Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 4 de 44

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Magníficos Estranhos

Três CHARLIE CALLOWAY

Três

 

 

CHARLIE CALLOWAY

 

2017

 

Na segunda classe, a professora Wilkes pedira-nos que escrevêssemos uma

redação acerca de um superpoder que desejássemos ter. Na minha história,

havia uma rapariga da minha idade e ela encontrava um génio perto da

Bethesda Fountain, no Central Park, que se oferecia para lhe conceder um

desejo. A menina desejou ser invisível, e esse desejo foi-lhe concedido.

A menina ia onde lhe apetecia e fazia o que queria. Entrou no Central

Park Zoo sem pagar. Andou no carrossel e subiu aos torreões do Belvedere

Castle e, durante um tempo, foi tudo maravilhoso. Então, a menina cansou-

se daquilo, voltou para casa e tentou retomar as suas antigas rotinas, mas já

nada era igual. Os pais não iam aconchegar-lhe a roupa, à noite, porque não

sabiam que ela estava em casa. A professora nunca se dirigia a ela na sala

de aulas. Ao almoço, sentava-se ao lado dos amigos, mas as conversas e as

brincadeiras nunca a incluíam. A menina começou a ficar muito triste e

solitária.

Regressou ao parque e procurou o génio, junto à fonte, pois ele era o

único que a conseguia ver. Perguntou-lhe se podia pedir outro desejo. Com

um ar solene, o génio abanou a cabeça e disse-lhe que tal era impossível. A

maior parte das crianças nem sequer tinha oportunidade de formular um

desejo sequer; era impensável que uma menina pudesse pedir dois. A

menina desatou a chorar, porque se deu conta, tarde demais, que ser visto

era mais poderoso do que ser invisível.

Se fosse qualquer outra criança de sete anos da minha turma, por certo

que a professora Wilkes teria achado que eu era precoce e me teria elogiado

pela criatividade demonstrada, mas aquilo aconteceu após o verão em que a minha mãe desapareceu. O meu pai tinha contratado um investigador

privado para a encontrar e este contara-nos o que sucedera à minha mãe, ou,

pelo menos, tudo o que ele descobrira. Portanto, em resumo, a professora

Wilkes não ficou divertida ou agradada com a minha história, mas

preocupada. Falou com o meu pai e ele obrigou-me a ir a um terapeuta.

O nome dela era Dra. Malby, e a sua especialidade era adolescentes com

passados particularmente traumáticos. Um dos rapazes que ela tratava era

mais ou menos da minha idade e vira o pai, corretor da bolsa, suicidar-se

com uma espingarda apontada à boca, por causa de um investimento que

correra mal. Confessou-me isto na sala de espera, enquanto brincava com

uma figura de ação, um G.I. Joe, e eu me entretinha relutantemente com um

puzzle. Uma outra rapariga, mais velha, com a qual me cruzava por vezes

quando chegava ao consultório, tinha ligaduras a cobrir-lhe os antebraços.

Nunca falava comigo ou brincava na mesa das atividades. Estava sempre

sentada de forma desleixada numa cadeira, folheando revistas.

As paredes do consultório da Dra. Malby eram cor-de-rosa, da cor do

algodão doce. Sentávamo-nos no chão, em redor de uma mesa baixa, sobre

um tapete felpudo, e jogávamos Jenga enquanto ela me sondava a psique.

– Aqui dentro, podes dizer tudo o que quiseres – explicou a Dra. Malby.

– Vai contar ao meu pai? – quis saber.

Ela retirou cuidadosamente um bloco de madeira do fundo da estrutura e

pousou-o no topo.

– Estamos todos aqui para que possas começar a sentir-te melhor –

declarou a Dra. Malby, sem responder à minha pergunta. – Há alguma coisa

que queiras dizer? – perguntou ela. – Alguma coisa que sintas que não

podes dizer lá fora? – Apontou para as paredes da cor do algodão doce.

– Foda-se – disse. – Foda-se, foda-se, foda-se.

Foi o que o meu tio Teddy dissera no barco, naquele verão, depois de ter

deixado cair a cerveja ao mar enquanto ajustava a bujarrona, e eu sabia que

não era uma coisa que devesse repetir, porque a tia Grier dissera de

imediato o nome dele, mas de uma maneira que significava muito mais do

que apenas o seu nome. Sempre me fascinou o quanto a tia Grier conseguia

exprimir apenas com uma palavra, ou mesmo com um só olhar, caso

estivesse a sentir-se particularmente económica. Um olhar severo fazia Leo

vestir o blazer cinzento e áspero para o jantar; uma sobrancelha arqueada

tinha o condão de silenciar os queixumes da minha prima Piper, porque eu, e não ela, tinha recebido permissão para comandar o barco. Dessa vez, a tia

Grier disse «Teddy», mas o que queria dizer era: «Teddy-à-frente-dos-

miúdos-não.»

Não sabia o que significava ao certo a palavra «foder». Desconhecia, pelo

menos, o seu significado literal. Sabia apenas o que sentia ao dizê-la. Era

como se resumisse a raiva e a vergonha e a solidão às quais, de outro modo,

não podia dar voz. Havia sempre uma diferença entre o modo como aquelas

coisas soavam e o que me faziam sentir. A palavra «foda-se», porém,

captava bem esse sentimento. Era os dentes contra o lábio, o osso contra a

carne, para começar. Era redondo e completo, pelo meio. E era duro e

áspero, no final.

– Isso faz-te sentir melhor? – quis saber a Dra. Malby.

Respondi que sim com a cabeça, porque, de facto, me fazia sentir melhor.

Assim sendo, sentada pacientemente, a Dra. Malby deixou-me dizê-lo uma

e outra vez, para as paredes cor de algodão doce do seu gabinete. Foda-se,

foda-se, foda-se, foda-se, foda-se. Saboreava a palavra de cada vez que a

pronunciava, o modo como os lábios se arredondavam para formar a

palavra, a maneira como o meu peito se comportava ao cuspi-la. Era como

inspirar depois de termos sustido a respiração tanto tempo que os nossos

pulmões parecem prestes a rebentar.

*

 

Depois da noite passada na floresta com o clube A, encontrei, logo na

manhã do dia seguinte, uma nota rabiscada à pressa num pedaço de papel:

 

Charlotte,

TENHO de falar contigo. Encontramo-nos às 21 h no Rosie’s Diner.

Muito importante.

Hank

 

Desanimei um pouco ao dar-me conta de que não era o meu primeiro

bilhete enviado pelo A.

Hank? Quem raio era o Hank? E por que carga de água queria encontrar-

se comigo no restaurante mais seboso de Falls Church, a pequena cidade

que ficava mais perto da escola? O meu primeiro pensamento foi que se

tratava de um caloiro perdido de amores que reunira coragem suficiente para marcar um encontro cara a cara e talvez se envergonhasse de o fazer no

recinto da escola. Havia qualquer coisa no desleixo da caligrafia que não

pude deixar de interpretar como desespero.

Então, de súbito, a minha perplexidade deu lugar a uma mistura de pânico

e raiva. Merda. Sabia quem era o Hank. Não se tratava de um caloiro

imbecil, mas do meu tio Hank, o irmão mais velho da minha mãe.

O que significava que ele estivera ali, no campus, nas últimas horas.

Estaria ainda por ali, à coca, à espreita? Espreitei rapidamente por cima do

ombro, examinando o resto da sala do correio, quase à espera de o ver a um

canto.

Não via o tio Hank há uma eternidade, desde que eu tinha dez anos e o

meu pai solicitara uma providência cautelar para que ele não se aproximasse

de nós.

A coisa passara-se assim: numa tarde, o tio Hank foi buscar-me à escola

primária. Fiquei um pouco surpreendida quando vi a sua carrinha ferrugenta

parada junto ao passeio, mas ele explicou-me que a minha ama adoecera

subitamente e fora para casa, que a minha irmã estava em casa de uma

amiga e que o meu pai tinha de ficar a trabalhar até mais tarde (sendo

presidente do Calloway Group, o meu pai era um homem muito atarefado e

ficava sempre a trabalhar até tarde). O tio Hank acrescentou ainda que

estava ali para tomar conta de mim e para me levar a comer qualquer coisa.

Eu respondi okay, ele abriu a porta do lado do passageiro e eu entrei.

Levou-me a uma pizaria barata (onde cheirava a queijo queimado) do

outro lado da cidade e ofereceu-me um copo gigantesco de refrigerante.

Pouco tempo depois, comigo sentada à frente dele, chupando pela palha,

começou a falar da minha mãe.

Ninguém, além da Dra. Malby, falava comigo da minha mãe. Só que ele

queria saber. Como havia sido aquele último mês com ela? Parecera-me

diferente, de algum modo? Quem é que frequentava a nossa casa? Como é

que estavam as coisas entre ela e o meu pai? E a noite em que ela

desaparecera – que é eu tinha ouvido? Que tinha eu visto?

E pronto. Falámos. Na verdade, até foi agradável falar do assunto,

conversar acerca da minha mãe com alguém que a conhecera também. Não

guardar tudo para mim como se fosse uma coisa proibida e sombria. Ver

que alguém da minha família queria saber, queria escutar.

Já tinha escurecido quando ele me levou a casa e a verdade é que não estava assustada ou sequer tinha consciência de que se passava alguma

coisa errada até pararmos em frente ao edifício e eu ver o carro da polícia

ali estacionado, com as suas luzes vermelhas e azuis rodopiando no passeio.

Foi nesse momento que comecei a chorar, tomada de pânico.

Mal o meu tio Hank parou a carrinha, tirei o cinto de segurança e puxei a

maçaneta da porta, tentando abri-la, sem sucesso, porque a carrinha era

velha e as portas não abriam a não ser que se desse um certo jeito. Às tantas,

desatei aos gritos. E foi isso que os agentes da polícia e o meu pai viram

quando correram para o passeio: eu, no banco do passageiro da carrinha do

tio Hank, aos gritos e a esmurrar o vidro como se fosse um animal

enjaulado. O tio Hank apeou-se de imediato e contornou o carro para abrir a

porta a partir de fora.

Nem chegou à porta, porque o meu pai o apanhou pelos colarinhos

quando ia a meio do caminho e o empurrou contra o capô. Devido aos gritos

e ao vidro, não consegui ouvir o que ele dizia.

Mais tarde, depois de o tio Hank e os agentes se terem ido embora, o meu

pai perguntou-me onde é que o tio Hank me levara, o que tínhamos feito e

se conversáramos acerca de alguma coisa. Contei-lhe o percurso na carrinha

enferrujada, que tínhamos ido a uma pizaria, que o tio me comprara um

refrigerante e me fizera perguntas acerca da minha mãe. E dele.

Uns dias depois, nessa mesma semana, durante a aula de Matemática,

enquanto a professora nos deixara a resolver equações para ir levar a folha

de presenças ao gabinete do diretor, ouvi-os agigantar-se na sala, atrás de

mim, como se fossem uma coisa real, física, que preenchia a divisão,

pressionando-me, roubando-me o alento dos pulmões: os sussurros, os

risinhos abafados. Senti o familiar peso no peito, o mesmo que me sufocara

no ano em que a minha mãe desaparecera; a sensação de ser fitada,

comentada, alvo de especulação. Era um sentimento que me esvaziava, que

me fazia querer suster a respiração, fechar os olhos e desaparecer.

– Pergunta-lhe – murmurou alguém, alto o suficiente para eu ouvir, e, por

fim, Tommy Hartman inclinou-se para a frente na sua mesa e chuçou-me

com força por entre as omoplatas com o seu lápis.

– Ei, Charlotte – chamou ele, num tom desagradável, inclemente.

Cogitei se devia responder-lhe, mas acabei por me virar para trás. Fosse o

que fosse que lá vinha, o melhor era arrancá-lo de uma só vez, como um

penso rápido.

– Que foi? – perguntei. Senti as faces enrubescerem-se, o pânico chegar-

me à garganta. E odiava o facto de eles conseguirem vê-lo no meu rosto e

escutá-lo na minha voz: o medo que eu sentia.

– Como é que ele o fez? – indagou ele.

– Como é que quem fez o quê? – perguntei de volta.

– Tu sabes – disse ele, irritado, como se eu estivesse a gozar com ele,

como se soubesse perfeitamente ao que ele se referia.

Toda a gente abandonara a tarefa que a professora nos deixara; sentia os

olhos de todos os meus colegas em mim.

– Não sei – afirmei. Tinha as palmas das mãos suadas e limpei-as nas

coxas das calças, esperando que ninguém visse.

Foi então que ele o disse.

– Como é que o teu pai matou a tua mãe? – perguntou Tommy Hartman.

Os cabelos na minha nuca eriçaram-se e sentia dificuldade em respirar.

Abri a boca para falar, mas não saiu nada. Ficou estupidamente boquiaberta

e eu fiquei a olhar para ele como se fosse um peixe aos pulos em terra

firme, ofegando.

– Aposto que a estrangulou – sugeriu Monica Petrosky, a rapariga mais

bonita e cruel da turma.

Foi como se uma tampa tivesse sido aberta.

– Onde é que ele pôs o corpo?

– Não tens medo de que o teu pai te mate também?

– Calem-se – ordenei. – Calem-se!

Saiu mais alto do que esperava, aquela raiva dentro de mim. Eles

aquietaram-se, chocados, mas apenas por um segundo.

– Ooooohhhh – troçou alguém ao fundo da sala. – Cuidado, ou a

Charlotte Calloway ainda te mata.

Tommy Hartman riu-se a bandeiras despregadas; Monica Petrosky riu-se

tanto que resfolegou.

Mordi o lábio e esforcei-me ao máximo por as travar, mas percebi que

não iria ser capaz. As lágrimas enchiam-me os olhos. Rodei a cabeça e vi a

nossa professora na soleira da porta.

Ela apoiou as mãos nas ancas e dardejou-nos a todos com o olhar.

– Afinal, que se passa aqui? – quis ela saber.

O silêncio foi total e imediato e, uma vez mais, todos os olhares se

concentraram em mim. Queria desesperadamente que todos os meus colegas parassem de olhar para mim. Não podia chorar à frente deles… Não o faria.

– Charlotte? – chamou a professora Holiday. E a voz dela não era amável

ou reconfortante, mas exigente, como se fosse eu a responsável pela

inquietude da turma na sua ausência. Uma parte de mim ficou grata pela

crueldade, pois sabia que um só gesto amável seria a minha ruína.

– Dói-me o estômago – aleguei. – Posso ir à enfermaria?

Escondi-me no gabinete da enfermeira até ao intervalo e foi Heather

Frank, uma rapariga calada que usava óculos de lentes grossas, que me

mostrou por fim o que desencadeara tudo aquilo. Sentadas na bancada vazia

do campo desportivo, ela extraiu o tabloide da mala.

BILIONÁRIO DO IMOBILIÁRIO ASSASSINA ESPOSA, IRMÃO DA ESPOSA REVELA

TUDO, dizia o título em letras grandes e vermelho-sanguíneas. Por baixo,

estava uma fotografia do meu pai, num fato elegante, a entrar numa

limusina com o braço em redor das costas de uma mulher loura cujo rosto

não era visível. Tinha um ar bem-parecido e altivo na foto, um sorriso

escarninho e meio irado. Dir-se-ia que era um homem perigoso. Um

predador.

Ao lado da fotografia do meu pai, estava um retrato da minha mãe, com

um brilho esbatido, semelhante a uma auréola, em redor das extremidades.

Reconheci-o. Vira-o centenas de vezes, em casa da avó Fairchild, suspenso

junto à escadaria, ao lado dos retratos do tio Hank, do tio Lonnie e do tio

Will, os irmãos da minha mãe. Naquela imagem, ela não teria mais do que

dezoito anos. Exibia um vestido creme e suave, tinha o cabelo solto e sorria

para a câmara. Parecia tão jovem, doce e inocente na fotografia ao lado do

meu pai. Crédula e frágil. O meu coração disparou e comecei a ler.

 

Ninguém poderia prever que o que começou como um conto de fadas pudesse terminar de

forma tão trágica. Grace Fairchild, filha do operário Frank Fairchild e de Alice Fairchild,

professora da pré-primária, teve uma educação humilde em Hillsborough, no

Connecticut. Quando despertou a atenção do bilionário Alistair Calloway, herdeiro do

Calloway Group, foi apresentada a um mundo totalmente diferente e novo: um

apartamento numa penthouse do Upper East Side, viagens de fim de semana luxuosas em

jatos privados, presentes sumptuosos. Grace acreditou ter encontrado o seu príncipe

encantado. Mal ela sabia que sob a superfície se ocultava um assassino.

«Ela ficou ofuscada pelo charme e pelo dinheiro dele», diz Hank, o irmão mais velho de

Grace. «Não o viu por quem ele era. E quando se apercebeu da verdade, era tarde demais.

No mês anterior ao seu desaparecimento, Alistair e Grace discutiram constantemente. Ela

pretendia pedir o divórcio. Na noite em que desapareceu, pediu ao marido que se fosse

embora. Seguiu-se uma discussão. Ela gritou com ele, ordenando-lhe que nunca mais lhe

tocasse. Disse: “Deixa-me em paz! Tira as mãos de cima de mim!”»

 

Parei de ler. Tinha sido eu quem contara aquilo ao tio Hank. Sentada à

sua frente, naquela pizaria barata, bebendo o refrigerante que ele me

comprara, revelara-lhe as últimas palavras que a minha mãe dissera ao meu

pai. Como uma traidora. Uma traidora ridícula e inútil. Em meu abono, não

imaginava que ele iria fazer aquilo – vender a informação a quem lhe

pagasse mais, para que toda a gente lesse.

Também lhe tinha contado outras coisas. Coisas felizes, momentos de

alegria. Porque não falara ele disso?

Devolvi o jornal a Heather. As páginas brilhantes pareciam ter um toque

viscoso, escorregadio.

– Não foi nada assim – argumentei. – O modo como eles fazem parecer.

A maneira como ele faz com que pareça. Os meus pais não iam divorciar-

se.

Não podia acreditar que aquilo estivesse a acontecer. Outra vez.

Quando a minha mãe desaparecera, o caso fizera notícia em todos os

jornais e capas de revistas cor-de-rosa. A polícia interrogou o meu pai,

foram organizados grupos de socorro para passar a pente fino a floresta em

redor da casa e contratados mergulhadores para vasculharem as profundezas

sombrias do lago Langely. Toda a gente procurava um corpo, um cadáver.

Ninguém o encontrou.

Não importou minimamente que o meu pai tivesse um álibi. Não

importou sequer que nem estivesse em casa na noite em que ela

desapareceu; estava no nosso apartamento, na cidade, a mais de cem

quilómetros dali. Não importou que o meu pai a amasse, que jamais lhe

fizesse mal. Era uma história negra e cativante, e, por isso, as pessoas

acreditaram nela. Assassino, sussurraram.

Depois do desaparecimento da minha mãe, o meu pai contratou um

investigador privado para a encontrar, e foi nessa altura que as gravações do

banco vieram ao de cima: imagens das câmaras de segurança da agência

local do Connecticut Mutual. Dias antes de se esfumar, a minha mãe

levantou centenas de milhares de dólares dos cofres que partilhava com o

meu pai. Pegara no dinheiro e saíra das nossas vidas para sempre. Eu tinha

sete anos; a minha irmã, Seraphina, não tinha ainda cinco. Os canais de televisão nacionais mostraram aquelas gravações durante semanas, a prova

humilhante de que a minha mãe nos roubara e abandonara.

O meu pai procurou-a ao longo de um ano e não conseguiu encontrar nem

um só vestígio dela. Ao fim desse tempo, abdicou dos préstimos do

investigador, afirmando que, se a minha mãe estava assim tão determinada

em não ser encontrada, então também não queria encontrá-la.

Durante esse ano, eu suportara os olhares fixos, os olhares de pena, os

murmúrios; todos suportáramos o mesmo. E logo naquele momento, quando

as coisas começavam a voltar ao normal, acontecia aquilo.

Odeio-o, pensei. Jamais perdoaria o tio Hank por ter feito aquilo ao meu

pai, por me ter levado a mim a fazer aquilo ao meu pai. Por aquela nuvem

negra que pendia sobre as nossa cabeças numa altura em que parecia

finalmente que a tormenta ia começar a passar.

– Parece mesmo que ele o fez – disse Heather, como se não me tivesse

ouvido. E eu arranquei-lhe aqueles óculos ridículos da cara com uma

bofetada que os fez aterrar na estrutura metálica das bancadas e ficar com

um risco permanente na lente esquerda.

Mais tarde, o meu pai chamou-me a mim e à minha irmã ao seu escritório

e disse-nos que não devíamos nunca mais falar com o tio Hank, que ele

estava proibido de se aproximar de nós. Não conseguiu olhar-me nos olhos

enquanto falava e eu tentei não o recriminar por isso.

– O vosso tio não está bem – explicou o meu pai. E depois, disse-nos que

íamos viver com o tio Teddy e a tia Grier durante uns dias, até toda aquela

situação passar. E eu tentei não o recriminar por isso, também.

Amachuquei o bilhete que o tio Hank deixara na minha caixa de correio e

deitei-o no caixote do lixo. Obriguei-me a não pensar no assunto.

Ao levantar a cabeça, vi, pela janela da sala do correio, Leo a atravessar o

relvado na companhia de Dalton e Crosby. Ótimo, uma distração. Compus a

alça da mala sobre o ombro e corri atrás deles.

– Não é preciso entrar com muito dinheiro – dizia Crosby, quando os

alcancei.

– Grandes planos para esta noite? – indaguei, ligeiramente ofegante.

– Apenas um jogo amigável de póquer – disse Leo.

– E é uma coisa só para rapazes, porque têm medo de perder para uma

rapariga? – perguntei.

Crosby colocou o braço à volta do meu ombro.

– Charlie, aqui o meu amigo Dalton é o maior feminista que eu conheço.

– Sim, homens, mulheres, gosto de derrotá-los a todos, em igual medida –

referiu Dalton. – Não tenho qualquer receio de te ficar com o dinheiro,

Calloway.

– Então, está combinado – afirmei. – A que horas?

*

 

Pela segunda noite consecutiva, esgueirei-me pela janela depois da hora do

recolher. Só que, desta vez, em vez de me dirigir ao parque de

estacionamento da residência, rumei a norte, ao longo da orla do campus. O

caminho mais rápido para o dormitório masculino era através de um recinto

bem iluminado e patrulhado pelo Velho Riley, o segurança de Knollwood

Prep. Em vez de o seguir, contornei o campus, atalhando depois por um

pedaço de campo em que a relva me dava pelos joelhos. Uma estreita faixa

de Lua, em quarto crescente, era tudo o que iluminava os meus passos.

O quarto de Dalton ficava no rés do chão do Acacia Hall, a residência

masculina para alunos do penúltimo e último ano. Sendo finalista, Dalton

tinha um quarto só para ele. Os rapazes tinham deixado uma vela acesa na

janela, em frente a uma cortina fechada, para que eu soubesse a que quarto

devia dirigir me. Bati três vezes na vidraça e Dalton afastou a cortina,

apagou a vela e deixou-me entrar.

– Começávamos a questionar-nos se virias – disse Crosby, ao mesmo

tempo que Dalton fechava a janela e a cortina para garantir que o Velho

Riley não se apercebia da nossa jogatina noturna aquando de uma das suas

rondas. – Podias estar nervosa, entendes?

Dalton tinha colocado uma antiga mesa de jogo junto à cama. Do outro

lado, estava a sua cadeira de escritório giratória e um baú. Fui a última a

chegar, portanto, só havia um lugar livre: ao lado de Crosby, na cama.

– Confesso que ainda tive algumas reservas em vir – aleguei, e sentei-me

na cama, com as pernas cruzadas, para ficar mais confortável. – Pus-me a

pensar, será que vão continuar a gostar de mim depois de eu os derrotar

vergonhosamente e lhes ficar com o dinheiro todo? E se eles chorarem?

Nunca vi uma divisão cheia de rapazes em lágrimas, sabem?

– Está visto que lábia não lhe falta – comentou Crosby, entretido a

baralhar as cartas.

– A soberba precede a ruína, Calloway – fez notar Dalton, citando a Bíblia e tomando o seu lugar sobre o baú.

Auden sacou de um estojo cheio de lápis e começou a dividir as «fichas».

Não podíamos jogar com fichas de póquer verdadeiras, pela mesma razão

que nenhum de nós levara dinheiro para a partida. Em Knollwood, jogar

equivalia a uma suspensão automática. Assim sendo, jogávamos com post-

its ($10), lápis ($5), borrachas ($2) e M&M’s ($1), para podermos negar

qualquer acusação caso fôssemos apanhados à volta de uma mesa de jogo.

Mas o dinheiro envolvido era verdadeiro, e os perdedores teriam de acertar

as suas contas com os vencedores até ao final da semana.

Dalton foi o primeiro a dar as cartas e eu peguei nas minhas com uma

animação quase estonteante. Era uma boa mão: um par de rainhas e um ás.

Contudo, estava menos concentrada nas minhas cartas do que em observar

os outros jogadores, reparando quando eles hesitavam ou subiam a aposta,

quantas cartas trocavam, se desistiam cedo ou se pediam para ver a mão.

O póquer era um jogo de que sempre gostara, porque envolvia interpretar

as expressões e sinais corporais das pessoas. Toda a gente tinha qualquer

coisa que a denunciava: uma respiração mais acelerada, um tique facial,

uma contração dos músculos do pescoço. Não era justo para Leo que eu

estivesse a jogar, pois conhecia-o muito bem. O que o denunciava quando

tinha uma boa mão era a mesma coisa que o revelava quando conversava

com uma rapariga bonita: uma crispação quase impercetível do canto direito

da boca que lhe concedia um esgar que podia ser entendido quase como

arrogante. Era preciso conhecê-lo bem para detetá-lo.

Por vezes, esse sinal denunciador não era tanto uma reação fisiológica,

mas, antes, um comportamento. Não tardei a perceber que Auden era um

jogador cauteloso; apostava sempre o mínimo e desistia cedo, por isso

percebi que, se aumentasse a aposta ou se se mantivesse em jogo após a

segunda ronda, tinha uma boa mão. Crosby jogava do mesmo modo que

vivia: com um desprendimento treinado, subindo a aposta quando devia

desistir e raramente desistindo antes da última ronda. Dalton era o mais

difícil de interpretar; passei o jogo todo sem conseguir entendê-lo.

Eram quase duas da manhã e estávamos na última mão, e era a derradeira

ronda de apostas. Tínhamos todos apostado forte naquela ronda; havia

quase $65 no pote. Leo estava fora de jogo e Auden acabara de desistir. Era

só eu e Dalton. Ele podia juntar mais $20, mantendo a aposta inicial,

aumentá-la ou desistir. Todos sabíamos por que razão ele estava a hesitar: naquele momento, a aposta dele ia em $100, a maior de todos nós. Porém,

se adiantasse mais $20 para permanecer em jogo e perdesse, e eu ficasse

com o pote, eu ficaria à frente dele com $95 contra $80. Se ele desistisse

naquele momento, permaneceria à frente, quer eu ganhasse o pote ou não.

Pousei as cartas, com o verso para cima, e empurrei-as para a frente como

se achasse que era a minha vez e tivesse decidido desistir.

– Não é a tua vez – murmurou Auden.

– Ah, desculpem – respondi. Com grande afã, reuni as cartas e fiz um ar

envergonhado. Teria corado, se conseguisse comandar tal reação.

– Entro com vinte dólares – declarou Dalton, colocando dois post-its no

meio da mesa.

Assim que ele fez a sua aposta, peguei novamente nas cartas e empurrei

dois post-its meus para o pote.

– Cubro os teus vinte dólares – disse – e subo mais dez.

Acrescentei dois lápis ao monte que havia no centro da mesa.

– Aldrabona – reclamou Dalton. Tinha um sorriso na cara, mas o seu

olhar desdizia-o, era duro. Esforçava-se por mostrar que não estava

aborrecido, mas percebi que o irritara.

– Isso é batota – alegou Auden.

– Moralmente ambíguo – corrigi-o. – Se o tivesse feito de propósito, sim.

Talvez a intenção não fosse jogar fora da minha vez.

– E foi? – perguntou Auden.

– Acreditavas em mim, se dissesse que não? – devolvi.

– Gosto dela – afirmou Crosby para os rapazes. – Gosto de ti – disse,

olhando para mim e dando-me uma palmadinha nas costas. – Espero que o

tenhas mesmo feito de propósito.

Auden olhou para Leo em busca de apoio, mas de nada lhe serviu. Leo

riu-se e recostou-se na cadeira giratória. Abanou a cabeça.

– Eu bem vos disse que não a deixassem jogar – disse ele.

– Cubro os teus dez dólares – declarou Crosby, entregando dois lápis ao

pote. Com relutância, Dalton fez o mesmo.

Então, todos ao mesmo tempo, mostrámos as nossas cartas. Dalton tinha

três valetes. Crosby tinha dois pares. Eu tinha um flush.

Crosby bateu palmas, pesarosamente. Dalton soltou um suspiro. Auden

praguejou entre dentes.

– Muito bem, prima – disse Leo.

– Foi um prazer defrontar-vos – afirmei, ao mesmo tempo que me

inclinava para a frente e puxava os lápis, os post-its, as borrachas e os

M&M’s para a minha extremidade da mesa. – E há bocado não estava a

gozar. Passo-me a sério se vocês desatarem a chorar.

*

 

O campus transmitia uma sensação sinistramente tranquila quando

abandonei a residência dos rapazes para regressar a Rosewood Hall. Cruzei

mais as abas do casaco e estuguei o passo. Ali sozinha, à noite, no meio da

escuridão, não pude deixar de pensar no fantasma: o rapaz morto que

vagueava pela escola em buca de alguém para amaldiçoar.

Quando cheguei ao campo negligenciado, que era então a única coisa que

me separava da minha residência, fiquei com a nítida sensação, na boca do

estômago, de que estava a ser observada.

Não sejas palerma, Charlie, admoestei-me a mim mesma. Não existe

fantasma nenhum. Não há ninguém a observar-te.

Ainda assim, comecei a andar mais depressa. Ouvi um som ténue atrás de

mim, de alguém a deslocar-se. Os fantasmas não têm corpo. Os fantasmas

não fazem barulho de passos ao andar, disse a mim mesma.

Estaquei e ouvi e senti, ao mesmo tempo, algo muito real e corpóreo,

sólido, parar alguns metros atrás de mim. Alguém, uma pessoa real, me

seguia. Desatei a correr.

O campo era árido, à exceção de dois velhos carvalhos na ponta oposta, e

através deles, à distância, conseguia avistar Rosewood Hall, com as luzes da

cozinha, no piso térreo, ainda acesas. Por vezes, a Sra. Wilson, a cozinheira,

ficava a pé até tarde, preparando a massa para os biscoitos da manhã

seguinte. Se conseguisse chegar ali – à luz que se derramava no relvado –,

então, ficaria, com toda a certeza, em segurança.

O problema era que não tinha a certeza se seria capaz de lá chegar

incólume. Sentia o sangue latejar-me nos ouvidos, a dor de burro resultante

da corrida. E quem quer que estivesse atrás de mim (ouvia a sua respiração,

os seus passos), aproximava-se mais e mais. Tirei as chaves do bolso do

hoodie e dispu-las por entre os dedos como se fossem garras. Parei e dei

meia volta para enfrentar a pessoa que me perseguia, pronta para usar as

chaves. Estava ofegante, mas consegui falar.

– F-fique onde está – ordenei. – Ou eu grito.

A escuridão profunda não me permitiu distinguir a figura com nitidez, se

bem que estivesse a menos de dois metros de mim. Percebi que se tratava de

um homem, com uma barba cerrada e ombros largos.

Levantou os braços como quem se rendia.

– Não grites – pediu ele, e a sua voz rouca soou-me vagamente familiar. –

A minha intenção não era assustar-te. É que… fiquei à tua espera e tu não

apareceste.

O meu primeiro pensamento foi que se tratava de um enorme mal-

entendido. O homem corpulento que me perseguia na escuridão confundira-

me com outra pessoa. Recordei-me então do bilhete que encontrara na

minha caixa do correio naquela manhã.

– Tio Hank? – perguntei.

Deu um passo na minha direção e eu dei um passo atrás. Continuava a

sentir o coração na garganta. Ergui o punho cerrado com que segurava as

chaves. Parou ao ver que me assustara. Deixou pender os ombros, como se

o tivesse ofendido.

– Charlotte – começou, e a forma como disse o meu nome, com tamanha

ternura e familiaridade, quase que me desarmou. – Charlotte, sou eu. Está

tudo bem. Não vou… Jamais… te magoaria. Com certeza que sabes disso.

Baixei o punho, indecisa.

– Que faz aqui? – exigi saber.

– Tinha de falar contigo – respondeu ele, um pouco esbaforido. – É por

causa da tua mãe.

– Não quero saber – repliquei.

– Tens de querer – insistiu o tio Hank. – Tens de me ouvir. Tenho uma

coisa que precisas de ver.

– Não estou interessada – afirmei, e dei meia volta, tencionando afastar-

me. Não queria ouvir mais nenhuma das suas teorias, não queria responder a

mais nenhuma das suas perguntas, não queria ser sugada de volta para

aquela intrincada trama que ele tecera há vários anos. Não podia reviver o

passado; recusava-me a fazê-lo.

– Charlotte – teimou o tio Hank, agarrando-me o braço para me impedir

de ir embora, para me manter ali. Estava perto de mim o suficiente para

conseguir sentir o seu hálito forte a uísque.

Tentei não entrar em pânico e não lhe mostrar o quanto estava zangada.

– Ela não está morta – declarei, com firmeza. – Abandonou-nos. Desapareceu, e não vai voltar. Tem de aceitar isso e seguir em frente. Foi o

que nós fizemos.

Tentei libertar-me dele, mas os seus dedos cerraram-se com mais força à

volta do meu antebraço. Encolhi-me.

– Escuta – recomeçou o tio Hank. – Imagino o que pensarás da tua mãe,

tendo em conta a história que te contaram…

– História? – interrompi-o. – Vi as gravações das câmaras de segurança

do banco, tio Hank. O mundo inteiro viu a porcaria das gravações.

Não podia deixar de pensar em que cada momento daquele último mês

com ela havia sido uma mentira. De cada vez que me aconchegara a roupa à

noite, ou me preparara o banho, ou cortara os morangos para as papas de

aveia matutinas, fizera-o consciente de que me ia abandonar.

– Isso não é…. Não é isso que tu pensas – contradisse o tio Hank. – A

Grace nunca faria uma coisa dessas… abandonar-te, a ti e à Seraphina. Ela

amava-vos, acima de qualquer coisa no mundo. Não é o que parece. Não é o

que vos contaram.

– Largue-me – ordenei. – Está a magoar-me.

O tio Hank olhou para a sua mão no meu braço e fez um ar quase chocado

ao vê-la ali. Soltou-me.

– Tens de ver isto – disse ele. Enquanto levava a mão ao saco de alças que

trazia ao ombro, contemplei a hipótese de fugir dali. Tendo recuperado o

fôlego, talvez conseguisse chegar ao dormitório, onde estaria em segurança.

Mas, e se não conseguisse e o facto de ter fugido o perturbasse e irasse

ainda mais? O tio Hank dissera que não me magoaria, e talvez a sua

intenção não fosse mesmo essa, mas a verdade é que era muito maior do

que eu e parecia desesperado e um bocado louco, para ser franca. Sabia-se

lá o que era capaz de fazer…

Enquanto ponderava tudo isto, o tio Hank estendeu-me um envelope

castanho.

– Que é isso? – perguntei.

– Vê por ti mesma – respondeu ele.

Peguei no envelope. Estava velho e gasto. No canto superior direito, tinha

um selo de correio, e o nome e endereço da minha mãe, escritos numa letra

apressada, a meio. O envelope estava aberto e continha um molho de

fotografias e uma folha de papel. Comecei pelo papel. Alguém escrevera,

em letras maiúsculas, «SEI TUDO».

Tirei as fotografias a seguir e passei-as lentamente, usando a lanterna do

telemóvel para as iluminar. Deviam ser mais do que cem fotografias. As dez

primeiras eram instantâneos tirados em rápida sucessão e à distância.

Mostravam a minha mãe sentada a uma mesa, junto à janela de uma

cafetaria. O seu rosto era claramente visível. Tinha um ar perturbado.

Sentado à sua frente, estava um homem. A cara dele não era visível, apenas

a mão, deslizando por cima da mesa, como se quisesse consolar a minha

mãe. Na fotografia seguinte, a mão dele já cobria a dela.

Levantei a cabeça e olhei para o meu tio. Ele observava-me com toda a

atenção.

– Reconhece-lo? – indagou ele. – O homem que está nas fotografias com

ela… Alguma vez o viste?

Devolvi a minha atenção aos instantâneos. Observei o seguinte. Fora

tirado de um ângulo diferente. A cara do homem era finalmente percetível.

Tinha uma barba escura e um nariz largo. A pele sob os seus olhos parecia

flácida e cinzenta. Era ligeiramente calvo e parecia ter trinta e muitos anos.

Vestia um fato.

– Não – disse. – Nunca o vi.

Folheei as restantes fotografias, mas o homem não aparecia em nenhuma

das que haviam sido tiradas fora da cafetaria. Eram todas imagens da minha

mãe comigo e com Seraphina. Lá estávamos as três, à porta da casa do lago.

A minha mãe com Seraphina ao colo, a tirar-nos do seu SUV. Havia fotos

de nós a sair do supermercado em Hillsborough com a avó Fairchild; nós as

três na carrinha do tio Hank; eu e Seraphina a nadarmos no lago sob o olhar

atento da minha mãe, junto à margem. Pensei na lente de longo alcance que

o professor Andrews nos tinha mostrado na aula, a teleobjetiva acerca da

qual ele nos falara.

Cheguei à última fotografia, que constituiu um choque, pois não havia

qualquer ilusão de proximidade naquela imagem. O fotógrafo estava mesmo

ali, com uma das mãos esticadas para que pudesse ser apanhada no

enquadramento, e ali estava eu sozinha, no quintal das traseiras da casa dos

meus avós, em Hillsborough, no Connecticut, a olhar para a lente da

máquina, perto de mim. Quando virei a fotografia, reparei numa coisa

escrita no verso. Três palavra apenas: «PARA COM ISSO».

Parar o quê?

– Que é isto? – indaguei.

– Encontrei-as na casa do lago. Sob uma tábua solta do soalho, no quarto

dos teus pais.

– Que foi fazer à casa do lago?

O meu pai teria um ataque quando descobrisse que o tio Hank entrara sem

autorização em nossa casa e mexera nas nossas coisas.

– Tinha perguntas sem resposta – explicou o tio Hank. – E fui à procura

das respostas eu mesmo. E parece-me que encontrei qualquer coisa. Não sei

ainda o que isso é ou o que representa, mas tenho a certeza de que significa

alguma coisa.

Por mais que quisesse argumentar com ele, não podia. Porque aquelas

fotografias me tinham deixado estupefacta, oca, sem fôlego. Tínhamos sido

seguidas por alguém? Teriam aquelas fotografias constituído uma ameaça?

E, caso assim fosse, porquê? O que fizera a minha mãe para levar alguém a

ameaçar-nos?

– Lembras-te de quem tirou esta fotografia? – perguntou o meu tio.

Contemplei a imagem que segurava na mão e abanei a cabeça. Por mais

desconcertante que fosse, não me recordava de ter sido tirada.

– Talvez te lembres de alguma coisa – insistiu o tio Hank, num tom mais

desesperado. Passou a mão pelo cabelo desgrenhado. – Alguém que andasse

a rondar por ali naquele verão? Pode ter sido alguém que parecesse

pertencer ali. Deus sabe que vocês tinham um exército de empregados.

Talvez um jardineiro ou uma criada? Talvez a tua mãe andasse nervosa ou

parecesse assustada? Uma coisa pequena, uma coisa menos normal.

Qualquer coisa, por mais pequena, pode ser importante. Pode ajudar.

– Já lhe contei tudo o que sabia – disse, sem conter o ressentimento. Bem,

na realidade, contara-lhe quase tudo. E ele traíra-me.

Ele tinha tanta certeza de que a minha mãe estava morta, de que eu tinha a

resposta para o que lhe acontecera realmente, de que eu tinha a chave para

resolver aquele mistério.

– Tem de haver outra coisa qualquer – afirmou o tio Hank, perdendo a

paciência. Levantou a mão e, por um momento, achei que iria agredir-me ou

agarrar-me, e tentei não me encolher. – Tem de haver alguma coisa que

ainda não me contaste.

Não lhe respondi.

– O meu pai sabe da existência destas fotos? – perguntei.

– Sei lá eu o que o Alistair sabe ou não sabe – ripostou o meu tio. – E há muito tempo que ele deixou de me dar ouvidos.

– Talvez se ele visse estas… – comecei, mas o meu tio cortou-me a

palavra.

– Isto já não é um assunto dos Calloway – cuspiu ele. – Não quero saber

mais dessa gente. Há muito que se decidiram acerca do que se passou com a

minha irmã; e tornaram isso em bem claro. Sei que são a tua família,

Charlotte, mas digo-te a mesma coisa que disse à tua mãe. Os Calloway

são… são gente fria, desalmada. A Grace só se deu conta disso quando era

tarde demais, e talvez contigo aconteça o mesmo, mas a verdade é essa. E é

tudo o que tenho a dizer acerca do assunto.

Devolvi-lhe o envelope.

– Não posso ajudá-lo. Lamento – afirmei.

Com relutância, o tio Hank aceitou o envelope e esfregou o queixo.

Abanou a cabeça, como se eu o tivesse desiludido.

– Sei que és uma Calloway, Charlotte – disse ele. – Mas também és uma

Fairchild. És uma de nós. Não te esqueças disso.

As palavras dele magoaram-me. Mordi o lábio e desviei o olhar, sem

saber o que dizer.

– Costumamos fazer uma coisa todos os anos, em casa da tua avó… Uma

festa para a Grace, no aniversário dela – revelou o tio Hank, ao mesmo

tempo que guardava o envelope no saco, um pouco mais resignado com o

facto de não conseguir extrair mais informações de mim. – Ela faria

quarenta e três anos este ano. Significaria muito para a tua avó se tu e a

Seraphina fossem.

Eu sabia da existência daquelas festas. A família da minha mãe

organizava uma todos os anos, desde que ela desparecera. Quando era

miúda, não tinha permissão para ir. O meu pai não achava que fosse boa

ideia. E agora… agora era fácil ignorá-la, uma vez que estava na escola.

Knollwood parecia ficar a um mundo de distância de Hillsborough, e parte

do seu encanto era isso mesmo.

– Vou pensar no assunto – menti.

– Está bem – respondeu o meu tio, massajando a nuca com uma das mãos,

como se não soubesse bem como despedir-se de mim. Limitei-me a olhá-lo

fixamente.

Por um momento, tentei vê-lo do mesmo modo que a minha mãe o via.

Sabia que era o seu irmão preferido. A minha mãe contara-me histórias de como ele a ensinara a conduzir a carrinha do pai quando ela tinha apenas

doze anos. Certa vez em que ela confundira o pedal do travão com o do

acelerador e arrasara a caixa do correio, o tio Hank assumira a

responsabilidade pelo sucedido, afirmando que era ele quem estava ao

volante. Suportou três vergastadas do cinto do pai, enquanto a minha mãe

observava desde o piso de cima, espreitando por entre as barras da

balaustrada. Na quarta classe, depois de cair da bicicleta, fora o tio Hank

quem lhe dera a mão e a distraíra enquanto a enfermeira lhe cosia o queixo;

no final, ele pediu um penso rápido castanho e feio, igual ao dela, para usar

também no queixo e partilhar com ela da vergonha.

O tio Hank e eu costumávamos partilhar de uma eternidade de verões, de

dedos dos pés escaldados e de gelados de cone que, sob o calor escaldante

das tardes de julho, se derretiam mais depressa do que conseguíamos

devorá-los, assim como do cheiro ligeiramente amargo a água de lago e a

transpiração. Houvera tanta coisa que me fizera lembrar o meu tio Hank.

Entretanto, porém, a única coisa que nos unia era o fantasma da minha mãe.

Estranhamente, era isso que nos separava, também.