Magníficos Estranhos
Seis GRACE CALLOWAY
Seis
GRACE CALLOWAY
4 DE AGOSTO DE 2007
19h52
O telefone tocou. Bati com o dedo grande do pé na mesa de cabeceira ao
tentar alcançá-lo antes do segundo toque. Não queria acordar as miúdas.
Ocorreu-me um pensamento ao mesmo tempo que atendia – E se for ele? –,
mas foi a voz de Claire que ouvi do outro lado.
– Vi o carro do Alistair a acelerar pela Main Street quando vinha a sair do
supermercado – disse ela. – Ia em direção à autoestrada. Está tudo bem?
Claire conhecia bem a nossa rotina; Alistair chegava à sexta-feira ao final
da tarde e partia ao domingo à noite. Era sábado e, tendo em conta os
acontecimentos daquela semana, Claire não perdeu tempo a ver como eu
estava.
– Está tudo ótimo – menti. – Ele teve de partir mais cedo. Tinha uma
partida de golfe com um cliente amanhã de manhã.
A primeira mentira que dissera quando todo aquele assunto começara, há
várias semanas, pesara-me na consciência. Entretanto, porém, chegara à
conclusão de que quanto mais patranhas dizia, mais fácil se tornava mentir.
Por vezes, saíam-me dos lábios sem que tencionasse dizê-las, sem que me
desse conta. Interrogava-me amiúde se até a mim mesma eu enganava.
– A abdicar de um dia em família para ir dar pancadas numa bola com um
desconhecido… Muito bem – comentou Claire, com desdém.
A sua antipatia por Alistair tocava as raias da hostilidade. Não reagi.
– Parece que vai trovejar mais logo – disse Claire, mudando de assunto. –
Queres companhia? Posso ir até aí. Tenho uma garrafa de Pinot no
frigorífico.
– Prometi às miúdas que passaríamos o serão juntas, a jogar a qualquer
coisa – referi. – Sempre as compenso pela ausência do pai.
– Sim, claro – respondeu Claire, obviamente desiludida.
– Ligo-te amanhã – sugeri.
Na verdade, deitara as miúdas mais cedo. Andar de barco o dia todo
deixara-as exaustas e tinham acabado por adormecer no sofá a ver televisão.
Carregara-as ao colo, uma a uma, até ao quarto, no segundo andar.
Contemplei o lago, do outro lado da janela. Claire tinha razão: parecia
que ia trovejar. Nuvens negras tinham-se acumulado junto ao horizonte. O
céu estava carregado.
A minha rotina naquele verão era nadar sozinha no lago, à noite. Fazia
algumas voltas entre a margem e a jangada, o meu exercício preferido. No
entanto, há dias que não nadava, em resultado do ferimento que tinha no
ombro.
Ansiava por meter-me na água, por sentir os músculos alongar-se e
contrair-se a cada braçada, por fechar os olhos e suster a respiração, quando
mais não fosse para sentir o refrigério de romper a superfície da água e
encher os pulmões de ar.
Passei pelas malas abertas em cima da cama e dirigi-me à cómoda para ir
buscar o fato de banho. Ainda tinha tempo para um último mergulho.