Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 26 de 44

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Magníficos Estranhos

Vinte e cinco CHARLIE CALLOWAY

Vinte e cinco

 

 

CHARLIE CALLOWAY

 

2017

 

Aconcheguei-me melhor no meu blusão de aviador e tentei acompanhar o

ritmo de Dalton. O que para ele era uma passada vagarosa, para mim era

apressada. Calçara inclusivamente botas de salto para tentar compensar a

diferença de altura entre nós os dois.

Dalton colocou o braço à volta dos meus ombros e perguntou-me ao

ouvido se me apetecia um café.

Respondi que sim com a cabeça, entrámos numa cafetaria apinhada em

West Village e pusemo-nos na fila. Tanto eu como Dalton tínhamos

permissão da escola para visitar a exposição de David Tower e passar a

noite com os nossos pais na cidade, regressando a Knollwood no dia

seguinte. Tínhamos saído bem cedo naquela manhã. Dalton ia ao volante.

Parámos nos arredores de Hartford para tomar o pequeno-almoço. Era bom

sair da escola por algum tempo e a companhia de Dalton era muito

agradável. Sempre servia para me distrair da minha mais recente obsessão:

as fotografias que estavam na pasta que surripiara do gabinete do detetive

privado.

Que fotografias eram aquelas? De onde é que tinham vindo? Que

significavam? E, acima de tudo, que faziam ali? Examinara as folhas de

papel soltas também incluídas na pasta, mas continham sobretudo rabiscos

ilegíveis. Apenas conseguira perceber uma data no topo de uma das folhas:

14 de julho de 2007 (três semanas antes do desaparecimento da minha mãe),

e as palavras «Knollwood» e «Jake Griffin».

Portanto, três semanas antes de a minha mãe desaparecer, Peter

Hindsberg estivera a ajudá-la num caso que envolvia o seu falecido ex-namorado, colega de escola do meu pai.

E havia ainda as outras fotografias, as que o meu tio Hank encontrara

debaixo das tábuas do soalho no quarto dos meus pais, na casa do lago

Langely. As fotografias de Peter Hindsberg e da minha mãe, e o bilhete que

as acompanhava: «EU SEI». E aquela palavra no verso da fotografia que me

retratava a mim: «PARA COM ISSO».

Teria alguém descoberto o caso que levara a minha mãe a solicitar os

serviços de Peter Hindsberg? E, se assim fosse, ter-se-ia essa pessoa (ou

essas pessoas) sentido ameaçada a ponto de enviar aquelas mensagens à

minha mãe, e que mais seria capaz de fazer? Talvez a minha mãe se tivesse

assustado e resolvido fugir. Ou talvez nem tivesse tido oportunidade de

fazê-lo.

Senti um calafrio pelas costas abaixo e sacudi a cabeça para enxotar

aqueles pensamentos.

Dalton estendeu o cartão de crédito à empregada e insistiu em pagar o

meu café. Abri a boca para objetar, mas Dalton lançou-me um olhar que

significava que não iria mudar de ideias.

– Obrigada – agradeci.

– Ora essa, é um prazer – respondeu ele com um sorriso nos lábios.

Qualquer pessoa que olhasse para nós pensaria que éramos namorados.

Que Dalton era apenas um rapaz simpático e normal (que era) e que eu era

apenas uma rapariga simpática e normal (que não era).

Desde o beijo que trocáramos no quarto de Dalton, reparara numa

mudança subtil na maneira como ele me tratava. Tornara-se num protetor e,

de certa forma, possessivo. Ao jantar, os rapazes tinham começado a sentar-

se na mesma mesa que eu, Drew, Yael e Stevie. Até então, raramente o

faziam, mas, de repente, era como se fizéssemos parte do grupo. Por vezes,

Dalton sentava-se ao meu lado, recostava-se na cadeira e, como quem não

queria a coisa, esticava o braço por cima das costas da minha cadeira. Como

se fôssemos namorados. Certa vez, Walker Trefont fizera uma piada

qualquer acerca da minha falta de coordenação como voleibolista e Dalton

respondera-lhe de imediato com uma observação sarcástica relacionada com

a falta de perícia de Trefont no lacrosse. Trefont corou até à raiz dos cabelos

e não abriu mais a boca até ao final da refeição. Era como se Dalton fosse o

meu cão de guarda.

Sabia que a minha reação àquilo – a reação normal que qualquer pessoa teria – devia ser ficar contente, satisfeita. Devia ter rabiscado o nome de

Dalton no canto do caderno, encomiar incessantemente os olhos dele ou

qualquer outra característica.

Em vez disso, dava por mim a afastar-me, a esgueirar-me para longe. Se

Drew falasse de Dalton, eu calava-me, encolhia os ombros, na melhor das

hipóteses, e não mostrava o mínimo entusiasmo. Ao jantar, por vezes, fazia

questão de não lhe dirigir a palavra ou de não olhar na direção dele. Nas

aulas, se Dalton desse a sua opinião durante uma qualquer discussão, eu

levantava o braço e defendia fervorosamente a posição contrária. Era como

se quisesse que ele me odiasse.

Sabia que era uma parvoíce, porque a verdade é que gostava de Dalton.

Era um rapaz inteligente, amável e popular. Via os olhares que as outras

raparigas lhe deitavam e apercebi-me da frieza delas comigo quando se

tornou óbvio que Dalton gostava de mim. Também me sentia atraída por

ele. Gostava de beijá-lo em corredores às escuras ou atrás do balneário dos

rapazes, depois do treino de futebol. Gostava de lhe desabotoar o casaco e

de encostar o meu corpo ao dele. Por alguma razão, no entanto, sentia que

devia refrear-me, de mantê-lo a alguma distância, sempre que pudesse.

O telemóvel de Dalton vibrou e ele sacou-o do bolso para ver do que se

tratava.

– Parece que a minha mãe está um pouco atrasada – disse ele. – Pergunta

se há algum problema em ir ter connosco ao escritório do teu pai.

– Não há problema nenhum – garanti.

Segundo Dalton, a mãe dele estava ansiosa por me conhecer. Supus que

ele lhe dissera que namorávamos. Ao saber que íamos estar na cidade um

dia inteiro, convidara-nos para jantar. Dalton tinha sugerido que eu

convidasse o meu pai também, e assim mataríamos dois coelhos com uma

só cajadada, já que Dalton também não conhecia o meu pai. Eu ainda

considerara inventar uma desculpa esfarrapada, tipo que o meu pai não

estava na cidade. Em abono da verdade, não sabia bem se me apetecia estar

com ele.

Não o via desde antes do início do ano letivo, desde antes de o meu tio

Hank me ter mostrado as fotografias que encontrara na casa do lago. Não

sabia como conciliar todas as coisas que a família da minha mãe e Claire

haviam dito acerca do meu pai com o homem que eu pensava que conhecia.

Não sabia se iria ser capaz de olhar para ele da mesma maneira. Por certo que, assim que estivéssemos juntos debaixo do mesmo teto, ele saberia que

eu o traíra, que fora vasculhar o seu passado, que sabia coisas que não devia

saber, que acalentara dúvidas pavorosas acerca dele. Como é que

poderíamos voltar a ser os mesmos depois de uma coisa daquelas?

No final, contudo, concordara com o jantar e convidara o meu pai. Se

queria apurar a verdade acerca do que acontecera à minha mãe, precisava de

fazer algumas perguntas ao meu pai; e decidi que o melhor era começar

com Jake Griffin. Depois de ter visto aquelas fotografias na pasta da minha

mãe, parecia-me óbvio que o seu desaparecimento estava, de algum modo,

relacionado com Jake. Só precisava de descobrir de que maneira as duas

coisas se entrelaçavam e se o meu pai estaria envolvido nisso também.

*

 

O escritório do meu pai ficava no último piso de um arranha-céus

envidraçado, na baixa. Tínhamos telefonado com antecedência, por isso

havia passes à nossa espera no balcão da segurança no piso térreo. Rosalind,

a secretária do meu pai desde sempre, foi receber-nos à saída do elevador.

Era uma mulher entroncada de cinquenta e poucos anos, o tipo de pessoa

que é toda sorrisos e amabilidade quando gosta de nós, mas desagradável e

antipática quando não gosta. Em criança, vira-a fazer homens adultos de

Wall Street chorar. Ou engolir as lágrimas, pelo menos.

– Rosie – disse, e abracei-a.

Ela riu-se e abraçou-me de volta.

– Não digas isso muito alto – pediu ela. – Só tu é que me podes tratar por

esse nome, e eu não quero que alguém aqui pense que é uma alcunha para

usar no dia a dia.

Como se alguém ali se atrevesse a semelhante coisa.

– E quem é o teu amigo alto e bem-parecido? – indagou Rosie.

– Royce Dalton – apresentou-se ele, estendendo a mão e sorrindo. – É um

prazer conhecê-la. A Charlie fala sempre de si com muito orgulho e carinho.

– É um prazer conhecê-lo também – respondeu Rosie, e apertou-lhe a

mão. Olhou para mim e piscou-me o olho. – É um borracho – sussurrou-me

ao ouvido.

Rosie conduziu-nos ao gabinete do meu pai e foi buscar-nos água.

Aparentemente, o meu pai tido ido a uma reunião do outro lado da cidade e

estava um pouco atrasado.

O gabinete do meu pai era espaçoso e carecia de decoração. Era suposto

aquela austeridade conferir-lhe um ar moderno e desempoeirado, mas a

mim parecia-me apenas frio e inacessível, e talvez fosse esse, em parte, o

objetivo. Era uma divisão de canto, portanto, duas das paredes eram

compostas por janelas com uma vista privilegiada sobre a cidade. No meio,

estava a secretária, com uma espécie de armação em aço e o computador.

Na outra extremidade do gabinete, havia um sofá de couro negro, dois

cadeirões e um armário para bebidas.

Dalton sentou-se no sofá e eu fui-me pôr à janela, contemplando a cidade.

Dali de cima, todos os edifícios em redor pareciam pequenos.

– O teu pai tem bom gosto – elogiou Dalton.

– Sim – concordei.

Virei-me para a secretária e para a estante que cobria uma das paredes.

Havia muitas fotografias do meu pai. Com clientes e pessoas importantes.

Com alguns dos seus amigos dos tempos de escola: a velejar com Freddy

Heinz, a jogar golfe com Matthew York. Mas havia apenas uma fotografia

do meu pai comigo e com Seraphina. Estávamos na praia, junto à casa de

Martha’s Vineyard. Seraphina devia ter uns sete anos; estava empoleirada

nos ombros do meu pai. Eu estava ao lado dele, inclinada para ele e ele

tinha o braço à minha volta. Eu vestia uma das sweatshirts velhas do meu

pai, que me ficava demasiado grande. Tinha buracos nas mangas, nos quais

eu costumava enfiar os polegares.

– Lamento ter-vos feito esperar – disse uma voz familiar nas minhas

costas. Virei-me e vi o meu pai na soleira da porta, de fato e sobretudo.

Entrou e pousou a pasta em cima da secretária.

– Charlotte, é tão bom ver-te – disse ele. Abraçou-me com um dos braços

e deu-me um beijo no cabelo. Cheirou-me a rebentos de tuberosa, o aroma

do seu perfume preferido do Barneys.

– Igualmente – respondi, um pouco ofegante.

– E tu deves ser o amigo da Charlotte – disse o meu pai, atravessando o

gabinete para ir apertar a mão de Dalton.

Dalton levantou-se do sofá, de mão estendida.

– Royce, sir – apresentou-se Dalton. – É um prazer conhecê-lo. Peço

desculpa, mas receio que a minha mãe esteja um pouco atrasada, e ela gosta

de fazer entradas… Como direi… Que causem impressão.

– Que bela maneira de apresentares a tua mãe.

Virámo-nos os três para a porta e vimos uma mulher elegantemente

vestida com umas calças escuras de linho, uma camisola delicada de

caxemira e um casaco grosso de lã. No braço, trazia uma mala Birkin

quadrangular. Havia qualquer coisa de impressionante, quase de

intimidante, na sua postura, no modo como se comportava, se bem que

fosse uma mulher de estatura mediana. Estranhamente, por mais atraente

que Dalton fosse, a minha expetativa sempre fora que a sua mãe fosse uma

beldade. Pelo contrário, era capaz de apontar alguns traços fisionómicos

que, muito cativantes em Dalton, desfeavam a sua mãe: o queixo

quadrangular, o nariz largo, a testa alta. Fiquei com a sensação de já a ter

visto, mas não me ocorria onde.

– Era um elogio, prometo – apressou-se Dalton a alegar, com um sorriso

nos lábios. – Charlie, senhor Calloway, permitam que vos apresente a minha

querida mãe…

– Margot – disse o meu pai.

– Ah – respondeu Dalton, com a testa franzida, apanhado desprevenido. –

Peço desculpa, não sabia que já se conheciam.

A Sra. Dalton avançou (havia qualquer coisa de masculino e autoritário

no seu andar) e beijou o meu pai na face.

– Alistair, meu caro, há tanto tempo – realçou ela. – E esta deve ser a tua

filha Charlie – disse ela, e concentrou em mim toda a sua atenção. Olhou-

me de cima a baixo. – Ora, ora, se não é a imagem chapada da mãe. Por

favor, querida, trata-me por Margot.

Estendeu a mão e eu apertei-lha, embora, ao ouvi-la mencionar a minha

mãe, tivesse ficado com o coração aos pulos. Ninguém falava dela à minha

frente.

– Conheceu a minha mãe? – perguntei.

– Sim, conheci a Grace – confirmou a Sra. Dalton. – O teu pai e eu fomos

colegas de escola. Primeiro em Knollwood e depois em Columbia.

Foi então que se fez luz e percebi por que razão ela me parecera familiar.

Nunca a tinha conhecido pessoalmente, mas já a tinha visto. Margot era a

rapariga da fotografia: a rapariga nua, com o corpo rabiscado a vermelho.

Tinha o mesmo olhar ousado e impassível da fotografia, como se nós, e não

ela, é que tivéssemos nus.

– Meu Deus, Knollwood… parece que já foi há uma eternidade, não é? –

perguntou Margot ao meu pai, tendo-se virado para ele. – Dá para acreditar que já somos velhos o suficiente para ter filhos que frequentam a mesma

escola que nós? Somos uns velhos jarretas, eu diria.

O meu pai demorou algum tempo a responder. Parecia absorto em

pensamentos, aturdido.

– Sim, de facto, custa a acreditar – anuiu ele.

– Bem, espero que todos gostem de comida italiana – disse Margot,

olhando para cada um de nós à vez e sorrindo. – Reservei uma mesa no

Osteria da Luca. – Olhou expressivamente para o meu pai. – Costumava ser

um dos teus restaurantes preferidos, se não estou em erro – referiu ela.

O meu pai limitou-se a acenar que sim com a cabeça.

– Ótimo – disse ela. – A reserva ficou para as dezanove e trinta.

Levantou o braço para consultar as horas. A manga do seu casaco

deslizou ligeiramente e revelou a bracelete de ouro branco do relógio, uma

peça lindíssima: o mostrador era branco-pérola e estava rodeado por uma

dúzia de diamantes amarelos que cintilavam e refletiam a luz. A mãe de

Dalton tinha bom gosto.

– Muito bonito – comentei. – É do Barneys?

– Hã? – perguntou Margot.

– O seu relógio – elucidei.

– Ah, não, é uma herança de família – respondeu ela. Deixou pender o

braço e a manga do casaco tapou o relógio. – Tenho um carro lá em baixo à

nossa espera – anunciou ela. – Vamos andando?

*

 

Passava-se qualquer coisa com o meu pai. No restaurante, fui olhando de

relance para ele, de vez em quando. Achei-o invulgarmente calado e não

entendia o que o teria afetado daquela maneira; teria Eugenia partilhado

com ele a conversa que tivéramos no fim de semana do Homecoming? Teria

o tio Teddy quebrado a promessa que me fizera e revelado a história das

fotografias que o tio Hank encontrara na casa do lago? Estaria ele zangado

comigo? Ou seria a presença de Margot que o perturbara? E, assim sendo,

porquê?

Fosse o que fosse, não podia permitir que isso comprometesse o meu

objetivo. Clareei a voz e enterrei o garfo na pilha de risotto que tinha no

prato.

– Entrei para o jornal da escola – anunciei.

– O Chronicle? – perguntou o meu pai, despertando assim

momentaneamente do seu devaneio. – Isso é ótimo, Charlotte.

O meu pai sorriu e ter a sua aprovação alegrou-me muito.

– De momento estou nos artigos de fundo – contei. – O meu próximo

artigo será acerca dos mitos urbanos que povoam o campus.

– Isso parece interessante – disse Margot.

– Pois é – concordei. – O mito que estou a investigar neste momento é

uma espécie de história de fantasmas. Envolve um rapaz, um antigo aluno

de Knollwood, que ensombra o campus. Supostamente, ter-se-á suicidado,

mas os pormenores que rodeiam a sua morte são muito vagos.

– Pois é – disse Dalton. – O Crosby jurou tê-lo visto numa noite quando

vinha… – fez uma pausa e olhou para o meu pai e para a sua mãe. – Hum…

Quando vinha de estudar da biblioteca. Apanhou um susto de morte.

Olhei discretamente para o meu pai, engoli e continuei.

– Estou a tentar perceber com quem estará o suposto fantasma

relacionado e descobri que, no século passado, só dois alunos é que

morreram em Knollwood. Curiosamente, um deles esteve em Knollwood na

mesma altura que tu. O nome dele era Jake Griffin.

O meu pai parou de cortar o bife.

– Jake Griffin – Margot disse o nome lentamente, como se estivesse a ter

dificuldade em recordar-se dele. – Ah sim, já me lembro. Foi um

acontecimento muito trágico. Aconteceu quando eu andava no penúltimo

ano do liceu, se não estou em erro.

– Então, conheceu-o? – indaguei.

– Sim, pertencemos os dois à Associação de Estudantes. O Jake era um

miúdo muito querido.

– Também o conheceste? – perguntei ao meu pai.

– Nem por isso – respondeu o meu pai. – Ele não era do meu ano.

Nem por isso? Veio-me de imediato à memória a página de homenagem

no anuário, o instantâneo do meu pai e de Jake Griffin, com os braços por

cima dos ombros um do outro, sorrindo para a câmara. «Jake Griffin e

Alistair Calloway». O meu pai estava a mentir.

– Mas pareceu-me ver uma fotografia de vocês os dois juntos no anuário

– realcei.

O meu pai não respondeu.

– Tu e o Jake não estavam na mesma equipa de ténis? – inquiriu Margot.

– Não me lembro – disse o meu pai. Não estava a olhar nem para mim

nem para Margot. – Como tu disseste, tudo isso parece ter sido há uma

eternidade.

– Mas há uma fotografia de vocês os dois, lado a lado, no anuário –

insisti. Não fazia tenções de largar o assunto. Queria respostas. Precisava de

respostas. – Vocês os dois, no pátio, muito compinchas.

– Onde é que disseste que esse fantasma costuma aparecer? – interveio

Margot.

– Perto da residência dos pré-finalistas e finalistas, à noite – disse Dalton.

– Nesse caso, o teu fantasma não pode ser o Jake Griffin – concluiu

Margot.

– Porquê? – inquiri.

– Porque Jake Griffin não morreu na escola – disse Margot.

– Ah não? – estranhei.

– Ora, Margot, isto não é conversa para se ter à mesa do jantar – reclamou

o meu pai.

– Por favor, eu quero saber – afirmei. Se o meu pai não planeava dar-me

respostas, talvez Margot estivesse mais disposta a isso. – Para o artigo –

aleguei.

– É para a escola, Alistair – argumentou Margot. – Estou a ajudá-la com

os trabalhos de casa.

O meu pai suspirou e voltou a cortar o bife, com um vigor renovado.

– Foi encontrado numa ravina do rio Spalding – contou Margot. – Ao que

parece, foi apanhado a fazer batota, subiu ao Rebordo e saltou. O pobre do

rapaz afogou-se. O corpo só foi encontrado alguns dias depois.

– Isso é horrível – comentou Dalton.

– Sim, foi um choque grande para toda a escola – disse Margot. –

Knollwood é uma família, e Jake era um de nós. Penso que é fácil

esquecermos, quando não estamos lá, da pressão a que vocês estão sujeitos

para serem bem-sucedidos, para competirem uns com os outros. Knollwood

é uma escola dura; nem toda a gente está talhada para isso.

Houve qualquer coisa nas palavras de Margot que me deixou estonteada.

Sentia dificuldade em respirar.

– Com licença – pedi, levantando-me. – Preciso de ir à casa de banho.

– Estás bem, querida? – inquiriu Margot. – Pareces um pouco pálida.

– Estou ótima – menti.

Afastei-me da mesa e tentei não cambalear até chegar à casa de banho.

Aí, fechei a porta do cubículo no qual entrei e encostei-me a ela, respirando

com dificuldade.

As fotografias de Jake, do meu pai, de Margot e dos amigos deles que

vira na pasta da minha mãe tinham sido tiradas no Rebordo. Como é que eu

não tinha percebido?

As peças do quebra-cabeças começavam a juntar-se e a formar uma

imagem:

 

1. Em primeiro lugar, havia aquela fotografia do meu pai e de Jake no

pátio.

2. Depois, havia o desmentido do meu pai de que alguma vez tivessem

sido amigos.

3. A seguir, o exame roubado, que não fizera sentido para mim, de

início, porque, segundo o que toda a gente afirmava, Jake havia sido

um aluno brilhante.

4. Por fim, havia a clareira sobranceira ao rio Spalding, a partir da qual

Jake supostamente mergulhara para a sua morte.

*

 

Todas estas pistas apontavam para uma conclusão: Jake fizera parte do A.

Havia sido um iniciado, tal como eu. E é claro que o meu pai e Margot

também tinham sido membros do A; tinha a certeza disso. Algumas das

fotografias que encontrara no escritório do detetive privado eram as

fotografias da iniciação, como as que Leo e eu tínhamos tirado no banco

traseiro do carro de Ren.

E se o exame roubado tivesse sido uma das provas de Jake, um dos

objetos que devia levar à reunião do clube, e ele não tivesse sido bem-

sucedido? Fora apanhado a fazer batota. Enfrentando uma provável

expulsão, subira ao Rebordo por cima do rio Spalding. Mas, estaria

sozinho? Teria saltado de moto próprio ou havia sido forçado por alguém a

saltar para as águas do rio?