Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 10 de 44

Páginas do PDF

Magníficos Estranhos

Nove CHARLIE CALLOWAY

Nove

 

CHARLIE CALLOWAY

 

2017

 

Na manhã seguinte, acordei no antigo quarto da minha mãe. Ficava no sótão

da casa dos meus avós: uma água-furtada com paredes que acompanhavam

a inclinação do telhado. Ao lado da cama, havia uma pequena janela

circular com vista para a estrada e para o cesto de basquetebol. Imaginei a

minha mãe a acordar aos domingos de manhã ao som dos meus tios Will e

Hank a jogar.

A colcha da cama era um quilt em patchwork que a minha avó fizera. No

quarto, havia ainda uma cadeira de baloiço e uma cómoda branca encimada

por um espelho com várias fotografias presas na moldura. Já estavam

bastante desvanecidas pela passagem do tempo: fotografias dos amigos e

colegas de escola da minha mãe, um instantâneo dela e de Claire, ambas

adolescentes, na marginal de Jersey, da minha mãe sentada ao lado de um

rapaz moreno nos degraus do alpendre da entrada, rindo. Vi prateleiras no

canto oposto do quarto carregadas de troféus e faixas conquistados pela

minha mãe quando pertencera à equipa de natação do liceu, e ainda um

cavalete e uma bata velha.

Ocorreu-me então que, na verdade, não chegara a conhecer a minha mãe.

Durante muito tempo, esforçara-me por esquecê-la ou por odiá-la. E, antes

disso, ela não era uma pessoa, mas a minha mãe. Era a mulher que me

entrançava o cabelo molhado a seguir ao banho. A mulher que ficava

acordada a noite inteira, à minha cabeceira, quando eu adoecia, dando-me

colheradas de gelado para mitigar uma dor de garganta e vendo Wild Hearts

Can’t Be Broken uma e outra vez até o DVD estar riscado. Mas a minha

mãe fora uma pessoa antes de ter sido a minha mãe. Uma pessoa com um grupo de amigos, com gostos próprios e ódios de estimação, com

recordações e aventuras e desgostos amorosos. Vivera uma vida antes do

meu nascimento. Se tentasse conhecê-la melhor, conhecer a pessoa que

havia sido, talvez pudesse compreender por que razão ela partira.

Supus que o melhor sítio para começar era a casa junto ao lago Langely.

Tinha sido aí que o tio Hank encontrara as fotografias, o que, sem dúvida,

constituía uma pista. Há vários anos que não ia à casa do lago, mas se

regressasse e visse a casa sob um novo ponto de vista, talvez encontrasse

alguma coisa, ou porventura me recordasse de algo que pudesse ser útil.

Quando desci à cozinha, a minha avó estava ao fogão, a fazer panquecas.

Havia bacon a fritar numa frigideira. O sorriso dela esmoreceu um pouco ao

constatar que eu já estava vestida e tinha o saco de viagem ao ombro.

– Já te vais embora? – perguntou ela.

– Sim. Tenho um exame de Trigonometria amanhã e ainda preciso de

estudar mais um pouco – menti. – Mas posso ficar para o pequeno-almoço.

– Ótimo – disse ela, animando-se. – Puxa uma cadeira que eu já te faço

um prato.

Sentei-me à mesa da cozinha enquanto ela me enchia um prato com

bacon, ovos e panquecas. Serviu-se de uma caneca de café e sentou-se à

minha frente.

– O teu avô vai ficar deitado até mais tarde – disse ela, com um sorriso

exasperado. – Tem setenta e cinco anos e não conhece os próprios limites!

– É a bacon que cheira?

Levantei a cabeça e vi o tio Hank entrar na cozinha, vindo da sala da

televisão, com as mesmas calças de ganga e camisa de xadrez amarrotada

que vestia na noite anterior. Tinha o cabelo completamente desgrenhado.

– Por falar em crianças que não sabem crescer… – comentou a avó

Fairchild.

Não me apetecia estar perto do tio Hank e receava um pouco o que

poderia acontecer se a minha avó abandonasse a cozinha por algum motivo

e me deixasse ali sozinha com ele. Começaria de novo a bombardear-me

com perguntas e com as suas teorias? Assim sendo, comi à pressa para

evitar essa possibilidade.

Quando fui colocar o meu prato no lava-louça, reparei numa porção de

tupperwares em cima da bancada. Cada pequena pilha tinha uma etiqueta

com um nome. Uma delas pertencia a Claire. Não tivera oportunidade de conversar com ela durante a festa, mas se conseguisse falar com ela a sós,

sondá-la um pouco, talvez ela pudesse dar-me alguma ideia acerca das

fotografias que o tio Hank achara, de entre outras coisas.

– Avó, quer que deixe isto em casa da Claire? Fica em caminho.

– Tens a certeza de que ainda te lembras de onde fica? – inquiriu ela. – Eu

aponto o endereço, pelo sim pelo não.

Escreveu o endereço num post-it e, já à porta, abraçou-me durante mais

tempo do que para mim era confortável.

– Volta em breve, não deixes que se passe mais um ano – pediu ela. – Foi

bom, muito bom, ter-te aqui.

Quando me largou, reparei que tinha lágrimas nos olhos. Virou um pouco

a cabeça para tentar escondê-las.

*

 

Os Rhodes viviam numa casa azul de dois pisos em Maple Street. Havia

uma carrinha verde em frente à garagem quando cheguei. Toquei à

campainha com os tupperwares equilibrados num dos braços.

Foi Greyson quem abriu a porta. Vestia umas calças de ganga e uma t-

shirt de decote em V.

Tinha ainda o cabelo molhado do duche. Cheirava a citrinos e a noz

moscada.

– Martha Stewart, é um prazer ver-te de novo – cumprimentou-me ele.

– A tua mãe está? – perguntei. – A minha avó pediu-me que lhe

entregasse isto.

Mas Greyson não me aliviou do peso. Em vez disso, segurou a porta

mosquiteira aberta e fez-me sinal para que entrasse.

– Levou os rapazes a dar um mergulho – disse ele. – É uma manhã rara de

paz e tranquilidade no lar dos Rhodes.

Fiquei desiludida, mas tentei não o mostrar.

– Ah. E tens ideia de quando é que ela voltará?

– Imagino que daqui a um par de horas já esteja de regresso. Entra –

convidou ele.

Não sabia que outra coisa fazer, por isso, segui-o até à cozinha.

– Podes deixar as caixas aí na bancada – instruiu Greyson. – Eu depois

arrumo-as. – Abriu o frigorífico e meteu a cabeça lá dentro. – Queres um

refrigerante ou outra coisa para beber?

– Não, obrigada – declinei. – Na verdade, tenho de ir andando. Tenho um

teste de filosofia amanhã e ainda preciso de estudar.

– Filosofia? – disse Greyson, levando uma garrafa de água aos lábios. –

Quem é que estás a estudar agora? Aristóteles? Descartes? Nietzsche?

Merda.

– Foucault – respondi.

– Escrevi um ensaio acerca da teoria do panoptismo de Foucault – realçou

ele, bocejando e espreguiçando-se. Tentei ignorar o modo como a t-shirt

deixou à mostra os seus músculos abdominais definidos quando elevou os

braços acima da cabeça.

– Isso – anuí. Engoli o caroço que se formara na minha garganta. Que raio

se passava comigo? Desviei o olhar. – Panoptismo… É acerca disso mesmo

que tenho de escrever o meu ensaio.

Greyson franziu o sobrolho.

– Pensei que tinhas dito que tinhas de estudar para um exame.

Merda.

– Sim, bem, o exame consiste em escrever um ensaio. Mas preciso de

estudar para o escrever – tratei de explicar.

Toma lá, palerma.

Greyson sorriu.

– Que foi? – perguntei.

– Estás a armar alguma – opinou ele. – Franzes a cara como se estivesses

a concentrar-te em alguma coisa com muita atenção. É a mesma expressão

que fizeste naquela ocasião em que fiquei a tomar conta de vocês e tu e o

Ryder desapareceram juntos e quando voltaram, e eu te perguntei o que

tinham andado a fazer, tu disseste «Nada», mas depois eu fui lá acima e

descobri que me tinham enchido o quarto de papel higiénico.

– Pois, talvez certa pessoa devesse ter prestado mais atenção à tarefa de

que fora incumbido do que ao jogo Donkey Kong na sua Nintendo.

– Eu ia no nível nove. Estava prestes a salvar a princesa.

– Com certeza – repliquei. – Tenho mesmo de ir andando.

– Para escreveres o teu ensaio acerca da teoria do panoptismo de Kant?

– Sim, para escrever o meu ensaio acerca da teoria do panoptismo de

Kant.

– Boa tentativa, mas o panoptismo é uma teoria de Foucault, não de Kant

– disse Greyson.

Merda.

– Estás a ver? É por isso que preciso de estudar – argumentei.

– Desembucha, Charlotte. Que andas a tramar?

Suspirei.

– Pronto, está bem – cedi. – Mas não podes dizer à Claire.

– Perfeito. As coisas que prefiro fazer, acima de quaisquer outras, são

precisamente aquelas que não posso contar à minha mãe – respondeu

Greyson, e sorriu.

– Que fazes tu aqui, afinal? – indaguei. – Não terminaste já o curso? Não

devias estar no mundo real, tipo um adulto?

Greyson tirou uma maçã da fruteira que estava em cima da bancada. Deu-

lhe uma dentada e respondeu-me com a boca cheia.

– Terminei o curso, sim – disse. – E até tenho um emprego de adulto, mas

não há nada como renda à borla e refeições caseiras.

Abanei a cabeça, num gesto reprovador.

– Então, basicamente, és uma lapa?

– Nem todas as pessoas têm fundos fiduciários – replicou Greyson.

Limitei-me a encolher os ombros. Não sentia a mínima vergonha ou

constrangimento quando as pessoas mencionavam que eu tinha acesso a

dinheiro que não ganhara, da mesma maneira que nunca me passava pela

cabeça que as pessoas que não eram ricas deviam envergonhar-se disso. Na

minha opinião, o que importava não era as cartas que o universo dava a

cada um, mas, antes, o modo como cada pessoa as jogava.

– Por acaso, não terás uma lanterna que me possas emprestar?

– Posso emprestar-ta, se me levares contigo – respondeu Greyson.

– Okay – anuí. – Vai ter comigo ao carro. Tens dois minutos, e depois

vou-me embora, contigo ou sem ti.

No carro, a caminho da casa no lago, contei a Greyson o episódio das

fotografias que o meu tio Hank encontrara. Foi bom falar disso com alguém,

e Greyson, na verdade, era a pessoa perfeita para me ouvir. Sabia o

suficiente acerca da minha mãe e da minha família para não precisar de

muito contexto, mas era também uma pessoa imparcial. E talvez até fosse

boa ideia levar alguém como companhia. Estava um pouco nervosa em

relação a ir sozinha. Além do mais, dois pares de olhos eram melhores do

que um só: aumentavam as hipóteses de encontrar alguma coisa.

– Como é que vais entrar? – perguntou-me Greyson, quando lhe disse onde íamos. – Vai ser um arrombamento ou apenas invasão de propriedade

privada? E poderá mesmo ser considerado arrombamento ou invasão, se a

casa for nossa? Achas que pesquise isso no google?

Sorriu para mim e passou de novo a mão pelo cabelo.

– Para de fazer isso – pedi.

– De fazer o quê?

Imitei-o de forma exagerada, passando a mão pelo cabelo e dando-lhe um

piparote por cima do ombro.

– Isto – disse.

Greyson riu-se.

– Peço desculpa. A minha farta juba masculina desconcentra-te?

– Nem um pouco – respondi. – E não vale a pena googlares isso. O tio

Hank não tinha chave e encontrou uma maneira de entrar. Nós também

havemos de conseguir.

Fiz pisca para a direita e entrámos no caminho sinuoso que conduzia à

casa. Vista de fora, tinha o mesmo aspeto de quando a abandonámos. O meu

pai contratara um caseiro para cuidar da propriedade e, de fora, ninguém

diria que a casa não era habitada. O relvado estava aparado, os canteiros

mondados, os arbustos aparados.

Entrar foi muito menos difícil, ou mesmo interessante, do que Greyson ou

eu imaginara. A chave de reserva estava no mesmo sítio onde costumava

ficar quando era miúda: no sapo de cerâmica que ladeava a porta traseira da

cozinha.

Por dentro, a casa tinha um aspeto sombrio e abandonado: o soalho

coberto de pó, as cortinas fechadas e a mobília tapada com lençóis brancos.

Se corrêssemos as cortinas, haveria claridade suficiente, mas preferimos

deixá-las fechadas e usar as lanternas.

As fotografias continuavam penduradas nas paredes. Havia uma da minha

mãe, em Jersey Shore. Vestia um fato de banho vermelho e a água dava-lhe

pelos tornozelos. Olhava por cima do ombro para quem estava a fotografá-

la (o meu pai?) e sorria, como se tivesse sido surpreendida num momento

privado. Impressionou-me o quanto a minha mãe era jovem em algumas

daquelas fotografias – talvez poucos anos mais velha do que eu era agora. E

a semelhança entre nós era flagrante; os mesmos olhos grandes e cinzentos

e o mesmo rosto em forma de coração. O mesmo cabelo castanho-escuro e pele pálida, o mesmo sorriso ligeiramente torcido, a mesma covinha na face

direita.

Havia tantas fotografias. Instantâneos dos meus pais no jardim da avó

Eugenia, na casa de Greenwich, fotografias de mim e da minha irmã a

brincar no quintal das traseiras dos avós Fairchilds, no antigo baloiço da

minha mãe. Uma foto do meu pai a abraçar a minha mãe. Instantâneos da

família que costumávamos ser.

Suspenso ao lado destas fotografias, estava um retrato de família numa

moldura pesada e dourada. Seraphina, ainda bebé, ao colo da minha mãe, eu

ao lado dela e à frente do meu pai, Alistair Calloway. Alto e magro e bem-

parecido, como era apanágio dos Calloways, com os seus olhos azuis,

cabelo louro e testa alta. À exceção do cabelo, que começava a encanecer

nas têmporas, estava igual, como se não tivesse envelhecido um único dia.

– Foi a coisa mais estouvada que o meu pai alguma vez fez – afirmei. –

Casar com a minha mãe.

– Como é que se conheceram, então? – inquiriu Greyson, e era uma

pergunta legítima.

– No salão de baile do Carlyle Hotel – contei. Tinha ouvido aquela

história cem vezes. – Numa qualquer festa de beneficência organizada pelos

meus avós. O meu pai trabalhava no Calloway Group. A minha mãe tinha

vinte e dois anos.

– Então, a Grace era tipo o quê? Empregada de mesa na festa?

– Não – ripostei, e fulminei-o com o olhar.

– Que foi? – reclamou Greyson. – Não há nada de errado em ser-se

empregado de mesa.

Olhei novamente para o retrato da minha mãe na parede; tinha um ar tão

elegante, tão feliz. Em criança, nunca me ocorrera perguntar-lhe o que

estava a fazer no salão de baile do Carlyle Hotel. Na minha cabeça, ela

aparecia de vestido de baile e o meu pai dançava com ela e era amor à

primeira vista. Entretanto, tinha de admitir que a presença dela naquele

salão de baile parecia, de facto, estranha.

– O teu pai sempre me meteu um bocado de medo – confessou Greyson,

contemplando o retrato. – É um homem intimidativo, convenhamos.

Não disse nada. Veio-me à memória a noite a seguir ao desaparecimento

da minha mãe. O meu pai tinha ido à esquadra da polícia reportar o

sucedido. A avó Fairchild ficara a tomar conta de nós e estava a dormir no quarto de hóspedes. A meio da noite, a chorar, Seraphina foi ter comigo à

cama. Eu não quis acordar a nossa avó. Tinha sete anos, era a irmã mais

velha e queria ajudar.

– Não chores – disse eu a Seraphina. – Vamos construir um forte e

escondemo-nos, de tudo e de todos.

Arrancámos os lençóis das camas e tirámos as almofadas dos sofás da

sala de estar do rés do chão. Assaltámos o armário da roupa branca e

reunimos toalhões, colchas, edredões e toalhas de mesa. Estendemos tudo

por cima de cadeiras, candeeiros e mesas, prendemos as extremidades às

paredes e às molduras das portas com fita cola. O nosso forte estendia-se

pela sala de estar e de jantar. Munidas de uma pequena lanterna, gatinhámos

pelo labirinto de espaços que tínhamos criado, atribuindo nomes e

propósitos às divisões; e, no final, adormecemos aninhadas no espaço entre

a mesinha do café e o sofá da sala de estar.

Algum tempo depois, o nosso pai chegou a casa. Ouvi a porta da entrada

abrir-se e vi, através do pano de lençol estendido por cima da minha cabeça,

uma luz acender-se. Ouvi os expletivos do meu pai, no vestíbulo, ouvi-o

chamar por nós, ouvi a fita a ser arrancada das paredes, as arestas duras das

cadeiras a embater contra o soalho de madeira ao mesmo tempo que eram

derrubadas ou viradas.

– Foge – sussurrei à minha irmã. – Vai, depressa.

Fugir para onde, não sabia. Mas gatinhámos, uma atrás da outra, ao longo

da sala de estar, com os tetos da nossa fortaleza a cair-nos em cima. O chão

de madeira era duro e implacável sob os nossos joelhos e mãos. Abri

caminho até à sala de jantar e refugiámo-nos sob a enorme mesa de

carvalho.

A Seraphina foi a primeira a ser descoberta. O meu pai puxou-a de

debaixo da mesa da sala de jantar pelo tornozelo. Vi tudo. Sentou-se a

menos de um metro e meio de mim, deitou-a no colo e puxou-lhe as calças

do pijama até aos joelhos. Ouvi o estalido agudo da sua palma contra as

nádegas dela. Uma, duas, três vezes. Vermelha e com a cara franzida e os

olhos a pingar lágrimas, a minha irmã olhava-me fixamente. Chorou e

soluçou, mas não chamou por mim, não me denunciou.

Recuei para as profundezas da mesa de jantar. Tapei a boca com ambas as

mãos, apertei os lábios com os dedos, para que ele não me ouvisse sequer

respirar.

Ali de pé, em frente à parede, contemplei a figura do meu pai, alto e

sorridente, com o braço por cima da minha mãe.

– Imagino que ele não estivesse muito presente, não é? – disse Greyson.

– Estava, sim – contradisse.

– Ah, então eu é que não me lembro de o ver muitas vezes, é só isso.

– Bem, não é que passasses o teu tempo todo aqui – referi.

– Sim, és capaz de ter razão – respondeu Greyson.

Quando chegámos ao patamar do primeiro piso, não virei à direita para ir

ver o meu antigo quarto. Sabia o que aí encontraria; era capaz de percorrê-lo

de olhos fechados, mesmo passados todos aqueles anos: a enorme janela

saliente com vista para o lago, as paredes cor-de-rosa pálidas, as camas de

dossel onde Seraphina e eu dormíamos, a minha casa de bonecas ao canto.

Em vez disso, virei à esquerda e dirigi-me ao quarto dos meus pais, na

extremidade oposta da casa. A porta encontrava-se fechada, mas não

trancada. O interior estava às escuras e pouca era a luz que penetrava pelas

frinchas das cortinas. Abri-as e o pó que se desprendeu delas provocou-me

um ataque de tosse.

O toucador da minha mãe estava coberto de lençóis, mas eu afastei-os e

sentei-me na sua cadeira, como tinha por hábito fazer quando era miúda e

brincava com a sua maquilhagem. Abri o guarda-joias e comecei a revistar

as caixas de veludo. Havia tantas joias: todas oferecidas pelo meu pai,

presumi. Um colar de pérolas no aniversário, brincos de diamante para

comemorar um aniversário de casamento, um anel de safira no dia do meu

nascimento, uma pulseira de platina no dia de São Valentim.

Interroguei-me por que motivo a minha mãe não levara as joias com ela.

Quando partira, o seu SUV ficara estacionado à porta de casa, a carteira

com as chaves, o porta-moedas e o telemóvel estavam em cima da

escrivaninha do quarto. Só ao fim de alguns dias é que alguém se deu conta

de que a sua bagagem não estava no armário – duas malas estampadas com

cornucópias nas quais ela costumava transportar os seus pertences entre a

cidade e a casa do lago. Alguns dos seus objetos também tinham

desaparecido: a escova dentífrica, o pente, o vestido de verão preferido, um

par de sandálias. De início, fez-me confusão tentar descortinar a

importância do que deixara para trás e do que escolhera levar com ela.

Depois, o investigador privado encontrou as imagens das câmaras de

vigilância do banco e tudo se encaixou: a minha mãe não quisera levar nada cuja falta pudesse ser notada, nada que pudesse ser minimamente

localizável. Não queria ser encontrada.

Recordei-me de que havia um rasgão no forro de uma das malas.

Seraphina e eu tínhamos dado com ele certa vez, enquanto a minha mãe

fazia as malas, e encarámos aquilo como uma coisa especial, uma espécie

de compartimento secreto. Costumávamos guardar ali pequenas coisas

quando estávamos de viagem, os nossos bens mais preciosos. Naquele

verão, Seraphina guardara ali um dos seus póneis em miniatura e eu

escondera a pulseira que o meu pai me trouxera de uma viagem de negócios

a Barcelona. Em miúda, ficava por vezes acordada, na cama, à noite, e

imaginava a minha mãe, onde quer que estivesse, a desfazer as malas e a

descobrir os tesouros que Seraphina e eu ali tínhamos ocultado. Uma parte

de mim ficava feliz com o facto de a minha mãe transportar um pedaço de

nós com ela. Interrogava-me se lhe davam algum consolo.

Na gaveta do fundo do guarda-joias, encontrei uma bolsa velha com um

fecho de cordão. Continha um fio dourado com um pendente que tinha a

forma de um caranguejo. O corpo do caranguejo tinha um rubi falso

incrustado e as pinças seguravam diamantes artificiais. Lembrava-me de ver

a minha mãe com ele posto muitas vezes. Fora um dos seus preferidos; ela

usava-o quase todos os dias. Sempre presumira que havia sido uma prenda

do meu pai, mas, ao observá-lo melhor, percebi que era pechisbeque, uma

peça de má qualidade; o fio dourado desbotara e o rubi tinha um aspeto

turvo e plástico. Não era definitivamente uma prenda do meu pai. Assim

sendo, porque o usara com tanta frequência e porque o guardava no guarda-

joias em conjunto com as peças de valor? Não sei porquê, mas houve

qualquer coisa que me fez querer ficar com ele. Guardei-o no bolso.

– Ei, que faz aqui?

Virei-me e vi um homem de fato-macaco na soleira da porta, segurando

uma lanterna. Greyson estava no walk-in closet dos meus pais.

– Esta casa é minha – respondi. – Que está o senhor aqui a fazer?

– Vou chamar a polícia – declarou o homem, e tirou o telemóvel do bolso

para marcar o número. Apontou-me um dedo. – Vi-a tirar uma coisa desse

guarda-joias. É melhor devolvê-la.

– Não é preciso chamar a polícia. O nome dela é Charlotte Calloway –

explicou Greyson, emergindo do closet e colocando-se ao meu lado. – O pai dela é o dono da casa e a pessoa que lhe paga o salário. Talvez seja melhor

não o irritar chamando a polícia por causa da filha dele.

O homem hesitou.

– É a filha do senhor Calloway?

– Sou, sim – confirmei. – E posso prová-lo.

Tirei a carta de condução da carteira e estendi-lha. Ele avançou na minha

direção e aceitou-a, observando o nome e a fotografia e olhando depois para

mim.

– É a sua vez – disse, mal ele me devolveu a carta de condução. – Quem é

você?

– Frankie Martin – respondeu o homem, e passou a mão pela nuca. – Sou

o caseiro há mais de cinco anos. Se bem que é a primeira vez que entro aqui

na mansão. Ninguém me avisou de que vinha cá alguém.

Continuava a olhar-me, de sobrolho franzido, como se não tivesse a

certeza de que eu deveria estar ali.

– Olhe, o senhor, ou eu, pode ligar ao meu pai, se quiser – propus, e

procurei o telemóvel dentro da mala, para dar mais ênfase ao argumento. –

Mas ele está em Aruba, em negócios, e posso afiançar-lhe que não vai ficar

contente por ser incomodado. – Procurei o meu pai nos contactos e pus o

polegar a um centímetro do botão vermelho de chamada.

O meu pai não estava em Aruba. Era domingo e estaria provavelmente em

casa, na cidade, ou no campo de golfe com o meu avô. A verdade era que

não queria ter de explicar ao caseiro por que carga de água eu estava ali.

– Não, não, não é preciso – replicou o homem, massajando de novo a

nuca. – Não se esqueça é de trancar tudo quando sair. É que o responsável

serei eu, se deixar uma porta destrancada e alguém aqui entrar.

– Fique descansado – disse Greyson.

Depois de o Sr. Martin ter partido, Greyson e eu passámos a casa a pente

fino, de forma metódica, divisão a divisão, mas era impossível investigar

todos os cantos e recantos. Começou a escurecer e concordámos que estava

na hora de partir.

– Deixo-te em casa e depois sigo viagem – propus.

– Agradeço – disse Greyson.

Pensei melhor. Não chegara a falar com Claire.

– Para te ser franca, estou com fome – aleguei. Olhei de relance para ele.

– Achas que a tua mãe se importava que eu ficasse para o jantar?

– Quantos mais, melhor – disse Greyson, inclinando-se para a frente para

regular o ar condicionado. – E, sorte a tua, ao domingo é dia de sanduíches

de carne picada.

– Uau – respondi.

Ao jantar, Nolan, o mais novo, relatou a sua proeza daquele dia, saltar da

prancha mais alta da piscina municipal, e Ryder grunhiu monossílabos de

cada vez que alguém lhe fez uma pergunta. Terminado o jantar, ajudei

Claire com a louça enquanto Greyson levava Nolan para cima, para lhe dar

banho, e Ryder se enfiava no quarto para jogar no computador.

– Então, que fizeram hoje tu e o Greyson? – indagou Claire, e esguichou

detergente para a água quente com que enchera a bacia. O vapor erguia-se

da beira do lava-louça. – Não me digas que te obrigou a ficar aqui o tempo

todo enfiada, a ver futebol na televisão?

– Não, passámos o dia quase todo fora – menti. – Ele levou-me à

Geladaria da Mandy, na Third Street. E demos um pequeno passeio pelo

parque.

Merda. A geladaria ainda existiria? Não ia lá desde… desde os sete anos.

Olhei de soslaio para Claire a ver se a minha mentira colara.

Ela fazia que sim com a cabeça e mergulhava o esfregão na água.

– Obrigada – disse Claire. – Por teres tirado o Greyson de casa por umas

horas. Sempre se distraiu. Estava mesmo a precisar de uma coisa assim.

Tirar Greyson de casa? Distraí-lo? Mas Greyson não teria amigos ou

assim? Bem, isso não me surpreendia grandemente, na realidade. Greyson

era um bocado parvalhão, embora fosse giro.

– Ah, sim, claro – respondi.

– E também te queria agradecer por teres ido à festa dos teus avós ontem

– acrescentou Claire. – Sei que foi muito importante para eles ter-te lá.

– Pois – redargui. – Foi… Bom… Ter ido. Estar com eles.

– Passas-me esse prato? – pediu Claire, e eu dei-lhe o primeiro prato da

pilha que havia na bancada.

– Claire, por falar na minha mãe – comecei.

– Sim?

– Estava a pensar… – hesitei. – Não sei, é que, do que me disse ontem

acerca da minha mãe, fiquei com a ideia de que ela seria uma espécie de

livre-espírito. Acha que talvez ela se tenha fartado de estar amarrada, digamos assim, comprometida? Talvez quisesse começar de novo, do zero.

Não é impossível, pois não? Acha que foi por isso que ela se foi embora?

Claire manteve-se em silêncio por um minuto, esfregando um prato, às

voltas. Depois, afundou-o na bacia e virou-se para mim, com as mãos

molhadas e vermelhas por causa da água quente.

– A tua mãe não vos abandonou, a ti e à Seraphina, Charlotte – afirmou

ela. – Eu conhecia a tua mãe melhor do que ninguém e ela jamais teria feito

uma coisa assim.

– Então, ela nunca mencionou que gostaria de partir? – perguntei. – Nem

sequer hipoteticamente? Nunca ansiou por uma coisa diferente?

Claire baixou o olhar e mastigou o lábio inferior como se estivesse a

debater-se consigo própria.

– Claire – pressionei. – Por favor.

Ela suspirou e olhou para mim.

– A tua mãe sempre tentou esconder isto de ti e da Seraphina, mas ela e o

teu pai costumavam brigar.

– Eu sei. Eu ouvia-os.

– Não eram apenas discussões, Charlotte. As brigas eram físicas – revelou

Claire.

– Está a insinuar… está a insinuar que o meu pai a agredia? – indaguei.

Foi como se tivesse levado um murro no estômago. Não. Não. Não devia ter

feito aquelas perguntas. Não queria saber aquilo.

– Julgo que agredia, sim – disse Claire.

– Julga que sim ou sabe que sim?

– A tua mãe era muito protetora em relação ao teu pai e ao

relacionamento de ambos – elucidou Claire. Agarrou no pano de cozinha e

enxugou as mãos. – Não queria que as pessoas soubessem que não eram

felizes. Houve uma briga, uns dias antes de ela ter desaparecido, em que as

coisas azedaram mais do que o costume. A Grace apareceu-me em casa uma

noite com hematomas de uma ponta à outra do lado esquerdo do corpo e um

corte feio e profundo no ombro. Fui eu quem lhe desinfetou e ligou o

ombro.

– Foi o meu pai que lhe fez isso?

Ao esticar o braço para a bancada com o objetivo de me equilibrar, dei-

me conta de que tinha as mãos a tremer.

– A Grace contou-me a sua versão dos acontecimentos – disse Claire. – Houve uma discussão. Os ânimos exaltaram-se. Ela alegou que tinha caído.

– Então, foi um acidente – realcei. Era normal as pessoas discutirem,

perderem a calma. Os acidentes aconteciam. Não fazia sentido. Nada

daquilo fazia sentido.

Claire entendera mal a história, de algum modo. Se uma coisa assim

tivesse acontecido, eu teria sabido.

– Ele nunca faria uma coisa dessas – afirmei, novamente. – Jamais.

– A Grace era uma forasteira, uma intrusa – continuou Claire. – Não

vinha do mesmo mundo que eles. Não era um deles. E eles sempre a

trataram como se ela não pertencesse à família. Eram frios… Toda a família

dele era fria com ela.

– Isso não é verdade – contradisse, porque não era mesmo. Eu saberia, se

assim fosse. – O meu pai amava-a.

– Talvez – respondeu Claire. – Sei que amou, em tempos. No início, pelo

menos.

Havia sido um erro enorme da minha parte ter feito aquele tipo de

perguntas, porque o que é que Claire podia saber acerca do relacionamento

dos meus pais? Não estivera sempre presente; não vira nada em concreto.

Não vira a maneira como a minha mãe se empoleirava nos bicos dos pés

para compor a gravata do meu pai antes de ele sair para o trabalho. Não vira

o modo como o meu pai deslizava as mãos para dentro dos bolsos das calças

da minha mãe quando ela estava ocupada a assar batatas no grelhador das

traseiras, a forma como ela se inclinava para ele. Se Claire tivesse visto as

coisas que eu vira, jamais poderia acreditar que o meu pai fosse capaz de

levantar a mão à minha mãe. Amava-a. Amava-a. E isso foi a sua ruína.

– Então, embora a Claire acredite em tudo isso, que a minha mãe era mal-

amada, maltratada e agredida fisicamente, acha que ela não nos abandonou?

– inquiri.

– Quando soube dos vídeos do banco, não fiquei chocada – respondeu

Claire. – Na minha opinião, ela levantou todo aquele dinheiro com a

intenção de deixar o teu pai, mas ia levar-te a ti e à Seraphina com ela, ia

começar uma nova vida.

– Nesse caso, porque não o fez? – quis saber.

– Porque Alistair Calloway não é um homem ao qual se vire

simplesmente as costas, que se abandone – opinou Claire. – Sobretudo

quando se é uma rapariga de origem humilde, oriunda de Hillsborough. Penso que ele descobriu o que ela estava a planear. Descobriu e… Bem,

castigou-a por isso. Fez de modo que ela jamais pudesse ir-se embora.

As palavras dela gelaram-me as veias. Claire não era melhor do que o tio

Hank e as suas teorias estapafúrdias. Não, era pior do que o tio Hank,

porque falava com ressentimento e inveja. Claire odiava o meu pai e tinha

ciúmes do amor que a minha mãe sentia por ele.

– Podem não ter encontrado o corpo da Grace quando passaram a floresta

a pente fino ou dragaram o lago – conjeturou Claire. – O Alistair é

demasiado esperto. Mas a tua mãe continua em algum sítio, à espera de ser

encontrada. E quando a encontrarmos, ele não poderá continuar a esconder

o que lhe fez. O mundo inteiro irá então saber o que ele é.

– É uma mentirosa – ripostei. – Está a mentir. Porque não diz a verdade?

Eu vi-a. Vi-a naquela noite, com a minha mãe, no lago.

Nunca tinha contado isso a ninguém. Nem à polícia, aquando da

investigação inicial, nem ao meu pai, nem sequer ao tio Hank. Contara-lhes

tudo menos isso.

Tinha havido uma tempestade na noite em que a minha mãe desapareceu.

Ao longo de todo o dia, o céu estivera cinzento e carregado. Os meus pais

discutiram ao final da tarde; o meu pai regressou à cidade. Por volta das sete

e meia, a minha mãe deitou-nos, a mim e a Seraphina, no quarto que

partilhávamos no primeiro andar, e depois saiu para tomar o seu banho

noturno no lago. Levava uma toalha ao ombro e uma touca de natação no

cabelo. Adormeci, mas acordei com o som da chuva a bater nas vidraças.

No meu sonho, recordo-me perfeitamente de a minha mãe me chamar.

Levantei-me e fui à janela. E vi-as, na água, a minha mãe e ela – Claire.

Claire estava de frente para a minha mãe, portanto, de costas para mim,

mas reconheci-lhe o cabelo louro, preso num puxo junto à nuca. Não

estranhei nada vê-la ali. Ela e a minha mãe estavam sempre juntas e não era

invulgar sentarem-se as duas no alpendre fechado das traseiras numa noite

assim, a desfrutar de um copo de vinho. Porém, havia qualquer coisa de

estranho no modo como se abraçavam, na forma desesperada como se

agarravam uma à outra dentro de água, que me fez desviar o olhar,

constrangida. Senti um nó no estômago.

Não significava nada, disse a mim mesma, a maneira como estavam

abraçadas. A minha mãe amava o meu pai, claro. Ela gritara e ele tinha-se

ido embora, mas fora apenas um desentendimento. Voltei para a cama.

De manhã, percebi que a tempestade fizera estragos no quintal. Havia

galhos de árvores no relvado das traseiras e no lago. Levantei-me e avancei

pelo corredor até ao quarto dos meus pais, à procura da minha mãe, mas ela

não estava lá. A cama nem sequer estava desmanchada.

– Vi-vos às duas juntas naquela noite – afirmei. – Vi-a no lago. Sei que

você e a minha mãe… não eram apenas amigas.

Claire encostou-se ao lava-louça como se precisasse de apoio para se

manter de pé.

– Charlotte – respondeu ela –, não sei de que estás a falar.

– Não precisa de me mentir – disse. – Não planeio dizer a ninguém. Só

quero saber.

– A última vez que vi a tua mãe foi uns dias antes – argumentou Claire. –

Não fui a vossa casa naquela noite.

– Diga-me a verdade – pedi. – É a única coisa que lhe peço. Diga-me o

que estava ali a fazer. Diga-me o que significavam as fotografias.

– Que fotografias? – perguntou Claire.

– Você sabe. Eu sei que a Claire sabe.

– Charlotte, não faço ideia do que viste naquela noite ou quem é que

viste, mas fosse quem fosse, não era eu – asseverou Claire.

Esticou o braço como se quisesse reconfortar-me, e eu dei um passo atrás.

Bati com a mão num copo de vidro que estava em cima do balcão; caiu ao

chão e estilhaçou-se.

– Charlotte – disse Claire.

– Tenho de ir – respondi.

Às cegas, agarrei na carteira que deixara em cima de uma cadeira e

cambaleei na direção da porta da frente. Estava sentada no carro, a fazer

marcha atrás para me afastar dali, quando me dei conta do que estava a

acontecer.

Claire estava a mentir; tinha de estar a mentir.

A única questão era que… não tinha a certeza absoluta de que ela

estivesse a mentir.