Magníficos Estranhos
Trinta e nove CHARLIE CALLOWAY
Trinta e nove
CHARLIE CALLOWAY
2017
Tornara-me numa daquelas pessoas acerca das quais costumava fazer
comentários desagradáveis: as pessoas que chegam horas antes do início de
um evento e ajudam a pendurar bandeirolas. A culpa era toda de Leo.
Obrigara-me a mim e a Dalton, num sábado de manhã, a ajudá-lo a montar
o leilão silencioso para a Gala de Beneficência que iria decorrer no salão de
banquetes.
– Obrigada por terem vindo – disse Leo. Entregou a cada um de nós uma
prancheta com uma lista de tarefas.
– Odeio-te – respondi.
– Não é assim tão cedo – argumentou Leo.
– Qualquer coisa antes do meio-dia, a um sábado, é cedo – expliquei.
Leo deu-me o seu latte.
– Toma, para te dar mais energia – disse ele.
Dei um gole, mas ainda estava mal-humorada e duvidava que a cafeína
me ajudasse a ficar bem-disposta. Não era bem a parte de me levantar cedo
que me estava a arruinar o humor, mas, antes, o facto de a última edição do
Knollwood Chronicle ir para as máquinas naquela noite. Assim sendo, ou
tinha de arranjar maneira de pôr as fotografias do professor Andrews e de
mim no jornal ou seria melhor preparar-me para as repercussões de não
cumprir a última tarefa de que o A me incumbira. Não só não seria membro
do A como Leo e eu teríamos de nos preparar para a humilhação pública,
caso o A decidisse, como vingança, publicar as nossas fotografias. E isso
era o mais provável, obviamente.
Não era sequer a execução do plano que me incomodava. Já tinha
pensado em tudo o que havia de fazer para que as fotografias aparecessem
no jornal. Uma parte do trabalho de sapa de Finn enquanto caloiro era levar
a flash drive com a versão final do Knollwood Chronicle da sala de redação
para a gráfica. O que significava que só tinha de intercetar Finn naquela
noite, no caminho entre a sala de redação e a gráfica, e trocar a flash drive
verdadeira por uma outra idêntica, mas que incluísse a minha própria
história e fotografias escandalosas. A minha história não só teria honras de
primeira página como seria a única notícia do Knollwood Chronicle daquela
semana. Isto se decidisse seguir em frente com aquele plano.
– Ora bem, naquelas mesas estão as impressões com as descrições e
imagens do que vai ser leiloado – explicou Leo, apontando. – Vocês só têm
de dispor tudo. Há também algumas decorações, toalhas de mesa e et
cetera, ali ao pé da Stevie, por isso, estejam à vontade para irem buscar o
que acharem necessário. Queremos que fique tudo apresentável.
– Entendido – respondeu Dalton com uma boa-disposição que não
compreendi.
– Mais uma vez, obrigado pela vossa ajuda – agradeceu Leo antes de ir
cumprimentar mais um conjunto de voluntários.
– Então… Hum… O teu pai vem à gala esta noite? – quis saber Dalton.
Pousámos as pranchetas numa mesa e lançámos mãos ao trabalho.
– Sim, costuma vir todos os anos – respondi. – Porquê?
– E ele já esqueceu o que aconteceu? – inquiriu Dalton. Tinha um ar
constrangido e coçava a cabeça.
– Referes-te a quê? – perguntei.
– Tu sabes, quando ele prometeu arrancar-me um braço, nas férias de
Ação de Graças, por causa do Jogo das Conquistas e assim?
– Ah! – Com tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo, nunca mais me
lembrara do incidente. – Não chegámos a conversar acerca disso.
– Nunca falaram do assunto?
– Falar não é muito a nossa cena – expliquei. – Imagino que continues a
não ser a pessoa preferida do meu pai, mas não te vai bater esta noite, nem
nada que se pareça, se é isso que te preocupa.
– Antes assim – respondeu Dalton. – Mas gostava muito que o teu pai não
me odiasse. Costumo sair-me muito melhor com os pais.
Preparava-me para retorquir que, assim sendo, talvez da próxima vez fosse melhor abster-se de jogos ofensivos de cariz sexual com os amigos,
quando desviei os olhos da mesa e vi Margot atrás de Dalton. Estava
impecavelmente vestida com uma parka Canada Goose e botas de inverno.
– Charlie – disse ela, em jeito de cumprimento, mas num tom frio.
Bom, era óbvio que ela estava ainda aborrecida com o fiasco de Ação de
Graças. Acenei com a cabeça, em resposta.
– Mãe, que estás a fazer aqui tão cedo? – perguntou Dalton. Virou-se e
deu um beijo na face da mãe, que o abraçou.
– Só me deixam fazer o check-in no hotel de Falls Church às três da tarde
– explicou Margot. – Por isso, ocorreu-me vir fazer-te uma surpresa e levar-
te para tomarmos o brunch.
– Ah! É que eu prometi ao Leo que ajudaria a montar o leilão. E se nos
encontrássemos num sítio qualquer daqui a uma hora ou assim?
Margot franziu o sobrolho e inclinou o pulso para ver as horas. O
mostrador branco-pérola do relógio, com diamantes redondos e amarelos
em redor, captou a minha atenção. Era o mesmo relógio que tinha admirado
quando conhecera Margot, na cidade. Sempre tinha gostado de diamantes
amarelos, em parte porque não eram uma pedra muito comum. A minha
mãe tinha um anel de noivado com um diamante amarelo-canário.
Costumava tirá-lo quando se dedicava à jardinagem ou lavava louça e
pendurá-lo num fio de ouro que usava ao pescoço. Por vezes, quando me
sentava ao colo dela, em criança, ela tirava-o do dedo e deixava-me segurá-
lo e contemplá-lo, e eu tentava pô-lo no meu dedo anelar. Admirava o
enorme diamante, em forma de esmeralda e de uma cor tão invulgar, a cor
dos narcisos e das abóboras de verão. Os diamantes no relógio de Margot
tinham exatamente o mesmo tom de amarelo.
A cor pouco habitual dos diamantes no relógio de Margot não foi a única
coisa que me chamou a atenção. Àquela curta distância, percebi que o
relógio era um Rolex Oyster Perpetual Caliber, modelo 2235. Sabia-o
porque considerara adquirir o mesmo modelo quando, no ano anterior, pelo
meu décimo sexto aniversário, decidira comprar um relógio. Mudara de
ideias, acabando por escolher um Rolex Bubbleback vintage de 1933. O
modelo que Margot tinha no pulso era recente, a Rolex tinha começado a
produzi-los no final da década de 1990. Porém, na cidade, quando lhe
perguntara onde comprara o relógio, ela afirmara que se tratava de uma
herança de família.
– Isso já vai ser tarde demais – disse Margot. – A maior parte das
cafetarias deixar de servir brunch às duas da tarde. E eu queria tanto beber
uma mimosa.
– Não tem problema – disse a Dalton, e fiz um esforço para que a minha
voz não tremesse. – Vai lá tomar o brunch com a tua mãe. Eu trato disto.
– Tens a certeza? – hesitou Dalton. – Fico a sentir-me mal.
– Isto faz-se num instante e, seja como for, o Leo já me tinha recrutado
para ajudá-lo há algum tempo – aleguei. – Era o que faltava teres de
aguentar isto também.
– Tens a certeza? – insistiu Dalton.
– Absoluta – respondi.
Ele inclinou-se e deu-me um beijo na testa e eu tentei não me encolher.
– És a maior – elogiou ele. – Vemo-nos logo à noite?
– Cá estarei – assegurei, com um sorriso que me pareceu pouco
convincente.
Depois de eles saírem, perscrutei o salão para me certificar de que
ninguém estava a olhar na minha direção e afundei-me numa cadeira.
Mas. Que. Raio?
As malas na cave eram uma coisa. Mas o relógio com os diamantes da
mesma cor invulgar do diamante no anel de noivado da minha mãe? Além
disso, o relógio de Margot não era uma peça que passara de geração em
geração. Na melhor das hipóteses, tinha uma década. O anel da minha mãe,
esse sim, era uma herança familiar, já que pertencera à minha bisavó.
Sentia a cabeça a andar à roda e uma pressão no peito. Lembrei-me do
anúncio de noivado que Greyson tinha encontrado num número antigo do
Times. Teria o anel de noivado da minha mãe pertencido em tempos a
Margot? O meu estômago revirou-se; tinha vontade de vomitar.
Controla-te, Calloway, ordenei a mim mesma. Tens de te recompor.
Agora, mais do que nunca, não podia soçobrar.
Endireitei-me e respirei fundo. Abanei a cabeça para aclarar os meus
pensamentos. Eu sou capaz. Eu sou capaz. Mas não podia fazê-lo sozinha.
Saquei do telemóvel e fui à lista de contactos. Assim que encontrei aquele
que procurava, fiz a chamada. Encostei o telefone ao ouvido, escutei o sinal
de chamada e depois aquela voz familiar atendeu.
– Ei, preciso da tua ajuda – disse.
*
O meu pai foi buscar-me ao quarto às sete horas em ponto e atravessámos o
campus de braço dado. Ele vestia um fato preto e uma gravata de seda sob o
sobretudo e eu exibia um vestido de noite azul-escuro, com a saia em
trapézio e o corpete enfeitado com contas, que o meu pai me trouxera da
cidade. Fora a sua assistente, Rosie, quem o escolhera. Ao pescoço, levava
o antigo fio da minha mãe, com o pendente de pechisbeque em forma de
caranguejo. Tinha a certeza de que havia sido Jake quem lho oferecera.
Segundo a página de homenagem a Jake no velho anuário do meu pai, Jake
tinha nascido no início de julho. Era, portanto, do signo caranguejo. A
minha mãe guardara o fio e o pendente ao longo de todos aqueles anos; Jake
devia ter sido muito importante para ela. Resolvera usar o fio naquela noite
como uma espécie de amuleto. Interroguei-me se o meu pai reconhecera o
colar. Se assim foi, não disse nada.
As luzes do salão de banquetes derramavam-se até ao relvado e, enquanto
subíamos os degraus de pedra, fomos parando para cumprimentar os amigos
do meu pai. Era o único evento em Knollwood em que pais e ex-alunos
eram mais numerosos do que os atuais alunos.
– Alistair, companheiro – cumprimentou Matthew York, dando um
abraço ao meu pai. Estava com a filha, Meryl. Não tinha contacto com ela,
embora Meryl fosse uma iniciada do A tal como eu. Era uma rapariga
calada e metida consigo mesma. Tinha um rosto comprido e de aspeto
severo, por isso, sempre presumira que fosse um nadinha maliciosa.
– Ultimamente, não te tenho visto lá no clube – disse Matthew York ao
meu pai. – Onde é que te tens metido?
O meu pai virou-se para lhe responder e eu dei-lhe um apertão na mão e,
mexendo apenas os lábios, disse que nos encontraríamos no salão. Ele fez
que sim com a cabeça.
– O Teddy está por aí? – ouvi Matthew York perguntar ao meu pai.
– Sim, e a Grier também veio – elucidou o meu pai. – A minha sobrinha
candidatou-se para entrar no próximo ano.
Entreguei o casaco no bengaleiro. O salão estava apinhado de mesas
preparadas para uma refeição de três pratos, de mulheres em vestido de
noite e homens de fato preto. No meio da sala, havia uma pista de dança e
era no centro dela que o diretor Collins se encontrava naquele momento a terminar o seu discurso de boas-vindas a pais e ex-alunos. A Gala de
Beneficência dos Administradores começava sempre com aquele discurso,
seguido de cocktails e do leilão silencioso. Terminava com o jantar e o
baile. Avistei o tio Teddy e a tia Grier na orla da multidão e dirigi-me a eles.
– Ena, ena, pareces uma senhora – brincou o tio Teddy.
– Charlotte, é bom ver-te – disse a tia Grier, e fez um sorriso superficial.
Respondi na mesma moeda. Desde sempre que sentira uma certa distância
entre mim e a minha tia, distância essa que jamais conseguira colmatar.
Nunca era propriamente fria, pois, afinal de contas, ela e o tio Teddy
tinham-me acolhido em casa deles, a mim e a Seraphina, criando-nos
durante dois anos na companhia dos nossos primos. Depois de ter ouvido a
entrevista dela que estava nos ficheiros do investigador privado, compreendi
por que razão ela se comportava daquela maneira comigo. Provavelmente,
também não ajudava o facto de eu ser a cara chapada da minha mãe.
A clutch da tia Grier vibrou e ela entregou o seu copo de champanhe ao
tio Teddy.
– É a babysitter – disse ela, depois de ter olhado para o ecrã. – Vou
atender lá fora. Já volto.
Passado um momento, o tio Teddy deu um gole no champanhe da minha
tia e perguntou-me:
– Conseguiste ver a papelada toda que te enviei?
Demorei uns segundos a perceber ao que ele se referia, e depois ocorreu-
me: os ficheiros que o investigador privado reunira acerca do
desaparecimento da minha mãe.
– Sim – respondi. – Obrigada.
– Encontraste as respostas que procuravas? – indagou ele.
– Sim e não. Obtive algumas respostas, mas, por outro lado, também
fiquei com mais perguntas.
O tio Teddy acenou que sim com a cabeça, mostrando que entendia.
– A propósito – disse –, o meu tio Hank comentou que vocês os dois
tiveram uma conversa muito interessante.
– Ah comentou?
– Pelo visto, o tio ameaçou-o e obrigou-o a entregar as fotografias que ele
tinha encontrado na casa do lago…
– Eu comecei por pedir com bons modos – alegou o tio Teddy. Deu mais
um gole no champanhe da minha tia. – Mas o Hank sempre foi um pouco… rude. Quando ele se recusou a entregar-mas, talvez a minha reação tenha
sido… desproporcionada.
– Porquê?
O meu tio suspirou.
– Se ouviste as entrevistas, já saberás.
– O tio e a minha mãe namoraram – referi.
– Foi mais do que isso. A Grace foi a primeira rapariga que amei de
verdade – confessou o meu tio. – Olha, quero que saibas que,
independentemente do que foi dito naquelas entrevistas, independentemente
do que algumas pessoas queiram pensar, a tua mãe não casou por dinheiro.
Isso nunca lhe interessou. Amou o teu pai, sem olhar ao dinheiro dele,
apesar da família a que pertencia.
– Acha mesmo que ela o amava? – perguntei. Costumava ter tanta certeza
acerca do afeto profundo que os meus pais nutriam um pelo outro, do laço
estreito que os unia. Depois de tudo o que descobrira nos últimos dois
meses, contudo, começara a duvidar disso.
– Acho, sim – afirmou o meu tio. – Por muito que isso me custe a admitir.
– Não acredita que ela tenha fugido, pois não? – inquiri.
O tio Teddy abanou a cabeça.
– Não, não acredito. Mas nunca tive provas sólidas do contrário. E
quando falaste daquelas fotografias… Bem, tinha mesmo de vê-las.
– Que achou delas? – quis saber.
– Nem sei – disse o meu tio. – Pareciam ser uma espécie de chantagem,
talvez, mas não consegui perceber nada, para te ser sincero.
– Eu também não – menti. Se o tio Teddy não sabia, então era porque não
tinha falado com o meu pai das fotografias ou, caso o tivesse feito, o meu
pai não lhe dissera a verdade. Não sabia bem por que razão estava a
proteger o meu pai (afinal de contas, ainda não tinha a certeza se acreditava
na história dele), mas, fosse por que fosse, estava a fazê-lo.
– Pelo visto, a Clementine convenceu a babysitter de que pode comer
açúcar processado – contou a tia Grier, regressada da rua. – Comeu metade
do pacote de marshmallows que tu tens escondido e anda a correr pela casa
como uma louca e recusa-se a ir para a cama.
– Anda daí, Grier – desafiou o tio Teddy. Encostou a palma da mão às
costas desnudas da esposa. – Vamos ver casas de férias excessivamente
caras para arrendar. Isso vai acalmar-te.
Piscou-me o olho e conduziu a minha tia na direção da mesa do leilão
silencioso, do outro lado do salão.
Alguém me abraçou, pelas costas, e eu retesei-me. Ouvi então a voz de
Dalton ao meu ouvido.
– Estás arrebatadora – disse ele.
Tive vontade de lhe recordar que a palavra «arrebatar» derivava do verbo
«rebater», que tinha o significado de «rechaçar», «repelir», o oposto do que
ele pretendia chamar-me. Mas mordi a língua.
– Hoje de manhã, quando estávamos a preparar a gala, reparei que há
muitos cantos e corredores escuros neste edifício – sussurrou ele.
Continuava abraçado a mim. – Podia mostrar-tos.
– A tua mãe veio contigo? – inquiri.
– A minha mãe? – perguntou ele, num tom desapontado.
– Sim. Quando estive a preparar o leilão, vi uma coisa que é capaz de lhe
interessar. Queria mostrar-lha.
– Não podes fazer isso depois?
Dei meia volta nos braços dele e plantei-lhe um beijo rápido e pacificador
na ponta do nariz.
– Já venho ter contigo – menti.
Encontrei Margot a deambular por entre as mesas do leilão.
– À procura de alguma coisa em especial? – indaguei.
Margot sorriu para mim. No seu vestido clássico e preto, sem ombros,
tinha um ar refinado e deslumbrante.
– As casas de férias são sempre a minha parte preferida – admitiu Margot.
Levou o copo de champanhe aos lábios e bebeu um gole. – O Oliver, o pai
do Royce, e eu gostávamos de investir numa casa em Napa. Estava a ver se
havia alguma onde pudéssemos ficar enquanto procurávamos.
– Se é de viajar que gosta, tenho uma coisa que talvez lhe interesse –
realcei.
Ela seguiu-me até à extremidade da mesa e eu apontei para um cartão que
ali tinha colocado naquela manhã. Examinei a expressão dela enquanto lia,
para avaliar a sua reação.
Malas Burberry Vintage em Tecido Estampado com Cornucópias,
$500
Não mataria por um magnífico conjunto de malas que farão de
si a inveja de todas as raparigas? Estas malas Burberry vintage,
em tecido estampado com cornucópias, são perfeitas para uma
escapadela. Seja o centro das atenções.
O conjunto de malas encontra-se em condições quase
perfeitas, exibindo apenas um pequeno rasgão no forro interior.
Não deixe esta pechincha escapar-lhe.
Margot manteve-se em silêncio por um momento e depois fez um sorriso
cúmplice.
– És uma rapariga esperta, Charlie – disse Margot, e bebeu mais um
pouco de champanhe. – E possuis uma certa força moral que eu admiro.
Deves ter herdado isso da Grace.
– Não – respondi. O meu tom era gélido. – Não fale da minha mãe como
se fosse amiga dela.
Tinha então a certeza de que a mulher loura que vira no lago naquela
noite, há dez anos, com a minha mãe, não era Claire. Era Margot. E o
abraço que me parecera entrever na altura havia sido uma coisa totalmente
diferente. Não um abraço, mas uma luta.
– Matou-a – afirmei. – Via-a naquela noite, junto ao lago. E antes da
minha mãe, houve o Jake. Também o matou.
Margot suspirou e levou de novo o copo do champanhe aos lábios.
– É uma palavra demasiado forte para o que sucedeu com o Jake – fez ela
notar. – Éramos miúdos. Eu tinha dezassete anos. O Jake tomou aqueles
comprimidos por vontade própria; ninguém o forçou a tomá-los. E se não
tivéssemos feito o que fizemos, ele provavelmente teria morrido à mesma. É
a verdade, por mais cruel que pareça. O Jake não teria chegado vivo ao
hospital. Nós não sabíamos o que estávamos a fazer, mas, no fim de contas,
até foi bom que não soubéssemos, porque o mais certo era que não
tivéssemos tido a coragem necessária para o fazer. Demos-lhe um final
rápido e indolor. O que fizemos foi misericordioso.
– Misericordioso… – escarneci.
– Ele estava inconsciente – referiu Margot. – Não sentiu nada.
– Não pode ter a certeza em relação a isso – fiz notar.
– Mas tenho – afirmou Margot. – Ajudei a pegar-lhe, no Rebordo. O
corpo dele estava tão imóvel e frio e inanimado que achámos que estava morto. E quando entrou na água, afundou-se sem mais. Num momento
estava ali e, no momento seguinte, já não estava.
– Então, admite que foi você que o lançou à ravina? – inquiri.
– Era suposto ter sido o teu pai a fazê-lo – contou Margot. – Mas revelou-
se demasiado fraco para aguentar semelhante tarefa.
– Primeiro foi o Jake – enumerei –, e depois a minha mãe descobriu a
verdade e a Margot não podia tolerar isso.
– Contei-lhe o que aconteceu naquela noite porque ela quis saber –
explicou Margot. – E era suposto o assunto terminar por ali. Mas depois, ela
foi contratar um detetive privado. Apareceu-me um dia à porta, a fazer
perguntas.
Margot abanou a cabeça, como se recordar o incidente ainda a irritasse.
– Onde é que ela está? – quis saber. – Onde é que a pôs?
Margot olhou para mim e fez um pequeno sorriso desdenhoso.
– Vou ser muito clara, Charlie, para que me compreendas bem e não
restem dúvidas – respondeu ela. – Trabalhei muito para chegar onde estou.
E jamais permitirei que alguém me tire o que consegui. Nem o Jake. Nem a
tua mãe. E nem tu. És uma rapariga inteligente, Charlie, por isso, pensa bem
nisto – recomendou ela. Ergueu um dedo. – Primeiro, houve o Jake. Não
podes construir um caso envolvendo a Grace sem abordares o que sucedeu
ao Jake. E há testemunhas do que aconteceu naquela noite, pessoas que
dirão que foi o teu pai que empurrou o Jake para a ravina e nos chantageou
para que nos mantivéssemos em silêncio. Eu jamais conseguiria pegar no
Jake sem ajuda; não podia ter agido sozinha. Mas o teu pai, sim, e todas as
testemunhas dirão que o fez, porque se uma só pessoa pode arcar tão
convenientemente com a culpa, porque haveríamos todos de assumi-la? –
Levantou outro dedo. – E depois, há a tua mãe. Imagino que penses que tens
provas. Tudo o que tens, porém, é um par de malas que podiam facilmente
ter sido colocadas na minha cave por ti ou pelo Alistair; e não esqueçamos
que estiveram ambos em minha casa há pouco tempo. Por certo que tocaste
naquelas malas. O teu ADN há de estar na cave.
Margot encolheu os ombros, como quem dizia que os meus argumentos
não tinham pés para andar.
Era inacreditável a facilidade com que ela elaborava mentiras e
manipulava os factos até a história jogar a seu favor. No final, resumir-se-ia
a isso: a melhor história. Não importava a verdade; a única coisa que importava era aquilo em que as pessoas iriam acreditar. E se acreditassem
nela?
– Sempre me espantou o crédito que os homens arranjam maneira de
conseguir – comentou Margot. – Até mesmo por coisas em que não
participaram. Nunca mexi uma palha para apontar para o Alistair, contudo,
repara no rancor com que as pessoas se lançaram a ele. Não irias querer
assistir aos danos que eu poderia infligir ao teu pai se me esforçasse por
isso.
– Um dia, todas as suas mentiras serão desmascaradas – declarei.
Margot abanou a cabeça.
– É isso mesmo que tu ainda não compreendes, Charlie. A verdade tem
um senão: ninguém quer contá-la. Nem sequer tu. Ninguém conta a verdade
nua e cura e emerge incólume.
Abri a boca para dizer qualquer coisa, para lhe lançar uma ameaça, mas
não saiu nada. É que, por mais que não quisesse acreditar no que ela dizia,
Margot tinha razão.
Veio-me então à memória o que Ren me dissera na noite em que me
tornara num dos iniciados do A: os segredos vinculam-nos mutuamente. Era
um laço que podia manter-nos juntos, da mesma maneira que podia destruir-
nos a todos.