Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 31 de 44

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Magníficos Estranhos

Trinta GRACE CALLOWAY

Trinta

 

GRACE CALLOWAY

 

JUNHO DE 2007

 

Consultei novamente o relógio. Ela estava atrasada. Tamborilei a mesa e

olhei de novo para o menu.

Escolhera aquele lugar, porque Alistair mencionara que costumava levar

alguns clientes ali, e pareceu-me o tipo de lugar onde ela se sentiria à

vontade. A carta dos vinhos estendia-se por duas páginas e a garrafa mais

barata custava duzentos dólares. O que não antecipara era o serviço tão

atencioso. Demasiado solícito, na minha opinião. De cada vez que dava um

gole no copo de água, alguém vinha encher-me o copo, e os empregados de

mesa estavam sempre por perto. Qualquer olhar acidental ou gesto

inadvertido na direção de um deles e eis que vinham sem demora,

inquirindo se era preciso alguma coisa.

Escolhera uma mesa num dos cantos do restaurante para termos alguma

privacidade. Não queria que ninguém nos ouvisse.

Trinta minutos depois da hora marcada, levantei a cabeça e vi-a,

elegantemente vestida com uma gabardina e saltos altos e uma mala Birkin

na dobra do braço. Trazia o telemóvel na mão, mas não vinha a falar. O

cabelo louro-pálido chegava-lhe aos ombros e o corte era perfeito. Era o

tipo de pessoa cuja compostura e confiança quase ocultavam o facto de não

ser bonita.

Levantei-me para a cumprimentar, mas ela descartou o meu gesto e fez

sinal para que me sentasse.

– Muito obrigada por teres vindo, Margot – agradeci.

– A cirurgia alongou-se mais do que previa – explicou ela, em jeito de

cumprimento, antes de dedicar a sua atenção ao empregado, que aparecera de súbito ao lado dela. Ergueu o dedo indicador, pedindo-lhe que

aguardasse e examinou rapidamente a lista dos vinhos.

– Um copo de Merlot da casa – pediu ela. – Grace?

– Oh, eu fico-me pela água, obrigada – respondi.

– São dois copos do vosso Merlot, por favor – disse Margot ao

empregado, e entregou-lhe a lista. – Não me obrigues a beber sozinha –

pediu ela, num tom que não foi hostil. Despiu o casaco e pousou-o ao lado

dela, no banco corrido. – Além do mais, o vinho tinto tem antioxidantes.

Faz bem ao coração.

– Está bem – respondi, e sorri para o empregado ao mesmo tempo que lhe

estendia também a lista dos vinhos. – Obrigada.

O mais certo era que ele achasse que éramos duas velhas amigas, duas

mulheres que se encontravam frequentemente para almoçar e que se

conheciam tão bem que nem precisavam de se cumprimentar. Duas amigas

que se preocupavam com a ingestão de antioxidantes e com a saúde

cardiovascular uma da outra.

Quando o empregado nos virou as costas, olhei para Margot, que

examinava o menu. Ficara surpreendida quando, ao ligar-lhe na semana

anterior, ela concordara em encontrar-se comigo: provavelmente tanto

quanto ela ficara com o meu convite. Uma parte de mim interrogara-se se

ela iria aparecer sequer, mas o mais certo era que o telefonema a tivesse

deixado demasiado intrigada para não dar as caras.

– Como está o Oliver? – indaguei. Até certo ponto, frequentávamos os

mesmos círculos. Víamos ocasionalmente Margot e o seu marido, Oliver,

um banqueiro rico, em eventos sociais. Sabia que eles tinham um rapazinho

da idade de Charlotte. – E o teu filho?

Margot levantou os olhos do cardápio.

– Não tenho tempo para conversa mole – disse ela. – Porque não me

contas o verdadeiro motivo por que me fizeste vir até aqui?

– Está bem – aceitei. Ensaiara aquela conversa uma centena de vezes na

minha cabeça e continuava sem saber quais seriam as palavras mais

acertadas para a encetar, portanto, limitei-me a tirar as fotografias da mala e

a pousá-las em cima da mesa.

Margot olhou para elas. Franziu o sobrolho. Esticou o braço, pegou nelas

e observou-as, uma a uma.

– Onde é que arranjaste isto? – perguntou ela.

– Estavam numa máquina antiga que encontrei num armário da casa do

lago – expliquei. – Só as descobri quando mandei revelar o rolo.

O empregado de mesa veio trazer as bebidas e Margot pousou as

fotografias na mesa com o verso para cima.

– Já decidiram o que vão pedir? – indagou o empregado.

– Dê-nos só mais dois minutos, por favor – pediu Margot.

Depois de ele se ter ido embora, Margot levou o copo do vinho aos lábios

e bebeu um gole.

– Que queres? – perguntou-me.

– Algumas dessas fotografias foram tiradas na noite em que o Jake

morreu – referi eu. – A marca temporal a vermelho nessa última fotografia

indica que foi tirada por volta da hora a que o Jake terá morrido, segundo o

relatório da autópsia. E tu estavas lá. Quero saber o que aconteceu naquela

noite. O que aconteceu de verdade.

– Porque não perguntas ao Alistair? – quis saber Margot. – Também lá

estava.

– Não confio na resposta dele – disse. – Ao longo de todos estes anos,

oportunidades não lhe faltaram, mas preferiu ocultar-me o sucedido. Sei,

por isso, que se o questionar agora, ele se vai limitar a distorcer a verdade. E

é só isso que eu quero: a verdade. Preciso de saber a verdade.

– Porque é assim tão importante o que aconteceu de verdade naquela

noite? – perguntou Margot. – Não vai mudar nada. O Jake está morto. Não

voltará por causa disso.

– É importante para mim – respondi.

Margot suspirou e fez um ar ligeiramente entediado. Sabia que ela se

estava pouco marimbando para o que era importante para mim. Não tinha

sido o argumento mais inteligente para usar. Ela inclinou a cabeça e fez

deslizar o dedo do meio pelo rebordo do copo enquanto cogitava.

– Foi um acidente – declarou Margot, olhando-me nos olhos.

– Queres dizer que ele… Que ele não se suicidou?

– Isso mesmo – confirmou ela.

Fechou o cardápio e fez sinal ao empregado. Eu fiquei em silêncio.

Conseguia ouvir o coração martelar-me no peito. Sempre me culpara por

não fazer ideia do sofrimento por que Jake estaria a passar e que o levara

àquele ato de desespero. Carregara essa culpa durante quase dezassete anos:

metade da minha vida. E, afinal de contas, tudo não passara de uma mentira.

– A salada do chefe tem ovos de codorniz? – perguntou Margot ao

empregado.

A voz dela soou-me distante, abafada, de certo modo. O empregado

respondeu, mas eu nem o ouvi.

– Perfeito – disse Margot, e deixou que o empregado lhe tirasse o menu

das mãos. – O molho ao lado, por favor. – Margot olhou para mim

expetantemente. – Grace?

– Hã? – respondi.

– Não me digas que me vais obrigar a comer sozinha? Pede qualquer

coisa – comandou ela.

Não tinha fome. Não me imaginava a conseguir engolir o que quer que

fosse, porém, para lhe agradar, olhei para o menu e pedi a primeira coisa

que vi.

– Minestrone – disse, incapaz até de formar uma frase com princípio,

meio e fim.

– Com certeza – respondeu o empregado com um aceno de cabeça ao dar

meia volta.

Inclinei-me então para a frente e perguntei a Margot:

– Como assim, foi um acidente?

Margot deu mais um gole no vinho. Tinha um ar tão composto, tão calmo,

tão sereno, como se estivéssemos a falar de um par de sapatos e não da

morte de Jake.

– Fazíamos parte de um clube, lá na escola – começou ela. – Um clube

secreto, exclusivo. – Encolheu os ombros. – O Jake e eu éramos membros

recentes e tínhamos passado por uma espécie de ritual para podermos ser

admitidos. Não gosto muito de pensar nisso, para te ser franca, nas coisas

que fazíamos. Não eram coisas agradáveis ou divertidas. Seja como for,

uma noite, estávamos a comemorar num lugar fora da escola chamado o

Rebordo. Tínhamos umas bebidas alcoólicas e alguém levara uns

comprimidos. O Jake fez uma reação à mistura e teve uma paragem

respiratória.

– Parou de respirar? – perguntei.

– Como é natural, entrámos todos em pânico – prosseguiu Margot. – Não

passávamos de uns miúdos, na verdade, e estávamos todos bêbados ou

drogados, portanto, ninguém tinha cabeça para pensar racionalmente.

Sabíamos que não o podíamos levar para o hospital, ou arriscaríamos a meter-nos em sarilhos também. Seríamos expulsos ou suspensos, na melhor

das hipóteses. Não podíamos arriscar o nosso futuro; e para quê, na verdade,

se ele já estava morto?

Olhava fixamente para ela, mas nem a via. Era capaz de imaginar a cena:

uma noite fria, escura e sem estrelas. Recordava-me do frio que fizera

naquela noite, porque mal dormira, entusiasmada e ansiosa por ver Jake. E

enquanto eu me virava e revirava na cama, na casa dos meus pais em

Hillsborough, a trezentos quilómetros a norte dali, num qualquer lugar

apelidado de Rebordo, Jake dava o seu último suspiro, morrendo sozinho e

com medo, rodeado pelos seus pretensos amigos, demasiado egoístas e

estúpidos para o ajudarem.

– Ainda bem que o Alistair também lá estava – disse Margot. – Sem ele,

não sei o que teríamos feito. Mas o Alistair tem sempre um plano na manga.

Assume sempre o controlo. Foi brilhante, na verdade.

– O Alistair?

– Sim. A ideia foi dele, de fazer com que parecesse um suicídio – revelou

Margot. – Ele e outro dos rapazes mais velhos lançaram o Jake para a

ravina. O Alistair depois forjou um bilhete, e melhor não podia ter sido,

porque as autoridades da escola revistaram o quarto dele e encontraram o

exame que ele tinha roubado e que constituíra a sua última tarefa para entrar

no clube, o tal ritual de iniciação. A história escreveu-se basicamente por si

mesma: um aluno bolseiro que tem a fama de ser um aluno brilhante revela-

se uma pessoa insegura e desesperada. Sente que não está à altura, faz

batota para se manter à tona e depois alguém lhe descobre a careca e

ameaça denunciá-lo. Ele não suporta a vergonha que aquilo acarretará e, por

isso, suicida-se. Toda a gente adora um drama e uma tragédia. Toda a gente

caiu que nem um patinho. Ninguém questionou nada.

Lembrava-me de ter ouvido falar do exame roubado e questionara-me

acerca disso. Jake tinha sido sempre um aluno brilhante. Inteligente e

seguro de si mesmo. Tão diferente da imagem que aquele bilhete de suicídio

tentara invocar. Eu tinha percebido que alguma coisa não estava bem, que

algo de errado se passava. Mas depois, a minha mãe aconselhara-me a parar

de fazer perguntas, a parar de escarafunchar na ferida, para que esta pudesse

começar a sarar.

– Só mais tarde, quando o relatório da autópsia foi divulgado, é que

descobrimos que o Jake não morreu de overdose – contou Margot. – Afogou-se. Segundo a autópsia, ainda respirava quando foi empurrado do

Rebordo.

Tinham matado Jake e depois transformado a sua pessoa numa coisa que

ele não era.

– Mas se o Jake tinha essas substâncias no sangue quando morreu, elas

não teriam sido detetadas durante a autópsia? – indaguei.

– E foram – confirmou Margot. – A análise toxicológica forense detetou

vestígios de álcool, acetaminofeno e oxicodona no corpo do Jake. Estão

listados no relatório da autópsia. Mas isso não é invulgar em casos de

suicídio. Tenho a certeza de que a família do Jake tomou conhecimento dos

resultados, mas entendo que não tenha querido partilhar esse pormenor em

particular com muita gente.

Expirei sem me dar conta de que estava a suster a respiração.

– Porque é que me contaste isso tudo? – perguntei a Margot.

Ela encolheu os ombros.

– Porque sabia que a verdade te iria magoar – confessou ela. – E porque

vou adorar ver-te arrasar o teu casamento por causa disto.

– O meu casamento?

Margot deu mais um gole no vinho e fez um sorriso cruel.

– Imagina lá. De cada vez que olhares para o teu marido, todos os dias,

para o resto da vida, sempre que o beijares ou lhe servires um copo de

vinho, que te rires de uma das suas piadas ou fizeres amor com ele, saberás

que é a pessoa responsável pela morte do Jake. Se não fosse o Alistair, o

Jake ainda cá estaria. Na verdade, se não fosse o Alistair, quem sabe? Tu e o

Jake, se calhar, estariam casados hoje em dia, e a viver nos subúrbios,

rodeados de fedelhos. Até tem uma certa piada, se pensarmos nisso, o facto

de teres acabado com o tipo que tirou a vida ao Jake.

– Hão de pagar pelo que fizeram – afirmei. – Todos vocês… vão pagar…

Tinha de haver consequências e eu assegurar-me-ia disso.

– Que fizemos nós? – estranhou Margot. – Não queres dizer, que fez o

Alistair?

– Não era só ele que lá estava – realcei. – Qualquer um de vocês podia ter

feito alguma coisa. Podiam tê-lo travado. São tão culpados quanto ele.

Margot olhou para mim quase como se sentisse pena da minha pessoa.

Limpou os cantos da boca com o guardanapo e um gesto cuidadoso, para

não esborratar o batom.

– Oh, querida, não sejas tão ignorante – ripostou ela. – Que provas é que

tens para montar sequer um caso? – Apontou para as fotografias pousadas

em cima da mesa. – Uns instantâneos sem valor que nos colocam no mesmo

local onde Jake morreu na noite em que se matou? Isto não prova nada.

Sem uma confissão, que nenhum de nós fará, não tens por onde pegar. Não

somos uns miúdos de dezassete anos, receosos de sermos expulsos de um

colégio por estarmos fora da escola depois do recolher obrigatório, a beber e

a tomar drogas. Quer gostes quer não, tudo isto terminou há muitos anos.

Recolhi as fotografias e guardei-as na mala. Ela estava errada. Tinha de

estar errada. Não podiam matar Jake, reescrever a história e escapar-se

impunes como se nada fosse. Era de homicídio que se tratava, afinal de

contas. Homicídio.

Pus a alça da mala ao ombro e levantei-me com uma atitude decidida.

– Logo veremos – disse, e saí dali o mais depressa que as minhas pernas

me carregaram, quase esbarrando no empregado que nos trazia as entradas.