Magníficos Estranhos
Quatro GRACE CALLOWAY
Quatro
GRACE CALLOWAY
4 DE AGOSTO DE 2007
16h35
Era capaz de senti-la no ar naquele dia: a despedida do verão. O calor
sufocante de julho dera lugar a tardes mais frescas de agosto. E não fora
apenas o calor que amainara; a energia das miúdas também. Charlotte e
Seraphina estavam a ficar entediadas. A novidade de estarem na casa do
lago começava a desvanecer-se. Correrem descalças pelo meio dos
aspersores do relvado, acamparem no quintal das traseiras, os churrascos no
pátio – outrora grandes aventuras – assemelhavam-se então a rotina.
Tinham posto de lado o baloiço, feito a partir de um pneu, que Alistair
pendurara no velho ulmeiro que havia na beira do lago, e perdido o interesse
em fazer corridas a nadar até à jangada e de volta à margem. Há poucos
dias, deparara com Charlotte e Seraphina no sofá de couro da sala de estar
entretidas a jogar PlayStation.
Tive a nítida sensação de que era o final de qualquer coisa. E foi mesmo.
Acomodada nos bancos estofados da proa do barco, observei Alistair
sentado ao leme. Tinha Charlotte ao colo e estava a ensiná-la a navegar a
nossa nova lancha de proa aberta, com sete metros e meio, uma Sea Ray.
Não conseguia ouvir o que diziam um ao outro, por causa do barulho do
motor e das ondas quebrando-se contra o casco. Seraphina estava de
joelhos, ao meu lado, inclinada por cima da amurada com as mãos
estendidas para apanhar os salpicos das ondas. Com um dedo enganchado
numa das presilhas do seu colete salva-vidas, prendia-a a mim para o caso
de uma onda maior a fazer perder o equilíbrio.
O lago tinha pouco menos de um quilómetro quadrado e meio e estava
rodeado de bosques e terrenos inexplorados. Algumas casas salpicavam a
linha da costa, aqui e ali, e havia um embarcadouro público no lado norte.
Passámos por um pescador no seu barco de alumínio, junto à extremidade
do lago. Ele contemplou-nos por baixo da pala do seu boné e eu levantei o
braço e acenei-lhe.
Imaginei o que um espectador fortuito pensaria ao ver-nos: que éramos
apenas uma família feliz a desfrutar de uma tarde de sábado no lago.
Tirei então um instantâneo mental. Os caracóis louros de Seraphina
soprados pela brisa. Clique. Charlotte com o boné de basebol do pai na
cabeça, espreitando por cima do leme. O boné, dos Knicks, ficava-lhe
demasiado grande, embora Alistair o tivesse ajustado até ao limite. Não
parava de lhe deslizar até à cana do nariz, tapando-lhe os olhos, e Charlotte,
que se recusava a tirá-lo, inclinava a cabeça para trás para recuperar a visão.
Clique. Alistair, o meu marido perfeito e tão bem-parecido (o seu cabelo
louro e os ombros morenos e musculados refletindo o sol), segurava a nossa
filha nos braços. Clique.
Na universidade, fizera uma cadeira de fotografia e o nosso professor
tinha uma citação de Ansel Adams na parede: «Não tiramos uma fotografia,
fazemo-la». Sempre achara que uma fotografia era feita não uma vez, mas
duas. No primeiro, e mais óbvio, instante, o fotógrafo compõe a fotografia:
escolhe o enquadramento, o ângulo, a luz, a disposição dos elementos.
Escolhe o que pretende que vejamos. A história que ele quer contar é
encenada, é artificial. No entanto, todas as fotografias são compostas, ou
feitas, uma segunda vez, quando o espectador olha para ela. É que não
vemos a fotografia apenas como ela é, vemo-la também como nós somos,
ou seja, sob a nossa perspetiva. Emprestamos à imagem o nosso contexto, a
nossa própria história, as nossas perceções. O espectador é que lhe atribui o
significado. Sempre achei que o que as pessoas viam quando contemplavam
uma fotografia dizia mais acerca delas do que o que, na realidade, estava na
imagem.
Dispus então os meus instantâneos mentais para os examinar e tentei
apagar-me a mim mesma. Esforcei-me por ver aquelas imagens da mesma
forma que um estranho as veria. Distanciei-as da minha mente para que
todas as complexidades se fundissem, até que se tornassem numa paleta inofensiva de cores e linhas. Por um momento, desejei que as coisas fossem
apenas o que pareciam ser, à distância.