Magníficos Estranhos
Primeira Parte
Um
Charlie Calloway
2017
Tudo começou naquela manhã, com um bilhete impresso em cartolina e
pouco maior do que um cartão de visita.
Bom dia, esperamos que não leves a mal.
Aqui tens, só para ti, um convite formal.
Sabes quem somos, por isso perdoa o anonimato.
Somos teus admiradores, acredita que não é boato.
Somos o oposto do Ómega, o total contrário de findar
Segue esta pista e eis-nos aqui, ansiosos por começar.
O bilhete equilibrava-se sobre o folheto, impresso no azul régio e dourado
da escola, com que a Knollwood Augustus Prep dava as boas-vindas aos
alunos, anunciando que o Dia dos Clubes se realizaria no pátio Healy,
naquela sexta-feira à tarde, e encorajando todos os alunos a estar presentes.
Seguia-se uma lista de todos os clubes e organizações estudantis de
Knollwood Prep. Em rodapé, podia ler-se a declaração de missão da escola,
em letras delicadas e douradas: «acolher alunos cuja exigente curiosidade e
pensamento independente os conduz à excelência, dentro e fora da sala de
aulas.»
Poderia nem ter reparado no bilhete de cartolina se este não tivesse
esvoaçado até ao chão quando extraí o prospeto da minha caixa de correio
no Rosewood Hall, a residência feminina para pré-finalistas e finalistas. O
meu coração deu um pulo quando vi o bilhete, já que a primeira parte, o
remetente, era óbvio. «Sabes quem somos… Somos o oposto do Ómega, o total contrário de findar». Era o A, o único clube que não vinha listado no
folheto da escola e, na minha opinião, o único a que valia a pena pertencer.
Era a segunda parte do bilhete que não me saía da cabeça quando me
sentei na aula do professor Andrews, de Introdução à Fotografia. De uma
forma geral, não teria sido possível sonhar acordada na aula daquela
maneira. A Knollwood Prep seguia o método Harkness, o que significava
que nos sentávamos em redor de uma mesa, de frente uns para os outros, e
que todos tinham de participar na discussão, com intervenções mínimas por
parte do professor. Alguns professores tinham até um caderno com o nome
de cada aluno e colocavam uma pequena marca ao lado dos nossos nomes à
medida que intervínhamos. Se, no final da aula, o nosso nome não
mostrasse uma quantidade satisfatória de marcas, receberíamos um pequeno
bilhete a dizer qualquer coisa do tipo «Sentimos a falta da sua voz na aula
de hoje», ou «Quando nem toda a gente se pronuncia, todos ficamos a
perder». Ou ainda, a minha preferida, «Perde cem por cento das discussões
nas quais não participa».
O professor Andrews, contudo, era novo ali, acabado de sair da
universidade, e muito mais negligente do que outros professores. A sua aula
de Introdução à Fotografia tinha sido, enquanto opção, a disciplina de artes
mais procurada naquele semestre, não por causa do conteúdo do currículo,
mas porque o professor Andrews era, bem, um borracho. Tinha aquele ar
moreno de hipster descuidado, com as camisas de flanela que usava para
fora das calças de ganga, o gorro para esconder o cabelo preto e a precisar
de lavagem, olhos castanho-claros rodeados de pestanas de boneca, mais
compridas do que as minhas. Além disso, possuía uma vantagem clara sobre
a maioria dos rapazes da Knollwood Prep: pelos faciais. Exibia sempre uma
hirsutez perfeita a cobrir-lhe os malares bem definidos.
Naquele dia, o professor Andrews não chegara carregado de folhas acerca
da teoria da fotografia para nós analisarmos, mas munido de uma máquina
muito impressionante com uma lente comprida, que fez passar de mão em
mão.
– Isso é uma teleobjetiva – disse o professor Andrews. – Produz um efeito
ótico excecional que pode criar a ilusão de que dois objetos separados por
uma grande distância estão, na verdade, perto um do outro. É uma
ferramenta poderosa para captar momentos espontâneos quando não
podemos aproximar-nos fisicamente do nosso sujeito.
Pressionou uma tecla do seu portátil e, na tela do projetor, à nossa frente,
apareceu uma fotografia de um leão deitado numa savana, em África.
– Um dos exemplos mais óbvios do que acabei de mencionar é a
fotografia de natureza ou de desporto – prosseguiu o professor Andrews. –
O fotógrafo correria risco de vida se estivesse perto de, digamos, um leão,
ou de um jogador de basebol profissional prestes a bater uma bola. Uma
outra utilização menos óbvia, porém, é a fotografia urbana, em que o artista
necessita de distância não por razões de segurança, mas para preservar a
espontaneidade da imagem.
Carregou noutra tecla e a fotografia de uma mulher jovem acompanhada
de uma criança numa rua movimentada de Nova Iorque preencheu a tela.
Enquanto ele falava, contemplei a máquina fotográfica que tinha no colo
e brinquei com o zoom. Pensei na segunda metade do enigma do A.
uma cabeceira, mas não sou uma cama.
Tenho um leito, mas nunca durmo.
Sou capaz de correr, mas jamais caminho.
Vem conhecer-me depois de escurecer.
Que tem uma cabeceira, mas não é uma cama? Que tem um leito, mas
nunca dorme? Que corre, mas nunca caminha?
O «quando» era bastante evidente – naquela noite, depois do recolher
obrigatório –, mas o «onde» era um ponto de interrogação gigante. Que
lugar é que tinha uma cabeceira? E o verso seguinte – Tenho um leito, mas
nunca durmo – seria um piscar de olhos à vigilância apertada do diretor
Collins? Talvez, mas não era capaz de fazer com que o verso seguinte
encaixasse nesse raciocínio. Okay, então que lugar é que tinha uma cama?
Tipo, um leito de rochas? Seria uma referência às pedreiras?
Senti um pontapé por baixo da mesa e, ao levantar a cabeça, deparei com
Royce Dalton, o finalista mais popular da escola, a lançar-me um olhar
expressivo desde o outro lado da mesa. Demorei uns segundos a unir os
pontos, mas assim que ele clareou a garganta e olhou de soslaio para o
professor Andrews, dei-me conta de que toda a turma me olhava silenciosa
e expectantemente. Endireitei-me na cadeira e pousei a máquina.
– É uma excelente pergunta – disse, num tom lento e deliberado, dando
voltas à cabeça para adivinhar o que o professor Andrews me teria perguntado, ao mesmo tempo que procurava uma escapatória para ocultar o
facto de não ter prestado atenção.
A imagem da mulher e do seu filho, na tela à nossa frente, prendeu-me o
olhar. A criança estava transtornada e a mulher detivera-se; estava
agachada, de modo que pudesse olhar o rapazinho nos olhos. Tinha o braço
esticado, prestes a prender uma madeixa do cabelo do menino atrás da sua
orelha, para o consolar. De início, não reparara nisso, mas a mulher parecia
igualmente perturbada. Interroguei-me acerca do que sucedera antes de a
fotografia ter sido tirada e o que acontecera a seguir. Chocava-me que o
fotógrafo tivesse captado aquele momento íntimo e doloroso e o tivesse
exposto para quem o quisesse ver. Havia a ilusão de se estar perto, quando,
na realidade, o fotógrafo estava longe, não só fisicamente mas
emocionalmente também. O fotógrafo permanecia protegido e em
segurança, ao mesmo tempo que mostrava aquele instante vulnerável ao
mundo, para que fosse observado, como arte.
– Talvez me esteja a desviar do tópico – disse –, mas fiquei a pensar neste
assunto da fotografia urbana. Julgo entender a necessidade de
distanciamento para se captar a veracidade de um momento, mas parece-me
irónico que, para captar a verdade, tenhamos de ser dúplices, traiçoeiros. A
distância permite ao sujeito agir de modo natural precisamente porque não
sabe que está a ser observado. Acho que, para mim, isso levanta uma
questão moral. Será isto arte… ou uma invasão da privacidade? Estou
curiosa em saber a sua opinião nesta matéria. Peço desculpa desde já, caso
me esteja a adiantar.
Tratava-se de um mecanismo de defesa que tinha aprendido há muito
tempo: 1) Encarreirar palavras suficientes relacionadas com o tema para
fazer parecer que estamos a prestar atenção. 2) Admitir que o comentário
que vamos proferir pode parecer irrelevante. 3) Desviar os holofotes de nós,
fazendo outra pergunta. Com alguns professores, quanto mais irrelevante
for o comentário, melhor, já que parecerá que estávamos mesmo a levar em
consideração o tema proposto para discussão. 4) Terminar com um pedido
de desculpas ambíguo e indireto que deixa entrever que a nossa curiosidade
intelectual está a milhas do ritmo de ensino. De repente, não somos o
mandrião que sonha acordado, mas o pensador profundo que está muito
mais à frente do rebanho.
O professor Andrews pareceu ficar surpreendido com o meu pequeno desvio em relação ao assunto.
– Hum… Uma pergunta interessante, menina…? – disse ele.
Era quase cativante o facto de não se ter dado ao trabalho de memorizar
os nossos nomes.
– Calloway – respondi. – Charlie Calloway.
Percebi, pela centelha que lhe iluminou o olhar, que reconheceu o meu
nome e seguiu-se uma pausa, um segundo apenas mais longa do que seria
apropriado. Era uma reação comum quando eu conhecia quem quer que
fosse. Conseguia ver as rodas dentadas no interior dos seus cérebros a entrar
em ação. «Por acaso não pertence àquela família Calloway? Não é a
rapariga cuja mãe… Bem… Pobre rapariga.» Era o que pensavam,
inevitavelmente.
– Menina Calloway – disse o professor Andrews, cofiando o queixo
hirsuto ao mesmo tempo que cogitava na minha pergunta. – A ética e a arte.
É sempre uma discussão interessante.
O professor Andrews lançou-se então no tema e eu olhei em frente, para
Dalton, que levou subtilmente o indicador aos lábios, como se fosse o cano
de uma arma, e soprou o fumo imaginário que dele se elevava. Na mouche.
Obrigada, disse-lhe, mexendo apenas os lábios, e ele respondeu com uma
piscadela de olho cúmplice.
*
Do outro lado das janelas do refeitório, o céu começava a escurecer.
Faltavam três horas para o recolher obrigatório e eu ainda não tinha
resolvido o enigma do clube A relativo ao local de encontro. Só me tinham
ocorrido as antigas pedreiras que ficavam a meia hora da escola. Estavam
abandonadas há muitos anos e a água da chuva inundara-as. Por vezes, no
final da primavera ou no início do outono, os alunos da Knollwood Prep
iam até lá aos fins de semana. Os corajosos lançavam-se das rochas e os
preguiçosos estendiam-se nelas e apanhavam banhos de sol. Não tinha
qualquer dificuldade em imaginar a pedreira como local de encontro do
clube e era até capaz de visualizar ali uma espécie de ritual de iniciação que
envolvia pularmos da rocha mais alta numa noite escura como breu, quando
o lago se tornava em invisível, mas o problema era que nem todas as frases
do enigma apontavam nessa direção.
Ao mesmo tempo que dava voltas e voltas à cabeça, depenicava a massa com salmão fumado que tinha no prato e fingia que tinha a boca cheia de
cada vez que Stevie Sorantos me perguntava qual devia ser o slogan da sua
campanha. Concorria ao cargo de tesoureira da Associação de Estudantes –
outra vez – e pressionava-nos para que contribuíssemos com uma frase
apelativa que a catapultasse para o topo das sondagens.
– Que tal «Votem em mim, ou logo verão» – sugeriu Drew, empurrando a
sua espessa cabeleira loura, de caracóis apertados, para trás dos ombros. –
DGAF é o novo YOLO.1
– Eu gosto – disse Yael. – Perentório, mas desapegado. Como quem se
faz de difícil.
– Resulta seguramente com a franja masculina do eleitorado – salientou
Drew, abanando as espessas sobrancelhas.
– Mas eu não quero que as pessoas pensem que me estou marimbando –
alegou Stevie, com um leve tom de exasperação.
Arregalei os olhos a Drew, que deu uma dentada gigantesca no pão para
não se desatar a rir. Como se alguém fosse alguma vez pensar que Stevie
Sorantos se estava marimbando.
Por vezes – pronto, muitas vezes –, Stevie bulia-me com os nervos,
porque se esforçava demasiado, para lá da conta. Tesoureira da Associação
de Estudantes. Presidente do Conselho Estudantil de Ética. Sempre a
primeira a pôr a mão no ar quando um professor fazia uma pergunta. Certa
vez, encontrei-a na casa de banho a chorar baba e ranho como se o cão lhe
tivesse morrido, porque tivera um Bom+ num ensaio. Vira e volta, sentia-
me tentada a deitar-lhe um calmante na água, só para que ela se visse
forçada a descontrair.
Sabia por que razão ela era assim, é claro. Todos sabíamos. Stevie estava
ali graças a uma bolsa de estudos. Ela nunca nos revelara isso, e nós jamais
mencionávamos o assunto. Knollwood Prep esforçava-se por colmatar as
diferenças socioeconómicas recorrendo a uniformes, a isenções de propinas,
a MacBooks e a iPads para alunos que necessitavam de ajuda. Mas por mais
que se esforçasse, a escola não conseguia apagar as nossas origens. Stevie
não usava as pulseiras Cartier que nós usávamos; não tinha uma mochila
YSL ou, bem, o que quer que fosse de marca. A família dela nunca ia de
férias. Não tinha carro. Contudo, nenhuma destas coisas atraiçoava Stevie
tanto quanto o seu ostensivo desejo de provar que pertencia ali. Era
cansativo, e não alcançava, nem de longe, o objetivo pretendido. É que a única coisa que importava para as pessoas que importavam era agir como
se, na realidade, nada importasse. Por mais paradoxal que tal fosse.
– Vá lá, Charlie – insistiu Stevie, e eu enfiei uma nova garfada de massa
na boca, fazendo de conta que era demasiado grande para conseguir falar. –
Tu tens sempre ideias bestiais.
– Ei! – reclamou Drew, apontando os dentes do seu garfo, carregados de
espargos, a Stevie. – Então e a minha ideia? Vale ouro!
No primeiro ano, eu tinha convencido Stevie a fazer uma campanha
baseada na série Os Sopranos. Yael tirou umas fotografias a preto e branco
de Stevie: de fato e gravata e óculos de sol, sentada num cadeirão estofado
com um cigarro a pender-lhe do canto da boca e uma nuvem de fumo por
cima da cabeça. Drew e eu transformámos as fotos em cartazes,
acrescentando citações de Tony Soprano:
«Uma decisão errada é melhor do que a indecisão.»
«Bem, tendo em conta que me chamou aqui, mais vale dizer-lhe… Agora,
quem manda sou eu.»
«Com todo o respeito, vocês não fazem a mínima ideia do que é ser o
número um.»
No canto inferior direito, em letras grossas e vermelhas que imitavam as
do título da série, escrevemos: Vota Sorantos.
Todos os outros candidatos tinham optado pela via séria, com pósteres
que proclamavam banalidades, ou pior: trocadilhos mal conseguidos com os
seus nomes. Stevie conseguiu uma vitória esmagadora.
– Está bem – disse, percebendo que não me restava outra alternativa. – E
que tal «Estou há dois anos neste cargo. Se acham que não estou qualificada
para ele, vão à merda».
Yael fez de conta que ponderava a sugestão.
– Quanta subtileza e elegância – opinou ela. – Não será demasiado
sofisticado?
Stevie pousou o copo de leite no tabuleiro com tanta força que o
derramou. Inclinei a cabeça e vi pérolas brancas de leite na manga da minha
camisola.
– Estou a ver que até fingir que levam isto a sério é pedir demais – disse
Stevie, pondo a mochila barata Target ao ombro e levantando-se.
– Stevie… – chamou Yael.
– Vou à biblioteca – afirmou Stevie, e encaminhou-se para o extremo mais afastado do refeitório com a mochila a bater-lhe nas costas a cada
passo determinado que dava.
Yael suspirou e reuniu as suas coisas, lançando a Drew e a mim um
sorriso exasperado.
– Alerta de Prontidão Três – disse ela. – Eu trato da gestão de danos.
– Agora fiquei a sentir-me mal – confessou Drew, depois de Yael se ter
ido embora. – Mas a minha ideia do DGAF era a sério.
Encolhi os ombros e agarrei num guardanapo para enxugar a manga.
Stevie e Yael eram minhas amigas apenas por interposta pessoa,
sobretudo porque andavam sempre de roda de Drew, e Drew e eu estávamos
sempre juntas. Tomávamos as refeições juntas, sentávamo-nos ao lado uma
da outra nas aulas, passávamos longas horas à conversa na sala de convívio
antes do recolher obrigatório e partilhávamos um quarto. Em resultado
disso, fazia um esforço no que a elas dizia respeito: fui velejar com a
família da Yael durante o verão, numa ocasião em que as nossas famílias se
cruzaram em Martha’s Vineyard. Convidei Stevie para passar o Dia de
Ação de Graças com a minha família, em Greenwich, porque sabia que ela
não podia pagar o bilhete de avião para Ohio e teria passado o feriado
sozinha, numa escola vazia. Dava-me bem com elas (a maior parte do
tempo, pelo menos) e simpatizava com ambas, mas não tínhamos o mesmo
relacionamento que eu partilhava com Drew. Ela e eu éramos unha com
carne.
No primeiro ano, Drew e eu tínhamos sido acidentalmente colocadas no
mesmo quarto com uma outra rapariga que detestávamos. Chamava-se
River e nunca se depilava, não acreditava em desodorizante, em sal de mesa
ou em ouvir a sua música popular num volume civilizado. Aparentemente,
também não acreditava em estudar, pois deixámos de vê-la no semestre
seguinte. Viver com River era como ser gaseado, e Drew e eu havíamos
passado por isso juntas, o que criara um laço inquebrável entre nós.
Observava Drew fixamente ao mesmo tempo que ela mastigava e falava
com grande entusiasmo do iminente jogo de voleibol contra o nosso rival, a
equipa Xavier. Tentei perguntar-lhe, sem perguntar: também recebeste um?
O A escolheu-te? Porque não podia simplesmente… Bem, não podia
perguntar.
– Que foi? – indagou ela, e dei-me conta, tarde demais, de que as minhas
tentativas de enviar mensagens telepáticas tinham resultado num olhar pasmado e sinistro. – Tenho alguma coisa na cara?
– Sim, um bocadinho de molho, aí – menti, apontando para uma zona no
meu queixo como referência.
– Obrigada – disse Drew, limpando com o guardanapo o sítio
correspondente no seu queixo.
Era inútil. A expressão de Drew parecia impenetrável. Assim, percorri
com os olhos o refeitório em busca do meu primo Leo. Leo era dois meses
mais novo do que eu, mas ninguém o diria, tendo em conta a sua altura: um
metro e oitenta e sete. Com base na aparência física, também ninguém diria
que éramos primos. Leo exibia a tradicional beleza dos Calloway: olhos
cintilantes cor de turquesa, cabelo louro-dourado e maçãs do rosto distintas.
Eu, por outro lado, parecia-me com a minha mãe. Herdara o seu cabelo
escuro, os olhos grandes e cinzentos, a pele translúcida e a sua baixa
estatura. Tratava-se de um círculo do inferno que Dante jamais imaginara:
olhar-me ao espelho todos os dias e ver a pessoa que mais
desesperadamente queria esquecer.
Avistei Leo duas mesas mais à frente, sentado ao lado de Dalton e de um
grupo de outros rapazes populares. Ainda tinha o cabelo molhado em
resultado do banho pós treino de futebol e pendeu-lhe ligeiramente para os
olhos quando se inclinou para dizer qualquer coisa aos amigos. Só de olhar
para ele soube que fora abordado pelo A; nem sequer tinha de perguntar.
Percebi pelo seu sorriso arrogante e torcido, que lhe fazia uma covinha na
face esquerda. Leo e eu possuíamos desde sempre uma inquietante
capacidade para interpretar os estados de espírito um do outro, talvez por
ele ter atravessado comigo o fogo infernal que havia sido a minha infância.
Fora Leo quem me salvara, no final, ou, pelo menos, fora ele quem me
ensinara a salvar-me a mim mesma.
– Merda! – exclamou Drew. Tinha feito tombar o copo. A água
derramara-se por todo o lado, escorrendo até pela beira da mesa. Peguei no
guardanapo e comecei a tentar conter o tsunami e Drew apressou-se a
endireitar o copo.
– A tua mala – alertou Drew, e eu levantei-a da mesa mesmo a tempo de
não ser atingida pela enxurrada.
Foi então que me ocorreu. Era isso. Sabia onde o clube A se reuniria
naquela noite.
– Desculpa – pediu Drew. – Sou tão desastrada.
– Ora essa, obrigada – respondi, sem pensar.
– O quê?
– Ah, nada – disse. – Queria dizer, não tem problema.
*
Na Knollwood Prep, o recolher obrigatório era às nove da noite nos dias de
semana. Normalmente, Drew e eu ficávamos na sala de convívio até quase
às nove e depois sentávamo-nos às nossas secretárias a terminar leituras ou
trabalhos e a conversar. Naquela noite, deitámo-nos ambas cedo. Estendida
na cama, contemplava o teto, às escuras, tentava perceber pelo som da
respiração de Drew se ela já dormia e interrogava-me acerca da melhor
maneira de me esgueirar pela janela do quarto sem a acordar.
Não conseguia parar de pensar no clube A.
Knollwood Prep tinha quatro tipos de clube: o atlético, o académico, o de
interesses comuns e o, bem, o ridículo (o Clube do Queijo, por exemplo, em
que os membros se sentavam à volta de uma mesa e, sim, isso mesmo,
comiam queijo). Pertencer a esses clubes implicava rituais palermas ou
treinos fatigantes no ginásio a fazer cambalhotas no ar de uma ponta à outra
do campo, num impulso primitivo de mostrar intrepidez, ou reuniões à volta
de uma campainha nas quais os participantes respondiam a perguntas ao
mesmo tempo que um secretário eleito mantinha registo dos minutos. Estes
clubes reuniam-se com outras escolas e organizavam eventos como vendas
de bolos ou lavagens de carros para angariar dinheiro para instituições
locais. Na Knollwood Prep, esperava-se que colecionássemos participações
nestes clubes como se fossem pendentes numa pulseira, para que na
candidatura à universidade pudéssemos afirmar que não só tínhamos
conseguido uma rigorosa educação académica numa das melhores escolas
secundárias do país, como também éramos um membro útil da comunidade,
ou seja, que éramos detentores de uma educação «abrangente», aquela
palavra da moda com a qual os responsáveis pelas admissões nas
universidades salivavam.
Pertencer ao A não era, porém, coisa que pudéssemos incluir na
candidatura à universidade. Não era sequer algo que pudéssemos contar a
alguém. O A não fazia vendas de bolos ou lavava carros; não envolvia
braçadeiras ou transpirar e, obviamente, não tinha um secretário a contar
minutos.
No ano anterior, quando o novo presidente do Departamento de Artes
tentou instaurar uma aula obrigatória de enriquecimento cultural ao sábado,
o A lançou uma campanha de difamação tão feroz que o presidente se
pisgou no final do semestre de outono. Ninguém «soube» como é que os
escandalosos emails que o presidente trocara com uma rapariga de quinze
anos oriunda do Maine e com problemas do foro paternal foram parar às
caixas de correio eletrónico de todos os alunos, administradores e membros
do corpo docente listados no servidor da Knollwood Prep, mas toda a gente
«sabia» que, de algum modo, o clube A estava por trás disso. Embora o
diretor Collins tivesse ordenado uma investigação a semelhante quebra da
segurança da escola, no final, pouco mais pôde fazer do que aplaudir o facto
de aquele homem indecente ter sido exposto e demiti-lo com justa causa,
colocando assim um ponto final naquela ideia peregrina e preservando as
nossas preciosas manhãs de sábado para o que elas serviam
verdadeiramente: o ato sagrado de dormir até mais tarde.
Era graças ao A que tínhamos as Sextas-Feiras sem Uniforme, quartos
individuais para os alunos finalistas e um baile anual tão decadente que era
por vezes mencionado na revista cor-de-rosa Page Six. Ninguém fazia ideia
de que tipo de chantagem, suborno ou manipulação estava associado à
conquista daqueles estimados direitos e tradições, mas não havia quem
duvidasse de que a mão do A estava por trás dessas proezas. O clube
possuía também a capacidade de nos tirar de algumas situações
complicadas. No meu primeiro ano, Celeste Lee, presumível membro do A,
envolveu-se numa rixa com Stephanie Matthews na casa de banho das
raparigas, no segundo piso do edifício de ciências, e deixou-a a sangrar do
nariz. Celeste teria sido suspensa se Stephanie tivesse feito queixa dela à
administração. Ninguém sabe ao certo que género de manipulação o A fez
nos bastidores, mas, ainda naquela tarde, quando o diretor chamou
Stephanie ao seu gabinete, esta manteve a boca calada.
O alcance do A estendia-se para lá da Knollwood Prep. Corriam rumores
de que o clube tinha membros-chave nas comissões de admissão de todas as
universidades da Ivy League e da Seven Sisters, e que a sua influência nos
podia abrir as portas da empresa da nossa preferência (listada na Fortune
500) após o final do curso universitário.
O A era um clube que toda a gente conhecia, embora, na verdade,
ninguém soubesse nada acerca dele. Não havia sequer maneira de saber quem eram os seus membros, a menos que fôssemos um deles. É que, ao
contrário dos restantes clubes da Knollwood Prep, não escolhíamos fazer
parte do A. O clube é que nos escolhia.
Drew bichanou o meu nome no meio da escuridão, baixo o suficiente para
eu ouvir, se estivesse acordada, e alto o bastante para me acordar, caso
estivesse a dormir.
Ainda pensei em fingir que dormia, mas acabei por responder.
– Diz.
Sentou-se na cama e acendeu a luz.
– Vá, diz lá, de uma vez por todas – pediu ela.
– Digo o quê?
– Vais a algum lado esta noite?
– Talvez – respondi.
– Graças a Deus – disse Drew. Levantou-se da cama e atravessou o quarto
em direção ao seu roupeiro. – Passei o dia todo a observar-te para tentar
perceber se também tinhas recebido um bilhete, porque não podia
simplesmente perguntar-te – explicou ela, vestindo umas leggings grossas e
pretas e calçando um par de botas.
– Quem mais é que terá entrado? – indaguei. Pulei da cama e comecei a
vasculhar o meu roupeiro. Qual seria o trajo mais adequado para um
encontro às tantas da noite com a sociedade secreta mais infame da escola?
Escolhi um par de skinny jeans, os meus Keds, um top preto com cavas
descomunais e uma sweatshirt com capuz.
– Lanço-me do Rebordo se a Marissa Wentworth tiver entrado! –
exclamou Drew.
Com que então ela tinha decifrado o enigma. Que tem uma cabeceira, mas
não é uma cama? Que tem um leito, mas nunca dorme? Que corre, mas
nunca caminha? Um rio, pois claro. O A ia reunir-se no Rebordo, sobre o
rio Spalding. As pessoas chamavam-lhe Rebordo, porque era disso mesmo
que se tratava: uma clareira no bosque que ficava junto à estrada, uma
saliência que dava para uma ravina íngreme e para o rio, mais abaixo.
– A Marissa Wentworth não faz o género do A – argumentei. – Eles
querem alguém que se destaque. Alguém que não tenha medo de sujar as
mãos.
– Achas que o Leo entrou? – perguntou Drew.
– É claro que o Leo entrou.
– Ele disse-te isso?
– Não, pelo menos com as letras todas – respondi. – Mas pensa lá, que
mundo seria este se o Leo não entrasse?
– Tens razão – concordou Drew, revirando os olhos.
Drew e Leo tinham namorado durante dois segundos logo no primeiro
ano. Para Leo, fora o namoro mais longo da sua vida e terminara do mesmo
modo que todas os seus romances acabavam: mal. Ainda assim, e embora
Drew não fosse a maior fã de Leo, ela teve de admitir que ele era uma
escolha óbvia para o A.
Leo cogitava exaustiva e desmesuradamente em tudo o que fazia,
portanto, não fazia sentido afirmar que ele era um tipo fixe sem se esforçar
por isso, se bem que houvesse qualquer coisa na sua postura que evocava
essa imagem. Leo usava o cabelo penteado para trás, deixando a testa à
mostra, e vestia-se sempre bem: calças de ganga feitas à medida, t-shirts
com decote em V amarrotadas, como ditava a moda, e casacos de cabedal.
Leo exsudava uma confiança que tornava em bestial o que quer que ele
fizesse. Seria inútil gozar com ele fosse por que fosse, já que Leo se tinha
em melhor conta do que qualquer outra pessoa que eu alguma vez
conhecera, tirando porventura o meu avô.
Uma atrás da outra, Drew e eu esgueirámo-nos pela janela do segundo
piso da residência, alcançando os ramos largos do ulmeiro que se
agigantava junto à fachada de Rosewood Hall. Descemos até à base do
tronco. Nenhuma de nós era caloira naquelas escapadelas noturnas.
No parque de estacionamento da residência, Drew coibiu-se de acender os
faróis do seu BMW e colocou o carro em ponto morto. Juntas, empurrámos
o carro até à estrada e só ligámos o motor quando estávamos longe o
suficiente para que a Sra. Stanfeld, a supervisora da nossa residência, que
vivia num apartamento no rés do chão do edifício, não nos ouvisse.
Com a residência longe de nós, Drew abriu o teto do carro e uivou à Lua.
Eu ri-me e pus o braço fora da janela, afastando os dedos da mão para
apanhar a humidade do ar noturno.
Não falámos do que estava a acontecer ou do que se seguiria. Não
especulámos acerca do que o A nos obrigaria a fazer para nos tornarmos em
membros, embora ambas soubéssemos que, o que quer que fosse, não iria
ser fácil. Em vez disso, aparentámos uma indiferença e uma descontração
que nenhuma de nós sentia.
1 DGAF, «Don’t Give a Fuck» (Estou-me marimbando); YOLO, «You Only Live Once» (Só se vive uma vez). (N. da T.)