Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 2 de 44

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Magníficos Estranhos

Primeira Parte

Um

 

Charlie Calloway

 

2017

 

Tudo começou naquela manhã, com um bilhete impresso em cartolina e

pouco maior do que um cartão de visita.

 

Bom dia, esperamos que não leves a mal.

Aqui tens, só para ti, um convite formal.

Sabes quem somos, por isso perdoa o anonimato.

Somos teus admiradores, acredita que não é boato.

Somos o oposto do Ómega, o total contrário de findar

Segue esta pista e eis-nos aqui, ansiosos por começar.

 

O bilhete equilibrava-se sobre o folheto, impresso no azul régio e dourado

da escola, com que a Knollwood Augustus Prep dava as boas-vindas aos

alunos, anunciando que o Dia dos Clubes se realizaria no pátio Healy,

naquela sexta-feira à tarde, e encorajando todos os alunos a estar presentes.

Seguia-se uma lista de todos os clubes e organizações estudantis de

Knollwood Prep. Em rodapé, podia ler-se a declaração de missão da escola,

em letras delicadas e douradas: «acolher alunos cuja exigente curiosidade e

pensamento independente os conduz à excelência, dentro e fora da sala de

aulas.»

Poderia nem ter reparado no bilhete de cartolina se este não tivesse

esvoaçado até ao chão quando extraí o prospeto da minha caixa de correio

no Rosewood Hall, a residência feminina para pré-finalistas e finalistas. O

meu coração deu um pulo quando vi o bilhete, já que a primeira parte, o

remetente, era óbvio. «Sabes quem somos… Somos o oposto do Ómega, o total contrário de findar». Era o A, o único clube que não vinha listado no

folheto da escola e, na minha opinião, o único a que valia a pena pertencer.

Era a segunda parte do bilhete que não me saía da cabeça quando me

sentei na aula do professor Andrews, de Introdução à Fotografia. De uma

forma geral, não teria sido possível sonhar acordada na aula daquela

maneira. A Knollwood Prep seguia o método Harkness, o que significava

que nos sentávamos em redor de uma mesa, de frente uns para os outros, e

que todos tinham de participar na discussão, com intervenções mínimas por

parte do professor. Alguns professores tinham até um caderno com o nome

de cada aluno e colocavam uma pequena marca ao lado dos nossos nomes à

medida que intervínhamos. Se, no final da aula, o nosso nome não

mostrasse uma quantidade satisfatória de marcas, receberíamos um pequeno

bilhete a dizer qualquer coisa do tipo «Sentimos a falta da sua voz na aula

de hoje», ou «Quando nem toda a gente se pronuncia, todos ficamos a

perder». Ou ainda, a minha preferida, «Perde cem por cento das discussões

nas quais não participa».

O professor Andrews, contudo, era novo ali, acabado de sair da

universidade, e muito mais negligente do que outros professores. A sua aula

de Introdução à Fotografia tinha sido, enquanto opção, a disciplina de artes

mais procurada naquele semestre, não por causa do conteúdo do currículo,

mas porque o professor Andrews era, bem, um borracho. Tinha aquele ar

moreno de hipster descuidado, com as camisas de flanela que usava para

fora das calças de ganga, o gorro para esconder o cabelo preto e a precisar

de lavagem, olhos castanho-claros rodeados de pestanas de boneca, mais

compridas do que as minhas. Além disso, possuía uma vantagem clara sobre

a maioria dos rapazes da Knollwood Prep: pelos faciais. Exibia sempre uma

hirsutez perfeita a cobrir-lhe os malares bem definidos.

Naquele dia, o professor Andrews não chegara carregado de folhas acerca

da teoria da fotografia para nós analisarmos, mas munido de uma máquina

muito impressionante com uma lente comprida, que fez passar de mão em

mão.

– Isso é uma teleobjetiva – disse o professor Andrews. – Produz um efeito

ótico excecional que pode criar a ilusão de que dois objetos separados por

uma grande distância estão, na verdade, perto um do outro. É uma

ferramenta poderosa para captar momentos espontâneos quando não

podemos aproximar-nos fisicamente do nosso sujeito.

Pressionou uma tecla do seu portátil e, na tela do projetor, à nossa frente,

apareceu uma fotografia de um leão deitado numa savana, em África.

– Um dos exemplos mais óbvios do que acabei de mencionar é a

fotografia de natureza ou de desporto – prosseguiu o professor Andrews. –

O fotógrafo correria risco de vida se estivesse perto de, digamos, um leão,

ou de um jogador de basebol profissional prestes a bater uma bola. Uma

outra utilização menos óbvia, porém, é a fotografia urbana, em que o artista

necessita de distância não por razões de segurança, mas para preservar a

espontaneidade da imagem.

Carregou noutra tecla e a fotografia de uma mulher jovem acompanhada

de uma criança numa rua movimentada de Nova Iorque preencheu a tela.

Enquanto ele falava, contemplei a máquina fotográfica que tinha no colo

e brinquei com o zoom. Pensei na segunda metade do enigma do A.

 

uma cabeceira, mas não sou uma cama.

Tenho um leito, mas nunca durmo.

Sou capaz de correr, mas jamais caminho.

Vem conhecer-me depois de escurecer.

 

Que tem uma cabeceira, mas não é uma cama? Que tem um leito, mas

nunca dorme? Que corre, mas nunca caminha?

O «quando» era bastante evidente – naquela noite, depois do recolher

obrigatório –, mas o «onde» era um ponto de interrogação gigante. Que

lugar é que tinha uma cabeceira? E o verso seguinte – Tenho um leito, mas

nunca durmo – seria um piscar de olhos à vigilância apertada do diretor

Collins? Talvez, mas não era capaz de fazer com que o verso seguinte

encaixasse nesse raciocínio. Okay, então que lugar é que tinha uma cama?

Tipo, um leito de rochas? Seria uma referência às pedreiras?

Senti um pontapé por baixo da mesa e, ao levantar a cabeça, deparei com

Royce Dalton, o finalista mais popular da escola, a lançar-me um olhar

expressivo desde o outro lado da mesa. Demorei uns segundos a unir os

pontos, mas assim que ele clareou a garganta e olhou de soslaio para o

professor Andrews, dei-me conta de que toda a turma me olhava silenciosa

e expectantemente. Endireitei-me na cadeira e pousei a máquina.

– É uma excelente pergunta – disse, num tom lento e deliberado, dando

voltas à cabeça para adivinhar o que o professor Andrews me teria perguntado, ao mesmo tempo que procurava uma escapatória para ocultar o

facto de não ter prestado atenção.

A imagem da mulher e do seu filho, na tela à nossa frente, prendeu-me o

olhar. A criança estava transtornada e a mulher detivera-se; estava

agachada, de modo que pudesse olhar o rapazinho nos olhos. Tinha o braço

esticado, prestes a prender uma madeixa do cabelo do menino atrás da sua

orelha, para o consolar. De início, não reparara nisso, mas a mulher parecia

igualmente perturbada. Interroguei-me acerca do que sucedera antes de a

fotografia ter sido tirada e o que acontecera a seguir. Chocava-me que o

fotógrafo tivesse captado aquele momento íntimo e doloroso e o tivesse

exposto para quem o quisesse ver. Havia a ilusão de se estar perto, quando,

na realidade, o fotógrafo estava longe, não só fisicamente mas

emocionalmente também. O fotógrafo permanecia protegido e em

segurança, ao mesmo tempo que mostrava aquele instante vulnerável ao

mundo, para que fosse observado, como arte.

– Talvez me esteja a desviar do tópico – disse –, mas fiquei a pensar neste

assunto da fotografia urbana. Julgo entender a necessidade de

distanciamento para se captar a veracidade de um momento, mas parece-me

irónico que, para captar a verdade, tenhamos de ser dúplices, traiçoeiros. A

distância permite ao sujeito agir de modo natural precisamente porque não

sabe que está a ser observado. Acho que, para mim, isso levanta uma

questão moral. Será isto arte… ou uma invasão da privacidade? Estou

curiosa em saber a sua opinião nesta matéria. Peço desculpa desde já, caso

me esteja a adiantar.

Tratava-se de um mecanismo de defesa que tinha aprendido há muito

tempo: 1) Encarreirar palavras suficientes relacionadas com o tema para

fazer parecer que estamos a prestar atenção. 2) Admitir que o comentário

que vamos proferir pode parecer irrelevante. 3) Desviar os holofotes de nós,

fazendo outra pergunta. Com alguns professores, quanto mais irrelevante

for o comentário, melhor, já que parecerá que estávamos mesmo a levar em

consideração o tema proposto para discussão. 4) Terminar com um pedido

de desculpas ambíguo e indireto que deixa entrever que a nossa curiosidade

intelectual está a milhas do ritmo de ensino. De repente, não somos o

mandrião que sonha acordado, mas o pensador profundo que está muito

mais à frente do rebanho.

O professor Andrews pareceu ficar surpreendido com o meu pequeno desvio em relação ao assunto.

– Hum… Uma pergunta interessante, menina…? – disse ele.

Era quase cativante o facto de não se ter dado ao trabalho de memorizar

os nossos nomes.

– Calloway – respondi. – Charlie Calloway.

Percebi, pela centelha que lhe iluminou o olhar, que reconheceu o meu

nome e seguiu-se uma pausa, um segundo apenas mais longa do que seria

apropriado. Era uma reação comum quando eu conhecia quem quer que

fosse. Conseguia ver as rodas dentadas no interior dos seus cérebros a entrar

em ação. «Por acaso não pertence àquela família Calloway? Não é a

rapariga cuja mãe… Bem… Pobre rapariga.» Era o que pensavam,

inevitavelmente.

– Menina Calloway – disse o professor Andrews, cofiando o queixo

hirsuto ao mesmo tempo que cogitava na minha pergunta. – A ética e a arte.

É sempre uma discussão interessante.

O professor Andrews lançou-se então no tema e eu olhei em frente, para

Dalton, que levou subtilmente o indicador aos lábios, como se fosse o cano

de uma arma, e soprou o fumo imaginário que dele se elevava. Na mouche.

Obrigada, disse-lhe, mexendo apenas os lábios, e ele respondeu com uma

piscadela de olho cúmplice.

*

 

Do outro lado das janelas do refeitório, o céu começava a escurecer.

Faltavam três horas para o recolher obrigatório e eu ainda não tinha

resolvido o enigma do clube A relativo ao local de encontro. Só me tinham

ocorrido as antigas pedreiras que ficavam a meia hora da escola. Estavam

abandonadas há muitos anos e a água da chuva inundara-as. Por vezes, no

final da primavera ou no início do outono, os alunos da Knollwood Prep

iam até lá aos fins de semana. Os corajosos lançavam-se das rochas e os

preguiçosos estendiam-se nelas e apanhavam banhos de sol. Não tinha

qualquer dificuldade em imaginar a pedreira como local de encontro do

clube e era até capaz de visualizar ali uma espécie de ritual de iniciação que

envolvia pularmos da rocha mais alta numa noite escura como breu, quando

o lago se tornava em invisível, mas o problema era que nem todas as frases

do enigma apontavam nessa direção.

Ao mesmo tempo que dava voltas e voltas à cabeça, depenicava a massa com salmão fumado que tinha no prato e fingia que tinha a boca cheia de

cada vez que Stevie Sorantos me perguntava qual devia ser o slogan da sua

campanha. Concorria ao cargo de tesoureira da Associação de Estudantes –

outra vez – e pressionava-nos para que contribuíssemos com uma frase

apelativa que a catapultasse para o topo das sondagens.

– Que tal «Votem em mim, ou logo verão» – sugeriu Drew, empurrando a

sua espessa cabeleira loura, de caracóis apertados, para trás dos ombros. –

DGAF é o novo YOLO.1

– Eu gosto – disse Yael. – Perentório, mas desapegado. Como quem se

faz de difícil.

– Resulta seguramente com a franja masculina do eleitorado – salientou

Drew, abanando as espessas sobrancelhas.

– Mas eu não quero que as pessoas pensem que me estou marimbando –

alegou Stevie, com um leve tom de exasperação.

Arregalei os olhos a Drew, que deu uma dentada gigantesca no pão para

não se desatar a rir. Como se alguém fosse alguma vez pensar que Stevie

Sorantos se estava marimbando.

Por vezes – pronto, muitas vezes –, Stevie bulia-me com os nervos,

porque se esforçava demasiado, para lá da conta. Tesoureira da Associação

de Estudantes. Presidente do Conselho Estudantil de Ética. Sempre a

primeira a pôr a mão no ar quando um professor fazia uma pergunta. Certa

vez, encontrei-a na casa de banho a chorar baba e ranho como se o cão lhe

tivesse morrido, porque tivera um Bom+ num ensaio. Vira e volta, sentia-

me tentada a deitar-lhe um calmante na água, só para que ela se visse

forçada a descontrair.

Sabia por que razão ela era assim, é claro. Todos sabíamos. Stevie estava

ali graças a uma bolsa de estudos. Ela nunca nos revelara isso, e nós jamais

mencionávamos o assunto. Knollwood Prep esforçava-se por colmatar as

diferenças socioeconómicas recorrendo a uniformes, a isenções de propinas,

a MacBooks e a iPads para alunos que necessitavam de ajuda. Mas por mais

que se esforçasse, a escola não conseguia apagar as nossas origens. Stevie

não usava as pulseiras Cartier que nós usávamos; não tinha uma mochila

YSL ou, bem, o que quer que fosse de marca. A família dela nunca ia de

férias. Não tinha carro. Contudo, nenhuma destas coisas atraiçoava Stevie

tanto quanto o seu ostensivo desejo de provar que pertencia ali. Era

cansativo, e não alcançava, nem de longe, o objetivo pretendido. É que a única coisa que importava para as pessoas que importavam era agir como

se, na realidade, nada importasse. Por mais paradoxal que tal fosse.

– Vá lá, Charlie – insistiu Stevie, e eu enfiei uma nova garfada de massa

na boca, fazendo de conta que era demasiado grande para conseguir falar. –

Tu tens sempre ideias bestiais.

– Ei! – reclamou Drew, apontando os dentes do seu garfo, carregados de

espargos, a Stevie. – Então e a minha ideia? Vale ouro!

No primeiro ano, eu tinha convencido Stevie a fazer uma campanha

baseada na série Os Sopranos. Yael tirou umas fotografias a preto e branco

de Stevie: de fato e gravata e óculos de sol, sentada num cadeirão estofado

com um cigarro a pender-lhe do canto da boca e uma nuvem de fumo por

cima da cabeça. Drew e eu transformámos as fotos em cartazes,

acrescentando citações de Tony Soprano:

«Uma decisão errada é melhor do que a indecisão.»

«Bem, tendo em conta que me chamou aqui, mais vale dizer-lhe… Agora,

quem manda sou eu.»

«Com todo o respeito, vocês não fazem a mínima ideia do que é ser o

número um.»

No canto inferior direito, em letras grossas e vermelhas que imitavam as

do título da série, escrevemos: Vota Sorantos.

Todos os outros candidatos tinham optado pela via séria, com pósteres

que proclamavam banalidades, ou pior: trocadilhos mal conseguidos com os

seus nomes. Stevie conseguiu uma vitória esmagadora.

– Está bem – disse, percebendo que não me restava outra alternativa. – E

que tal «Estou há dois anos neste cargo. Se acham que não estou qualificada

para ele, vão à merda».

Yael fez de conta que ponderava a sugestão.

– Quanta subtileza e elegância – opinou ela. – Não será demasiado

sofisticado?

Stevie pousou o copo de leite no tabuleiro com tanta força que o

derramou. Inclinei a cabeça e vi pérolas brancas de leite na manga da minha

camisola.

– Estou a ver que até fingir que levam isto a sério é pedir demais – disse

Stevie, pondo a mochila barata Target ao ombro e levantando-se.

– Stevie… – chamou Yael.

– Vou à biblioteca – afirmou Stevie, e encaminhou-se para o extremo mais afastado do refeitório com a mochila a bater-lhe nas costas a cada

passo determinado que dava.

Yael suspirou e reuniu as suas coisas, lançando a Drew e a mim um

sorriso exasperado.

– Alerta de Prontidão Três – disse ela. – Eu trato da gestão de danos.

– Agora fiquei a sentir-me mal – confessou Drew, depois de Yael se ter

ido embora. – Mas a minha ideia do DGAF era a sério.

Encolhi os ombros e agarrei num guardanapo para enxugar a manga.

Stevie e Yael eram minhas amigas apenas por interposta pessoa,

sobretudo porque andavam sempre de roda de Drew, e Drew e eu estávamos

sempre juntas. Tomávamos as refeições juntas, sentávamo-nos ao lado uma

da outra nas aulas, passávamos longas horas à conversa na sala de convívio

antes do recolher obrigatório e partilhávamos um quarto. Em resultado

disso, fazia um esforço no que a elas dizia respeito: fui velejar com a

família da Yael durante o verão, numa ocasião em que as nossas famílias se

cruzaram em Martha’s Vineyard. Convidei Stevie para passar o Dia de

Ação de Graças com a minha família, em Greenwich, porque sabia que ela

não podia pagar o bilhete de avião para Ohio e teria passado o feriado

sozinha, numa escola vazia. Dava-me bem com elas (a maior parte do

tempo, pelo menos) e simpatizava com ambas, mas não tínhamos o mesmo

relacionamento que eu partilhava com Drew. Ela e eu éramos unha com

carne.

No primeiro ano, Drew e eu tínhamos sido acidentalmente colocadas no

mesmo quarto com uma outra rapariga que detestávamos. Chamava-se

River e nunca se depilava, não acreditava em desodorizante, em sal de mesa

ou em ouvir a sua música popular num volume civilizado. Aparentemente,

também não acreditava em estudar, pois deixámos de vê-la no semestre

seguinte. Viver com River era como ser gaseado, e Drew e eu havíamos

passado por isso juntas, o que criara um laço inquebrável entre nós.

Observava Drew fixamente ao mesmo tempo que ela mastigava e falava

com grande entusiasmo do iminente jogo de voleibol contra o nosso rival, a

equipa Xavier. Tentei perguntar-lhe, sem perguntar: também recebeste um?

O A escolheu-te? Porque não podia simplesmente… Bem, não podia

perguntar.

– Que foi? – indagou ela, e dei-me conta, tarde demais, de que as minhas

tentativas de enviar mensagens telepáticas tinham resultado num olhar pasmado e sinistro. – Tenho alguma coisa na cara?

– Sim, um bocadinho de molho, aí – menti, apontando para uma zona no

meu queixo como referência.

– Obrigada – disse Drew, limpando com o guardanapo o sítio

correspondente no seu queixo.

Era inútil. A expressão de Drew parecia impenetrável. Assim, percorri

com os olhos o refeitório em busca do meu primo Leo. Leo era dois meses

mais novo do que eu, mas ninguém o diria, tendo em conta a sua altura: um

metro e oitenta e sete. Com base na aparência física, também ninguém diria

que éramos primos. Leo exibia a tradicional beleza dos Calloway: olhos

cintilantes cor de turquesa, cabelo louro-dourado e maçãs do rosto distintas.

Eu, por outro lado, parecia-me com a minha mãe. Herdara o seu cabelo

escuro, os olhos grandes e cinzentos, a pele translúcida e a sua baixa

estatura. Tratava-se de um círculo do inferno que Dante jamais imaginara:

olhar-me ao espelho todos os dias e ver a pessoa que mais

desesperadamente queria esquecer.

Avistei Leo duas mesas mais à frente, sentado ao lado de Dalton e de um

grupo de outros rapazes populares. Ainda tinha o cabelo molhado em

resultado do banho pós treino de futebol e pendeu-lhe ligeiramente para os

olhos quando se inclinou para dizer qualquer coisa aos amigos. Só de olhar

para ele soube que fora abordado pelo A; nem sequer tinha de perguntar.

Percebi pelo seu sorriso arrogante e torcido, que lhe fazia uma covinha na

face esquerda. Leo e eu possuíamos desde sempre uma inquietante

capacidade para interpretar os estados de espírito um do outro, talvez por

ele ter atravessado comigo o fogo infernal que havia sido a minha infância.

Fora Leo quem me salvara, no final, ou, pelo menos, fora ele quem me

ensinara a salvar-me a mim mesma.

– Merda! – exclamou Drew. Tinha feito tombar o copo. A água

derramara-se por todo o lado, escorrendo até pela beira da mesa. Peguei no

guardanapo e comecei a tentar conter o tsunami e Drew apressou-se a

endireitar o copo.

– A tua mala – alertou Drew, e eu levantei-a da mesa mesmo a tempo de

não ser atingida pela enxurrada.

Foi então que me ocorreu. Era isso. Sabia onde o clube A se reuniria

naquela noite.

– Desculpa – pediu Drew. – Sou tão desastrada.

– Ora essa, obrigada – respondi, sem pensar.

– O quê?

– Ah, nada – disse. – Queria dizer, não tem problema.

*

 

Na Knollwood Prep, o recolher obrigatório era às nove da noite nos dias de

semana. Normalmente, Drew e eu ficávamos na sala de convívio até quase

às nove e depois sentávamo-nos às nossas secretárias a terminar leituras ou

trabalhos e a conversar. Naquela noite, deitámo-nos ambas cedo. Estendida

na cama, contemplava o teto, às escuras, tentava perceber pelo som da

respiração de Drew se ela já dormia e interrogava-me acerca da melhor

maneira de me esgueirar pela janela do quarto sem a acordar.

Não conseguia parar de pensar no clube A.

Knollwood Prep tinha quatro tipos de clube: o atlético, o académico, o de

interesses comuns e o, bem, o ridículo (o Clube do Queijo, por exemplo, em

que os membros se sentavam à volta de uma mesa e, sim, isso mesmo,

comiam queijo). Pertencer a esses clubes implicava rituais palermas ou

treinos fatigantes no ginásio a fazer cambalhotas no ar de uma ponta à outra

do campo, num impulso primitivo de mostrar intrepidez, ou reuniões à volta

de uma campainha nas quais os participantes respondiam a perguntas ao

mesmo tempo que um secretário eleito mantinha registo dos minutos. Estes

clubes reuniam-se com outras escolas e organizavam eventos como vendas

de bolos ou lavagens de carros para angariar dinheiro para instituições

locais. Na Knollwood Prep, esperava-se que colecionássemos participações

nestes clubes como se fossem pendentes numa pulseira, para que na

candidatura à universidade pudéssemos afirmar que não só tínhamos

conseguido uma rigorosa educação académica numa das melhores escolas

secundárias do país, como também éramos um membro útil da comunidade,

ou seja, que éramos detentores de uma educação «abrangente», aquela

palavra da moda com a qual os responsáveis pelas admissões nas

universidades salivavam.

Pertencer ao A não era, porém, coisa que pudéssemos incluir na

candidatura à universidade. Não era sequer algo que pudéssemos contar a

alguém. O A não fazia vendas de bolos ou lavava carros; não envolvia

braçadeiras ou transpirar e, obviamente, não tinha um secretário a contar

minutos.

No ano anterior, quando o novo presidente do Departamento de Artes

tentou instaurar uma aula obrigatória de enriquecimento cultural ao sábado,

o A lançou uma campanha de difamação tão feroz que o presidente se

pisgou no final do semestre de outono. Ninguém «soube» como é que os

escandalosos emails que o presidente trocara com uma rapariga de quinze

anos oriunda do Maine e com problemas do foro paternal foram parar às

caixas de correio eletrónico de todos os alunos, administradores e membros

do corpo docente listados no servidor da Knollwood Prep, mas toda a gente

«sabia» que, de algum modo, o clube A estava por trás disso. Embora o

diretor Collins tivesse ordenado uma investigação a semelhante quebra da

segurança da escola, no final, pouco mais pôde fazer do que aplaudir o facto

de aquele homem indecente ter sido exposto e demiti-lo com justa causa,

colocando assim um ponto final naquela ideia peregrina e preservando as

nossas preciosas manhãs de sábado para o que elas serviam

verdadeiramente: o ato sagrado de dormir até mais tarde.

Era graças ao A que tínhamos as Sextas-Feiras sem Uniforme, quartos

individuais para os alunos finalistas e um baile anual tão decadente que era

por vezes mencionado na revista cor-de-rosa Page Six. Ninguém fazia ideia

de que tipo de chantagem, suborno ou manipulação estava associado à

conquista daqueles estimados direitos e tradições, mas não havia quem

duvidasse de que a mão do A estava por trás dessas proezas. O clube

possuía também a capacidade de nos tirar de algumas situações

complicadas. No meu primeiro ano, Celeste Lee, presumível membro do A,

envolveu-se numa rixa com Stephanie Matthews na casa de banho das

raparigas, no segundo piso do edifício de ciências, e deixou-a a sangrar do

nariz. Celeste teria sido suspensa se Stephanie tivesse feito queixa dela à

administração. Ninguém sabe ao certo que género de manipulação o A fez

nos bastidores, mas, ainda naquela tarde, quando o diretor chamou

Stephanie ao seu gabinete, esta manteve a boca calada.

O alcance do A estendia-se para lá da Knollwood Prep. Corriam rumores

de que o clube tinha membros-chave nas comissões de admissão de todas as

universidades da Ivy League e da Seven Sisters, e que a sua influência nos

podia abrir as portas da empresa da nossa preferência (listada na Fortune

500) após o final do curso universitário.

O A era um clube que toda a gente conhecia, embora, na verdade,

ninguém soubesse nada acerca dele. Não havia sequer maneira de saber quem eram os seus membros, a menos que fôssemos um deles. É que, ao

contrário dos restantes clubes da Knollwood Prep, não escolhíamos fazer

parte do A. O clube é que nos escolhia.

Drew bichanou o meu nome no meio da escuridão, baixo o suficiente para

eu ouvir, se estivesse acordada, e alto o bastante para me acordar, caso

estivesse a dormir.

Ainda pensei em fingir que dormia, mas acabei por responder.

– Diz.

Sentou-se na cama e acendeu a luz.

– Vá, diz lá, de uma vez por todas – pediu ela.

– Digo o quê?

– Vais a algum lado esta noite?

– Talvez – respondi.

– Graças a Deus – disse Drew. Levantou-se da cama e atravessou o quarto

em direção ao seu roupeiro. – Passei o dia todo a observar-te para tentar

perceber se também tinhas recebido um bilhete, porque não podia

simplesmente perguntar-te – explicou ela, vestindo umas leggings grossas e

pretas e calçando um par de botas.

– Quem mais é que terá entrado? – indaguei. Pulei da cama e comecei a

vasculhar o meu roupeiro. Qual seria o trajo mais adequado para um

encontro às tantas da noite com a sociedade secreta mais infame da escola?

Escolhi um par de skinny jeans, os meus Keds, um top preto com cavas

descomunais e uma sweatshirt com capuz.

– Lanço-me do Rebordo se a Marissa Wentworth tiver entrado! –

exclamou Drew.

Com que então ela tinha decifrado o enigma. Que tem uma cabeceira, mas

não é uma cama? Que tem um leito, mas nunca dorme? Que corre, mas

nunca caminha? Um rio, pois claro. O A ia reunir-se no Rebordo, sobre o

rio Spalding. As pessoas chamavam-lhe Rebordo, porque era disso mesmo

que se tratava: uma clareira no bosque que ficava junto à estrada, uma

saliência que dava para uma ravina íngreme e para o rio, mais abaixo.

– A Marissa Wentworth não faz o género do A – argumentei. – Eles

querem alguém que se destaque. Alguém que não tenha medo de sujar as

mãos.

– Achas que o Leo entrou? – perguntou Drew.

– É claro que o Leo entrou.

– Ele disse-te isso?

– Não, pelo menos com as letras todas – respondi. – Mas pensa lá, que

mundo seria este se o Leo não entrasse?

– Tens razão – concordou Drew, revirando os olhos.

Drew e Leo tinham namorado durante dois segundos logo no primeiro

ano. Para Leo, fora o namoro mais longo da sua vida e terminara do mesmo

modo que todas os seus romances acabavam: mal. Ainda assim, e embora

Drew não fosse a maior fã de Leo, ela teve de admitir que ele era uma

escolha óbvia para o A.

Leo cogitava exaustiva e desmesuradamente em tudo o que fazia,

portanto, não fazia sentido afirmar que ele era um tipo fixe sem se esforçar

por isso, se bem que houvesse qualquer coisa na sua postura que evocava

essa imagem. Leo usava o cabelo penteado para trás, deixando a testa à

mostra, e vestia-se sempre bem: calças de ganga feitas à medida, t-shirts

com decote em V amarrotadas, como ditava a moda, e casacos de cabedal.

Leo exsudava uma confiança que tornava em bestial o que quer que ele

fizesse. Seria inútil gozar com ele fosse por que fosse, já que Leo se tinha

em melhor conta do que qualquer outra pessoa que eu alguma vez

conhecera, tirando porventura o meu avô.

Uma atrás da outra, Drew e eu esgueirámo-nos pela janela do segundo

piso da residência, alcançando os ramos largos do ulmeiro que se

agigantava junto à fachada de Rosewood Hall. Descemos até à base do

tronco. Nenhuma de nós era caloira naquelas escapadelas noturnas.

No parque de estacionamento da residência, Drew coibiu-se de acender os

faróis do seu BMW e colocou o carro em ponto morto. Juntas, empurrámos

o carro até à estrada e só ligámos o motor quando estávamos longe o

suficiente para que a Sra. Stanfeld, a supervisora da nossa residência, que

vivia num apartamento no rés do chão do edifício, não nos ouvisse.

Com a residência longe de nós, Drew abriu o teto do carro e uivou à Lua.

Eu ri-me e pus o braço fora da janela, afastando os dedos da mão para

apanhar a humidade do ar noturno.

Não falámos do que estava a acontecer ou do que se seguiria. Não

especulámos acerca do que o A nos obrigaria a fazer para nos tornarmos em

membros, embora ambas soubéssemos que, o que quer que fosse, não iria

ser fácil. Em vez disso, aparentámos uma indiferença e uma descontração

que nenhuma de nós sentia.

1 DGAF, «Don’t Give a Fuck» (Estou-me marimbando); YOLO, «You Only Live Once» (Só se vive uma vez). (N. da T.)