Magníficos Estranhos
Verdades Assombrosas
por Charlie Calloway
Desde que comecei a frequentar a Knollwood Augustus Prep que sabia que a escola era
assombrada. Falava-se em surdina de um fantasma; de um rapaz que morrera há muitos
anos, tantos que o seu nome e as circunstâncias da sua morte há muito que tinham sido
esquecidos. Ainda assim, a história do fantasma faz parte integrante da escola, tanto
quanto a velha biblioteca, o diretor Collins ou a tradição que Knollwood mantém de
enviar para a universidade alguns dos melhores e mais inteligentes alunos do país. Toda a
gente sabe que o avistamento de um fantasma é um prenúncio de má sorte e não há quem
não saiba de alguém que tenha passado pela experiência de ver um fantasma antes de uma
separação conflituosa, de um exame reprovado ou de uma carta de rejeição enviada por
uma instituição de ensino de sonho.
Ultimamente, tenho pensado muito em fantasmas, nas coisas que nos assombram e nas
histórias que contamos, porque certamente que elas revelam algo de importante acerca de
nós. Que coisas são estas que parece que não nos largam ou de que nós nos recusamos a
abrir mão? E porque é que contamos estas histórias uma e outra e outra vez? Dir-se-ia
que há qualquer coisa por trás da história em si e que é isso que pretendemos comunicar,
qualquer coisa mesmo abaixo da superfície, uma coisa importante que tem de ser
entendida.
Descobri que existiu, de facto, um rapaz que morreu em Knollwood. O nome dele era
Jake Griffin e afogou-se no rio Spalding no dia 21 de dezembro de 1990. Jake Griffin era
um aluno bolseiro, um forasteiro, e reza a história que fez batota num exame e que,
temendo ser expulso, se dirigiu ao Rebordo e saltou.
Compreendo por que razão esta história foi contada e porque é tão fácil acreditar nela,
a ponto de ainda hoje ser relatada. Jake Griffin era oriundo de uma família da classe
operária que se infiltrara nos reverenciados corredores da Knollwood Augustus Prep, e
não conseguiu suportar a pressão. Por intermédio do seu suicídio, toda a gente foi
absolvida do seu fracasso e da sua morte. Há qualquer coisa no recontar desta história,
mesmo quando é resumida aos seus mais simples pormenores – um cadáver, um fantasma,
um prenúncio de mau agouro –, que nos atrai, que não esquecemos. O espectro do
fracasso ensombra-nos a todos. É aterrorizador pensarmos em que, no fim de contas,
talvez não sejamos bons o suficiente, que quiçá nunca venhamos a sê-lo, que os demais são
capazes de ver isso em nós. Que haverá de mais horripilante do que chegarmos à
conclusão de que não passamos de fantasmas, de meras sombras do que pretendemos ou
queremos ser?
A história de Jake não se resume ao que nos foi contado. Na realidade, Jake não foi
apanhado a fazer batota num exame. Não se dirigiu ao Rebordo naquela noite movido
pelo desespero. Não saltou para o rio. Ironicamente, o que levou Jake ao Rebordo na noite
fatídica não foi a derrota, o fracasso, mas, antes, a celebração da vitória. Depois de ter
superado várias provas, ao longo de alguns meses, Jake tinha finalmente conquistado a
sua entrada no grupo mais secreto e prestigioso da escola: o clube A. E foi no auge desta
celebração que Jake sofreu uma overdose provocada por Percocet, parou de respirar e
morreu. Foi isso, pelo menos, que os amigos que estavam com ele nessa noite pensaram
que tinha acontecido. Não pediram ajuda nem chamaram uma ambulância. Na pressa de
protegerem as suas próprias reputações e futuro, lançaram o corpo de Jake para a ravina
onde corre o rio. Só mais tarde, quando o relatório da autópsia foi divulgado, é que
ficaram a saber que Jake, afinal, estava apenas inconsciente, e que eles o tinham deixado
afogar-se nas águas frias do rio. No seguimento desta descoberta, nenhum desses amigos
se apresentou para esclarecer os factos. Em vez disso, disseram mentiras que acabaram
por ser tomadas como verdades, para se protegerem a eles mesmos.
Compreendo por que razão não contamos esta história. É uma história feia,
desagradável, difícil de encarar e de engolir. Queremos desviar os olhos imediatamente,
tapar os ouvidos. O facto de alguns dos alunos mais notáveis da Knollwood Augustus Prep
– atuais ex-alunos bem-sucedidos – terem abandonado cruelmente à morte um colega não
é uma história que gostemos de contar ou de ouvir. Não projeta uma boa imagem de nós e
pode inclusivamente levar-nos a fazer a nós mesmos perguntas desconfortáveis acerca de
quem somos e do que fazemos aqui, acerca dos valores que estamos a perpetuar.
Tenho feito a mim mesma essa pergunta muitas vezes neste último ano: quem sou eu? E
quem é que quero ser? E dei-me conta de que não posso responder a tal pergunta a menos
que esteja disposta a ser honesta em relação a muitas coisas. Portanto, aqui vai. A
verdade. Toda a verdade e nada mais do que a verdade, por mais desagradável que possa
ser.
Sou membro do A. Ou sou, pelo menos, uma iniciada do clube. A minha última prova
para entrar no A envolvia a publicação de fotografias, nesta edição do Knollwood
Chronicle, que iriam deixar transparecer que um membro do corpo docente tinha um
relacionamento com um aluno. As fotografias eram uma fraude montada para castigar
um professor por ter recusado os avanços de um membro do A, por mais chocante que tal
possa soar. E tendo em conta que não vou publicá-las, imagino que já não possa vir a
pertencer ao A. Isso não me incomoda, embora, ao longo dos últimos meses, fazer parte
desse grupo ilícito tenha sido o meu principal objetivo. Eu, à semelhança de muitos de vós,
tinha os membros do A na conta de deuses. Só recentemente é que me apercebi que o que
via como coragem era, na verdade, um ego gigantesco e o que encarava como poder era
coerção e a pior espécie de intimidação.
Neste último ano, fiz muitas coisas de que não me orgulho, e muitas delas foram
realizadas na prossecução do objetivo de me tornar num membro do A. Curti com o meu
primo no banco de trás do Audi de Ren Montgomery e deixei que ela nos tirasse
fotografias que serviriam de chantagem para o caso de me rebelar; roubei a coleira de
diamantes da cadela pit bull do diretor Collins (e tenho a cicatriz que o prova); assisti em
silêncio à suspensão de Auden Stein por uma coisa que ele não fez, embora o pudesse ter
salvado, bastando para tal ter dito a verdade.
Estou farta do silêncio, porém. Estou farta de esconder as partes de mim mesma que
não quero que as outras pessoas vejam. Estou farta das mentiras e das meias verdades e
da destruição que elas provocam. Estou consciente de que, ao revelar estas coisas, irei
magoar pessoas, incluindo as que o merecem e as que não o merecem, pessoas que amo e
pessoas que odeio. Eu mesma não irei sair disto incólume. Certa vez, uma pessoa disse-me
que ninguém diz a verdade e escapa impune a isso; essa pessoa estava certa.
O meu pai, Alistair Calloway, estava no Rebordo na noite em que Jake morreu. Não
teve coragem para se desfazer do corpo de Jake, por isso, Margot Dalton (na altura Meia hora depois, estava no gabinete do diretor, sozinha, à espera que o
Whittaker) e Matthew York trataram disso. Todos mantiveram o silêncio quando se
aperceberam do papel que tinham desempenhado na morte de Jake. Há dez anos, a minha
mãe, que fora namorada de Jake, descobriu a verdade acerca dessa noite e, quando tentou
revelar essa verdade, Margot silenciou-a. Vi Margot com a minha mãe junto ao lago, na
noite em que ela desapareceu. Na semana passada, encontrei as malas da minha mãe na
cave da casa de Margot, em Southampton, e hoje dei-me conta de que o diamante amarelo
do seu anel de noivado talvez se encontre, dividido em pedras mais pequenas, nos
diamantes do mesmo tom que rodeiam o mostrador do relógio de Margot.
E aqui está toda a verdade, nua e crua. Hoje, temos todos de emergir das sombras e
permitir que a luz incida sobre os pecados que cometemos a coberto da escuridão.
*
Por baixo do artigo, estavam as fotografias de Jake Griffin e dos membros
do A, e também listei o nome de todos os Ás que eu conhecia.
Quando o meu pai terminou de ler, levantou a cabeça do jornal e, por um
silencioso minuto, olhou para mim e eu tentei vislumbrar no seu rosto um
vestígio que fosse de emoção; não entrevi nenhum. Ele olhou então para
Margot.
Dalton também olhava para a mãe. Abriu a boca para dizer qualquer coisa
e desistiu. Olhei em redor e constatei que, em determinada altura, uma
multidão de pessoas se tinha juntado no refeitório. Vi o meu professor de
Fotografia, o Sr. Andrews, junto à máquina do café. O meu tio Teddy e a
sua esposa estavam sentados três mesas depois da nossa. Vi Stevie e Yael
perto da entrada, ambas de queixo caído. Parecia que toda a gente naquele
refeitório estava de olhos fixos em Margot.
Esta empurrou a cadeira para trás e pôs-se de pé.
– Não sei que manobra tu e a tua filha estão a tentar orquestrar, Alistair –
reclamou ela. A sua voz vacilou, traindo-a. – Mas não me envolvas nela.
O meu pai esticou o braço e agarrou o pulso de Margot. Ela tentou
encolher o braço, mas o meu pai conseguiu ver-lhe os diamantes do relógio.
– Charlie, chama a polícia – pediu o meu pai, num tom calmo e firme.
Margot libertou o pulso.
– Larga-me.
Com a mão contrária, esfregou o pulso, como se estivesse magoada.
Olhou para Dalton, depois para mim e varreu com o olhar a assistência que
se reunira à nossa volta. Uma centena de testemunhas silenciosas viu
Margot fugir, impotente e receosa, na direção da porta.
*
diretor Collins chegasse. O meu pai ficara no corredor a falar com a polícia
e com o Velho Riley, que estava muito agitado.
O meu telefone vibrou e tirei-o do bolso. Há trinta minutos que não
parava de vibrar, desde que o drama no refeitório explodira; porém, com
tudo o que se passara, não tivera ainda tempo de lhe dar atenção.
Desbloqueei-o e fiquei a perceber que a novidade acerca do meu artigo
viajara depressa e chegara longe. Tinha uma dúzia de chamadas perdidas.
Três da minha irmã, em Reading. Uma de Greyson. Seis de Drew. Supus
que os seus pais teriam aligeirado as restrições do uso do telemóvel.
Abri a aplicação das mensagens e vi várias numa conversa de grupo.
DREW: Então, depois de eu sair é que a diversão começa? YAEL: A Charlie acabou de largar uma bomba em cima daqueles A-céfalos. STEVIE: Charlie, onde tás? Tás bem? Inacreditável aquilo da tua mãe! DREW: Sim, que raio é que se passa?!
YAEL: Aquela cabra doida vai presa?
STEVIE: C, atende o telefone, por favor.
DREW: Liguem-me mais tarde, meninas! Quero detalhes. A unidade parental devolveu-me
o telefone.
YAEL: Agiste bem, Charlie! Estamos aqui, se precisares de nós.
Bem, nem toda a gente me odiava.
A porta abriu-se e o diretor Collins entrou com um ar solene e severo.
– Está montado um circo lá fora – comentou ele, depois de fechar a porta
do gabinete.
Guardei o telefone no bolso e endireitei-me na cadeira. O diretor Collins
tomou o seu lugar atrás da enorme secretária de carvalho. Percebi que não
contava ser chamado àquela hora no seu dia de folga, pois não tivera tempo
de fazer a barba e penteara-se à pressa. O botão de cima da camisa estava
abotoado na casa errada, mas não tive coragem de lho dizer.
– Não vou negar que o que fizeste exigiu muita coragem – disso o diretor
Collins. – Agiste com valentia e integridade. É encorajante ver que pelo
menos alguns dos valores que vos tentamos incutir lançaram raízes.
O diretor Collins entrelaçou as mãos sobre o tampo da secretária e fez um
ar sério ao olhar para mim. Percebi assim que não me iria safar de toda
aquela situação com uma pancadinha nas costas e um elogio: «sim, senhor,
muito bem».
– Dito isto, fazer o que está certo não te exonera das más ações que
praticaste – disse ele. – Roubo. Vandalismo. Batota. Mentiras. Não posso
fechar os olhos a tanto comportamento reprovável.
– Serei expulsa? – indaguei.
O direto Collins suspirou.
– Todos os membros do A enfrentam a expulsão – informou ele. –
Contudo, tendo em conta o teu gesto, estou disposto a abrir uma exceção no
teu caso. Só falta uma semana para o final deste semestre. Vou permitir que
faças os exames e termines o semestre. Se anulares a tua inscrição para o
semestre de primavera, não colocarei uma expulsão no teu currículo
académico. Poderás começar de novo noutra escola. Estou certo de que,
com um donativo generoso, uma outra instituição poderá ser persuadida a
aceitar-te a meio do ano.
Sabia que a expulsão era uma possibilidade quando escrevera o artigo.
Ainda assim, a concretização dessa hipótese atingiu-me com força. As
portas de Knollwood, um lugar que fora a minha casa durante os últimos
dois anos e meio, fechar-se-iam para mim. Podia ter sido pior, contudo.
– Obrigada – disse.
Alguém bateu à porta.
– Deve ser o teu pai – disse o diretor Collins. – Sei que ele te quer dar
uma palavra antes de prestares depoimento à polícia. Portanto, vou deixar-
vos a sós.
O diretor saiu e o meu pai entrou e sentou-se na cadeira ao meu lado.
Ficámos em silêncio. Os meus sentimentos em relação ao meu pai eram
complexos. Uma parte de mim sentia-se culpada por ter revelado os seus
segredos de maneira tão pública no Knollwood Chronicle. Sobretudo
porque, entretanto, sabia que ele não havia participado ativamente no
homicídio da minha mãe. As coisas que ele me dissera correspondiam, em
grande medida, à verdade. Ainda assim, o meu pai não estava isento de
culpa. Tratara Jake com crueldade e não podia deixar de me interrogar se as
alegações de violência doméstica que Claire fizera em relação ao meu pai
não tinham um fundo de verdade. As últimas palavras que ouvira a minha
mãe dizer ao meu pai não deixavam de me ensombrar: Tira as mãos de
cima de mim.
– Achas que a polícia terá indícios suficientes para levar a Margot à
justiça? – perguntei, ao fim de um tempo.
– Bem, terão o teu depoimento enquanto testemunha ocular do que
sucedeu naquela noite, no lago – respondeu o meu pai. – E algumas provas
circunstanciais, como o relógio e as malas. Já é alguma coisa. A má notícias
é que quando conseguirem um mandado de busca e forem a casa da Margot
em Southampton, ela já terá tido oportunidade de fazer desaparecer as
malas.
– Isso não acontecerá – disse –, porque já não se encontram em poder
dela.
– Como assim? – inquiriu o meu pai.
– Ontem telefonei ao Greyson – expliquei. – Ele foi até Southampton e
trouxe as malas. Está visto que arrombar fechaduras não é um mistério para
ele.
Percebi que o meu pai ficou chocado, num primeiro momento; depois,
deu uma risada, que me apanhou desprevenida. Olhei de relance para ele e
vi-o esfregar o queixo, novamente sério.
– Gostava de que te tivesses aberto comigo – confessou ele. – Que
tivesses vindo falar comigo de tudo isto. E quando penso que não o fizeste,
ocorre-me que foi porque não confiavas em mim.
Fixei o olhar nas mãos. Não conseguia olhar para ele. Porque o meu pai
tinha razão. Duvidara dele. Optara por não confiar nele. Nos momentos
mais negros, acreditara que ele podia ser precisamente a pessoa que os
tabloides retratavam.
– Mas a verdade é que… Eu fiz por merecer tudo isso – admitiu ele. –
Durante anos, convenci-me de que não tinha culpa de nada. Disse a mim
mesmo que a Grace escolhera partir e fiquei zangado com ela, tão
zangado… Vejo agora que fui parcialmente responsável. Foram as minhas
ações enquanto adolescente egoísta e sem carácter que mataram o Jake;
foram a minha incapacidade, anos mais tarde, de ser honesto com a tua mãe
quando ela me questionou acerca da morte do Jake e as minhas suposições
erradas e insensibilidade e frieza com ela naquele último verão que a
fizeram não confiar em mim. Sem essas coisas, a Grace ainda aqui estaria.
Não sei se alguma vez serei capaz de me perdoar por isso… Portanto, como
poderei pedir-te que confies em mim e que me perdoes?
Olhei então para o meu pai. Não sabia o que dizer.
– Toda a minha vida, tentei proteger-vos – continuou ele. – Talvez seja
difícil de veres isso. Sei que não lidei com tudo da melhor maneira. Quando a tua mãe… desapareceu, fiquei devastado. Completamente arrasado e
zangado. Uma sombra do que costumava ser. Houve uma altura em que não
me senti capaz, ou merecedor, de ser vosso pai, e foi por isso que vos
mandei, a ti e à tua irmã, para casa dos vossos tios. Tentei manter-me longe
de vocês, crente de que estariam bem melhor sem mim.
– Eu achei que tinha sido porque estavas zangado comigo – confessei. –
Por causa do que eu tinha dito ao tio Hank. E aquela história que surgiu no
seguimento disso.
O meu pai abanou a cabeça.
– Não estava zangado contigo, Charlotte – disse ele. – Estava zangado
comigo mesmo. Quando penso na forma como me comportei com a tua mãe
naquele último verão. – A sua voz tremeu um pouco. – As coisas que fiz, as
coisas que lhe disse e que acabariam por ser as últimas palavras que ela
ouviria da minha boca…
Senti uma coisa quente deslizar-me pela face abaixo, e dei-me conta de
que estava a chorar.
– E depois, quando tudo foi revelado hoje – prosseguiu o meu pai. – O
que escreveste acerca da Margot, do Jake e do papel que eu desempenhei
naquela noite…
A voz dele desvaneceu-se e ficou em silêncio. Limitou-se a olhar para
mim, por um momento, com uma expressão que não consegui interpretar.
Reparei nos pés de galinha que tinha em redor dos olhos, mais profundos do
que me recordava que fossem. As raízes do seu cabelo, junto às têmporas,
estavam encanecidas. Pela primeira vez na vida, tomei consciência de que o
meu pai tinha um ar envelhecido. Cansado.
– Não se passa um dia em que não pense no sucedido e não deseje ter
agido de forma diferente – asseverou ele. – Há muito tempo que desejo
poder ser uma pessoa diferente, mas vez após vez, desiludi-me, fiquei
aquém. Hoje, graças a ti, pude finalmente provar a mim mesmo que posso
ser diferente.
«Prestei depoimento à polícia acerca do que aconteceu naquela noite, com
o Jake. Assumi a responsabilidade com que devia ter arcado há muito
tempo.
– Que quer isso dizer? – perguntei. Iria o meu pai ser alvo de uma ação
judicial? Iria para a prisão? – Que vai acontecer agora?
– Não sei – respondeu ele.
Queria perdoar o meu pai, mas ainda não estava preparada para o fazer.
Sabia, contudo, que esse dia iria chegar. Por isso, estiquei o braço e dei-lhe
a mão.
*
A polícia precisou de alguns dias para escavar o quintal da casa dos Daltons
em Southampton e encontrar os restos mortais da minha mãe. No final,
foram apenas desenterrados alguns vestígios: fragmentos de osso. Não sei
ao certo o que esperava que encontrassem ao cabo de tantos anos: alguma
coisa que fosse discernivelmente dela, algo que eu reconhecesse e a que me
pudesse agarrar? Quando me mostraram os fragmentos de osso, lívidos e
macios, segurei-os na palma da mão, e não senti nada a não ser a sua frieza.
Ali estava ela. Segurei-a na minha mão, tudo o que dela restava, e não a
reconheci minimamente.
No fundo, era assim mesmo que devia ser. A minha mãe desempenhava
um papel gigantesco na minha vida. Era uma parte inextricável da pessoa
que eu era e da pessoa que me viria a tornar. Pelo contrário, eu tinha
desempenhado apenas um pequeno papel na vida dela. Antes sequer do meu
nascimento, ela havia sido muitas coisas diferentes para muitas pessoas
distintas. Se a minha investigação acerca do passado da minha mãe me
ensinara alguma coisa, fora que ninguém pode compreender outra por
inteiro. Sob muitos aspetos, a minha mãe, o meu pai – as pessoas que me
eram mais chegadas, as mais importantes para mim – eram estranhos.
Magníficos estranhos.
Sepultámos a minha mãe na primavera, no jazigo da família Calloway,
em Greenwich. O meu pai comprou-lhe uma lápide de mármore rosado na
qual mandou gravar:
GRACE ELIZABETH CALLOWAY
1974–2007
Amada Esposa e Mãe
O que se estende para trás de nós
e o que se estende à nossa frente é irrelevante
quando comparado com o que há dentro de nós