Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 35 de 44

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Magníficos Estranhos

Trinta e quatro GRACE CALLOWAY

Trinta e quatro

 

 

GRACE CALLOWAY

 

1 DE AGOSTO DE 2007

 

A carta, se é que se podia chamar-lhe isso, tinha apenas duas palavras. Em

letras maiúsculas de imprensa, escritas a marcador, dizia: EU SEI.

Dentro do envelope, sem remetente, estavam as fotografias. De mim e de

Peter no Hal’s Diner, à beira da estrada interestadual, um lugar que eu

escolhera a dedo por achar que jamais alguém nos veria ali. Estava

enganada, obviamente. Alguém nos tinha visto. Ou melhor, alguém nos

seguira. E não só nos tinha apanhado juntos, como sabia. Sabia do caso que

eu estava a tentar montar contra eles. Sabia que eu tinha aquelas fotografias

que provavam que estavam com Jake na noite em que ele morrera.

Depois da minha conversa com Margot, dei-me conta de que não tinha

provas concretas suficientes para me dirigir à polícia e começar a fazer

acusações. Assim sendo, telefonara a Peter e solicitara a sua ajuda. Reatara

a amizade com Peter no início do verão quando ele se deslocara à casa do

lago para tirar umas fotografias a propósito de um pedido de compensação

que envolvia uma das empresas de jardinagem que trabalhava para nós e

que ele estava a investigar. Revê-lo tinha sido uma surpresa agradável;

desde o liceu que não via Peter. Tínhamos ambos feito parte da equipa de

natação. Ele havia sido um miúdo tímido, mas curioso, o tipo de rapaz que

observa mais do que deixa entrever, por isso, não me espantou que tivesse

escolhido uma carreira que envolvia resolver quebra-cabeças. Conversámos

acerca do trabalho dele. Peter contou-me que estudara Criminologia na

universidade e que tinha uma licença como investigador privado. Planeava

abrir a sua própria firma de investigação e até já tinha começado a tratar de alguns casos. Ao perceber que não podia pedir explicações a Alistair, Peter

foi a primeira pessoa a quem liguei.

Margot devia ter seguramente falado com alguém das fotografias que eu

lhe mostrara. Interroguei-me qual deles me andaria a seguir, ou se seria

mais do que um. As ameaças não faziam parte do estilo de Margot.

Mostrara-se tão prestável, tão destemida, no restaurante. Sabia, contudo,

que alguns dos outros eram capazes disso: de enviar ameaças veladas,

dirigidas não só a mim, mas também às minhas filhas.

Porque as fotografias não eram apenas de mim e Peter. Havia também

uma de Charlotte e Seraphina. E a última, um plano apertado de Charlotte,

tinha uma mensagem escrita no verso: «PARA COM ISSO».

Quando recebi a carta, telefonei à minha mãe e pedi-lhe que viesse tomar

conta das miúdas, porque eu tinha de sair. Disse-lhe que ia ao ginásio. Vesti

uns calções de ginástica, calcei uns ténis e pus um saco desportivo vazio ao

ombro. Dirigi-me para o banco e esvaziei os cofres. Alistair tinha dinheiro

guardado numa dezena de cofres diferentes, em meia dúzia de bancos.

Chamava-lhe o nosso fundo para uma necessidade. Ia passar a ser o meu

fundo para uma necessidade. Meu, de Seraphina e de Charlotte. Íamos pôr-

nos a milhas dali, sem olhar sequer para trás.

Quando regressei a casa, a tarde chegava ao fim. O carro da minha mãe

não estava na entrada, mas vi o de Alistair.

– Cheguei! – anunciei, mal abri a porta da frente.

– Que bom – respondeu ele.

Alistair estava na sala de estar com um copo de uísque na mão.

O meu coração disparou assim que o vi. Compus a alça do saco que trazia

ao ombro. Estava pesada, cheia de dinheiro, e a alça magoava-me o ombro.

– Não avisaste de que virias – referi. Tentei esconder o nervosismo que

sentia. Habitualmente, Alistair só vinha passar os fins de semana connosco;

era quarta-feira. Tentei sorrir, mas não sei se o que me saiu não foi uma

careta. – Onde estão as miúdas? – perguntei.

– Pedi à tua mãe que ficasse com elas esta noite – respondeu ele. – Disse

à Alice que precisávamos de algum tempo só para nós, uma vez que eu

trabalho demasiado. Ela não pareceu importar-se.

Desanimei. Teria de passar a noite inteira sozinha com Alistair naquele

casarão?

– Foi muito simpático da parte dela – comentei, tentando não soar desiludida. – Não tenho nada preparado para o jantar, mas podíamos sair os

dois, que dizes? Só preciso de tomar um duche primeiro.

Dirigi-me às escadas, numa tentativa de me escapar, mas assim que subi o

primeiro degrau ele deteve-me.

– Grace.

Estaquei, como se tivesse os pés colados ao chão.

– Chega aqui – pediu Alistair.

Ele sabe do dinheiro.

Não imaginava como podia ele saber, mas de certeza que sabia. O seu

tom de voz traía-o.

Virei-me para responder, sem descer do degrau em que estava.

Ele não sabe, disse para mim mesma. Tem calma. Arranja uma desculpa.

Sobe e esconde-o.

– Sim? – respondi. Mais uma vez, tive de esforçar-me por não soar

amedrontada.

– Chega. Aqui – repetiu ele. – Não volto a pedir.

Compus novamente a alça do saco desportivo e dirigi-me a Alistair, sem

desviar os olhos dos dele.

Ele não sabe. Ele não sabe. Ele não sabe. Como poderia saber?

Parei à sua frente, tão perto que, se ele quisesse, podia esticar o braço e

arrancar-me o saco, cuja alça eu segurava numa atitude protetora.

– Achas mesmo que não vamos conversar acerca do que tu fizeste? –

indagou ele. – Que vamos fazer de conta que não aconteceu nada?

Senti o cheiro a álcool no hálito dele. Vi a sombra nos seus olhos, como

se a luz que os animava se tivesse apagado. Os cabelos na minha nuca

eriçaram-se.

O Alistair que eu conhecia era bondoso, terno, afável. Era certo que nos

havíamos distanciado nos últimos anos, mas ele era um pai gentil e amável

para as nossas filhas: o homem que beijava a palma arranhada de Charlotte

quando ela caía da bicicleta, o homem que entoava cantigas infantis

enquanto dava banho a Seraphina. Sabia, porém, que os outros viam facetas

diferentes dele. Era um verdadeiro animal feroz na sala de reuniões, de

dentes afiados e uma dentada poderosa e dolorosa. Mordia mais do que

ladrava. Eu percebia isso pela maneira como os demais reagiam quando ele

entrava numa sala: retesavam-se, falavam como se estivessem a suster a

respiração e acenavam subservientemente com a cabeça enquanto ele falava; era como se estivessem a preparar-se para a investida. Naquele

momento, pela primeira vez no nosso casamento, vi Alistair da mesma

maneira que os outros o deviam ver. E essa imagem aterrorizou-me.

– Não estou a entender ao que te referes – disse, mas a minha voz soava

fraca, tímida, acobardada. Nem eu acreditava nas minhas palavras.

Por um momento, o rosto dele manteve-se praticamente impassível, e

depois, de supetão, contorceu-se numa mistura de dor e raiva.

Lançou o copo de uísque contra a parede atrás de mim. O vidro

estilhaçou-se em mil pedaços à minha volta. Encolhi-me.

– Alistair… – reclamei, chocada.

Ele agarrou-me o cabelo na nuca e puxou-me a cabeça para trás.

Gritei, de dor e de surpresa, e deixei cair o saco.

– Peter Hindsberg – disse ele.

Ele sabe. Alistair sabia que eu tinha ido falar com o detetive privado.

Sabia do dinheiro. Sabia de tudo. Mas como?

– Mostra-me todos os sítios onde conspurcaste o nosso casamento –

ordenou Alistair. – Foi aqui, nesta sala?

Arrepelou-me com mais força e virou-me a cabeça na direção da sala de

jantar.

– Ou talvez ali, naquela mesa? – inquiriu ele.

– Estás a magoar-me – queixei-me. Tinha lágrimas nos olhos.

Tinha a cabeça a mil à hora, tentando perceber o que se passava. Peter?

Ele achava que Peter e eu tínhamos…?

Obrigou-me a avançar uns passos para a nossa direita e empurrou-me a

cara com força contra as almofadas do sofá. Fiquei com o nariz

esborrachado contra o tecido áspero de guingão. Não conseguia respirar.

– Ou talvez aqui, neste sofá? – continuou ele.

Levantou-me do sofá e virou-me para que o enfrentasse. Segurava-me

pelos ombros. Ofegante, recuei para longe dele, para longe do seu alcance.

– Estás enganado – disse. Sentia a garganta áspera. – Não fiz nada disso.

Não fiz. Juro que não.

Enquanto recuava, cambaleante, atordoada, desequilibrei-me e caí. Bati

com o ombro na lateral da estante e magoei-me. Caí ao chão e desatei a

chorar. Levei a mão ao ombro magoado e, ao tirá-la, vi sangue.

Quando olhei para Alistair, ele estava agachado e segurava a cabeça entre

as mãos.

– Porque fizeste isto? – perguntava ele, uma e outra vez, em voz baixa. –

Porquê?

Não percebi com quem é que ele falava, se comigo se com ele mesmo.

Ao olhar para mim, vi que ele chorava.

*

 

Na manhã seguinte, acordei na nossa cama com uma moinha no ombro.

Abri os olhos e vi o penso que Claire me fizera na sua cozinha, na noite

anterior. Os filhos dela dormiam no piso de cima.

– Caí – dissera-lhe repetidamente. – Caí.

Mas sabia que ela percebera.

Levara-me a casa depois e insistira em passar a noite no sofá da sala,

embora o carro de Alistair já não estivesse na entrada e não houvesse

vestígios dele em casa.

Tinha a cabeça grogue por causa dos analgésicos. Era difícil formar um

pensamento coerente.

Alguém fez rodar a maçaneta da porta do meu quarto. Trancara-a na noite

anterior, receosa que ele tentasse regressar a meio da noite. Encolhi-me na

cama e tapei a cabeça com as cobertas.

Não queria ver ninguém, nem falar com quem quer que fosse.

– Mamã? – chamou uma voz.

Era Charlotte. Charlotte. Charlotte. Charlotte. Pobre Charlotte. Tinha de

me levantar. Tinha de abrir-lhe a porta. Mas não fui capaz de me mexer.