Magníficos Estranhos
Quarenta e um CHARLIE CALLOWAY
Quarenta e um
CHARLIE CALLOWAY
2017
Nunca vira o refeitório tão concorrido numa manhã de domingo. A maior
parte dos ex-alunos cujos filhos frequentavam Knollwood apinhava-se em
frente ao bar das panquecas ou estava sentada nas mesas compridas de
carvalho, a tomar o pequeno-almoço com os filhos. Agarrei numa tigela de
cereais e num copo de sumo de laranja e fui sentar-me a uma mesa vazia.
Consultei o relógio. O meu pai combinara encontrar-se comigo para o
pequeno-almoço às oito e meia da manhã. Regressaria depois à cidade.
Eram quase oito e quarenta e cinco.
– Estás melhor?
Levantei a cabeça e vi o meu pai com duas canecas de café.
Abandonara a gala cedo, dizendo apenas ao meu pai que me ia deitar
porque estava com uma enxaqueca debilitante.
– Passei no teu dormitório para ver como estavas – disse ele, depois de se
ter sentado à minha frente. Fez deslizar uma das canecas de café na minha
direção. – Bati-te à porta, mas não abriste. Tinhas a luz apagada.
– Desculpa. Adormeci profundamente – menti.
Na verdade, não abri porque não estava no quarto. Estivera no quarto
apenas o tempo suficiente para mudar de roupa, fazer algumas alterações de
última hora no meu artigo para o Knollwood Chronicle e carregá-lo, em
conjunto com as fotografias, na flash drive que comprara há uns dias na
papelaria da escola. Depois, saíra para intercetar Finn e trocar a flash drive
dele pela minha. Quando regressei ao quarto, era quase uma da manhã.
Depois disso, não conseguira pregar olho. Não parara de pensar na
magnitude do meu ato. Não havia como voltar atrás. O artigo que escrevera e aquelas fotografias iriam em breve aparecer impressos, para quem
quisesse lê-lo e vê-las. Para sempre. Dera voltas e voltas na cama e tinha
acabado de adormecer quando o meu despertador tocou. Tive de me arrastar
para fora da cama, pois combinara tomar o pequeno-almoço com o meu pai,
antes de ele voltar para a cidade.
– Há quanto tempo é que isto dura? – perguntou o meu pai, despertando-
me do meu devaneio.
– O quê?
– As tuas enxaquecas – disse ele. Estava preocupado. Percebi isso pela
ruga entre as suas sobrancelhas.
– Ah. Há pouco tempo. Isto não é nada.
– Não tens bom aspeto – referiu ele. – Talvez devesses vir comigo.
Marco-te uma consulta para o doutor Carmichael para amanhã de manhã.
– Na próxima semana, são os exames – fiz notar. – Não posso faltar aos
exames.
– A tua saúde é mais importante – realçou o meu pai. – Peço ao doutor
Carmichael que redija uma justificação. Fazes os exames quando te sentires
melhor.
Obriguei-me a levantar os olhos da tigela de cereais e a olhar para o meu
pai. Tinha um ar tão preocupado, tão protetor, tão paternal. Custava-me
olhá-lo nos olhos depois do que fizera, depois da maneira como o traíra. E
ele tratava-me com tamanha amabilidade precisamente porque ainda não
sabia. Mas iria entender, não iria? No final, perdoar-me-ia. Certo?
Devia dizer-lhe a verdade, pensei. Sabia que devia contar-lhe tudo,
porque, mais cedo do que mais tarde, ele acabaria por descobrir. Abri a
boca, mas, antes que conseguisse formar uma palavra sequer, Dalton
apareceu atrás dele, com um tabuleiro nas mãos.
– Onde é que te meteste ontem à noite? – perguntou Dalton.
Contornou a mesa e sentou-se ao meu lado. Para meu desânimo, vi
Margot no encalço dele. Sentou-se à minha frente, ao lado do meu pai.
– Alistair – cumprimentou-o ela, com um sorriso, e ele respondeu com
um aceno de cabeça.
– Enxaqueca – respondi.
Dalton acariciou-me as costas.
– Já te sentes bem? – indagou ele.
– Já, sim, obrigada – asseverei.
– Talvez a minha mãe pudesse observar-te e receitar-te qualquer coisa –
sugeriu Dalton. Olhou para Margot.
– É muito generoso da tua parte – apressou-se o meu pai a dizer –, mas eu
preferia que a Charlotte fosse ao nosso médico de família.
– Talvez seja o melhor – concordou Margot. – E então, Alistair, que tal te
saíste no leilão?
Para meu alívio, deixei de ser o tema de conversa. Nesse momento, vi
uma aluna do segundo ano a olhar embasbacada para mim.
Desviou o olhar assim que se deu conta de que eu reparara nela. Foi então
que a vi, aberta em cima da mesma, à frente dela, a edição do Knollwood
Chronicle daquela semana.
Olhei em redor do refeitório e vi que não era apenas ela. A maior parte
das pessoas olhava-me fixamente. Era como uma tempestade prestes a
rebentar. Os murmúrios, o silêncio espantado. Aquela sensação familiar de
ser o alvo de especulação e sussurros. Ao mesmo tempo que observava o
refeitório, o meu olhar cruzou-se com o de Leo, na entrada. Estava branco
como um lençol. Habitualmente seguro de si mesmo e valente, o meu primo
tinha um ar aterrorizado.
Apercebi-me então de uma coisa pelo canto do olho e virei-me a tempo de
ver Ren Montgomery a precipitar-se para mim. Placou-me, basicamente,
empurrando-me da cadeira para cima da mesa. O meu copo de sumo de
laranja saiu disparado e derramou o seu conteúdo polposo no colo de
Margot; o meu cotovelo aterrou dentro da tigela dos cereais e bati com o
cóccix na beira da mesa.
– Então, Ren? – reclamou Dalton. Arrancou-a de cima de mim e interpôs-
se entre nós. – Qual é o teu problema?
– Qual é o meu problema? – cuspiu Ren. – Porque não perguntas à cabra
traidora da tua namoradinha quem é que acabou de nos denunciar?
– De que estás a falar? – perguntou Dalton. Olhou para mim, ainda
esparramada de costas em cima da mesa, depois para Ren, e de volta para
mim.
– Estou a falar de todos os nossos segredos, que a Charlie acabou de
tornar numa notícia de primeira página – explicou Ren. Estava histérica.
Deu meia volta, arrancou o número do Knollwood Chronicle das mãos da
aluna sentada na mesa ao lado e empurrou-o contra o peito de Dalton. –
Notícia de última hora! A tua namoradinha bufou-nos!
Sentei-me e tirei o cotovelo da tigela de cereais. Tinha a manga da
camisola encharcada de leite.
– Estás tão tramada! – ameaçou-me Ren, ao mesmo tempo que me
apontava o dedo. – Estás acabada.
Sentada na mesa, a segurar o cotovelo dorido e ensopado em leite, sabia
que Ren tinha razão. Porque tinha acabado de premir o gatilho da arma que
municionara para o clube A no início daquele ano.
– Que se passa? Que é isto? – indagou o meu pai. Arrebatou o jornal das
mãos de Dalton.
– É a verdade – declarei. Olhei para Margot. A sua expressão foi
mudando à medida que se dava conta do que eu tinha feito. – Toda a
verdade.
O meu pai olhou para o jornal que tinha nas mãos e começou a ler.
Era a história que eu tinha escrito, assim como as fotografias. Publicara-
as, afinal de contas. Não as do professor Andrew, como inicialmente
planeara, mas as dos membros do A no Rebordo, na noite em que Jake
morrera.
Tinha decidido por fim que tipo de pessoa queria ser.