Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 23 de 44

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Magníficos Estranhos

Vinte e dois ALISTAIR CALLOWAY

Vinte e dois

 

ALISTAIR CALLOWAY

 

VERÃO DE 1997

 

A galeria de arte de Hillsborough ficava num edifício antigo de tijolo

encarnado junto à avenida principal. Semicerrei os olhos para os proteger da

luz que se refletia nas paredes brancas e no chão de cimento e olhei à volta

em busca do único rosto familiar que esperava encontrar ali, mas não vi

Grace em lado nenhum.

Recebera pelo correio há uma semana o folheto a anunciar a exposição de

artistas locais. O remetente era Grace, que acrescentara um bilhete ao

folheto: «Alistair, para o caso de ficares curioso …» Guardara o bilhete e o

folheto na gaveta da secretária, longe da vista. Não estava interessado. Ou

melhor, não devia estar interessado. Naquela manhã, contudo, tirara o

folheto da gaveta e, sem pensar duas vezes, vestira uma camisa informal e

pedira ao valet que fosse buscar o meu carro.

Deambulei sozinho pela galeria, observando as peças de arte tão diversas

que pendiam das paredes; havia fotografias, quadros a óleo, gravuras.

Avistei-a por fim. Grace estava na outra extremidade da sala, perto da mesa

dos hors d’oeuvres, à conversa com um grupo de pessoas que eu não

conhecia. O homem ao lado dela encostou a mão às suas costas e Grace

continuou a falar como se fosse a coisa mais natural do mundo que aquele

sujeito lhe estivesse a tocar. Senti um aperto no peito.

Não devia ter ido. Fora uma decisão impulsiva e idiota, tornada em ainda

mais asinina pelo facto de ser dia de trabalho. Devia era estar no escritório.

Tínhamos despedido o nosso consultor de design para o projeto de Murray

Hill e eu devia ter passado aquela tarde a ver os currículos que o

Departamento de Recursos Humanos me enviara. Consultei o relógio. Se não apanhasse trânsito, conseguiria estar na cidade dali a uma hora e meia.

Pensava num sítio para parar e comer qualquer coisa quando levantei a

cabeça e o vi: o rosto eternamente jovem de Jake a olhar-me fixamente.

Era um quadro abstrato a óleo sobre tela. As cores garridas das suas

feições eram surpreendentes: amarelo, cor de laranja, azul. Tonalidades

fortes e alegres, porém, havia qualquer coisa de sombrio no olhar dele. A

tinta sobre a tela era espessa, tendo sido espalhada por uma espátula que lhe

conferia uma certa textura e tornava em palpável cada ângulo das suas

feições, bem como a tristeza que transmitiam.

– Sempre vieste.

Rodei a cabeça e vi Grace ao meu lado. Sorriu e ofereceu-me um copo de

vinho branco.

– Recebi o teu bilhete – expliquei, aceitando o copo.

Grace acenou que sim com a cabeça.

– Nunca cheguei a agradecer-te por… Tu sabes – disse Grace.

Clareei a garganta e desviei o olhar. Não vira ou falara com Grace desde a

cerimónia de licenciatura de Teddy. A imagem de Grace quando a amparara

para que não caísse, os olhos cheios de lágrimas, o tornozelo torcido, as

palavras balbuciadas acerca de Teddy e do seu jogo cruel, ainda me

ensombrava.

– O Teddy é um idiota – afirmei.

– Pois – anuiu Grace. – Demorei algum tempo a perceber isso.

Virou-se e apontou para as telas na parede.

– Então, que achas tu? – perguntou ela, mudando de assunto.

Olhei de novo para a parede. Só tinha reparado no quadro que retratava

Jake, mas percebi então que havia também uma série de retratos abstratos:

uma mulher de meia-idade que se parecia vagamente com Grace (a mãe

dela talvez?), encostada a um lava-louça; um adolescente de pernas

compridas a andar de skate; uma mulher jovem e loura numa praia, de

ombros despidos e queimados pelo Sol. Cada um dos quadros exibia as

mesmas cores vivas que o de Jake, a mesma textura, mas, de certo modo,

pareciam mais alegres, mais claros.

– Fantásticos – respondi.

– Sabes, estive a rever todas as fotografias que tinha dele, à procura da

imagem certa para pintar – revelou Grace. – Escolhi as minhas recordações

preferidas: o Jake no lago, o Jake na marginal, o Jake a matar o tempo no alpendre da minha casa. E, apesar disso, os quadros saíram todos assim.

Independentemente das cores garridas que escolhesse, o estado de espírito

parecia ensombrá-las e macular todo o retrato. Ele não era assim, mas é

deste modo que agora o recordo.

Ficámos em silêncio por um momento. Olhámos um para o outro. Por

cima do ombro de Grace, vi que o homem com o qual ela estivera a

conversar nos observava. O seu olhar pareceu-me territorial e pouco

acolhedor. Acotovelou a pessoa com quem estava a falar e acenou com a

cabeça na nossa direção, como se estivesse a perguntar quem eu era.

Devolvi a minha atenção a Grace.

– Não quero afastar-te dos teus amigos – disse.

– Não estás a fazê-lo – respondeu Grace.

– Bem, parece-me que o teu namorado não está a gostar muito que estejas

a conversar comigo.

– O meu namorado? – Deu meia volta para ver a quem eu me referia. –

Ah, é o meu irmão Hank – explicou Grace, e deu uma risada.

O peso que sentira no peito desvaneceu-se de imediato e ri-me também.

– Está apenas a ser protetor – continuou Grace. Fez uma pequena pausa. –

Eu não… De momento, não namoro ninguém.

Anuí com a cabeça, incapaz de a olhar nos olhos.

– O Jake falava muito de ti, sabias? – referiu Grace, que concentrara de

novo o seu olhar no retrato de Jake. – Quando falava de Knollwood e dos

amigos que lá tinha, o teu nome era o que surgia com maior frequência.

– A sério?

– Sim – confirmou Grace. – Julgo que ele te admirava.

Limitei-me a acenar novamente com a cabeça. Não sabia o que dizer. Há

anos que não falava com ninguém de Jake. Na altura da sua morte, fora

difícil não falar dele, não pensar nele. Passado todo este tempo, porém, as

palavras escapavam-se-me.

– Entendo que não gostes de falar dele – disse Grace. – Portanto, não

temos de fazê-lo. Mas queria fazer-te uma pergunta antes de encerrarmos o

assunto para sempre. Nunca tive a oportunidade de ver o Jake em

Knollwood. Ele falava muito da escola, mas eu nunca o fui lá visitar, e

sempre quis saber como era o Jake na escola. Parecia-te feliz?

– Sim, gostava de lá estar. Era feliz – respondi.

– Bem me pareceu – disse Grace. – Quando conversávamos, ele soava-me sempre feliz.

– Toda a gente gostava do Jake – prossegui. – Era difícil não gostar,

embora quase desse vontade de o detestar, porque aquele filho da mãe saía-

se bem a tudo.

Grace deu uma gargalhada, como quem entendia muito bem isso.

– Era um ás na sala de aula e era um ás no campo de ténis… Bem que me

fazia suar as estopinhas – contei.

– Foi isso que sempre me fez espécie – confessou Grace. – Dir-se-ia que a

vida lhe corria bem. Mas suponho que não era bem assim. Nunca imaginei

que ele estivesse com dificuldades.

– Knollwood é uma escola muito competitiva – argumentei. – Todos nós

enfrentámos dificuldades, de tempos a tempos.

– Ele nunca te disse nada acerca de sentir que estaria a ficar para trás?

Senti um nó na garganta. Não queria falar mais do assunto. Abri a boca

para lhe responder, mas não fui capaz. Limitei-me a abanar a cabeça.

– Comigo ele também nunca se abriu – lamentou Grace.

Tinha de pôr um ponto final naquele interrogatório antes que a coisa fosse

demasiado longe.

– Posso dizer-te muita coisa acerca do Jake – afirmei. – Mas se procuras

uma explicação para o que aconteceu, eu não tenho nenhuma.

Grace ficou calada por um momento.

– Isto pode soar-te mal – disse ela –, mas a verdade é que ouvir-te dizer

isso me faz sentir melhor. É que… Durante muito tempo, achei que o

dececionara, ao não me aperceber de nada. É reconfortante ouvir que não

fui a única a quem o sucedido apanhou desprevenida.

Sem pensar, estiquei o braço a agarrei-lhe a mão. O gesto surpreendeu-a,

mas ela não afastou a mão.

– Escuta-me, Grace – disse eu, lenta e deliberadamente, porque era

importante que ela me ouvisse. Era importante que ela compreendesse. – O

que aconteceu ao Jake não foi culpa tua. Não tiveste nada que ver com o

sucedido.

Ela olhou-me com um ar pesaroso.

– Não foi culpa tua – tornei.

Grace cobriu a minha mão com a sua e deu-lhe um pequeno apertão.

– Também não foi culpa tua – devolveu ela.

Encolhi-me ao ouvir aquelas palavras. Não suportava mais aquela situação, mas tinha a mão presa entre as dela.

Clareei a voz e desviei o olhar.

– Eu… Tenho de ir andando para a cidade – declarei, e libertei a mão,

fingindo que tinha de coçar a nuca com ela.

– Tens de ir agora mesmo? – indagou Grace. Soava desapontada. – Podes

esperar meia hora? Queria muito mostrar-te uma coisa.

Olhei para ela. Grace parecia fazer questão naquilo.

– Okay – cedi.

Ela fez um sorriso rasgado e satisfeito.

– Ótimo – respondeu.

*

 

Grace sentou-se no banco do passageiro do meu carro e foi-me dando

direções. Uns minutos depois de termos saído da vila, disse-me que parasse

junto a uma pequena mata. Estacionámos sob um ulmeiro rachado ao meio

por um raio. Grace deu-me a mão e conduziu-me pela mata. Por uma

clareira no meio das árvores, avistei o lago.

– O lago Langely – anunciou Grace.

Apontou para um carvalho frondoso à beira da água. Havia várias tábuas

de madeira na horizontal a preencher o espaço entre os dois ramos largos

em que o tronco se ramificava. Tábuas mais pequenas tinham sido pregadas

ao tronco e serviam de escada de mão.

– Fomos nós que construímos aquilo, o Jake e eu, quando éramos miúdos

– revelou Grace. – Era o nosso lugar especial. Mais ninguém sabia da sua

existência. Sei que não parece grande coisa, mas, para nós, era uma coisa

fantástica.

Grace trepou a escada improvisada até à casa na árvore e eu segui-a.

Sentámo-nos nas tábuas com as pernas a pender na direção da água.

– A primeira vez que te vi foi aqui precisamente – disse Grace. – O Jake

abriu o seu anuário aqui, naquele primeiro verão que veio a casa. Apontou

para a tua fotografia e disse-me o teu nome. Tinhas um ar tão arrogante e

impertinente com aquele blazer vestido que nem acreditei quando o Jake me

disse que vocês eram amigos.

Ri-me.

– A culpa não é minha – aleguei. – Toda a gente tinha de usar aqueles

blazers. Parecíamos todos uns cretinos pretensiosos.

– Acredita, não era o blazer – contradisse Grace. – Eras tu. Tinhas um

ar… Não sei, era como se soubesses que eras melhor do que os restantes.

– Bem, que posso dizer… Sempre causei uma excelente primeira

impressão – gracejei. – Por mais curioso que possa parecer, a primeira vez

que te vi também foi numa fotografia. Julgo que mencionei isso quando nos

conhecemos. Era uma fotografia tua a comer um gelado de cone que o Jake

tinha na secretária dele.

– Ah, sim – recordou Grace. – Aquela em que tenho a cara lambuzada de

gelado? Estás a ver, também causo uma excelente primeira impressão. – Fez

chocar o ombro contra o meu e contemplou o lago. – Eu achei que eras um

vaidoso e tu achaste que eu era uma selvagem que ainda não tinha

dominado a arte de comer.

– Não. Não pensei nada disso – afirmei.

– Ah não? Então, que pensaste? – perguntou Grace.

– Achei… achei que eras a personificação da felicidade – respondi. Não

sabia pôr por palavras o que sentira ao ver a fotografia dela, mas alguma

coisa dentro de mim mudara nessa ocasião. – Pensei: tenho de conhecer

aquela rapariga.

Seguiu-se um momento dolorosamente longo até Grace ter desviado o

olhar, fixo no lago, e olhado para mim. Queria confessar-lhe os meus

sentimentos, mas sentia tanta coisa ao mesmo tempo. Em vez disso, tomei-a

nos braços e beijei-a. Ela não me rechaçou. Beijou-me de volta.

Puxou pelo colarinho da minha camisa, arrastando-me com ela para as

tábuas da improvisada casa na árvore. Dali a um segundo, as minhas mãos

estavam enleadas no cabelo dela, desabotoavam-lhe a blusa, roçavam a

bainha da sua saia.

Depois, demos as mãos, e Grace encostou a cabeça ao meu ombro.

Juntos, contemplámos o lago e vimos o Sol desaparecer atrás das árvores,

na outra margem, como a chama de uma vela a tremeluzir antes de se

apagar.