram-se.
– Como se chamam os teus irmãos? – perguntei eu.
Grace virou-se para mim. Demorou uns segundos a responder.
– Lonnie, Will, Phillip e Hank – enumerou ela.
– Caramba! – exclamou Olivia. – Os teus pais são católicos ou assim?
Não acreditam no planeamento familiar?
– Mãe, não pode tipo amordaçá-la ou açaimá-la? – reclamou Teddy. Era o
único que podia tratar Eugenia por «mãe».
– Olivia, tenta ser educada – ralhou Eugenia.
– Conte-nos qualquer coisa acerca de cada um dos seus irmãos – pediu o
meu pai.
– Bem, o Lonnie é o mais novo – revelou Grace. – É o bobo da família,
digamos assim. O Will é o do meio. Sempre foi o mais corajoso, o aventureiro. O Phillip é o cérebro da família. Está a estudar Direito. E o
Hank é o mais velho… É assim uma espécie de brutamontes, mas tem um
coração de ouro.
– Qual é o teu preferido? – inquiriu Olivia.
– Amo todos os meus irmãos – afirmou Grace. – Mas acho que sou mais
chegada ao Hank.
– Porque não terminaste a faculdade? – indagou Porter.
Grace encolheu os ombros.
– Por muitas razões – disse ela. – Senti que não tinha uma ideia definida
do que queria fazer. E julgo que não é uma sala de aulas, nem tão-pouco um
grau universitário, que nos ensina o que precisamos verdadeiramente de
saber na vida. Penso que o que queria não era estar metida numa sala de
aulas, mas viver a vida.
– Que razões tão ridículas – comentou Olivia.
– Okay, acabou o jogo – decretou Teddy, batendo palmas. – Quem quer
jogar às cartas?
– Que foi? – queixou-se Olivia. – Se alguém dá uma resposta estúpida,
tenho o direito de o dizer. Faz parte do jogo.
– A Olivia tem razão, Teddy – corroborou o meu pai. – Não sejas tão
sensível.
As pontas das orelhas de Teddy enrubesceram-se e ele olhou fixamente
para a mesa do café.
– Diga-me lá de novo os nomes dos seus irmãos? – perguntou o meu pai a
Grace.
Grace tardou em responder.
– Lonnie, Will, Hank e Patrick – disse, por fim.
– Antes tinha dito Phillip, minha querida – fez notar o meu pai. – Não
Patrick.
Grace arregalou ligeiramente os olhos e esboçou um sorriso.
– Disse?
– Quem é que vota que a mentira é essa? – indagou Olivia ao resto dos
presentes. – A Grace não tem quatro irmãos.
Todos levantámos a mão, à exceção de Teddy.
– Sim, acertaram – confessou Grace. – A mentira era essa. Assim sendo,
fico de fora.
– Da próxima vez, não desistas tão facilmente – recomendou Olivia, claramente irritada. – Podias ter tentado convencer-nos de que o meu pai já
não se lembrava bem do que ouvira.
– É pouco provável que conseguisse – alegou o nosso pai. – Tenho
memória de elefante.
– Agora é a minha vez – disse Olivia, sentando-me muito direita na
cadeira, como um pavão emproado.
Grace ficou praticamente em silêncio durante o resto do jogo; ao lado
dela, Teddy fervia de cólera. Chegada a vez dele de jogar, as suas três
afirmações foram: «A minha irmã Olivia é uma parvalhona; odeio a minha
irmã Olivia; e não espero que a Olivia tenha uma morte horrível e
dolorosa.» No final, o meu pai ganhou o jogo, arrebanhou o relógio das
mãos de Olivia e devolveu-o à minha mãe.
*
No final dessa noite, deambulei pelo corredor abaixo até ao quarto de
Teddy. Acomodei-me no cadeirão ao lado da sua cama e fiquei a vê-lo
desfazer a mala.
Teddy não acusou a minha presença, por isso, peguei na pequena bola de
borracha antisstress que estava em cima da sua mesa de cabeceira e lancei-a
ao ar, apanhei-a e lancei-a novamente ao ar.
– Que foi? – perguntou Teddy finalmente, quando já não podia mais
ignorar-me.
– Nada. Achei apenas surpreendente a tua escolha de convidada, nada
mais – respondi, e pousei a bola. – Estás mesmo a demorar este tempo todo
a levá-la para a cama?
Teddy parou de desdobrar as camisas. Retesou-se e as suas orelhas
tornaram a adquirir o mesmo tom de vermelho.
– Já não é a mesma coisa – explicou Teddy, mas sem olhar para mim. –
Não que isso te diga respeito.
– Então, é o quê? Estás apaixonado por ela?
– E se estivesse, era assim tão mau?
– Teddy, que escolha tão fraca – respondi. – É demasiado… mediana.
Teddy deu uma gargalhada sombria.
– Mediana. Dizes isso como se fosse a pior coisa que uma pessoa pudesse
ser. E estás enganado. Não a conheces como eu.
– Olha – respondi, e levantei-me e pousei a mão no ombro do meu irmão.
– Talvez aches que estou a ser injusto, mas estou apenas a olhar por ti.
Podes ser muitas coisas e ser bem-sucedido nesta família. Sê estúpido, sê
rebelde, sê frívolo, sê presunçoso. Mas não podes ser mediano. E a Grace é
mediana. Não sobreviverá a esta família. Portanto, faz um favor a toda a
gente, leva-a para a cama e acaba com isso.
Aconteceu num piscar de olhos: um momento estava ali de pé, com a mão
no ombro do meu irmão, e, no momento seguinte, ele agarrou-me pelo
colarinho da camisa e encostou-me com força à parede. Estava vermelho de
raiva, ofegante e fulminava-me com o olhar.
Ri-me.
– Cuidado, Teddy – disse. – Tens os sentimentos à mostra.
*
Eugenia tinha finalmente aceitado que eu ia casar com Margot. Penso que o
que a ajudou a ultrapassar a contrariedade foi o facto de adorar planear um
evento em que os Calloways seriam a atração principal. A organização do
casamento concedeu à minha mãe mais em que pensar do que o seu
desagrado em relação à noiva.
Na manhã seguinte, quando desci para o pequeno-almoço, encontrei a
minha mãe e Margot à mesa, lado a lado. À frente delas, estava uma coleção
de amostras de tecido.
– Que estão as minhas duas mulheres preferidas a fazer? – perguntei.
– Ei! – exclamou Olivia, ofendida. Estava sentada na outra extremidade
da mesa, com uma revista de moda e um copo de sumo de laranja à frente.
Ignorei-a.
– Estamos a escolher a paleta de cores para o casamento – respondeu
Margot muito bem-disposta.
– Posso ver? – perguntei, estendendo o braço na direção de uma das tiras
de tecido que estavam em cima da mesa.
A minha mãe deu-me uma palmada na mão.
– És homem; não tens direito a opinião – disse ela.
– Porque não? – quis saber.
– Porque és daltónico.
– Não sou nada daltónico! – afirmei.
A minha mãe suspirou e segurou dois pedaços de tecido branco.
– De que cor são? – perguntou ela.
– Brancos – respondi.
– Lá está – concluiu ela. Apontou para a amostra da esquerda. – Este é
branco creme. Tem uma base mais amarela. – Apontou depois para o tecido
da direita. – E este é branco lunar. Tem uma base azul. Sinceramente, são
diferentes como a noite e o dia.
Semicerrei os olhos para os observar melhor.
– A mim parecem-me iguais – disse.
– Precisamente – teimou a minha mãe, e abanou a cabeça. – Daltónico.
– Pronto – respondi, admitindo que ela tinha razão. Peguei no jarro do
café e servi-me de uma chávena. – Nesse caso, vou-me já embora e não vos
maço mais.
Margot e a minha mãe ignoraram-me; estavam já ocupadas a decidir a cor
das toalhas de mesa. Foi então que olhei pela janela e os vi: Teddy e Grace,
no relvado da frente. Estavam a brincar na neve. Grace tinha um casaco
curto creme-pálido, um gorro de lã que lhe cobria as orelhas e a ponta do
nariz vermelha do frio. Teddy empurrava-a contra a neve. Ela ria-se. Tinha
um ar ridículo, deitada de costas com as raquetes de neve nos pés a apontar
para o céu. Puxou a perna de Teddy e ele caiu ao lado dela.
Grace começou a mexer os braços e as pernas para um lado e para o
outro, desenhando um anjo. Mais parecia a porcaria de um postal da
Hallmark.
Então, Teddy inclinou-se na direção dela, prendeu-lhe uma madeixa de
cabelo atrás da orelha e beijou-a. Senti um aperto no coração e desviei o
olhar.