Magníficos Estranhos
Trinta GRACE CALLOWAY
Trinta
GRACE CALLOWAY
JUNHO DE 2007
Consultei novamente o relógio. Ela estava atrasada. Tamborilei a mesa e
olhei de novo para o menu.
Escolhera aquele lugar, porque Alistair mencionara que costumava levar
alguns clientes ali, e pareceu-me o tipo de lugar onde ela se sentiria à
vontade. A carta dos vinhos estendia-se por duas páginas e a garrafa mais
barata custava duzentos dólares. O que não antecipara era o serviço tão
atencioso. Demasiado solícito, na minha opinião. De cada vez que dava um
gole no copo de água, alguém vinha encher-me o copo, e os empregados de
mesa estavam sempre por perto. Qualquer olhar acidental ou gesto
inadvertido na direção de um deles e eis que vinham sem demora,
inquirindo se era preciso alguma coisa.
Escolhera uma mesa num dos cantos do restaurante para termos alguma
privacidade. Não queria que ninguém nos ouvisse.
Trinta minutos depois da hora marcada, levantei a cabeça e vi-a,
elegantemente vestida com uma gabardina e saltos altos e uma mala Birkin
na dobra do braço. Trazia o telemóvel na mão, mas não vinha a falar. O
cabelo louro-pálido chegava-lhe aos ombros e o corte era perfeito. Era o
tipo de pessoa cuja compostura e confiança quase ocultavam o facto de não
ser bonita.
Levantei-me para a cumprimentar, mas ela descartou o meu gesto e fez
sinal para que me sentasse.
– Muito obrigada por teres vindo, Margot – agradeci.
– A cirurgia alongou-se mais do que previa – explicou ela, em jeito de
cumprimento, antes de dedicar a sua atenção ao empregado, que aparecera de súbito ao lado dela. Ergueu o dedo indicador, pedindo-lhe que
aguardasse e examinou rapidamente a lista dos vinhos.
– Um copo de Merlot da casa – pediu ela. – Grace?
– Oh, eu fico-me pela água, obrigada – respondi.
– São dois copos do vosso Merlot, por favor – disse Margot ao
empregado, e entregou-lhe a lista. – Não me obrigues a beber sozinha –
pediu ela, num tom que não foi hostil. Despiu o casaco e pousou-o ao lado
dela, no banco corrido. – Além do mais, o vinho tinto tem antioxidantes.
Faz bem ao coração.
– Está bem – respondi, e sorri para o empregado ao mesmo tempo que lhe
estendia também a lista dos vinhos. – Obrigada.
O mais certo era que ele achasse que éramos duas velhas amigas, duas
mulheres que se encontravam frequentemente para almoçar e que se
conheciam tão bem que nem precisavam de se cumprimentar. Duas amigas
que se preocupavam com a ingestão de antioxidantes e com a saúde
cardiovascular uma da outra.
Quando o empregado nos virou as costas, olhei para Margot, que
examinava o menu. Ficara surpreendida quando, ao ligar-lhe na semana
anterior, ela concordara em encontrar-se comigo: provavelmente tanto
quanto ela ficara com o meu convite. Uma parte de mim interrogara-se se
ela iria aparecer sequer, mas o mais certo era que o telefonema a tivesse
deixado demasiado intrigada para não dar as caras.
– Como está o Oliver? – indaguei. Até certo ponto, frequentávamos os
mesmos círculos. Víamos ocasionalmente Margot e o seu marido, Oliver,
um banqueiro rico, em eventos sociais. Sabia que eles tinham um rapazinho
da idade de Charlotte. – E o teu filho?
Margot levantou os olhos do cardápio.
– Não tenho tempo para conversa mole – disse ela. – Porque não me
contas o verdadeiro motivo por que me fizeste vir até aqui?
– Está bem – aceitei. Ensaiara aquela conversa uma centena de vezes na
minha cabeça e continuava sem saber quais seriam as palavras mais
acertadas para a encetar, portanto, limitei-me a tirar as fotografias da mala e
a pousá-las em cima da mesa.
Margot olhou para elas. Franziu o sobrolho. Esticou o braço, pegou nelas
e observou-as, uma a uma.
– Onde é que arranjaste isto? – perguntou ela.
– Estavam numa máquina antiga que encontrei num armário da casa do
lago – expliquei. – Só as descobri quando mandei revelar o rolo.
O empregado de mesa veio trazer as bebidas e Margot pousou as
fotografias na mesa com o verso para cima.
– Já decidiram o que vão pedir? – indagou o empregado.
– Dê-nos só mais dois minutos, por favor – pediu Margot.
Depois de ele se ter ido embora, Margot levou o copo do vinho aos lábios
e bebeu um gole.
– Que queres? – perguntou-me.
– Algumas dessas fotografias foram tiradas na noite em que o Jake
morreu – referi eu. – A marca temporal a vermelho nessa última fotografia
indica que foi tirada por volta da hora a que o Jake terá morrido, segundo o
relatório da autópsia. E tu estavas lá. Quero saber o que aconteceu naquela
noite. O que aconteceu de verdade.
– Porque não perguntas ao Alistair? – quis saber Margot. – Também lá
estava.
– Não confio na resposta dele – disse. – Ao longo de todos estes anos,
oportunidades não lhe faltaram, mas preferiu ocultar-me o sucedido. Sei,
por isso, que se o questionar agora, ele se vai limitar a distorcer a verdade. E
é só isso que eu quero: a verdade. Preciso de saber a verdade.
– Porque é assim tão importante o que aconteceu de verdade naquela
noite? – perguntou Margot. – Não vai mudar nada. O Jake está morto. Não
voltará por causa disso.
– É importante para mim – respondi.
Margot suspirou e fez um ar ligeiramente entediado. Sabia que ela se
estava pouco marimbando para o que era importante para mim. Não tinha
sido o argumento mais inteligente para usar. Ela inclinou a cabeça e fez
deslizar o dedo do meio pelo rebordo do copo enquanto cogitava.
– Foi um acidente – declarou Margot, olhando-me nos olhos.
– Queres dizer que ele… Que ele não se suicidou?
– Isso mesmo – confirmou ela.
Fechou o cardápio e fez sinal ao empregado. Eu fiquei em silêncio.
Conseguia ouvir o coração martelar-me no peito. Sempre me culpara por
não fazer ideia do sofrimento por que Jake estaria a passar e que o levara
àquele ato de desespero. Carregara essa culpa durante quase dezassete anos:
metade da minha vida. E, afinal de contas, tudo não passara de uma mentira.
– A salada do chefe tem ovos de codorniz? – perguntou Margot ao
empregado.
A voz dela soou-me distante, abafada, de certo modo. O empregado
respondeu, mas eu nem o ouvi.
– Perfeito – disse Margot, e deixou que o empregado lhe tirasse o menu
das mãos. – O molho ao lado, por favor. – Margot olhou para mim
expetantemente. – Grace?
– Hã? – respondi.
– Não me digas que me vais obrigar a comer sozinha? Pede qualquer
coisa – comandou ela.
Não tinha fome. Não me imaginava a conseguir engolir o que quer que
fosse, porém, para lhe agradar, olhei para o menu e pedi a primeira coisa
que vi.
– Minestrone – disse, incapaz até de formar uma frase com princípio,
meio e fim.
– Com certeza – respondeu o empregado com um aceno de cabeça ao dar
meia volta.
Inclinei-me então para a frente e perguntei a Margot:
– Como assim, foi um acidente?
Margot deu mais um gole no vinho. Tinha um ar tão composto, tão calmo,
tão sereno, como se estivéssemos a falar de um par de sapatos e não da
morte de Jake.
– Fazíamos parte de um clube, lá na escola – começou ela. – Um clube
secreto, exclusivo. – Encolheu os ombros. – O Jake e eu éramos membros
recentes e tínhamos passado por uma espécie de ritual para podermos ser
admitidos. Não gosto muito de pensar nisso, para te ser franca, nas coisas
que fazíamos. Não eram coisas agradáveis ou divertidas. Seja como for,
uma noite, estávamos a comemorar num lugar fora da escola chamado o
Rebordo. Tínhamos umas bebidas alcoólicas e alguém levara uns
comprimidos. O Jake fez uma reação à mistura e teve uma paragem
respiratória.
– Parou de respirar? – perguntei.
– Como é natural, entrámos todos em pânico – prosseguiu Margot. – Não
passávamos de uns miúdos, na verdade, e estávamos todos bêbados ou
drogados, portanto, ninguém tinha cabeça para pensar racionalmente.
Sabíamos que não o podíamos levar para o hospital, ou arriscaríamos a meter-nos em sarilhos também. Seríamos expulsos ou suspensos, na melhor
das hipóteses. Não podíamos arriscar o nosso futuro; e para quê, na verdade,
se ele já estava morto?
Olhava fixamente para ela, mas nem a via. Era capaz de imaginar a cena:
uma noite fria, escura e sem estrelas. Recordava-me do frio que fizera
naquela noite, porque mal dormira, entusiasmada e ansiosa por ver Jake. E
enquanto eu me virava e revirava na cama, na casa dos meus pais em
Hillsborough, a trezentos quilómetros a norte dali, num qualquer lugar
apelidado de Rebordo, Jake dava o seu último suspiro, morrendo sozinho e
com medo, rodeado pelos seus pretensos amigos, demasiado egoístas e
estúpidos para o ajudarem.
– Ainda bem que o Alistair também lá estava – disse Margot. – Sem ele,
não sei o que teríamos feito. Mas o Alistair tem sempre um plano na manga.
Assume sempre o controlo. Foi brilhante, na verdade.
– O Alistair?
– Sim. A ideia foi dele, de fazer com que parecesse um suicídio – revelou
Margot. – Ele e outro dos rapazes mais velhos lançaram o Jake para a
ravina. O Alistair depois forjou um bilhete, e melhor não podia ter sido,
porque as autoridades da escola revistaram o quarto dele e encontraram o
exame que ele tinha roubado e que constituíra a sua última tarefa para entrar
no clube, o tal ritual de iniciação. A história escreveu-se basicamente por si
mesma: um aluno bolseiro que tem a fama de ser um aluno brilhante revela-
se uma pessoa insegura e desesperada. Sente que não está à altura, faz
batota para se manter à tona e depois alguém lhe descobre a careca e
ameaça denunciá-lo. Ele não suporta a vergonha que aquilo acarretará e, por
isso, suicida-se. Toda a gente adora um drama e uma tragédia. Toda a gente
caiu que nem um patinho. Ninguém questionou nada.
Lembrava-me de ter ouvido falar do exame roubado e questionara-me
acerca disso. Jake tinha sido sempre um aluno brilhante. Inteligente e
seguro de si mesmo. Tão diferente da imagem que aquele bilhete de suicídio
tentara invocar. Eu tinha percebido que alguma coisa não estava bem, que
algo de errado se passava. Mas depois, a minha mãe aconselhara-me a parar
de fazer perguntas, a parar de escarafunchar na ferida, para que esta pudesse
começar a sarar.
– Só mais tarde, quando o relatório da autópsia foi divulgado, é que
descobrimos que o Jake não morreu de overdose – contou Margot. – Afogou-se. Segundo a autópsia, ainda respirava quando foi empurrado do
Rebordo.
Tinham matado Jake e depois transformado a sua pessoa numa coisa que
ele não era.
– Mas se o Jake tinha essas substâncias no sangue quando morreu, elas
não teriam sido detetadas durante a autópsia? – indaguei.
– E foram – confirmou Margot. – A análise toxicológica forense detetou
vestígios de álcool, acetaminofeno e oxicodona no corpo do Jake. Estão
listados no relatório da autópsia. Mas isso não é invulgar em casos de
suicídio. Tenho a certeza de que a família do Jake tomou conhecimento dos
resultados, mas entendo que não tenha querido partilhar esse pormenor em
particular com muita gente.
Expirei sem me dar conta de que estava a suster a respiração.
– Porque é que me contaste isso tudo? – perguntei a Margot.
Ela encolheu os ombros.
– Porque sabia que a verdade te iria magoar – confessou ela. – E porque
vou adorar ver-te arrasar o teu casamento por causa disto.
– O meu casamento?
Margot deu mais um gole no vinho e fez um sorriso cruel.
– Imagina lá. De cada vez que olhares para o teu marido, todos os dias,
para o resto da vida, sempre que o beijares ou lhe servires um copo de
vinho, que te rires de uma das suas piadas ou fizeres amor com ele, saberás
que é a pessoa responsável pela morte do Jake. Se não fosse o Alistair, o
Jake ainda cá estaria. Na verdade, se não fosse o Alistair, quem sabe? Tu e o
Jake, se calhar, estariam casados hoje em dia, e a viver nos subúrbios,
rodeados de fedelhos. Até tem uma certa piada, se pensarmos nisso, o facto
de teres acabado com o tipo que tirou a vida ao Jake.
– Hão de pagar pelo que fizeram – afirmei. – Todos vocês… vão pagar…
Tinha de haver consequências e eu assegurar-me-ia disso.
– Que fizemos nós? – estranhou Margot. – Não queres dizer, que fez o
Alistair?
– Não era só ele que lá estava – realcei. – Qualquer um de vocês podia ter
feito alguma coisa. Podiam tê-lo travado. São tão culpados quanto ele.
Margot olhou para mim quase como se sentisse pena da minha pessoa.
Limpou os cantos da boca com o guardanapo e um gesto cuidadoso, para
não esborratar o batom.
– Oh, querida, não sejas tão ignorante – ripostou ela. – Que provas é que
tens para montar sequer um caso? – Apontou para as fotografias pousadas
em cima da mesa. – Uns instantâneos sem valor que nos colocam no mesmo
local onde Jake morreu na noite em que se matou? Isto não prova nada.
Sem uma confissão, que nenhum de nós fará, não tens por onde pegar. Não
somos uns miúdos de dezassete anos, receosos de sermos expulsos de um
colégio por estarmos fora da escola depois do recolher obrigatório, a beber e
a tomar drogas. Quer gostes quer não, tudo isto terminou há muitos anos.
Recolhi as fotografias e guardei-as na mala. Ela estava errada. Tinha de
estar errada. Não podiam matar Jake, reescrever a história e escapar-se
impunes como se nada fosse. Era de homicídio que se tratava, afinal de
contas. Homicídio.
Pus a alça da mala ao ombro e levantei-me com uma atitude decidida.
– Logo veremos – disse, e saí dali o mais depressa que as minhas pernas
me carregaram, quase esbarrando no empregado que nos trazia as entradas.