Magníficos Estranhos
Vinte e cinco CHARLIE CALLOWAY
Vinte e cinco
CHARLIE CALLOWAY
2017
Aconcheguei-me melhor no meu blusão de aviador e tentei acompanhar o
ritmo de Dalton. O que para ele era uma passada vagarosa, para mim era
apressada. Calçara inclusivamente botas de salto para tentar compensar a
diferença de altura entre nós os dois.
Dalton colocou o braço à volta dos meus ombros e perguntou-me ao
ouvido se me apetecia um café.
Respondi que sim com a cabeça, entrámos numa cafetaria apinhada em
West Village e pusemo-nos na fila. Tanto eu como Dalton tínhamos
permissão da escola para visitar a exposição de David Tower e passar a
noite com os nossos pais na cidade, regressando a Knollwood no dia
seguinte. Tínhamos saído bem cedo naquela manhã. Dalton ia ao volante.
Parámos nos arredores de Hartford para tomar o pequeno-almoço. Era bom
sair da escola por algum tempo e a companhia de Dalton era muito
agradável. Sempre servia para me distrair da minha mais recente obsessão:
as fotografias que estavam na pasta que surripiara do gabinete do detetive
privado.
Que fotografias eram aquelas? De onde é que tinham vindo? Que
significavam? E, acima de tudo, que faziam ali? Examinara as folhas de
papel soltas também incluídas na pasta, mas continham sobretudo rabiscos
ilegíveis. Apenas conseguira perceber uma data no topo de uma das folhas:
14 de julho de 2007 (três semanas antes do desaparecimento da minha mãe),
e as palavras «Knollwood» e «Jake Griffin».
Portanto, três semanas antes de a minha mãe desaparecer, Peter
Hindsberg estivera a ajudá-la num caso que envolvia o seu falecido ex-namorado, colega de escola do meu pai.
E havia ainda as outras fotografias, as que o meu tio Hank encontrara
debaixo das tábuas do soalho no quarto dos meus pais, na casa do lago
Langely. As fotografias de Peter Hindsberg e da minha mãe, e o bilhete que
as acompanhava: «EU SEI». E aquela palavra no verso da fotografia que me
retratava a mim: «PARA COM ISSO».
Teria alguém descoberto o caso que levara a minha mãe a solicitar os
serviços de Peter Hindsberg? E, se assim fosse, ter-se-ia essa pessoa (ou
essas pessoas) sentido ameaçada a ponto de enviar aquelas mensagens à
minha mãe, e que mais seria capaz de fazer? Talvez a minha mãe se tivesse
assustado e resolvido fugir. Ou talvez nem tivesse tido oportunidade de
fazê-lo.
Senti um calafrio pelas costas abaixo e sacudi a cabeça para enxotar
aqueles pensamentos.
Dalton estendeu o cartão de crédito à empregada e insistiu em pagar o
meu café. Abri a boca para objetar, mas Dalton lançou-me um olhar que
significava que não iria mudar de ideias.
– Obrigada – agradeci.
– Ora essa, é um prazer – respondeu ele com um sorriso nos lábios.
Qualquer pessoa que olhasse para nós pensaria que éramos namorados.
Que Dalton era apenas um rapaz simpático e normal (que era) e que eu era
apenas uma rapariga simpática e normal (que não era).
Desde o beijo que trocáramos no quarto de Dalton, reparara numa
mudança subtil na maneira como ele me tratava. Tornara-se num protetor e,
de certa forma, possessivo. Ao jantar, os rapazes tinham começado a sentar-
se na mesma mesa que eu, Drew, Yael e Stevie. Até então, raramente o
faziam, mas, de repente, era como se fizéssemos parte do grupo. Por vezes,
Dalton sentava-se ao meu lado, recostava-se na cadeira e, como quem não
queria a coisa, esticava o braço por cima das costas da minha cadeira. Como
se fôssemos namorados. Certa vez, Walker Trefont fizera uma piada
qualquer acerca da minha falta de coordenação como voleibolista e Dalton
respondera-lhe de imediato com uma observação sarcástica relacionada com
a falta de perícia de Trefont no lacrosse. Trefont corou até à raiz dos cabelos
e não abriu mais a boca até ao final da refeição. Era como se Dalton fosse o
meu cão de guarda.
Sabia que a minha reação àquilo – a reação normal que qualquer pessoa teria – devia ser ficar contente, satisfeita. Devia ter rabiscado o nome de
Dalton no canto do caderno, encomiar incessantemente os olhos dele ou
qualquer outra característica.
Em vez disso, dava por mim a afastar-me, a esgueirar-me para longe. Se
Drew falasse de Dalton, eu calava-me, encolhia os ombros, na melhor das
hipóteses, e não mostrava o mínimo entusiasmo. Ao jantar, por vezes, fazia
questão de não lhe dirigir a palavra ou de não olhar na direção dele. Nas
aulas, se Dalton desse a sua opinião durante uma qualquer discussão, eu
levantava o braço e defendia fervorosamente a posição contrária. Era como
se quisesse que ele me odiasse.
Sabia que era uma parvoíce, porque a verdade é que gostava de Dalton.
Era um rapaz inteligente, amável e popular. Via os olhares que as outras
raparigas lhe deitavam e apercebi-me da frieza delas comigo quando se
tornou óbvio que Dalton gostava de mim. Também me sentia atraída por
ele. Gostava de beijá-lo em corredores às escuras ou atrás do balneário dos
rapazes, depois do treino de futebol. Gostava de lhe desabotoar o casaco e
de encostar o meu corpo ao dele. Por alguma razão, no entanto, sentia que
devia refrear-me, de mantê-lo a alguma distância, sempre que pudesse.
O telemóvel de Dalton vibrou e ele sacou-o do bolso para ver do que se
tratava.
– Parece que a minha mãe está um pouco atrasada – disse ele. – Pergunta
se há algum problema em ir ter connosco ao escritório do teu pai.
– Não há problema nenhum – garanti.
Segundo Dalton, a mãe dele estava ansiosa por me conhecer. Supus que
ele lhe dissera que namorávamos. Ao saber que íamos estar na cidade um
dia inteiro, convidara-nos para jantar. Dalton tinha sugerido que eu
convidasse o meu pai também, e assim mataríamos dois coelhos com uma
só cajadada, já que Dalton também não conhecia o meu pai. Eu ainda
considerara inventar uma desculpa esfarrapada, tipo que o meu pai não
estava na cidade. Em abono da verdade, não sabia bem se me apetecia estar
com ele.
Não o via desde antes do início do ano letivo, desde antes de o meu tio
Hank me ter mostrado as fotografias que encontrara na casa do lago. Não
sabia como conciliar todas as coisas que a família da minha mãe e Claire
haviam dito acerca do meu pai com o homem que eu pensava que conhecia.
Não sabia se iria ser capaz de olhar para ele da mesma maneira. Por certo que, assim que estivéssemos juntos debaixo do mesmo teto, ele saberia que
eu o traíra, que fora vasculhar o seu passado, que sabia coisas que não devia
saber, que acalentara dúvidas pavorosas acerca dele. Como é que
poderíamos voltar a ser os mesmos depois de uma coisa daquelas?
No final, contudo, concordara com o jantar e convidara o meu pai. Se
queria apurar a verdade acerca do que acontecera à minha mãe, precisava de
fazer algumas perguntas ao meu pai; e decidi que o melhor era começar
com Jake Griffin. Depois de ter visto aquelas fotografias na pasta da minha
mãe, parecia-me óbvio que o seu desaparecimento estava, de algum modo,
relacionado com Jake. Só precisava de descobrir de que maneira as duas
coisas se entrelaçavam e se o meu pai estaria envolvido nisso também.
*
O escritório do meu pai ficava no último piso de um arranha-céus
envidraçado, na baixa. Tínhamos telefonado com antecedência, por isso
havia passes à nossa espera no balcão da segurança no piso térreo. Rosalind,
a secretária do meu pai desde sempre, foi receber-nos à saída do elevador.
Era uma mulher entroncada de cinquenta e poucos anos, o tipo de pessoa
que é toda sorrisos e amabilidade quando gosta de nós, mas desagradável e
antipática quando não gosta. Em criança, vira-a fazer homens adultos de
Wall Street chorar. Ou engolir as lágrimas, pelo menos.
– Rosie – disse, e abracei-a.
Ela riu-se e abraçou-me de volta.
– Não digas isso muito alto – pediu ela. – Só tu é que me podes tratar por
esse nome, e eu não quero que alguém aqui pense que é uma alcunha para
usar no dia a dia.
Como se alguém ali se atrevesse a semelhante coisa.
– E quem é o teu amigo alto e bem-parecido? – indagou Rosie.
– Royce Dalton – apresentou-se ele, estendendo a mão e sorrindo. – É um
prazer conhecê-la. A Charlie fala sempre de si com muito orgulho e carinho.
– É um prazer conhecê-lo também – respondeu Rosie, e apertou-lhe a
mão. Olhou para mim e piscou-me o olho. – É um borracho – sussurrou-me
ao ouvido.
Rosie conduziu-nos ao gabinete do meu pai e foi buscar-nos água.
Aparentemente, o meu pai tido ido a uma reunião do outro lado da cidade e
estava um pouco atrasado.
O gabinete do meu pai era espaçoso e carecia de decoração. Era suposto
aquela austeridade conferir-lhe um ar moderno e desempoeirado, mas a
mim parecia-me apenas frio e inacessível, e talvez fosse esse, em parte, o
objetivo. Era uma divisão de canto, portanto, duas das paredes eram
compostas por janelas com uma vista privilegiada sobre a cidade. No meio,
estava a secretária, com uma espécie de armação em aço e o computador.
Na outra extremidade do gabinete, havia um sofá de couro negro, dois
cadeirões e um armário para bebidas.
Dalton sentou-se no sofá e eu fui-me pôr à janela, contemplando a cidade.
Dali de cima, todos os edifícios em redor pareciam pequenos.
– O teu pai tem bom gosto – elogiou Dalton.
– Sim – concordei.
Virei-me para a secretária e para a estante que cobria uma das paredes.
Havia muitas fotografias do meu pai. Com clientes e pessoas importantes.
Com alguns dos seus amigos dos tempos de escola: a velejar com Freddy
Heinz, a jogar golfe com Matthew York. Mas havia apenas uma fotografia
do meu pai comigo e com Seraphina. Estávamos na praia, junto à casa de
Martha’s Vineyard. Seraphina devia ter uns sete anos; estava empoleirada
nos ombros do meu pai. Eu estava ao lado dele, inclinada para ele e ele
tinha o braço à minha volta. Eu vestia uma das sweatshirts velhas do meu
pai, que me ficava demasiado grande. Tinha buracos nas mangas, nos quais
eu costumava enfiar os polegares.
– Lamento ter-vos feito esperar – disse uma voz familiar nas minhas
costas. Virei-me e vi o meu pai na soleira da porta, de fato e sobretudo.
Entrou e pousou a pasta em cima da secretária.
– Charlotte, é tão bom ver-te – disse ele. Abraçou-me com um dos braços
e deu-me um beijo no cabelo. Cheirou-me a rebentos de tuberosa, o aroma
do seu perfume preferido do Barneys.
– Igualmente – respondi, um pouco ofegante.
– E tu deves ser o amigo da Charlotte – disse o meu pai, atravessando o
gabinete para ir apertar a mão de Dalton.
Dalton levantou-se do sofá, de mão estendida.
– Royce, sir – apresentou-se Dalton. – É um prazer conhecê-lo. Peço
desculpa, mas receio que a minha mãe esteja um pouco atrasada, e ela gosta
de fazer entradas… Como direi… Que causem impressão.
– Que bela maneira de apresentares a tua mãe.
Virámo-nos os três para a porta e vimos uma mulher elegantemente
vestida com umas calças escuras de linho, uma camisola delicada de
caxemira e um casaco grosso de lã. No braço, trazia uma mala Birkin
quadrangular. Havia qualquer coisa de impressionante, quase de
intimidante, na sua postura, no modo como se comportava, se bem que
fosse uma mulher de estatura mediana. Estranhamente, por mais atraente
que Dalton fosse, a minha expetativa sempre fora que a sua mãe fosse uma
beldade. Pelo contrário, era capaz de apontar alguns traços fisionómicos
que, muito cativantes em Dalton, desfeavam a sua mãe: o queixo
quadrangular, o nariz largo, a testa alta. Fiquei com a sensação de já a ter
visto, mas não me ocorria onde.
– Era um elogio, prometo – apressou-se Dalton a alegar, com um sorriso
nos lábios. – Charlie, senhor Calloway, permitam que vos apresente a minha
querida mãe…
– Margot – disse o meu pai.
– Ah – respondeu Dalton, com a testa franzida, apanhado desprevenido. –
Peço desculpa, não sabia que já se conheciam.
A Sra. Dalton avançou (havia qualquer coisa de masculino e autoritário
no seu andar) e beijou o meu pai na face.
– Alistair, meu caro, há tanto tempo – realçou ela. – E esta deve ser a tua
filha Charlie – disse ela, e concentrou em mim toda a sua atenção. Olhou-
me de cima a baixo. – Ora, ora, se não é a imagem chapada da mãe. Por
favor, querida, trata-me por Margot.
Estendeu a mão e eu apertei-lha, embora, ao ouvi-la mencionar a minha
mãe, tivesse ficado com o coração aos pulos. Ninguém falava dela à minha
frente.
– Conheceu a minha mãe? – perguntei.
– Sim, conheci a Grace – confirmou a Sra. Dalton. – O teu pai e eu fomos
colegas de escola. Primeiro em Knollwood e depois em Columbia.
Foi então que se fez luz e percebi por que razão ela me parecera familiar.
Nunca a tinha conhecido pessoalmente, mas já a tinha visto. Margot era a
rapariga da fotografia: a rapariga nua, com o corpo rabiscado a vermelho.
Tinha o mesmo olhar ousado e impassível da fotografia, como se nós, e não
ela, é que tivéssemos nus.
– Meu Deus, Knollwood… parece que já foi há uma eternidade, não é? –
perguntou Margot ao meu pai, tendo-se virado para ele. – Dá para acreditar que já somos velhos o suficiente para ter filhos que frequentam a mesma
escola que nós? Somos uns velhos jarretas, eu diria.
O meu pai demorou algum tempo a responder. Parecia absorto em
pensamentos, aturdido.
– Sim, de facto, custa a acreditar – anuiu ele.
– Bem, espero que todos gostem de comida italiana – disse Margot,
olhando para cada um de nós à vez e sorrindo. – Reservei uma mesa no
Osteria da Luca. – Olhou expressivamente para o meu pai. – Costumava ser
um dos teus restaurantes preferidos, se não estou em erro – referiu ela.
O meu pai limitou-se a acenar que sim com a cabeça.
– Ótimo – disse ela. – A reserva ficou para as dezanove e trinta.
Levantou o braço para consultar as horas. A manga do seu casaco
deslizou ligeiramente e revelou a bracelete de ouro branco do relógio, uma
peça lindíssima: o mostrador era branco-pérola e estava rodeado por uma
dúzia de diamantes amarelos que cintilavam e refletiam a luz. A mãe de
Dalton tinha bom gosto.
– Muito bonito – comentei. – É do Barneys?
– Hã? – perguntou Margot.
– O seu relógio – elucidei.
– Ah, não, é uma herança de família – respondeu ela. Deixou pender o
braço e a manga do casaco tapou o relógio. – Tenho um carro lá em baixo à
nossa espera – anunciou ela. – Vamos andando?
*
Passava-se qualquer coisa com o meu pai. No restaurante, fui olhando de
relance para ele, de vez em quando. Achei-o invulgarmente calado e não
entendia o que o teria afetado daquela maneira; teria Eugenia partilhado
com ele a conversa que tivéramos no fim de semana do Homecoming? Teria
o tio Teddy quebrado a promessa que me fizera e revelado a história das
fotografias que o tio Hank encontrara na casa do lago? Estaria ele zangado
comigo? Ou seria a presença de Margot que o perturbara? E, assim sendo,
porquê?
Fosse o que fosse, não podia permitir que isso comprometesse o meu
objetivo. Clareei a voz e enterrei o garfo na pilha de risotto que tinha no
prato.
– Entrei para o jornal da escola – anunciei.
– O Chronicle? – perguntou o meu pai, despertando assim
momentaneamente do seu devaneio. – Isso é ótimo, Charlotte.
O meu pai sorriu e ter a sua aprovação alegrou-me muito.
– De momento estou nos artigos de fundo – contei. – O meu próximo
artigo será acerca dos mitos urbanos que povoam o campus.
– Isso parece interessante – disse Margot.
– Pois é – concordei. – O mito que estou a investigar neste momento é
uma espécie de história de fantasmas. Envolve um rapaz, um antigo aluno
de Knollwood, que ensombra o campus. Supostamente, ter-se-á suicidado,
mas os pormenores que rodeiam a sua morte são muito vagos.
– Pois é – disse Dalton. – O Crosby jurou tê-lo visto numa noite quando
vinha… – fez uma pausa e olhou para o meu pai e para a sua mãe. – Hum…
Quando vinha de estudar da biblioteca. Apanhou um susto de morte.
Olhei discretamente para o meu pai, engoli e continuei.
– Estou a tentar perceber com quem estará o suposto fantasma
relacionado e descobri que, no século passado, só dois alunos é que
morreram em Knollwood. Curiosamente, um deles esteve em Knollwood na
mesma altura que tu. O nome dele era Jake Griffin.
O meu pai parou de cortar o bife.
– Jake Griffin – Margot disse o nome lentamente, como se estivesse a ter
dificuldade em recordar-se dele. – Ah sim, já me lembro. Foi um
acontecimento muito trágico. Aconteceu quando eu andava no penúltimo
ano do liceu, se não estou em erro.
– Então, conheceu-o? – indaguei.
– Sim, pertencemos os dois à Associação de Estudantes. O Jake era um
miúdo muito querido.
– Também o conheceste? – perguntei ao meu pai.
– Nem por isso – respondeu o meu pai. – Ele não era do meu ano.
Nem por isso? Veio-me de imediato à memória a página de homenagem
no anuário, o instantâneo do meu pai e de Jake Griffin, com os braços por
cima dos ombros um do outro, sorrindo para a câmara. «Jake Griffin e
Alistair Calloway». O meu pai estava a mentir.
– Mas pareceu-me ver uma fotografia de vocês os dois juntos no anuário
– realcei.
O meu pai não respondeu.
– Tu e o Jake não estavam na mesma equipa de ténis? – inquiriu Margot.
– Não me lembro – disse o meu pai. Não estava a olhar nem para mim
nem para Margot. – Como tu disseste, tudo isso parece ter sido há uma
eternidade.
– Mas há uma fotografia de vocês os dois, lado a lado, no anuário –
insisti. Não fazia tenções de largar o assunto. Queria respostas. Precisava de
respostas. – Vocês os dois, no pátio, muito compinchas.
– Onde é que disseste que esse fantasma costuma aparecer? – interveio
Margot.
– Perto da residência dos pré-finalistas e finalistas, à noite – disse Dalton.
– Nesse caso, o teu fantasma não pode ser o Jake Griffin – concluiu
Margot.
– Porquê? – inquiri.
– Porque Jake Griffin não morreu na escola – disse Margot.
– Ah não? – estranhei.
– Ora, Margot, isto não é conversa para se ter à mesa do jantar – reclamou
o meu pai.
– Por favor, eu quero saber – afirmei. Se o meu pai não planeava dar-me
respostas, talvez Margot estivesse mais disposta a isso. – Para o artigo –
aleguei.
– É para a escola, Alistair – argumentou Margot. – Estou a ajudá-la com
os trabalhos de casa.
O meu pai suspirou e voltou a cortar o bife, com um vigor renovado.
– Foi encontrado numa ravina do rio Spalding – contou Margot. – Ao que
parece, foi apanhado a fazer batota, subiu ao Rebordo e saltou. O pobre do
rapaz afogou-se. O corpo só foi encontrado alguns dias depois.
– Isso é horrível – comentou Dalton.
– Sim, foi um choque grande para toda a escola – disse Margot. –
Knollwood é uma família, e Jake era um de nós. Penso que é fácil
esquecermos, quando não estamos lá, da pressão a que vocês estão sujeitos
para serem bem-sucedidos, para competirem uns com os outros. Knollwood
é uma escola dura; nem toda a gente está talhada para isso.
Houve qualquer coisa nas palavras de Margot que me deixou estonteada.
Sentia dificuldade em respirar.
– Com licença – pedi, levantando-me. – Preciso de ir à casa de banho.
– Estás bem, querida? – inquiriu Margot. – Pareces um pouco pálida.
– Estou ótima – menti.
Afastei-me da mesa e tentei não cambalear até chegar à casa de banho.
Aí, fechei a porta do cubículo no qual entrei e encostei-me a ela, respirando
com dificuldade.
As fotografias de Jake, do meu pai, de Margot e dos amigos deles que
vira na pasta da minha mãe tinham sido tiradas no Rebordo. Como é que eu
não tinha percebido?
As peças do quebra-cabeças começavam a juntar-se e a formar uma
imagem:
1. Em primeiro lugar, havia aquela fotografia do meu pai e de Jake no
pátio.
2. Depois, havia o desmentido do meu pai de que alguma vez tivessem
sido amigos.
3. A seguir, o exame roubado, que não fizera sentido para mim, de
início, porque, segundo o que toda a gente afirmava, Jake havia sido
um aluno brilhante.
4. Por fim, havia a clareira sobranceira ao rio Spalding, a partir da qual
Jake supostamente mergulhara para a sua morte.
*
Todas estas pistas apontavam para uma conclusão: Jake fizera parte do A.
Havia sido um iniciado, tal como eu. E é claro que o meu pai e Margot
também tinham sido membros do A; tinha a certeza disso. Algumas das
fotografias que encontrara no escritório do detetive privado eram as
fotografias da iniciação, como as que Leo e eu tínhamos tirado no banco
traseiro do carro de Ren.
E se o exame roubado tivesse sido uma das provas de Jake, um dos
objetos que devia levar à reunião do clube, e ele não tivesse sido bem-
sucedido? Fora apanhado a fazer batota. Enfrentando uma provável
expulsão, subira ao Rebordo por cima do rio Spalding. Mas, estaria
sozinho? Teria saltado de moto próprio ou havia sido forçado por alguém a
saltar para as águas do rio?