Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 30 de 44

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Magníficos Estranhos

Vinte e nove CHARLIE CALLOWAY

Vinte e nove

 

CHARLIE CALLOWAY

 

2017

 

Quando regressei ao quarto, a luz estava acesa e Drew estava lá. Vi-a a

partir do ramo do ulmeiro junto à nossa janela e, quando bati na vidraça, ela

foi abrir a janela para me deixar entrar.

– Presumo que já saibas? – comentou ela, como quem não queria a coisa,

e esticou o braço para me ajudar a entrar. Atrás dela, vi um trolley aberto

em cima da cama, já meio cheio.

– Só a versão das CliffsNotes – respondi. – O Crosby disse-me, mas não

estava propriamente falador.

Na verdade, estava demasiado zangado e perturbado para me dar mais do

que os pormenores mais básicos: o professor Franklin tinha apanhado Drew

naquela tarde a tentar roubar o exame de Trigonometria. Passara o resto do

dia no gabinete do diretor Collins e ia ser expulsa.

Drew regressou à pilha de roupa que tinha em cima da cama. Pegou no

primeiro cabide e levantou-o.

– Queres isto? – perguntou ela, e virou-se para me mostrar o vestido preto

Chloé que eu sempre cobiçara. Comprara-o no SoHo quando me fora

visitar, há dois verões. – De qualquer maneira, fica-te melhor a ti do que a

mim.

Não respondi; ainda não tinha conseguido processar muito bem o que

estava a acontecer. A parede do lado dela estava despida: o quadro das

recordações, as fotografias, o cordão de luzes, tudo arrumado numa caixa de

papelão em cima da secretária dela. O varão do roupeiro estava vazio.

– Merda – comentei. – Merda.

– Pois – anuiu Drew. – É isso.

– Continuo sem perceber o que aconteceu – admiti. Abri uma clareira na

cama dela e sentei-me de pernas cruzadas. – Conta-me tudo, desde o início.

– Sabes que o Crosby é assistente da professora Benson, não sabes? –

começou Drew. A Sra. Benson era a professora de Geometria dos caloiros.

Respondi que sim com um aceno de cabeça. – O Crosby tem uma espécie

de pin para entrar na sala de convívio dos professores, no edifício de

matemática, e deu-me o código. Uma vez que o exame de Trigonometria é

amanhã, supus que o professor Franklin usaria a fotocopiadora da sala de

convívio esta tarde para fazer as cópias dos testes. Escondi-me na sala de

convívio e fiquei à espera que ele aparecesse. Vi-o pôr o exame na

fotocopiadora e, enquanto ele fazia as cópias, era suposto eu mandar uma

SMS ao Crosby para ele acionar o alarme de incêndio e assim tirar o

professor Franklin do edifício. No entanto, não tive de fazê-lo, porque o

professor decidiu ir à casa de banho enquanto a fotocopiadora fazia o seu

trabalho. Ou assim pensei eu. Deve ter ido à máquina do café, porque só se

ausentou um minuto, se tanto. Digamos que me apanhou em flagrante

quando eu já vinha a sair.

– Tem de haver alguma coisa que possamos fazer – afirmei, ao mesmo

tempo que dava voltas e voltas à cabeça. Tinha de existir uma maneira de

Drew sair daquela situação. – Convenhamos, tu nem sequer tens

Trigonometria, logo, não pode ser considerado batota, porque tu nem ias

fazer o teste!

Olhei para Drew e ela encolheu os ombros. Continuou a dobrar roupa e a

emalá-la, como se estivesse tudo bem. Estiquei o braço e agarrei-a pelo

pulso.

– Para! – pedi-lhe. – Para de fazer as malas como se te fosses embora,

como se não houvesse nada a fazer. Talvez os membros do A possam

ajudar.

– Já falei com o Crosby – disse Drew. – Ele diz que conhece uma pessoa

no Conselho de Admissões de Wellesley que talvez consiga que fechem os

olhos ao sucedido no próximo ano, quando eu me candidatar.

– Não, eu queria dizer que tem de haver uma maneira de te manter aqui

em Knollwood – elucidei. – Talvez haja uma penalização menos grave ou

uma espécie de vazio legal nas regras.

– Não há – asseverou Drew.

Tirei o telefone do bolso.

– Deixa-me ao menos telefonar ao Dalton. Talvez ele possa ajudar.

– Não telefones – pediu Drew, e tentou agarrar-me o telefone.

Segurei-o longe do alcance dela.

– Não entendo porque estás a aceitar isto tão pacificamente – contestei. –

Parece que nem te importas.

Drew ficou calada por um momento.

– Não fui totalmente sincera contigo – confessou ela, por fim. Pousou a

peça de roupa que estava a dobrar. Percebi que estava a tentar engolir o

caroço que tinha na garganta. – A minha mãe perdeu o emprego há uns

meses – disse Drew. – A firma dela abriu um processo de falência.

As palavras de Drew foram um autêntico murro no estômago. A minha

melhor amiga passara o semestre todo a lidar com uma enorme crise

familiar e eu, demasiado concentrada no A e no meu próprio drama

familiar, nem me dera conta.

– Drew, lamento muito – disse, envergonhada. – Não fazia ideia.

– Ainda considerámos se haveria de voltar este ano – revelou Drew –,

mas os meus pais acharam que correria tudo bem. Julgo que a minha mãe

estava otimista em que conseguiria outro emprego rapidamente, mas isso

não aconteceu.

O pai de Drew era professor de História numa pequena escola no

Connecticut. Não ganhava o suficiente para arcar sozinho com a propina de

uma escola como Knollwood.

– Já tiveram de vender a casa – continuou Drew. – E o corte seguinte

seria a propina. Descobri há uns dias que ia ter de sair a meio do semestre.

– Foi por isso que não me deste muita saída quando te pedi que

escolhesses as disciplinas para o semestre de primavera? – perguntei.

– Desculpa – pediu Drew. – É que… Não sabia bem como dizer-te o que

se estava a passar.

– Não podes candidatar-te a uma bolsa? – sugeri.

– As bolsas são atribuídas no início do ano letivo – disse Drew. – Só para

o ano é que poderia candidatar-me e, seja como for, já não iria ser a mesma

coisa.

Ocorreu-me então. Drew tinha sido apanhada de propósito para assim

poder salvar a face. Preferia sair da escola de uma forma estrondosa (toda a

gente acreditaria que fora apanhada a roubar um exame para o A) do que

por falta de condições financeiras (passando assim pela vergonha de toda a gente saber que a sua família estava na ruína). Preferira a infâmia à

ignomínia.

– Mais alguém sabe? – inquiri. Interrogava-me se ela teria ao menos

confidenciado a sua situação a Stevie.

Drew abanou a cabeça.

– Só tu.

Estiquei o braço e apalpei a alça suave do vestido Chloé. Recordava-me

do dia em que ela o comprara como se tivesse sido ontem. De vestidos de

verão e sandálias, Drew e eu tínhamos passado a tarde a entrar e a sair de

boutiques. Drew simulara um sotaque francês e, num inglês macarrónico,

namoriscara um lojista de trinta anos. Conseguira o número de telefone

dele, só para provar que era capaz de fazê-lo. Mais tarde, num minúsculo

restaurante de noodles, ligámos-lhe. Drew confessou-lhe, usando o francês

elementar que aprendêramos na aula de Madame Le Fèvre, qual era a sua

comida preferida (Je mange les noodles. J’adore les noodles). Do outro

lado da mesa, eu tapava a boca para abafar as risadas. Tentara voltar àquele

restaurante no verão passado, mas já não fora capaz de o encontrar.

– Fica tu com o vestido – disse. – Tens pernas para ele, ao contrário de

mim.

– Sim, tens razão, és quase oficialmente uma anãzinha – troçou Drew.

Ri-me e dei-lhe um empurrão.

– Não sei como te atreves a deixar-me – queixei-me, e fiz um esforço para

não chorar.

– Tenho tanta pena de ti – brincou Drew. – Vais passar a ser uma tipa

importante. A única pré-finalista a viver sozinha. Podes juntar as duas

camas e ficar com uma cama de casal.

– Uma mega-cama – comentei.

Drew riu-se.

– E com um roupeiro igualmente mega, se quiseres – realçou ela. Abanou

a cabeça. – As coisas que eu faço por ti.

*

 

No dia seguinte, ao almoço, o clima à mesa era invulgarmente melancólico.

Durante a noite, a notícia de que Drew fora apanhada a roubar o exame de

Trigonometria do professor Franklin espalhara-se. Os seus pais tinham já chegado ao campus e Drew fora chamada ao gabinete do diretor Collins há

meia hora.

– Raios partam, afinal de contas, quem é que morreu? – perguntou

Zachery. Pousou o tabuleiro e olhou para cada um de nós à vez.

– És mesmo um idiota – respondi.

– Lamento, estava apenas a tentar desanuviar o ambiente – explicou ele,

sentando-se.

– Não há como fazê-lo – disse Stevie. – Isto é uma grande chatice.

– E que pretendes fazer em relação a isso? – indagou Crosby.

Crosby era habitualmente a alma da festa, mas aquelas eram as primeiras

palavras que pronunciava naquele dia.

– Como assim? – inquiriu Stevie.

– Refiro-me à audiência disciplinar desta tarde. Que vais dizer?

Stevie ficou vermelha como um tomate. Fixou os olhos no prato e

empurrou as ervilhas com os dentes do garfo.

– As regras em relação a isto são muito claras – declarou Stevie. – Neste

ponto, a audiência disciplinar é apenas uma formalidade.

– Então, basicamente, pretendes chegar lá e dizer ao diretor que expulse a

tua melhor amiga.

– Pretendo seguir as regras – afirmou Stevie –, que são sempre as mesmas

para toda a gente. Ou deviam ser, pelo menos.

– Talvez se não fosses tão mesureira tivesses mais amigos – ripostou

Crosby.

– Ei, tem lá calma – interveio Yael. – Nada disto é culpa da Stevie, pois

não?

Stevie parecia estar a engolir as lágrimas.

– Vou buscar água – disse ela, tão baixinho que mal a ouvi.

Levantei-me e segui-a até ao dispensador de água.

– Estás bem, Stevie? – perguntei-lhe.

– Não sei por que carga de água ele acha que estou em posição de fazer

alguma coisa em relação a isto – argumentou Stevie, arrancando um copo

da pilha com tanta força que fez tudo tremer.

– Ele está só aborrecido – expliquei. – Estamos todos. Mas lamento que o

Crosby esteja a descarregar a sua frustração em ti.

Stevie colocou o copo vazio sob o dispensador de bebidas e carregou no

botão da água.

– Se ele está à procura de alguém que carregue a culpa, não é para mim

que tem de apontar – referiu Stevie.

– Que queres dizer com isso? – indaguei.

Stevie virou-se lentamente para mim e, pela primeira vez, vi o quanto ela

estava zangada.

– É óbvio que a Drew não foi roubar o exame para si mesma. Era para

alguém – realçou ela.

– Não estás a achar que… – parei e engoli. – Estás mesmo a querer dizer

que achas que fui eu que pedi à Drew que roubasse aquele exame?

Stevie encolheu os ombros.

– Só sei que ultimamente te tenho ouvido falar muito da Universidade da

Pensilvânia e que tens andado um bocado distraída com o teu novo

namorado…

– O Dalton não é meu namorado – asseverei.

– Como queiras – respondeu Stevie. – É que… Não me ocorre uma única

razão para que a Drew tivesse ido fazer aquilo, a não ser por um motivo que

ela achasse muito válido, como salvar-te a ti.

– Stevie, eu jamais lhe pediria para fazer uma coisa assim por mim –

afirmei.

– Ou isso – continuou Stevie, mas baixou o tom de voz – ou fê-lo porque

outra pessoa lho pediu.

– Outra pessoa?

Stevie cruzou os braços à frente do peito.

– Diz-me lá, a Drew… anda metida no A? E tu?

– Não – disse. – É claro que não.

Stevie estava de novo à beira das lágrimas.

– É isso que o diretor Collins vai achar – fez notar Stevie. – E eu,

sinceramente, não sei o que é pior… Se tu seres egoísta o suficiente para

pedires à Drew que fizesse uma coisa tão disparatada ou o facto de vocês

fazerem parte desse clube detestável e ridículo.

– Stevie…

– São horríveis – afirmou Stevie. – Os membros do A. Não passam de um

bando de miúdos ricos, egocêntricos com a mania que têm direito a tudo e

que agem como se fossem deuses. Um punhado de gente sem ética.

– Não creio que seja bem assim – aleguei.

– É precisamente assim – reiterou Stevie. – Não entendo por que razão não consegues ver isso.

Uma parte de mim desejava poder dizer a verdade a Stevie: que Drew ia

sair da escola de qualquer maneira. Mas depois, lembrei-me da maneira

como Drew me ajudara com River, quando éramos caloiras; naquela altura,

nem sequer nos conhecíamos, e ela encobrira o meu segredo. Aquele

segredo não era meu e não me competia a mim partilhá-lo.

Stevie deu um passo para longe de mim e depois virou-se.

– Sabes, para alguém tão inteligente, estás a comportar-te como uma

verdadeira idiota.

Abri a boca para responder, mas nesse momento o meu telefone vibrou.

Olhei para o ecrã e franzi a testa. Era o número do escritório do meu pai.

Que se passaria? Não tinha tempo nem pachorra para lidar com aquilo, mas

também não tinha escolha.

– Rosie? – perguntei, quando atendi.

Foi a voz do meu pai que me respondeu.

– Charlotte.

– Pai? – disse, bastante surpreendida. O meu pai nunca me telefonava. –

Está tudo bem? – Tapei o outro ouvido com o dedo para o ouvir melhor por

cima do barulho do refeitório.

– Não, não está – respondeu ele. – Achei que era imperativo telefonar-te

para falarmos das companhias com que te dás.

– Ah sim? – inquiri, perplexa. Que sabia ele acerca das companhias com

quem eu me dava? Teria descoberto o que se passava com Drew? Que

estava prestes a ser expulsa por tentar roubar um teste? Lembrei-me então

do jantar com Dalton e os nossos pais. – Estás a falar do Dalton?

Que raio se estaria a passar? Virei-me para as portas de vidro na

extremidade do refeitório em busca de um sítio calmo para falar.

– Sim, o rapaz que levaste ao jantar – confirmou o meu pai. – Não sei ao

certo qual é a natureza do vosso relacionamento, mas, seja ela qual for, tem

de parar.

Empurrei uma das portas e saí para a rua. Estava frio e não havia quase

ninguém no pátio.

– Não sei se estou a compreender – respondi.

O meu pai estava mesmo a ligar-me para exigir que eu cortasse relações

com um rapaz que ele conhecera num jantar?

– Ele não é a pessoa certa para ti, Charlotte – argumentou o meu pai. – A família dele… Não são o tipo certo de pessoas. E habitualmente quem sai

aos seus não degenera. Não quero que te dês mais com ele.

– A família dele? – perguntei, cada vez mais baralhada. Nunca tinha

ouvido dizer nada de mal acerca dos Daltons, e Margot parecera-me muito

simpática. – Mas eu fiquei com a ideia de que tu e a mãe dele tinham sido

amigos.

– Nesse caso, ficaste com a ideia errada – declarou o meu pai. – Não te

quero perto da Margot. Se ela tentar contactar-te, deves dizer-me

imediatamente e eu trato do problema.

– Okay – repliquei, como quem dizia «okay, essa é nova!». Mas julgo que

o meu pai encarou o meu okay como uma concordância, como se eu tivesse

acatado a sua ordem.

– Muito bem – respondeu ele, e soava ligeiramente apaziguado e um

pouco cansado. – Isto é para o teu próprio bem, Charlotte. Confia em mim.

– Okay – repeti.

O problema era que não confiava nele. Nem um pouco.

*

 

A reunião disciplinar foi tão horrível quanto eu antecipara. Sentada no meio

dos restantes membros do A, vimos o diretor Collins oferecer a Drew a

oportunidade de se salvar, denunciando-nos a nós, mas ela recusou fazê-lo.

O diretor deu-lhe até ao final do dia para arrumar as coisas e abandonar a

escola.

Nessa noite, depois da encarregada da residência ter ido confirmar que

toda a gente estava nos seus quartos, deitei-me no colchão despido de Drew

e contemplei o teto, sozinha e às escuras. O silêncio era avassalador, sem o

som da respiração dela, sem as chiadelas da cama sempre que ela se virava.

Não importava que Drew tivesse de ir embora, que se tivesse deixado

apanhar. Nada disso apagava o que eu sentia: que acabara de perder a minha

melhor amiga.

Estendi a mão para o telefone e enviei uma mensagem de texto a

Greyson.

Preciso que venhas cá e me escondas todas as lâminas, escrevi.

Mas ele não respondeu com nenhuma observação sarcástica ou satírica

para me fazer sentir melhor.

GREYSON: Que se passa?

 

Comecei a escrever uma resposta e depois apaguei-a. Comecei de novo e

tornei a apagá-la. Por fim, escrevi a verdade.

Tudo, disse.