Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 29 de 44

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Magníficos Estranhos

Vinte e oito GRACE CALLOWAY

Vinte e oito

 

GRACE CALLOWAY

 

JUNHO DE 2007

 

– Olh’ó passarinho!

O flash disparou e Charlotte segurou a máquina digital com todo o

cuidado e olhou para o pequeno ecrã para ver a fotografia que acabara de

tirar à irmã, sentada ao seu lado no banco traseiro.

– Porque é que as pessoas dizem «Olh’ó passarinho»? – perguntou

Charlotte.

– Porque isso faz as pessoas rir – respondi, olhando para ela pelo espelho

retrovisor.

No banco do condutor, ao meu lado, Alistair falava para o seu auscultador

Bluetooth. Tínhamos deixado a cidade ao início da tarde para escaparmos ao

trânsito costumeiro de fim de semana. O verão chegara oficialmente e a

maior parte das pessoas que nós conhecíamos dirigia-se aos Hamptons, mas

nós rumávamos a norte, à nossa casa no lago Langely.

– Porque é que as pessoas têm sempre de rir nas fotografias? – perguntou

Charlotte.

Inclinei-me para tirar o bálsamo para os lábios que tinha na mala, aos

meus pés.

– Porque as fotografias servem para captar um momento que queremos

recordar mais tarde. Quando olhas para uma fotografia, não preferes ver-te a

ti mesma ou às outras pessoas a sorrir e felizes? – indaguei.

– Tu tens um ar tão palerma, Sera – disse Charlotte, e inclinou-se para o

lado para mostrar a fotografia à irmã.

– Não chames palerma à tua irmã, Charlotte – repreendi, e usei de novo o

retrovisor para olhar para ela.

Charlotte era muito parecida comigo. Há umas semanas, a minha mãe

tinha-me mostrado umas fotografias minhas quando tinha a idade dela e as

semelhanças chegavam a ser inquietantes. O mesmo cabelo ondulado e

castanho-escuro, os olhos cinzentos e afastados, a curva das maçãs do rosto.

Parecia-se comigo, mas saía muito mais a Alistair. Era dura e obstinada e

dona de uma confiança e de uma compostura que pareciam sobrenaturais.

Olhando para a minha filha, no banco traseiro, dei por mim a interrogar-

me se, em termos de carácter, seríamos parecidas.

Seraphina agarrou na alça da máquina, arrebatou-a da mão de Charlotte e

a máquina foi projetada contra a porta.

– Ei! – reclamou Charlotte. De testa franzida, recuperou a máquina. –

Porque fizeste isso?

Charlotte mexeu na máquina durante um momento e depois olhou para

mim.

– A Sera estragou-a – choramingou.

Virei-me no banco e pedi-lhe que me desse a máquina para que pudesse

examiná-la. O corpo da máquina e o ecrã pareciam bem, mas já não se

ligava.

– Terei de mandar arranjá-la quando voltarmos para a cidade – disse.

– Então e o meu projeto para a aula de Arte? – reclamou Charlotte. –

Tenho de tirar fotografias este fim de semana.

Charlotte estava a tirar um curso de arte de uma semana, na escola.

– Acho que temos uma máquina antiga em casa. Usas essa – respondi. –

Depois de chegarmos, vamos à procura dela.

– Diz-me lá esses números outra vez – disse Alistair, ao volante. – Espera

um pouco.

Carregou num botão do auscultador para cortar o som e olhou para mim:

a primeira vez que o fazia desde que tínhamos saída da cidade.

– Grace, importavas-te de manter a conversa num volume razoável? O

telefonema é importante.

Não esperou pela minha resposta para concentrar de novo a sua atenção

na estrada e levar a mão ao auscultador.

– Peço desculpa, Fred – continuou Alistair. – Tenho as miúdas no carro.

Riu de qualquer coisa que Fred disse e eu não ouvi.

Fiz uma careta às escondidas de Charlotte e de Seraphina e sorri para elas

depois de levar o dedo indicador aos lábios a pedir que não fizessem barulho.

Virei-me novamente para a frente e suspirei lentamente.

Olhei de relance para o meu marido e pensei nas saudades que tinha

daquele estremecimento que sentimos quando não conhecemos todas as

facetas de uma pessoa, o quanto isso é atrativo. Quando não dormimos ao

lado dessa pessoa todas as noites, ou partilhamos com ela uma casa de

banho, ou limpamos o seu vomitado. Sentia falta do mistério, de não saber o

que viria a seguir. Daquela altura em que a outra pessoa nos parece perfeita,

porque apenas conhecemos as melhores partes dela, as partes que ela quer

que vejamos.

Era um pensamento terrível, não era? Se bem que por vezes me

questionava se Alistair não sentia o mesmo. Por certo que, às vezes,

imaginava que eu era outra pessoa quando fazíamos amor. Sabia que ele

olhava para outras mulheres, jovens de pescoços longos, pele perfeita e

decotes generosos que outros homens gostavam de exibir em eventos de

beneficência. Via-o olhar para elas e via-as olhar de volta para ele. Tentava

ver o meu marido através dos olhos delas. Sabia que, para elas, ele era um

homem muito bem-parecido: alto, de olhos azuis penetrantes, testa eminente

e cabelo louro-claro. Era mais do que isso, contudo; era a postura de

Alistair, altiva, como se o mundo fosse dele, como se não lhe importasse

minimamente o que as pessoas pensavam dele. Nesses momentos, olhava às

vezes para o meu marido, o mesmo homem ao lado do qual vivia, e, por um

breve instante, conseguia vê-lo, vê-lo de verdade. A questão era

precisamente essa. Não é aquilo para o que olhamos, é o que vemos. E

quando passamos tempo suficiente com alguém, deixamos de nos ver por

quem somos.

Estar com a mesma pessoa há dez anos era como ouvir a nossa música

preferida demasiadas vezes no rádio. Sabemos a letra de trás para a frente,

mas a música já não nos transmite os mesmos sentimentos que costumava

transmitir, e que nos fizeram gostar dela; e é estranho, porque a letra é a

mesma, assim como a batida e a melodia… Nada mudou. Exceto que,

entretanto, quando a música passa, a nossa vontade é mudar de estação de

rádio.

*

 

Em casa, comecei por procurar na cozinha. Abri gavetas e armários. Sabia que tinha uma máquina fotográfica daquelas descartáveis que comprara para

o aniversário de uma das miúdas. Não tendo encontrado nada na cozinha,

avancei para o armário que havia no vestíbulo das traseiras. Charlotte

andava atrás de mim pela casa e Seraphina seguia-lhe o rasto, qual patinho

atrás da mãe, meio cambaleante, com as pontas dos pés a apontar para

dentro.

Tirei uma caixa de cartão não etiquetada da prateleira de cima e pousei-a

no chão.

– Que é isso? – perguntou Charlotte.

– Tralha, querida – respondi.

Uma pilha de cassetes de vídeo e de álbuns de fotografias. No fundo da

caixa, quase escondido, um objeto captou a minha atenção.

– Ah, sim! – exclamei.

– Que é? – quis saber Charlotte.

Mostrei-lha. Era uma máquina de fotografar preta, de trinta e cinco

milímetros.

– É uma máquina antiga – expliquei, ao mesmo tempo que verificava se

tinha rolo. Tinha. – Isto era o que o teu pai e eu usávamos para tirar

fotografias quando tínhamos a tua idade.

Verifiquei o mostrador que indicava o número de fotografias. Restavam

vinte e cinco, quase um rolo completo. Carreguei no botão para a ligar, mas

não aconteceu nada.

– Está estragada – concluiu Charlotte, desapontada.

– Não, só precisa de pilhas novas – contradisse. – Esperem aqui.

Dirigi-me para a cozinha e tirei um par de pilhas AA da gaveta. Introduzi-

as na máquina, pressionei o botão e, dessa vez, a máquina ligou-se. Corri de

volta ao vestíbulo para mostrar a Charlotte.

– Pronto, já está – disse, e entreguei-lhe a máquina. – Trata-a com

cuidado, está bem? Já não é muito nova.

– Onde está o ecrã? – perguntou Charlotte.

– Não tem – disse. – Só poderás ver as fotografias que tiraste depois de

revelarmos o rolo que ela tem lá dentro. Tens de encostar o olho ao visor

para veres aquilo que estás a fotografar.

Apontei para o visor e Charlotte encostou a máquina ao olho.

– Assim? – inquiriu ela.

– Isso mesmo.

Posicionou o indicador por cima do botão para tirar uma fotografia.

Tentei impedi-la de desperdiçá-la, mas já não fui a tempo. O flash disparou.

– Fixe! – exclamou Charlotte.

Ri-me.

– Terás de pensar bem que fotografias queres tirar – alertei. – Só tens

vinte e quatro para o fim de semana todo.

Charlotte tornou a levar a máquina à cara, mas não tirou nenhuma

fotografia. Observou um dos lados do vestíbulo através do visor e depois o

outro.

– Okay – disse.

*

 

No domingo, antes de regressarmos à cidade, passei no estúdio fotográfico

de Hillsborough para ir buscar as fotografias de Charlotte. Havia duas

pessoas a atender: um homem idoso de óculos e um rapaz que não devia ter

mais do que vinte anos e que usava as calças quase ao fundo da anca,

exibindo um palmo dos boxers quando se virava de costas. O homem mais

velho veio atender-me.

– Vim buscar um rolo que deixei a revelar esta manhã – informei, e tirei o

porta-moedas da carteira. – Ficou em nome de Grace Calloway.

O rapaz das calças a cair, ocupado a organizar rolos de filme atrás do

balcão, deixou cair uma embalagem depois de ter olhado para mim com um

ar escandalizado.

– Hum, eu posso ir buscar – disse ele ao colega mais velho. – Fui eu que

as revelei. Eu volto já.

Desapareceu na sala das traseiras e o senhor mais velho sorriu para mim.

O rapaz voltou com um envelope.

– Aqui estão elas – anunciou ele. Dirigiu-se à máquina registadora para

registar a venda. O cabelo dele era comprido e oleoso. A etiqueta na camisa

dizia que se chamava Randy.

– Se precisar de mais alguma coisa, é só dizer – realçou o senhor mais

velho, em jeito de despedida, antes de ir atender outro cliente.

– Então… hum… – disse Randy, e olhou de relance por cima do ombro

para se certificar de que o colega não iria ouvi-lo. – Normalmente, não

revelamos este tipo de fotografias. Na verdade, a nossa política é não

revelar este género de coisa. Mas sendo eu uma pessoa que acha que cada pessoa é que sabe da sua vida, posso ser persuadido a fazer de conta que não

sei de nada.

– O quê? – perguntei. O que raio queria ele dizer com «este tipo de

fotografias»?

– Tipo, com um incentivo – elucidou ele, num sussurro, e inclinando-se

na minha direção.

Olhei para ele, de testa franzida, cada vez mais perplexa.

O rapaz suspirou.

– Uma nota de vinte ou assim e ficamos quites – especificou.

– Tem a certeza de que está a falar com a pessoa certa? – inquiri. Compus

a alça da carteira sobre o ombro. – É apenas um punhado de fotografias que

a minha filha tirou. Ela tem sete anos.

Randy consultou o nome que estava rabiscado no envelope.

– Grace Calloway? – perguntou ele.

– Sim – confirmei. – Sou eu. Mas talvez o rolo tenha sido trocado ou

assim? Posso verificar, para ter a certeza?

Randy encolheu os ombros e facultou-me o envelope.

– Veja por si mesma – disse ele. – Mas é o seu rolo, sem dúvida. A

senhora aparece em algumas das fotografias.

Abri o envelope. A primeira fotografia era a que Charlotte me tirara no

vestíbulo, quando eu lhe dera a máquina. A lente apontava para cima e eu

parecia enorme, com a mão esticada para impedir a fotografia. Seguiam-se

duas dezenas de fotografias, algumas de Charlotte e Seraphina, uma de

Alistair e eu no barco, ao pôr do Sol. A imagem seguinte não fora

obviamente captada pela minha filha. Fiquei boquiaberta ao vê-la.

Retratava uma pessoa que eu conhecia bem e que não via há mais de uma

década. Era Jake. Jake Griffin.

A imagem era escura; fora captada à noite. No canto inferior direito da

imagem, a vermelho, estava a data em que a fotografia havia sido tirada:

setembro de 1990, poucos meses antes de Jake ter morrido.

Na imagem, Jake tinha o colarinho da camisa desabotoado e a gravata do

uniforme escolar de esguelha. Numa das mãos, segurava uma garrafa de

cerveja meio vazia e, com a outra, mostrava o dedo do meio à câmara.

Tinha um sorriso ébrio na cara.

Na fotografia seguinte, consegui distinguir a barriga nua e pálida de uma

rapariga estendida em cima do capô de um carro. Com a camisa puxada até ao pescoço, exibia também os seios. Por cima do estômago dela, via-se uma

linha de cocaína. A câmara tinha surpreendido Matthew York, um dos

amigos de Alistair, a inclinar-se para a frente com um dedo a tapar uma das

narinas, pronto para snifar a linha de droga.

Havia outras fotografias, e não apenas de Jake, mas de outros miúdos

também. Pessoas que reconheci, embora, entretanto, fossem mais velhas. Lá

estava Freddy Heinz, Margot, Marissa Saunders e Alistair.

Numa das fotografias, Margot estava nua e tinha o corpo todo riscado

com um marcador encarnado. Havia círculos e xis. Também havia palavras

escritas com caligrafias diferentes, como se toda a gente tivesse tido a sua

oportunidade. Gorda, megera, puta, feia, desesperada, ridícula, cabra.

Não quis ver mais. Não queria saber. As fotografias eram horríveis.

Porque tinham sequer sido tiradas? E porque haveria alguém de guardá-las?

Mas não consegui conter-me. Vi as últimas duas fotos. Lá estava Jake,

com o braço por cima de Alistair. Margot estava do outro lado, em bicos

dos pés e inclinada para dar um beijo na face de Jake. Ao lado de Alistair,

Matthew York ria de boca aberta. Estavam os quatro na beira de um

penhasco. No canto direito, a vermelho, a foto dizia «21h32, 21 de

dezembro de 1990». A data provocou-me um calafrio pelas costas abaixo.

Aquela fora a noite em que Jake morrera, pouco tempo antes da hora a que

se estimava que Jake morrera, de acordo com o relatório da autópsia. Atrás

dele, estava o Rebordo do qual ele tinha saltado. Contudo, ali estava ele,

não sozinho, mas rodeado de amigos, a sorrir de orelha a orelha. Tinha um

ar tão cheio de vida e satisfeito. Como podia aquele Jake – o que me olhava

fixamente a partir da fotografia – estar prestes a cometer suicídio, saltando

daquele penhasco?

– Que te aconteceu? – murmurei para a fotografia, esquecendo que estava

num lugar público. – Que aconteceu?

Olhei então para o rosto juvenil do meu marido. Alistair estivera lá

naquela noite. Nunca me dissera isso. Nem mesmo quando, na galeria de

arte, há vários anos, eu lhe confessara que me sentia culpada pela morte de

Jake. Por jamais ter percebido a dor por que ele estaria a passar e que o

levara a tirar a própria vida. Abrira o meu coração com ele, e ele não dissera

nada.

Não, não era bem verdade que não tivesse dito nada. Dera-me a mão,

recordei-me então. Havia sido um gesto inesperadamente íntimo e terno, e dissera que o que acontecera a Jake não tinha sido culpa minha, mas que ele

também não tinha respostas para me dar.

– Um bocado esquisitas – disse Randy.

Levantei a cabeça. Lembrei-me de onde estava. Randy olhava-me

expectantemente.

– Pois – concordei.

– Então, são suas? – indagou ele. – Devem ser. A senhora aparece em

algumas.

– Eu levo-as – declarei. Abri o porta-moedas e fiz deslizar uma nota de

vinte discretamente por cima do balcão.

Randy enfiou a nota no bolso e fez passar o código de barras do envelope.

– São dezasseis dólares e cinquenta cêntimos – disse ele, e eu entreguei-

lhe o cartão de crédito. Tentei impedir a mão de tremer.

Uma coisa sabia com toda a certeza. Se quisesse descobrir a verdade

acerca do que acontecera naquela noite, não podia perguntar a Alistair.

Teria de procurá-la por outros meios.