Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 43 de 44

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Magníficos Estranhos

Verdades Assombrosas

 

 

por Charlie Calloway

 

Desde que comecei a frequentar a Knollwood Augustus Prep que sabia que a escola era

assombrada. Falava-se em surdina de um fantasma; de um rapaz que morrera há muitos

anos, tantos que o seu nome e as circunstâncias da sua morte há muito que tinham sido

esquecidos. Ainda assim, a história do fantasma faz parte integrante da escola, tanto

quanto a velha biblioteca, o diretor Collins ou a tradição que Knollwood mantém de

enviar para a universidade alguns dos melhores e mais inteligentes alunos do país. Toda a

gente sabe que o avistamento de um fantasma é um prenúncio de má sorte e não há quem

não saiba de alguém que tenha passado pela experiência de ver um fantasma antes de uma

separação conflituosa, de um exame reprovado ou de uma carta de rejeição enviada por

uma instituição de ensino de sonho.

Ultimamente, tenho pensado muito em fantasmas, nas coisas que nos assombram e nas

histórias que contamos, porque certamente que elas revelam algo de importante acerca de

nós. Que coisas são estas que parece que não nos largam ou de que nós nos recusamos a

abrir mão? E porque é que contamos estas histórias uma e outra e outra vez? Dir-se-ia

que há qualquer coisa por trás da história em si e que é isso que pretendemos comunicar,

qualquer coisa mesmo abaixo da superfície, uma coisa importante que tem de ser

entendida.

Descobri que existiu, de facto, um rapaz que morreu em Knollwood. O nome dele era

Jake Griffin e afogou-se no rio Spalding no dia 21 de dezembro de 1990. Jake Griffin era

um aluno bolseiro, um forasteiro, e reza a história que fez batota num exame e que,

temendo ser expulso, se dirigiu ao Rebordo e saltou.

Compreendo por que razão esta história foi contada e porque é tão fácil acreditar nela,

a ponto de ainda hoje ser relatada. Jake Griffin era oriundo de uma família da classe

operária que se infiltrara nos reverenciados corredores da Knollwood Augustus Prep, e

não conseguiu suportar a pressão. Por intermédio do seu suicídio, toda a gente foi

absolvida do seu fracasso e da sua morte. Há qualquer coisa no recontar desta história,

mesmo quando é resumida aos seus mais simples pormenores – um cadáver, um fantasma,

um prenúncio de mau agouro –, que nos atrai, que não esquecemos. O espectro do

fracasso ensombra-nos a todos. É aterrorizador pensarmos em que, no fim de contas,

talvez não sejamos bons o suficiente, que quiçá nunca venhamos a sê-lo, que os demais são

capazes de ver isso em nós. Que haverá de mais horripilante do que chegarmos à

conclusão de que não passamos de fantasmas, de meras sombras do que pretendemos ou

queremos ser?

A história de Jake não se resume ao que nos foi contado. Na realidade, Jake não foi

apanhado a fazer batota num exame. Não se dirigiu ao Rebordo naquela noite movido

pelo desespero. Não saltou para o rio. Ironicamente, o que levou Jake ao Rebordo na noite

fatídica não foi a derrota, o fracasso, mas, antes, a celebração da vitória. Depois de ter

superado várias provas, ao longo de alguns meses, Jake tinha finalmente conquistado a

sua entrada no grupo mais secreto e prestigioso da escola: o clube A. E foi no auge desta

celebração que Jake sofreu uma overdose provocada por Percocet, parou de respirar e

morreu. Foi isso, pelo menos, que os amigos que estavam com ele nessa noite pensaram

que tinha acontecido. Não pediram ajuda nem chamaram uma ambulância. Na pressa de

protegerem as suas próprias reputações e futuro, lançaram o corpo de Jake para a ravina

onde corre o rio. Só mais tarde, quando o relatório da autópsia foi divulgado, é que

ficaram a saber que Jake, afinal, estava apenas inconsciente, e que eles o tinham deixado

afogar-se nas águas frias do rio. No seguimento desta descoberta, nenhum desses amigos

se apresentou para esclarecer os factos. Em vez disso, disseram mentiras que acabaram

por ser tomadas como verdades, para se protegerem a eles mesmos.

Compreendo por que razão não contamos esta história. É uma história feia,

desagradável, difícil de encarar e de engolir. Queremos desviar os olhos imediatamente,

tapar os ouvidos. O facto de alguns dos alunos mais notáveis da Knollwood Augustus Prep

– atuais ex-alunos bem-sucedidos – terem abandonado cruelmente à morte um colega não

é uma história que gostemos de contar ou de ouvir. Não projeta uma boa imagem de nós e

pode inclusivamente levar-nos a fazer a nós mesmos perguntas desconfortáveis acerca de

quem somos e do que fazemos aqui, acerca dos valores que estamos a perpetuar.

Tenho feito a mim mesma essa pergunta muitas vezes neste último ano: quem sou eu? E

quem é que quero ser? E dei-me conta de que não posso responder a tal pergunta a menos

que esteja disposta a ser honesta em relação a muitas coisas. Portanto, aqui vai. A

verdade. Toda a verdade e nada mais do que a verdade, por mais desagradável que possa

ser.

Sou membro do A. Ou sou, pelo menos, uma iniciada do clube. A minha última prova

para entrar no A envolvia a publicação de fotografias, nesta edição do Knollwood

Chronicle, que iriam deixar transparecer que um membro do corpo docente tinha um

relacionamento com um aluno. As fotografias eram uma fraude montada para castigar

um professor por ter recusado os avanços de um membro do A, por mais chocante que tal

possa soar. E tendo em conta que não vou publicá-las, imagino que já não possa vir a

pertencer ao A. Isso não me incomoda, embora, ao longo dos últimos meses, fazer parte

desse grupo ilícito tenha sido o meu principal objetivo. Eu, à semelhança de muitos de vós,

tinha os membros do A na conta de deuses. Só recentemente é que me apercebi que o que

via como coragem era, na verdade, um ego gigantesco e o que encarava como poder era

coerção e a pior espécie de intimidação.

Neste último ano, fiz muitas coisas de que não me orgulho, e muitas delas foram

realizadas na prossecução do objetivo de me tornar num membro do A. Curti com o meu

primo no banco de trás do Audi de Ren Montgomery e deixei que ela nos tirasse

fotografias que serviriam de chantagem para o caso de me rebelar; roubei a coleira de

diamantes da cadela pit bull do diretor Collins (e tenho a cicatriz que o prova); assisti em

silêncio à suspensão de Auden Stein por uma coisa que ele não fez, embora o pudesse ter

salvado, bastando para tal ter dito a verdade.

Estou farta do silêncio, porém. Estou farta de esconder as partes de mim mesma que

não quero que as outras pessoas vejam. Estou farta das mentiras e das meias verdades e

da destruição que elas provocam. Estou consciente de que, ao revelar estas coisas, irei

magoar pessoas, incluindo as que o merecem e as que não o merecem, pessoas que amo e

pessoas que odeio. Eu mesma não irei sair disto incólume. Certa vez, uma pessoa disse-me

que ninguém diz a verdade e escapa impune a isso; essa pessoa estava certa.

O meu pai, Alistair Calloway, estava no Rebordo na noite em que Jake morreu. Não

teve coragem para se desfazer do corpo de Jake, por isso, Margot Dalton (na altura Meia hora depois, estava no gabinete do diretor, sozinha, à espera que o

Whittaker) e Matthew York trataram disso. Todos mantiveram o silêncio quando se

aperceberam do papel que tinham desempenhado na morte de Jake. Há dez anos, a minha

mãe, que fora namorada de Jake, descobriu a verdade acerca dessa noite e, quando tentou

revelar essa verdade, Margot silenciou-a. Vi Margot com a minha mãe junto ao lago, na

noite em que ela desapareceu. Na semana passada, encontrei as malas da minha mãe na

cave da casa de Margot, em Southampton, e hoje dei-me conta de que o diamante amarelo

do seu anel de noivado talvez se encontre, dividido em pedras mais pequenas, nos

diamantes do mesmo tom que rodeiam o mostrador do relógio de Margot.

E aqui está toda a verdade, nua e crua. Hoje, temos todos de emergir das sombras e

permitir que a luz incida sobre os pecados que cometemos a coberto da escuridão.

*

 

Por baixo do artigo, estavam as fotografias de Jake Griffin e dos membros

do A, e também listei o nome de todos os Ás que eu conhecia.

Quando o meu pai terminou de ler, levantou a cabeça do jornal e, por um

silencioso minuto, olhou para mim e eu tentei vislumbrar no seu rosto um

vestígio que fosse de emoção; não entrevi nenhum. Ele olhou então para

Margot.

Dalton também olhava para a mãe. Abriu a boca para dizer qualquer coisa

e desistiu. Olhei em redor e constatei que, em determinada altura, uma

multidão de pessoas se tinha juntado no refeitório. Vi o meu professor de

Fotografia, o Sr. Andrews, junto à máquina do café. O meu tio Teddy e a

sua esposa estavam sentados três mesas depois da nossa. Vi Stevie e Yael

perto da entrada, ambas de queixo caído. Parecia que toda a gente naquele

refeitório estava de olhos fixos em Margot.

Esta empurrou a cadeira para trás e pôs-se de pé.

– Não sei que manobra tu e a tua filha estão a tentar orquestrar, Alistair –

reclamou ela. A sua voz vacilou, traindo-a. – Mas não me envolvas nela.

O meu pai esticou o braço e agarrou o pulso de Margot. Ela tentou

encolher o braço, mas o meu pai conseguiu ver-lhe os diamantes do relógio.

– Charlie, chama a polícia – pediu o meu pai, num tom calmo e firme.

Margot libertou o pulso.

– Larga-me.

Com a mão contrária, esfregou o pulso, como se estivesse magoada.

Olhou para Dalton, depois para mim e varreu com o olhar a assistência que

se reunira à nossa volta. Uma centena de testemunhas silenciosas viu

Margot fugir, impotente e receosa, na direção da porta.

 

*

diretor Collins chegasse. O meu pai ficara no corredor a falar com a polícia

e com o Velho Riley, que estava muito agitado.

O meu telefone vibrou e tirei-o do bolso. Há trinta minutos que não

parava de vibrar, desde que o drama no refeitório explodira; porém, com

tudo o que se passara, não tivera ainda tempo de lhe dar atenção.

Desbloqueei-o e fiquei a perceber que a novidade acerca do meu artigo

viajara depressa e chegara longe. Tinha uma dúzia de chamadas perdidas.

Três da minha irmã, em Reading. Uma de Greyson. Seis de Drew. Supus

que os seus pais teriam aligeirado as restrições do uso do telemóvel.

Abri a aplicação das mensagens e vi várias numa conversa de grupo.

 

DREW: Então, depois de eu sair é que a diversão começa? YAEL: A Charlie acabou de largar uma bomba em cima daqueles A-céfalos. STEVIE: Charlie, onde tás? Tás bem? Inacreditável aquilo da tua mãe! DREW: Sim, que raio é que se passa?!

YAEL: Aquela cabra doida vai presa?

STEVIE: C, atende o telefone, por favor.

DREW: Liguem-me mais tarde, meninas! Quero detalhes. A unidade parental devolveu-me

o telefone.

YAEL: Agiste bem, Charlie! Estamos aqui, se precisares de nós.

 

Bem, nem toda a gente me odiava.

A porta abriu-se e o diretor Collins entrou com um ar solene e severo.

– Está montado um circo lá fora – comentou ele, depois de fechar a porta

do gabinete.

Guardei o telefone no bolso e endireitei-me na cadeira. O diretor Collins

tomou o seu lugar atrás da enorme secretária de carvalho. Percebi que não

contava ser chamado àquela hora no seu dia de folga, pois não tivera tempo

de fazer a barba e penteara-se à pressa. O botão de cima da camisa estava

abotoado na casa errada, mas não tive coragem de lho dizer.

– Não vou negar que o que fizeste exigiu muita coragem – disso o diretor

Collins. – Agiste com valentia e integridade. É encorajante ver que pelo

menos alguns dos valores que vos tentamos incutir lançaram raízes.

O diretor Collins entrelaçou as mãos sobre o tampo da secretária e fez um

ar sério ao olhar para mim. Percebi assim que não me iria safar de toda

aquela situação com uma pancadinha nas costas e um elogio: «sim, senhor,

muito bem».

– Dito isto, fazer o que está certo não te exonera das más ações que

praticaste – disse ele. – Roubo. Vandalismo. Batota. Mentiras. Não posso

fechar os olhos a tanto comportamento reprovável.

– Serei expulsa? – indaguei.

O direto Collins suspirou.

– Todos os membros do A enfrentam a expulsão – informou ele. –

Contudo, tendo em conta o teu gesto, estou disposto a abrir uma exceção no

teu caso. Só falta uma semana para o final deste semestre. Vou permitir que

faças os exames e termines o semestre. Se anulares a tua inscrição para o

semestre de primavera, não colocarei uma expulsão no teu currículo

académico. Poderás começar de novo noutra escola. Estou certo de que,

com um donativo generoso, uma outra instituição poderá ser persuadida a

aceitar-te a meio do ano.

Sabia que a expulsão era uma possibilidade quando escrevera o artigo.

Ainda assim, a concretização dessa hipótese atingiu-me com força. As

portas de Knollwood, um lugar que fora a minha casa durante os últimos

dois anos e meio, fechar-se-iam para mim. Podia ter sido pior, contudo.

– Obrigada – disse.

Alguém bateu à porta.

– Deve ser o teu pai – disse o diretor Collins. – Sei que ele te quer dar

uma palavra antes de prestares depoimento à polícia. Portanto, vou deixar-

vos a sós.

O diretor saiu e o meu pai entrou e sentou-se na cadeira ao meu lado.

Ficámos em silêncio. Os meus sentimentos em relação ao meu pai eram

complexos. Uma parte de mim sentia-se culpada por ter revelado os seus

segredos de maneira tão pública no Knollwood Chronicle. Sobretudo

porque, entretanto, sabia que ele não havia participado ativamente no

homicídio da minha mãe. As coisas que ele me dissera correspondiam, em

grande medida, à verdade. Ainda assim, o meu pai não estava isento de

culpa. Tratara Jake com crueldade e não podia deixar de me interrogar se as

alegações de violência doméstica que Claire fizera em relação ao meu pai

não tinham um fundo de verdade. As últimas palavras que ouvira a minha

mãe dizer ao meu pai não deixavam de me ensombrar: Tira as mãos de

cima de mim.

– Achas que a polícia terá indícios suficientes para levar a Margot à

justiça? – perguntei, ao fim de um tempo.

– Bem, terão o teu depoimento enquanto testemunha ocular do que

sucedeu naquela noite, no lago – respondeu o meu pai. – E algumas provas

circunstanciais, como o relógio e as malas. Já é alguma coisa. A má notícias

é que quando conseguirem um mandado de busca e forem a casa da Margot

em Southampton, ela já terá tido oportunidade de fazer desaparecer as

malas.

– Isso não acontecerá – disse –, porque já não se encontram em poder

dela.

– Como assim? – inquiriu o meu pai.

– Ontem telefonei ao Greyson – expliquei. – Ele foi até Southampton e

trouxe as malas. Está visto que arrombar fechaduras não é um mistério para

ele.

Percebi que o meu pai ficou chocado, num primeiro momento; depois,

deu uma risada, que me apanhou desprevenida. Olhei de relance para ele e

vi-o esfregar o queixo, novamente sério.

– Gostava de que te tivesses aberto comigo – confessou ele. – Que

tivesses vindo falar comigo de tudo isto. E quando penso que não o fizeste,

ocorre-me que foi porque não confiavas em mim.

Fixei o olhar nas mãos. Não conseguia olhar para ele. Porque o meu pai

tinha razão. Duvidara dele. Optara por não confiar nele. Nos momentos

mais negros, acreditara que ele podia ser precisamente a pessoa que os

tabloides retratavam.

– Mas a verdade é que… Eu fiz por merecer tudo isso – admitiu ele. –

Durante anos, convenci-me de que não tinha culpa de nada. Disse a mim

mesmo que a Grace escolhera partir e fiquei zangado com ela, tão

zangado… Vejo agora que fui parcialmente responsável. Foram as minhas

ações enquanto adolescente egoísta e sem carácter que mataram o Jake;

foram a minha incapacidade, anos mais tarde, de ser honesto com a tua mãe

quando ela me questionou acerca da morte do Jake e as minhas suposições

erradas e insensibilidade e frieza com ela naquele último verão que a

fizeram não confiar em mim. Sem essas coisas, a Grace ainda aqui estaria.

Não sei se alguma vez serei capaz de me perdoar por isso… Portanto, como

poderei pedir-te que confies em mim e que me perdoes?

Olhei então para o meu pai. Não sabia o que dizer.

– Toda a minha vida, tentei proteger-vos – continuou ele. – Talvez seja

difícil de veres isso. Sei que não lidei com tudo da melhor maneira. Quando a tua mãe… desapareceu, fiquei devastado. Completamente arrasado e

zangado. Uma sombra do que costumava ser. Houve uma altura em que não

me senti capaz, ou merecedor, de ser vosso pai, e foi por isso que vos

mandei, a ti e à tua irmã, para casa dos vossos tios. Tentei manter-me longe

de vocês, crente de que estariam bem melhor sem mim.

– Eu achei que tinha sido porque estavas zangado comigo – confessei. –

Por causa do que eu tinha dito ao tio Hank. E aquela história que surgiu no

seguimento disso.

O meu pai abanou a cabeça.

– Não estava zangado contigo, Charlotte – disse ele. – Estava zangado

comigo mesmo. Quando penso na forma como me comportei com a tua mãe

naquele último verão. – A sua voz tremeu um pouco. – As coisas que fiz, as

coisas que lhe disse e que acabariam por ser as últimas palavras que ela

ouviria da minha boca…

Senti uma coisa quente deslizar-me pela face abaixo, e dei-me conta de

que estava a chorar.

– E depois, quando tudo foi revelado hoje – prosseguiu o meu pai. – O

que escreveste acerca da Margot, do Jake e do papel que eu desempenhei

naquela noite…

A voz dele desvaneceu-se e ficou em silêncio. Limitou-se a olhar para

mim, por um momento, com uma expressão que não consegui interpretar.

Reparei nos pés de galinha que tinha em redor dos olhos, mais profundos do

que me recordava que fossem. As raízes do seu cabelo, junto às têmporas,

estavam encanecidas. Pela primeira vez na vida, tomei consciência de que o

meu pai tinha um ar envelhecido. Cansado.

– Não se passa um dia em que não pense no sucedido e não deseje ter

agido de forma diferente – asseverou ele. – Há muito tempo que desejo

poder ser uma pessoa diferente, mas vez após vez, desiludi-me, fiquei

aquém. Hoje, graças a ti, pude finalmente provar a mim mesmo que posso

ser diferente.

«Prestei depoimento à polícia acerca do que aconteceu naquela noite, com

o Jake. Assumi a responsabilidade com que devia ter arcado há muito

tempo.

– Que quer isso dizer? – perguntei. Iria o meu pai ser alvo de uma ação

judicial? Iria para a prisão? – Que vai acontecer agora?

– Não sei – respondeu ele.

Queria perdoar o meu pai, mas ainda não estava preparada para o fazer.

Sabia, contudo, que esse dia iria chegar. Por isso, estiquei o braço e dei-lhe

a mão.

*

 

A polícia precisou de alguns dias para escavar o quintal da casa dos Daltons

em Southampton e encontrar os restos mortais da minha mãe. No final,

foram apenas desenterrados alguns vestígios: fragmentos de osso. Não sei

ao certo o que esperava que encontrassem ao cabo de tantos anos: alguma

coisa que fosse discernivelmente dela, algo que eu reconhecesse e a que me

pudesse agarrar? Quando me mostraram os fragmentos de osso, lívidos e

macios, segurei-os na palma da mão, e não senti nada a não ser a sua frieza.

Ali estava ela. Segurei-a na minha mão, tudo o que dela restava, e não a

reconheci minimamente.

No fundo, era assim mesmo que devia ser. A minha mãe desempenhava

um papel gigantesco na minha vida. Era uma parte inextricável da pessoa

que eu era e da pessoa que me viria a tornar. Pelo contrário, eu tinha

desempenhado apenas um pequeno papel na vida dela. Antes sequer do meu

nascimento, ela havia sido muitas coisas diferentes para muitas pessoas

distintas. Se a minha investigação acerca do passado da minha mãe me

ensinara alguma coisa, fora que ninguém pode compreender outra por

inteiro. Sob muitos aspetos, a minha mãe, o meu pai – as pessoas que me

eram mais chegadas, as mais importantes para mim – eram estranhos.

Magníficos estranhos.

Sepultámos a minha mãe na primavera, no jazigo da família Calloway,

em Greenwich. O meu pai comprou-lhe uma lápide de mármore rosado na

qual mandou gravar:

 

GRACE ELIZABETH CALLOWAY

 

1974–2007

 

Amada Esposa e Mãe

 

O que se estende para trás de nós

e o que se estende à nossa frente é irrelevante

quando comparado com o que há dentro de nós