Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 9 de 44

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Magníficos Estranhos

Oito GRACE CALLOWAY

Oito

 

GRACE CALLOWAY

 

4 DE AGOSTO DE 2007

20h48

 

Quando cheguei à margem do lago, tinha começado a chover. Entrei na

água até à cintura. O fundo arenoso cedia sob os meus pés; afundava-me um

pouco mais a cada passo que dava. A água estava ainda morna, embora o

Sol tivesse desaparecido. Respirei fundo, enchi os pulmões de ar e

mergulhei.

No liceu, conseguia nadar cem metros de bruços em menos de um

minuto. Sempre fora uma nadadora nata; sentia uma afinidade invulgar com

a água e por isso fiquei tão chocada quando Jake, o meu namorado, se

afogou numa ravina, no norte de New Hampshire.

Quando me deram a notícia, não disse grande coisa. A morte não faz

qualquer sentido quando temos dezasseis anos. A morte também não faz

qualquer sentido quando somos mais velhos. Torna-se apenas num estranho

conhecido, numa presença à qual nos habituámos. Quando temos dezasseis

anos, porém, somos teimosos o bastante para exigir respostas. A morte é um

abismo negro para o fundo do qual gritamos. Lançamos pedras às suas

entranhas e ficamos a ouvir o eco que produzem, tentando calcular a sua

profundidade. Mas não há como saber.

Na semana seguinte, na escola, baldei-me à aula de economia, no quinto

tempo, e esgueirei-me até à piscina do liceu. Nas bancadas, despi-me até

ficar apenas em roupa interior e saltei para a parte mais funda da piscina.

Deixei-me afundar, cada vez mais. Queria saber como era, o que se sentia.

O coração martelava-me nos ouvidos. Sustive a respiração até ficar estonteada e os meus pulmões gritarem por ar. Abri os olhos e senti o ardor

provocado pelo cloro.

Agora, à tona da água, dei início às braçadas, cada vez mais velozes.

Mergulhando e emergindo a cada braçada, apontei à jangada, depois à

margem e novamente à jangada, até sentir aquela doce exaustão tomar conta

de mim. Os cortes no ombro doíam-me.

Tudo aconteceu na última volta. Quando nadava em direção à margem, a

luz do alpendre das traseiras apagou-se. Fiquei de repente às escuras. Só o

brilho ténue da Lua me iluminava o caminho, alongando-se pela superfície

da água até à orla da casa. Olhei fixamente a escuridão, esforçando-me por

perceber se havia alguma coisa, ou alguém, ali.

Não sejas palerma, admoestei-me a mim mesma. É claro que não havia

ali ninguém. Estávamos sozinhas, não havia vivalma num raio de

quilómetros. A luz do alpendre devia ter-se fundido.

Ainda assim, uma parte de mim manteve-se alerta. De súbito, ouvi um

grito agudo, um guincho. Provinha do quintal das traseiras; vi um rasgo

negro a deslocar-se junto à linha da água. Era uma coisa pesada, escura. O

meu coração disparou e afundei-me mais na água, que me pareceu de

repente mais fria. Tremendo, localizei e segui o objeto em movimento com

o olhar.

O guincho fez-se ouvir novamente, mas dessa vez reconheci-o. Era a

corrente de metal presa ao velho ulmeiro, e o objeto misterioso que seguia

atentamente com o olhar era o pneu que fazia as vezes de baloiço,

empurrado pelo vento. Ri de mim mesma. Não havia nada de ominoso à

minha espera. Era apenas a minha imaginação. Não havia nada a recear.

Olhei para o céu noturno. Chovia com mais força; a tempestade instalava-

se. Era melhor voltar para casa. Inspirei, mergulhei uma vez mais e nadei de

regresso a casa.