Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 40 de 44

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Magníficos Estranhos

Trinta e nove CHARLIE CALLOWAY

Trinta e nove

 

CHARLIE CALLOWAY

 

2017

 

Tornara-me numa daquelas pessoas acerca das quais costumava fazer

comentários desagradáveis: as pessoas que chegam horas antes do início de

um evento e ajudam a pendurar bandeirolas. A culpa era toda de Leo.

Obrigara-me a mim e a Dalton, num sábado de manhã, a ajudá-lo a montar

o leilão silencioso para a Gala de Beneficência que iria decorrer no salão de

banquetes.

– Obrigada por terem vindo – disse Leo. Entregou a cada um de nós uma

prancheta com uma lista de tarefas.

– Odeio-te – respondi.

– Não é assim tão cedo – argumentou Leo.

– Qualquer coisa antes do meio-dia, a um sábado, é cedo – expliquei.

Leo deu-me o seu latte.

– Toma, para te dar mais energia – disse ele.

Dei um gole, mas ainda estava mal-humorada e duvidava que a cafeína

me ajudasse a ficar bem-disposta. Não era bem a parte de me levantar cedo

que me estava a arruinar o humor, mas, antes, o facto de a última edição do

Knollwood Chronicle ir para as máquinas naquela noite. Assim sendo, ou

tinha de arranjar maneira de pôr as fotografias do professor Andrews e de

mim no jornal ou seria melhor preparar-me para as repercussões de não

cumprir a última tarefa de que o A me incumbira. Não só não seria membro

do A como Leo e eu teríamos de nos preparar para a humilhação pública,

caso o A decidisse, como vingança, publicar as nossas fotografias. E isso

era o mais provável, obviamente.

Não era sequer a execução do plano que me incomodava. Já tinha

pensado em tudo o que havia de fazer para que as fotografias aparecessem

no jornal. Uma parte do trabalho de sapa de Finn enquanto caloiro era levar

a flash drive com a versão final do Knollwood Chronicle da sala de redação

para a gráfica. O que significava que só tinha de intercetar Finn naquela

noite, no caminho entre a sala de redação e a gráfica, e trocar a flash drive

verdadeira por uma outra idêntica, mas que incluísse a minha própria

história e fotografias escandalosas. A minha história não só teria honras de

primeira página como seria a única notícia do Knollwood Chronicle daquela

semana. Isto se decidisse seguir em frente com aquele plano.

– Ora bem, naquelas mesas estão as impressões com as descrições e

imagens do que vai ser leiloado – explicou Leo, apontando. – Vocês só têm

de dispor tudo. Há também algumas decorações, toalhas de mesa e et

cetera, ali ao pé da Stevie, por isso, estejam à vontade para irem buscar o

que acharem necessário. Queremos que fique tudo apresentável.

– Entendido – respondeu Dalton com uma boa-disposição que não

compreendi.

– Mais uma vez, obrigado pela vossa ajuda – agradeceu Leo antes de ir

cumprimentar mais um conjunto de voluntários.

– Então… Hum… O teu pai vem à gala esta noite? – quis saber Dalton.

Pousámos as pranchetas numa mesa e lançámos mãos ao trabalho.

– Sim, costuma vir todos os anos – respondi. – Porquê?

– E ele já esqueceu o que aconteceu? – inquiriu Dalton. Tinha um ar

constrangido e coçava a cabeça.

– Referes-te a quê? – perguntei.

– Tu sabes, quando ele prometeu arrancar-me um braço, nas férias de

Ação de Graças, por causa do Jogo das Conquistas e assim?

– Ah! – Com tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo, nunca mais me

lembrara do incidente. – Não chegámos a conversar acerca disso.

– Nunca falaram do assunto?

– Falar não é muito a nossa cena – expliquei. – Imagino que continues a

não ser a pessoa preferida do meu pai, mas não te vai bater esta noite, nem

nada que se pareça, se é isso que te preocupa.

– Antes assim – respondeu Dalton. – Mas gostava muito que o teu pai não

me odiasse. Costumo sair-me muito melhor com os pais.

Preparava-me para retorquir que, assim sendo, talvez da próxima vez fosse melhor abster-se de jogos ofensivos de cariz sexual com os amigos,

quando desviei os olhos da mesa e vi Margot atrás de Dalton. Estava

impecavelmente vestida com uma parka Canada Goose e botas de inverno.

– Charlie – disse ela, em jeito de cumprimento, mas num tom frio.

Bom, era óbvio que ela estava ainda aborrecida com o fiasco de Ação de

Graças. Acenei com a cabeça, em resposta.

– Mãe, que estás a fazer aqui tão cedo? – perguntou Dalton. Virou-se e

deu um beijo na face da mãe, que o abraçou.

– Só me deixam fazer o check-in no hotel de Falls Church às três da tarde

– explicou Margot. – Por isso, ocorreu-me vir fazer-te uma surpresa e levar-

te para tomarmos o brunch.

– Ah! É que eu prometi ao Leo que ajudaria a montar o leilão. E se nos

encontrássemos num sítio qualquer daqui a uma hora ou assim?

Margot franziu o sobrolho e inclinou o pulso para ver as horas. O

mostrador branco-pérola do relógio, com diamantes redondos e amarelos

em redor, captou a minha atenção. Era o mesmo relógio que tinha admirado

quando conhecera Margot, na cidade. Sempre tinha gostado de diamantes

amarelos, em parte porque não eram uma pedra muito comum. A minha

mãe tinha um anel de noivado com um diamante amarelo-canário.

Costumava tirá-lo quando se dedicava à jardinagem ou lavava louça e

pendurá-lo num fio de ouro que usava ao pescoço. Por vezes, quando me

sentava ao colo dela, em criança, ela tirava-o do dedo e deixava-me segurá-

lo e contemplá-lo, e eu tentava pô-lo no meu dedo anelar. Admirava o

enorme diamante, em forma de esmeralda e de uma cor tão invulgar, a cor

dos narcisos e das abóboras de verão. Os diamantes no relógio de Margot

tinham exatamente o mesmo tom de amarelo.

A cor pouco habitual dos diamantes no relógio de Margot não foi a única

coisa que me chamou a atenção. Àquela curta distância, percebi que o

relógio era um Rolex Oyster Perpetual Caliber, modelo 2235. Sabia-o

porque considerara adquirir o mesmo modelo quando, no ano anterior, pelo

meu décimo sexto aniversário, decidira comprar um relógio. Mudara de

ideias, acabando por escolher um Rolex Bubbleback vintage de 1933. O

modelo que Margot tinha no pulso era recente, a Rolex tinha começado a

produzi-los no final da década de 1990. Porém, na cidade, quando lhe

perguntara onde comprara o relógio, ela afirmara que se tratava de uma

herança de família.

– Isso já vai ser tarde demais – disse Margot. – A maior parte das

cafetarias deixar de servir brunch às duas da tarde. E eu queria tanto beber

uma mimosa.

– Não tem problema – disse a Dalton, e fiz um esforço para que a minha

voz não tremesse. – Vai lá tomar o brunch com a tua mãe. Eu trato disto.

– Tens a certeza? – hesitou Dalton. – Fico a sentir-me mal.

– Isto faz-se num instante e, seja como for, o Leo já me tinha recrutado

para ajudá-lo há algum tempo – aleguei. – Era o que faltava teres de

aguentar isto também.

– Tens a certeza? – insistiu Dalton.

– Absoluta – respondi.

Ele inclinou-se e deu-me um beijo na testa e eu tentei não me encolher.

– És a maior – elogiou ele. – Vemo-nos logo à noite?

– Cá estarei – assegurei, com um sorriso que me pareceu pouco

convincente.

Depois de eles saírem, perscrutei o salão para me certificar de que

ninguém estava a olhar na minha direção e afundei-me numa cadeira.

Mas. Que. Raio?

As malas na cave eram uma coisa. Mas o relógio com os diamantes da

mesma cor invulgar do diamante no anel de noivado da minha mãe? Além

disso, o relógio de Margot não era uma peça que passara de geração em

geração. Na melhor das hipóteses, tinha uma década. O anel da minha mãe,

esse sim, era uma herança familiar, já que pertencera à minha bisavó.

Sentia a cabeça a andar à roda e uma pressão no peito. Lembrei-me do

anúncio de noivado que Greyson tinha encontrado num número antigo do

Times. Teria o anel de noivado da minha mãe pertencido em tempos a

Margot? O meu estômago revirou-se; tinha vontade de vomitar.

Controla-te, Calloway, ordenei a mim mesma. Tens de te recompor.

Agora, mais do que nunca, não podia soçobrar.

Endireitei-me e respirei fundo. Abanei a cabeça para aclarar os meus

pensamentos. Eu sou capaz. Eu sou capaz. Mas não podia fazê-lo sozinha.

Saquei do telemóvel e fui à lista de contactos. Assim que encontrei aquele

que procurava, fiz a chamada. Encostei o telefone ao ouvido, escutei o sinal

de chamada e depois aquela voz familiar atendeu.

– Ei, preciso da tua ajuda – disse.

*

 

O meu pai foi buscar-me ao quarto às sete horas em ponto e atravessámos o

campus de braço dado. Ele vestia um fato preto e uma gravata de seda sob o

sobretudo e eu exibia um vestido de noite azul-escuro, com a saia em

trapézio e o corpete enfeitado com contas, que o meu pai me trouxera da

cidade. Fora a sua assistente, Rosie, quem o escolhera. Ao pescoço, levava

o antigo fio da minha mãe, com o pendente de pechisbeque em forma de

caranguejo. Tinha a certeza de que havia sido Jake quem lho oferecera.

Segundo a página de homenagem a Jake no velho anuário do meu pai, Jake

tinha nascido no início de julho. Era, portanto, do signo caranguejo. A

minha mãe guardara o fio e o pendente ao longo de todos aqueles anos; Jake

devia ter sido muito importante para ela. Resolvera usar o fio naquela noite

como uma espécie de amuleto. Interroguei-me se o meu pai reconhecera o

colar. Se assim foi, não disse nada.

As luzes do salão de banquetes derramavam-se até ao relvado e, enquanto

subíamos os degraus de pedra, fomos parando para cumprimentar os amigos

do meu pai. Era o único evento em Knollwood em que pais e ex-alunos

eram mais numerosos do que os atuais alunos.

– Alistair, companheiro – cumprimentou Matthew York, dando um

abraço ao meu pai. Estava com a filha, Meryl. Não tinha contacto com ela,

embora Meryl fosse uma iniciada do A tal como eu. Era uma rapariga

calada e metida consigo mesma. Tinha um rosto comprido e de aspeto

severo, por isso, sempre presumira que fosse um nadinha maliciosa.

– Ultimamente, não te tenho visto lá no clube – disse Matthew York ao

meu pai. – Onde é que te tens metido?

O meu pai virou-se para lhe responder e eu dei-lhe um apertão na mão e,

mexendo apenas os lábios, disse que nos encontraríamos no salão. Ele fez

que sim com a cabeça.

– O Teddy está por aí? – ouvi Matthew York perguntar ao meu pai.

– Sim, e a Grier também veio – elucidou o meu pai. – A minha sobrinha

candidatou-se para entrar no próximo ano.

Entreguei o casaco no bengaleiro. O salão estava apinhado de mesas

preparadas para uma refeição de três pratos, de mulheres em vestido de

noite e homens de fato preto. No meio da sala, havia uma pista de dança e

era no centro dela que o diretor Collins se encontrava naquele momento a terminar o seu discurso de boas-vindas a pais e ex-alunos. A Gala de

Beneficência dos Administradores começava sempre com aquele discurso,

seguido de cocktails e do leilão silencioso. Terminava com o jantar e o

baile. Avistei o tio Teddy e a tia Grier na orla da multidão e dirigi-me a eles.

– Ena, ena, pareces uma senhora – brincou o tio Teddy.

– Charlotte, é bom ver-te – disse a tia Grier, e fez um sorriso superficial.

Respondi na mesma moeda. Desde sempre que sentira uma certa distância

entre mim e a minha tia, distância essa que jamais conseguira colmatar.

Nunca era propriamente fria, pois, afinal de contas, ela e o tio Teddy

tinham-me acolhido em casa deles, a mim e a Seraphina, criando-nos

durante dois anos na companhia dos nossos primos. Depois de ter ouvido a

entrevista dela que estava nos ficheiros do investigador privado, compreendi

por que razão ela se comportava daquela maneira comigo. Provavelmente,

também não ajudava o facto de eu ser a cara chapada da minha mãe.

A clutch da tia Grier vibrou e ela entregou o seu copo de champanhe ao

tio Teddy.

– É a babysitter – disse ela, depois de ter olhado para o ecrã. – Vou

atender lá fora. Já volto.

Passado um momento, o tio Teddy deu um gole no champanhe da minha

tia e perguntou-me:

– Conseguiste ver a papelada toda que te enviei?

Demorei uns segundos a perceber ao que ele se referia, e depois ocorreu-

me: os ficheiros que o investigador privado reunira acerca do

desaparecimento da minha mãe.

– Sim – respondi. – Obrigada.

– Encontraste as respostas que procuravas? – indagou ele.

– Sim e não. Obtive algumas respostas, mas, por outro lado, também

fiquei com mais perguntas.

O tio Teddy acenou que sim com a cabeça, mostrando que entendia.

– A propósito – disse –, o meu tio Hank comentou que vocês os dois

tiveram uma conversa muito interessante.

– Ah comentou?

– Pelo visto, o tio ameaçou-o e obrigou-o a entregar as fotografias que ele

tinha encontrado na casa do lago…

– Eu comecei por pedir com bons modos – alegou o tio Teddy. Deu mais

um gole no champanhe da minha tia. – Mas o Hank sempre foi um pouco… rude. Quando ele se recusou a entregar-mas, talvez a minha reação tenha

sido… desproporcionada.

– Porquê?

O meu tio suspirou.

– Se ouviste as entrevistas, já saberás.

– O tio e a minha mãe namoraram – referi.

– Foi mais do que isso. A Grace foi a primeira rapariga que amei de

verdade – confessou o meu tio. – Olha, quero que saibas que,

independentemente do que foi dito naquelas entrevistas, independentemente

do que algumas pessoas queiram pensar, a tua mãe não casou por dinheiro.

Isso nunca lhe interessou. Amou o teu pai, sem olhar ao dinheiro dele,

apesar da família a que pertencia.

– Acha mesmo que ela o amava? – perguntei. Costumava ter tanta certeza

acerca do afeto profundo que os meus pais nutriam um pelo outro, do laço

estreito que os unia. Depois de tudo o que descobrira nos últimos dois

meses, contudo, começara a duvidar disso.

– Acho, sim – afirmou o meu tio. – Por muito que isso me custe a admitir.

– Não acredita que ela tenha fugido, pois não? – inquiri.

O tio Teddy abanou a cabeça.

– Não, não acredito. Mas nunca tive provas sólidas do contrário. E

quando falaste daquelas fotografias… Bem, tinha mesmo de vê-las.

– Que achou delas? – quis saber.

– Nem sei – disse o meu tio. – Pareciam ser uma espécie de chantagem,

talvez, mas não consegui perceber nada, para te ser sincero.

– Eu também não – menti. Se o tio Teddy não sabia, então era porque não

tinha falado com o meu pai das fotografias ou, caso o tivesse feito, o meu

pai não lhe dissera a verdade. Não sabia bem por que razão estava a

proteger o meu pai (afinal de contas, ainda não tinha a certeza se acreditava

na história dele), mas, fosse por que fosse, estava a fazê-lo.

– Pelo visto, a Clementine convenceu a babysitter de que pode comer

açúcar processado – contou a tia Grier, regressada da rua. – Comeu metade

do pacote de marshmallows que tu tens escondido e anda a correr pela casa

como uma louca e recusa-se a ir para a cama.

– Anda daí, Grier – desafiou o tio Teddy. Encostou a palma da mão às

costas desnudas da esposa. – Vamos ver casas de férias excessivamente

caras para arrendar. Isso vai acalmar-te.

Piscou-me o olho e conduziu a minha tia na direção da mesa do leilão

silencioso, do outro lado do salão.

Alguém me abraçou, pelas costas, e eu retesei-me. Ouvi então a voz de

Dalton ao meu ouvido.

– Estás arrebatadora – disse ele.

Tive vontade de lhe recordar que a palavra «arrebatar» derivava do verbo

«rebater», que tinha o significado de «rechaçar», «repelir», o oposto do que

ele pretendia chamar-me. Mas mordi a língua.

– Hoje de manhã, quando estávamos a preparar a gala, reparei que há

muitos cantos e corredores escuros neste edifício – sussurrou ele.

Continuava abraçado a mim. – Podia mostrar-tos.

– A tua mãe veio contigo? – inquiri.

– A minha mãe? – perguntou ele, num tom desapontado.

– Sim. Quando estive a preparar o leilão, vi uma coisa que é capaz de lhe

interessar. Queria mostrar-lha.

– Não podes fazer isso depois?

Dei meia volta nos braços dele e plantei-lhe um beijo rápido e pacificador

na ponta do nariz.

– Já venho ter contigo – menti.

Encontrei Margot a deambular por entre as mesas do leilão.

– À procura de alguma coisa em especial? – indaguei.

Margot sorriu para mim. No seu vestido clássico e preto, sem ombros,

tinha um ar refinado e deslumbrante.

– As casas de férias são sempre a minha parte preferida – admitiu Margot.

Levou o copo de champanhe aos lábios e bebeu um gole. – O Oliver, o pai

do Royce, e eu gostávamos de investir numa casa em Napa. Estava a ver se

havia alguma onde pudéssemos ficar enquanto procurávamos.

– Se é de viajar que gosta, tenho uma coisa que talvez lhe interesse –

realcei.

Ela seguiu-me até à extremidade da mesa e eu apontei para um cartão que

ali tinha colocado naquela manhã. Examinei a expressão dela enquanto lia,

para avaliar a sua reação.

 

Malas Burberry Vintage em Tecido Estampado com Cornucópias,

$500

Não mataria por um magnífico conjunto de malas que farão de

si a inveja de todas as raparigas? Estas malas Burberry vintage,

em tecido estampado com cornucópias, são perfeitas para uma

escapadela. Seja o centro das atenções.

O conjunto de malas encontra-se em condições quase

perfeitas, exibindo apenas um pequeno rasgão no forro interior.

Não deixe esta pechincha escapar-lhe.

 

Margot manteve-se em silêncio por um momento e depois fez um sorriso

cúmplice.

– És uma rapariga esperta, Charlie – disse Margot, e bebeu mais um

pouco de champanhe. – E possuis uma certa força moral que eu admiro.

Deves ter herdado isso da Grace.

– Não – respondi. O meu tom era gélido. – Não fale da minha mãe como

se fosse amiga dela.

Tinha então a certeza de que a mulher loura que vira no lago naquela

noite, há dez anos, com a minha mãe, não era Claire. Era Margot. E o

abraço que me parecera entrever na altura havia sido uma coisa totalmente

diferente. Não um abraço, mas uma luta.

– Matou-a – afirmei. – Via-a naquela noite, junto ao lago. E antes da

minha mãe, houve o Jake. Também o matou.

Margot suspirou e levou de novo o copo do champanhe aos lábios.

– É uma palavra demasiado forte para o que sucedeu com o Jake – fez ela

notar. – Éramos miúdos. Eu tinha dezassete anos. O Jake tomou aqueles

comprimidos por vontade própria; ninguém o forçou a tomá-los. E se não

tivéssemos feito o que fizemos, ele provavelmente teria morrido à mesma. É

a verdade, por mais cruel que pareça. O Jake não teria chegado vivo ao

hospital. Nós não sabíamos o que estávamos a fazer, mas, no fim de contas,

até foi bom que não soubéssemos, porque o mais certo era que não

tivéssemos tido a coragem necessária para o fazer. Demos-lhe um final

rápido e indolor. O que fizemos foi misericordioso.

– Misericordioso… – escarneci.

– Ele estava inconsciente – referiu Margot. – Não sentiu nada.

– Não pode ter a certeza em relação a isso – fiz notar.

– Mas tenho – afirmou Margot. – Ajudei a pegar-lhe, no Rebordo. O

corpo dele estava tão imóvel e frio e inanimado que achámos que estava morto. E quando entrou na água, afundou-se sem mais. Num momento

estava ali e, no momento seguinte, já não estava.

– Então, admite que foi você que o lançou à ravina? – inquiri.

– Era suposto ter sido o teu pai a fazê-lo – contou Margot. – Mas revelou-

se demasiado fraco para aguentar semelhante tarefa.

– Primeiro foi o Jake – enumerei –, e depois a minha mãe descobriu a

verdade e a Margot não podia tolerar isso.

– Contei-lhe o que aconteceu naquela noite porque ela quis saber –

explicou Margot. – E era suposto o assunto terminar por ali. Mas depois, ela

foi contratar um detetive privado. Apareceu-me um dia à porta, a fazer

perguntas.

Margot abanou a cabeça, como se recordar o incidente ainda a irritasse.

– Onde é que ela está? – quis saber. – Onde é que a pôs?

Margot olhou para mim e fez um pequeno sorriso desdenhoso.

– Vou ser muito clara, Charlie, para que me compreendas bem e não

restem dúvidas – respondeu ela. – Trabalhei muito para chegar onde estou.

E jamais permitirei que alguém me tire o que consegui. Nem o Jake. Nem a

tua mãe. E nem tu. És uma rapariga inteligente, Charlie, por isso, pensa bem

nisto – recomendou ela. Ergueu um dedo. – Primeiro, houve o Jake. Não

podes construir um caso envolvendo a Grace sem abordares o que sucedeu

ao Jake. E há testemunhas do que aconteceu naquela noite, pessoas que

dirão que foi o teu pai que empurrou o Jake para a ravina e nos chantageou

para que nos mantivéssemos em silêncio. Eu jamais conseguiria pegar no

Jake sem ajuda; não podia ter agido sozinha. Mas o teu pai, sim, e todas as

testemunhas dirão que o fez, porque se uma só pessoa pode arcar tão

convenientemente com a culpa, porque haveríamos todos de assumi-la? –

Levantou outro dedo. – E depois, há a tua mãe. Imagino que penses que tens

provas. Tudo o que tens, porém, é um par de malas que podiam facilmente

ter sido colocadas na minha cave por ti ou pelo Alistair; e não esqueçamos

que estiveram ambos em minha casa há pouco tempo. Por certo que tocaste

naquelas malas. O teu ADN há de estar na cave.

Margot encolheu os ombros, como quem dizia que os meus argumentos

não tinham pés para andar.

Era inacreditável a facilidade com que ela elaborava mentiras e

manipulava os factos até a história jogar a seu favor. No final, resumir-se-ia

a isso: a melhor história. Não importava a verdade; a única coisa que importava era aquilo em que as pessoas iriam acreditar. E se acreditassem

nela?

– Sempre me espantou o crédito que os homens arranjam maneira de

conseguir – comentou Margot. – Até mesmo por coisas em que não

participaram. Nunca mexi uma palha para apontar para o Alistair, contudo,

repara no rancor com que as pessoas se lançaram a ele. Não irias querer

assistir aos danos que eu poderia infligir ao teu pai se me esforçasse por

isso.

– Um dia, todas as suas mentiras serão desmascaradas – declarei.

Margot abanou a cabeça.

– É isso mesmo que tu ainda não compreendes, Charlie. A verdade tem

um senão: ninguém quer contá-la. Nem sequer tu. Ninguém conta a verdade

nua e cura e emerge incólume.

Abri a boca para dizer qualquer coisa, para lhe lançar uma ameaça, mas

não saiu nada. É que, por mais que não quisesse acreditar no que ela dizia,

Margot tinha razão.

Veio-me então à memória o que Ren me dissera na noite em que me

tornara num dos iniciados do A: os segredos vinculam-nos mutuamente. Era

um laço que podia manter-nos juntos, da mesma maneira que podia destruir-

nos a todos.