Magníficos Estranhos
Vinte e nove CHARLIE CALLOWAY
Vinte e nove
CHARLIE CALLOWAY
2017
Quando regressei ao quarto, a luz estava acesa e Drew estava lá. Vi-a a
partir do ramo do ulmeiro junto à nossa janela e, quando bati na vidraça, ela
foi abrir a janela para me deixar entrar.
– Presumo que já saibas? – comentou ela, como quem não queria a coisa,
e esticou o braço para me ajudar a entrar. Atrás dela, vi um trolley aberto
em cima da cama, já meio cheio.
– Só a versão das CliffsNotes – respondi. – O Crosby disse-me, mas não
estava propriamente falador.
Na verdade, estava demasiado zangado e perturbado para me dar mais do
que os pormenores mais básicos: o professor Franklin tinha apanhado Drew
naquela tarde a tentar roubar o exame de Trigonometria. Passara o resto do
dia no gabinete do diretor Collins e ia ser expulsa.
Drew regressou à pilha de roupa que tinha em cima da cama. Pegou no
primeiro cabide e levantou-o.
– Queres isto? – perguntou ela, e virou-se para me mostrar o vestido preto
Chloé que eu sempre cobiçara. Comprara-o no SoHo quando me fora
visitar, há dois verões. – De qualquer maneira, fica-te melhor a ti do que a
mim.
Não respondi; ainda não tinha conseguido processar muito bem o que
estava a acontecer. A parede do lado dela estava despida: o quadro das
recordações, as fotografias, o cordão de luzes, tudo arrumado numa caixa de
papelão em cima da secretária dela. O varão do roupeiro estava vazio.
– Merda – comentei. – Merda.
– Pois – anuiu Drew. – É isso.
– Continuo sem perceber o que aconteceu – admiti. Abri uma clareira na
cama dela e sentei-me de pernas cruzadas. – Conta-me tudo, desde o início.
– Sabes que o Crosby é assistente da professora Benson, não sabes? –
começou Drew. A Sra. Benson era a professora de Geometria dos caloiros.
Respondi que sim com um aceno de cabeça. – O Crosby tem uma espécie
de pin para entrar na sala de convívio dos professores, no edifício de
matemática, e deu-me o código. Uma vez que o exame de Trigonometria é
amanhã, supus que o professor Franklin usaria a fotocopiadora da sala de
convívio esta tarde para fazer as cópias dos testes. Escondi-me na sala de
convívio e fiquei à espera que ele aparecesse. Vi-o pôr o exame na
fotocopiadora e, enquanto ele fazia as cópias, era suposto eu mandar uma
SMS ao Crosby para ele acionar o alarme de incêndio e assim tirar o
professor Franklin do edifício. No entanto, não tive de fazê-lo, porque o
professor decidiu ir à casa de banho enquanto a fotocopiadora fazia o seu
trabalho. Ou assim pensei eu. Deve ter ido à máquina do café, porque só se
ausentou um minuto, se tanto. Digamos que me apanhou em flagrante
quando eu já vinha a sair.
– Tem de haver alguma coisa que possamos fazer – afirmei, ao mesmo
tempo que dava voltas e voltas à cabeça. Tinha de existir uma maneira de
Drew sair daquela situação. – Convenhamos, tu nem sequer tens
Trigonometria, logo, não pode ser considerado batota, porque tu nem ias
fazer o teste!
Olhei para Drew e ela encolheu os ombros. Continuou a dobrar roupa e a
emalá-la, como se estivesse tudo bem. Estiquei o braço e agarrei-a pelo
pulso.
– Para! – pedi-lhe. – Para de fazer as malas como se te fosses embora,
como se não houvesse nada a fazer. Talvez os membros do A possam
ajudar.
– Já falei com o Crosby – disse Drew. – Ele diz que conhece uma pessoa
no Conselho de Admissões de Wellesley que talvez consiga que fechem os
olhos ao sucedido no próximo ano, quando eu me candidatar.
– Não, eu queria dizer que tem de haver uma maneira de te manter aqui
em Knollwood – elucidei. – Talvez haja uma penalização menos grave ou
uma espécie de vazio legal nas regras.
– Não há – asseverou Drew.
Tirei o telefone do bolso.
– Deixa-me ao menos telefonar ao Dalton. Talvez ele possa ajudar.
– Não telefones – pediu Drew, e tentou agarrar-me o telefone.
Segurei-o longe do alcance dela.
– Não entendo porque estás a aceitar isto tão pacificamente – contestei. –
Parece que nem te importas.
Drew ficou calada por um momento.
– Não fui totalmente sincera contigo – confessou ela, por fim. Pousou a
peça de roupa que estava a dobrar. Percebi que estava a tentar engolir o
caroço que tinha na garganta. – A minha mãe perdeu o emprego há uns
meses – disse Drew. – A firma dela abriu um processo de falência.
As palavras de Drew foram um autêntico murro no estômago. A minha
melhor amiga passara o semestre todo a lidar com uma enorme crise
familiar e eu, demasiado concentrada no A e no meu próprio drama
familiar, nem me dera conta.
– Drew, lamento muito – disse, envergonhada. – Não fazia ideia.
– Ainda considerámos se haveria de voltar este ano – revelou Drew –,
mas os meus pais acharam que correria tudo bem. Julgo que a minha mãe
estava otimista em que conseguiria outro emprego rapidamente, mas isso
não aconteceu.
O pai de Drew era professor de História numa pequena escola no
Connecticut. Não ganhava o suficiente para arcar sozinho com a propina de
uma escola como Knollwood.
– Já tiveram de vender a casa – continuou Drew. – E o corte seguinte
seria a propina. Descobri há uns dias que ia ter de sair a meio do semestre.
– Foi por isso que não me deste muita saída quando te pedi que
escolhesses as disciplinas para o semestre de primavera? – perguntei.
– Desculpa – pediu Drew. – É que… Não sabia bem como dizer-te o que
se estava a passar.
– Não podes candidatar-te a uma bolsa? – sugeri.
– As bolsas são atribuídas no início do ano letivo – disse Drew. – Só para
o ano é que poderia candidatar-me e, seja como for, já não iria ser a mesma
coisa.
Ocorreu-me então. Drew tinha sido apanhada de propósito para assim
poder salvar a face. Preferia sair da escola de uma forma estrondosa (toda a
gente acreditaria que fora apanhada a roubar um exame para o A) do que
por falta de condições financeiras (passando assim pela vergonha de toda a gente saber que a sua família estava na ruína). Preferira a infâmia à
ignomínia.
– Mais alguém sabe? – inquiri. Interrogava-me se ela teria ao menos
confidenciado a sua situação a Stevie.
Drew abanou a cabeça.
– Só tu.
Estiquei o braço e apalpei a alça suave do vestido Chloé. Recordava-me
do dia em que ela o comprara como se tivesse sido ontem. De vestidos de
verão e sandálias, Drew e eu tínhamos passado a tarde a entrar e a sair de
boutiques. Drew simulara um sotaque francês e, num inglês macarrónico,
namoriscara um lojista de trinta anos. Conseguira o número de telefone
dele, só para provar que era capaz de fazê-lo. Mais tarde, num minúsculo
restaurante de noodles, ligámos-lhe. Drew confessou-lhe, usando o francês
elementar que aprendêramos na aula de Madame Le Fèvre, qual era a sua
comida preferida (Je mange les noodles. J’adore les noodles). Do outro
lado da mesa, eu tapava a boca para abafar as risadas. Tentara voltar àquele
restaurante no verão passado, mas já não fora capaz de o encontrar.
– Fica tu com o vestido – disse. – Tens pernas para ele, ao contrário de
mim.
– Sim, tens razão, és quase oficialmente uma anãzinha – troçou Drew.
Ri-me e dei-lhe um empurrão.
– Não sei como te atreves a deixar-me – queixei-me, e fiz um esforço para
não chorar.
– Tenho tanta pena de ti – brincou Drew. – Vais passar a ser uma tipa
importante. A única pré-finalista a viver sozinha. Podes juntar as duas
camas e ficar com uma cama de casal.
– Uma mega-cama – comentei.
Drew riu-se.
– E com um roupeiro igualmente mega, se quiseres – realçou ela. Abanou
a cabeça. – As coisas que eu faço por ti.
*
No dia seguinte, ao almoço, o clima à mesa era invulgarmente melancólico.
Durante a noite, a notícia de que Drew fora apanhada a roubar o exame de
Trigonometria do professor Franklin espalhara-se. Os seus pais tinham já chegado ao campus e Drew fora chamada ao gabinete do diretor Collins há
meia hora.
– Raios partam, afinal de contas, quem é que morreu? – perguntou
Zachery. Pousou o tabuleiro e olhou para cada um de nós à vez.
– És mesmo um idiota – respondi.
– Lamento, estava apenas a tentar desanuviar o ambiente – explicou ele,
sentando-se.
– Não há como fazê-lo – disse Stevie. – Isto é uma grande chatice.
– E que pretendes fazer em relação a isso? – indagou Crosby.
Crosby era habitualmente a alma da festa, mas aquelas eram as primeiras
palavras que pronunciava naquele dia.
– Como assim? – inquiriu Stevie.
– Refiro-me à audiência disciplinar desta tarde. Que vais dizer?
Stevie ficou vermelha como um tomate. Fixou os olhos no prato e
empurrou as ervilhas com os dentes do garfo.
– As regras em relação a isto são muito claras – declarou Stevie. – Neste
ponto, a audiência disciplinar é apenas uma formalidade.
– Então, basicamente, pretendes chegar lá e dizer ao diretor que expulse a
tua melhor amiga.
– Pretendo seguir as regras – afirmou Stevie –, que são sempre as mesmas
para toda a gente. Ou deviam ser, pelo menos.
– Talvez se não fosses tão mesureira tivesses mais amigos – ripostou
Crosby.
– Ei, tem lá calma – interveio Yael. – Nada disto é culpa da Stevie, pois
não?
Stevie parecia estar a engolir as lágrimas.
– Vou buscar água – disse ela, tão baixinho que mal a ouvi.
Levantei-me e segui-a até ao dispensador de água.
– Estás bem, Stevie? – perguntei-lhe.
– Não sei por que carga de água ele acha que estou em posição de fazer
alguma coisa em relação a isto – argumentou Stevie, arrancando um copo
da pilha com tanta força que fez tudo tremer.
– Ele está só aborrecido – expliquei. – Estamos todos. Mas lamento que o
Crosby esteja a descarregar a sua frustração em ti.
Stevie colocou o copo vazio sob o dispensador de bebidas e carregou no
botão da água.
– Se ele está à procura de alguém que carregue a culpa, não é para mim
que tem de apontar – referiu Stevie.
– Que queres dizer com isso? – indaguei.
Stevie virou-se lentamente para mim e, pela primeira vez, vi o quanto ela
estava zangada.
– É óbvio que a Drew não foi roubar o exame para si mesma. Era para
alguém – realçou ela.
– Não estás a achar que… – parei e engoli. – Estás mesmo a querer dizer
que achas que fui eu que pedi à Drew que roubasse aquele exame?
Stevie encolheu os ombros.
– Só sei que ultimamente te tenho ouvido falar muito da Universidade da
Pensilvânia e que tens andado um bocado distraída com o teu novo
namorado…
– O Dalton não é meu namorado – asseverei.
– Como queiras – respondeu Stevie. – É que… Não me ocorre uma única
razão para que a Drew tivesse ido fazer aquilo, a não ser por um motivo que
ela achasse muito válido, como salvar-te a ti.
– Stevie, eu jamais lhe pediria para fazer uma coisa assim por mim –
afirmei.
– Ou isso – continuou Stevie, mas baixou o tom de voz – ou fê-lo porque
outra pessoa lho pediu.
– Outra pessoa?
Stevie cruzou os braços à frente do peito.
– Diz-me lá, a Drew… anda metida no A? E tu?
– Não – disse. – É claro que não.
Stevie estava de novo à beira das lágrimas.
– É isso que o diretor Collins vai achar – fez notar Stevie. – E eu,
sinceramente, não sei o que é pior… Se tu seres egoísta o suficiente para
pedires à Drew que fizesse uma coisa tão disparatada ou o facto de vocês
fazerem parte desse clube detestável e ridículo.
– Stevie…
– São horríveis – afirmou Stevie. – Os membros do A. Não passam de um
bando de miúdos ricos, egocêntricos com a mania que têm direito a tudo e
que agem como se fossem deuses. Um punhado de gente sem ética.
– Não creio que seja bem assim – aleguei.
– É precisamente assim – reiterou Stevie. – Não entendo por que razão não consegues ver isso.
Uma parte de mim desejava poder dizer a verdade a Stevie: que Drew ia
sair da escola de qualquer maneira. Mas depois, lembrei-me da maneira
como Drew me ajudara com River, quando éramos caloiras; naquela altura,
nem sequer nos conhecíamos, e ela encobrira o meu segredo. Aquele
segredo não era meu e não me competia a mim partilhá-lo.
Stevie deu um passo para longe de mim e depois virou-se.
– Sabes, para alguém tão inteligente, estás a comportar-te como uma
verdadeira idiota.
Abri a boca para responder, mas nesse momento o meu telefone vibrou.
Olhei para o ecrã e franzi a testa. Era o número do escritório do meu pai.
Que se passaria? Não tinha tempo nem pachorra para lidar com aquilo, mas
também não tinha escolha.
– Rosie? – perguntei, quando atendi.
Foi a voz do meu pai que me respondeu.
– Charlotte.
– Pai? – disse, bastante surpreendida. O meu pai nunca me telefonava. –
Está tudo bem? – Tapei o outro ouvido com o dedo para o ouvir melhor por
cima do barulho do refeitório.
– Não, não está – respondeu ele. – Achei que era imperativo telefonar-te
para falarmos das companhias com que te dás.
– Ah sim? – inquiri, perplexa. Que sabia ele acerca das companhias com
quem eu me dava? Teria descoberto o que se passava com Drew? Que
estava prestes a ser expulsa por tentar roubar um teste? Lembrei-me então
do jantar com Dalton e os nossos pais. – Estás a falar do Dalton?
Que raio se estaria a passar? Virei-me para as portas de vidro na
extremidade do refeitório em busca de um sítio calmo para falar.
– Sim, o rapaz que levaste ao jantar – confirmou o meu pai. – Não sei ao
certo qual é a natureza do vosso relacionamento, mas, seja ela qual for, tem
de parar.
Empurrei uma das portas e saí para a rua. Estava frio e não havia quase
ninguém no pátio.
– Não sei se estou a compreender – respondi.
O meu pai estava mesmo a ligar-me para exigir que eu cortasse relações
com um rapaz que ele conhecera num jantar?
– Ele não é a pessoa certa para ti, Charlotte – argumentou o meu pai. – A família dele… Não são o tipo certo de pessoas. E habitualmente quem sai
aos seus não degenera. Não quero que te dês mais com ele.
– A família dele? – perguntei, cada vez mais baralhada. Nunca tinha
ouvido dizer nada de mal acerca dos Daltons, e Margot parecera-me muito
simpática. – Mas eu fiquei com a ideia de que tu e a mãe dele tinham sido
amigos.
– Nesse caso, ficaste com a ideia errada – declarou o meu pai. – Não te
quero perto da Margot. Se ela tentar contactar-te, deves dizer-me
imediatamente e eu trato do problema.
– Okay – repliquei, como quem dizia «okay, essa é nova!». Mas julgo que
o meu pai encarou o meu okay como uma concordância, como se eu tivesse
acatado a sua ordem.
– Muito bem – respondeu ele, e soava ligeiramente apaziguado e um
pouco cansado. – Isto é para o teu próprio bem, Charlotte. Confia em mim.
– Okay – repeti.
O problema era que não confiava nele. Nem um pouco.
*
A reunião disciplinar foi tão horrível quanto eu antecipara. Sentada no meio
dos restantes membros do A, vimos o diretor Collins oferecer a Drew a
oportunidade de se salvar, denunciando-nos a nós, mas ela recusou fazê-lo.
O diretor deu-lhe até ao final do dia para arrumar as coisas e abandonar a
escola.
Nessa noite, depois da encarregada da residência ter ido confirmar que
toda a gente estava nos seus quartos, deitei-me no colchão despido de Drew
e contemplei o teto, sozinha e às escuras. O silêncio era avassalador, sem o
som da respiração dela, sem as chiadelas da cama sempre que ela se virava.
Não importava que Drew tivesse de ir embora, que se tivesse deixado
apanhar. Nada disso apagava o que eu sentia: que acabara de perder a minha
melhor amiga.
Estendi a mão para o telefone e enviei uma mensagem de texto a
Greyson.
Preciso que venhas cá e me escondas todas as lâminas, escrevi.
Mas ele não respondeu com nenhuma observação sarcástica ou satírica
para me fazer sentir melhor.
GREYSON: Que se passa?
Comecei a escrever uma resposta e depois apaguei-a. Comecei de novo e
tornei a apagá-la. Por fim, escrevi a verdade.
Tudo, disse.