Magníficos Estranhos

Elizabeth Klehfoth · Capítulo 16 de 44

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Magníficos Estranhos

Quinze CHARLIE CALLOWAY

Quinze

 

CHARLIE CALLOWAY

 

2017

 

Fazia parte da tradição da Knollwood Prep os finalistas e pré-finalistas

passarem o primeiro fim de semana de outubro num retiro em Camp

Wallaby, no Maine. Em miúda, nunca frequentara um campo de férias, mas

imaginava um grupo de jovens a assar marshmallows em redor de uma

fogueira, a cantar «Kumbaya» ao som de uma guitarra acústica tocada por

um hippie de cabelo comprido, a passar o dia a fazer canoagem e a

entrançar pulseiras da amizade. Atividades pirosas, mas inofensivas. Harper

Cartwright, no entanto, não tardou a cercear-nos as expetativas durante a

viagem de autocarro até lá: o que nos esperava não era nenhum retiro

relaxante.

– É mais tipo um choque com a realidade, um «orientem-se lá que a vida

não é isto» – explicou Harper, recostada no banco.

Aparentemente, toda a gente estava obrigada a reunir-se em privado com

um orientador vocacional que nos recordava que estávamos prestes a tomar

uma das maiores decisões da nossa vida.

– Basicamente, fazem-nos ver que só existem umas dez universidades que

vale a pena frequentar, esfregam-nos na cara as poucas ou nenhumas

hipóteses que temos de ser aceites por elas e convencem-nos de que, se não

entrarmos, mais vale cortarmos os pulsos. E recebem bónus por fazerem os

alunos chorar – afiançou Harper.

– Não é assim tão mau – argumentou Dalton. – Ajudam-nos a construir

uma estratégia, do género: que atividades extracurriculares devemos

escolher para projetarmos uma personalidade mais abrangente ou que aulas

devemos escolher para nos destacarmos na candidatura.

– No ano passado, convidaram uma pessoa do gabinete de admissões de

Harvard para ir falar à escola – contou Crosby, e deu um piparote

brincalhão no joelho de Drew, que, sabe-se lá como, tinha conseguido

sentar-se ao lado dele, para grande contrariedade de Ren, que a dardejava

com o olhar desde o outro lado do corredor.

– Estou a ficar um bocado enjoada – disse a Leo, sentado ao meu lado. –

Acho que vou deitar-me lá atrás e tentar dormir um pouco.

– As melhoras – desejou-me ele.

Encontrei um banco vazio na parte de trás do autocarro e deitei-me,

usando a mochila como almofada. Mas primeiro, saquei do velho livro de

curso de 1990–1991 que desviara da biblioteca da escola uns dias antes.

Depois das conversas que tivera com Claire e com o tio Hank, pusera-me a

pensar no meu pai. Devia haver registo da sua passagem pela escola,

vislumbres de quem fora quando tinha a minha idade.

Abri a capa dura do livro, nas cores de Knollwood: azul-marinho e

dourado. As folhas eram grossas e acetinadas. A primeira página era um in

memoriam a um aluno que falecera.

 

JAKE GRIFFIN

 

8 de julho de 1973 – 21 de dezembro de 1990

 

Amado filho, irmão, amigo e um inestimável membro da família Knollwood

Augustus Prep.

 

Não era dito como é que Jake falecera. (Teria sido uma doença crónica?

Um acidente de viação? Ou qualquer coisa mais sinistra, tipo um suicídio?)

No meio da página, estava um retrato dele, com o casaco e gravata do

uniforme escolar. Era um rapaz bem-parecido, moreno e com um ar

simpático. O seu sorriso rasgado parecia genuíno e contagiante.

Em redor do retrato, havia uma colagem de fotografias de Jake em

Knollwood: Jake a presidir à Associação de Estudantes, com o martelo em

riste para assinalar o início de uma reunião; Jake em cima de uma cadeira

dobrável a pendurar grinaldas para o baile do Homecoming; Jake a pairar no

ar, de raquete esticada por cima da cabeça, executando o serviço que lhe

dera a vitória num torneio de ténis. Preparava-me para virar a página quando reparei nela: uma fotografia de Jake no pátio da escola com o braço

por cima dos ombros de outro rapaz. A fotografia tinha uma legenda: «Jake

Griffin e Alistair Calloway». Quase não reconhecera o meu pai, aos

dezassete anos, ao lado de Jake, mas observando melhor, identifiquei os

traços fisionómicos que o distinguiam: o cabelo curto e louro, os olhos

azuis, a testa alta e o queixo anguloso. Sim, era Alistair Calloway.

O meu pai costumava falar do tempo que passara em Knollwood e dos

amigos que aí fizera; continuava a dar-se com muitos deles. Eram os seus

parceiros de golfe ao domingo, as famílias com quem jantávamos no verão,

em Martha’s Vineyard, e até, ocasionalmente, as pessoas com quem

passávamos férias. No entanto, nunca o ouvira mencionar Jake Griffin. Não

era um nome que reconhecesse. Não obstante, ali estavam os dois, com o

braço em redor um do outro, sorrindo para a fotografia.

Mas talvez não fosse assim tão estranho que o meu pai nunca tivesse

falado de Jake. É possível que não fossem tão chegados como a fotografia

sugeria, ou quiçá até fossem bastante amigos, mas recordar essa amizade

fosse demasiado doloroso para o meu pai.

Virei a página. Era a vez dos retratos dos finalistas, por ordem alfabética.

Não demorei a localizar o do meu pai, quase ao centro. Alistair Calloway.

Fora eleito o «Melhor Em Tudo» pelos colegas. A sua citação era de uma

fonte desconhecida: «Nunca olhes para trás. O que está feito está feito. Sê

sensato e segue em frente.»

Folheando o anuário, percebi sem dificuldade o tipo de rapaz que o meu

pai havia sido: giro, popular, esperto e atlético. Capitão da equipa de ténis,

da equipa de remo, delegado da turma de finalistas, orador de fim de curso.

Mas, pensando bem, que outra história era suposto um anuário contar senão

uma história feliz, a que toda a gente queria recordar?

*

 

Um dos grandes prazeres de Camp Wallaby – e havia muitos, incluindo os

bangalôs sem ar condicionado, os exercícios contínuos e intensivos de

team-building que toda a gente se esgadanhava para liderar e as conversas

forçadas à volta da fogueira durante as quais os alunos se queixavam de

uma forma passivo-agressiva do comportamento passivo-agressivo dos

colegas – era o facto de estarmos proibidos de levar os nossos telemóveis ou

quaisquer outros dispositivos tecnológicos que nos ligassem ao mundo exterior. Portanto, não só estava impedida de saber de quaisquer progressos

que o meu tio pudesse ter feito na localização dos ficheiros do investigador

privado acerca da minha mãe, como também não podia falar com Greyson,

a única pessoa que fazia uma pequena ideia do lodaçal em que vivia

diariamente.

Naquele momento, o grupo de doze pessoas no qual fora incluída ao

calhas encontrava-se no campo de voleibol. O nosso orientador, Kirk, era

um rapaz de vinte e tal anos demasiado apaixonado pelo seu trabalho.

– Okay – disse Kirk, batendo palmas. – Esta tarde vamos jogar voleibol.

Vou escolher dois chefes de equipa. São duas pessoas que se saíram muito

bem esta manhã naquela atividade em que tinham de se deixar cair para trás

e confiar que os vossos companheiros vos segurariam.

Levantei a mão para perguntar como era possível alguém notabilizar-se

numa coisa tão passiva como cair, mas Dalton estava mesmo à minha frente

e Kirk não conseguiu ver a minha mão.

– Sheila e Zachery, venham até aqui e escolham as vossas equipas –

chamou Kirk. – E vamos lá aplaudi-los pelos seus desempenhos desta

manhã.

Bati palmas sem grande empenho.

– Três vivas à gravidade – trocei. – Em abono da verdade, foi ela que fez

a maior parte do trabalho.

Dalton rodou a cabeça e deu uma risada. Pelo menos, divertia alguém.

– Eu escolho o Crosby – afirmou Sheila.

Crosby saiu de trás de mim e foi a correr para junto de Sheila.

Zachery escolheu Dalton. Sheila apontou para Harper Cartwright.

Chegada a vez de Zachery, Dalton inclinou-se e sussurrou-lhe qualquer

coisa ao ouvido.

– Oh, vá lá, meu! – reclamou Zachery. Mas apesar disso, esticou o braço

e apontou para mim. – Queremos a Charlie.

Não podia censurar Zachery pela sua relutância em me escolher. Nunca

tivera queda para os desportos, na verdade. Não entendia a atração por

transpirar, por ofegar, por dores no corpo todo. Praticar desporto jamais fora

uma coisa divertida para mim, além de que também sofria de um problema

de coordenação.

– Muito bem, Calloway – disse Dalton quando cheguei ao pé deles.

Levantou ambas as mãos acima da cabeça e eu tive de me pôr em bicos de pés para lhes chegar.

– Pois, hum, força – respondi.

– Já se estava mesmo a ver – ouvi Harper comentar por cima do meu

ombro. Virei-me e vi-a revirar os olhos e fazer biquinho, simulando um

beijo, o que não deixava de ser irritante, mas não era nada que eu não

ignorasse se Sheila não se tivesse rido ao mesmo tempo, como se a piada

fosse partilhada.

Escolhidas as equipas, coloquei-me junto à rede, à frente de Dalton, que

estava a servir. Do outro lado da rede, virada para mim, estava Harper. Era

quase tão baixa como eu, por isso, nesse aspeto, estávamos igualadas.

Empurrou o cabelo encaracolado e louro para trás dos ombros e, sem grande

determinação, pontapeou a terra escura do campo.

Dalton executou um serviço brilhante que roçou a rede e aterrou do outro

lado, incólume, no meio de uma nuvem de pó. A minha equipa aplaudiu.

– Não tem importância, tudo bem – gritou Sheila, num esforço por animar

a equipa. – O próximo é nosso.

– Está alguém acordado desse lado? – perguntou Zachery, ao mesmo

tempo que Harper devolvia a bola a Dalton por baixo da rede.

– Aponta o próximo na minha direção, Dalton, se te achas assim tão

infalível – desafiou Harper.

– A menina é que manda – respondeu Dalton, e esboçou um sorriso

matreiro.

O serviço seguinte voou pelo ar, ultrapassou a rede e Harper deu um pulo

e rechaçou a bola para o nosso lado.

Dei-me conta, demasiado tarde, de que a bola vinha direita à minha cara e

que não estava bem posicionada para dar um passo atrás e devolver a bola.

Assim sendo, desviei-me. A bola caiu ao chão, atrás de mim, com um baque

surdo.

– É isso mesmo! – gritou Harper, e Sheila deu-lhe um «mais cinco».

– Sabes que tens de tocar na bola, certo? – perguntou-me Zachery.

De repente, dei por mim a desejar que o voleibol fosse um desporto de

contacto.

– Posso fazer de conta que a tua cara é a bola e treinar? – ripostei.

– Calma aí.

O serviço seguinte coube a Sheila. Marcou um ponto antes de a bola

voltar para a minha equipa. Foi com desânimo que compreendi, aquando da rotação da minha equipa, que era a minha vez de servir. Tinha a força braçal

e de tronco de um rapazinho de oito anos.

Tentei o serviço por baixo. A bola não passou por cima da rede, mas

acertou na cabeça de Zachery, o que constituiu uma pequena, ainda que

humilhante, vitória. No campo adversário, Harper deu uma risada. O meu

único consolo foi o facto de lhe ter saído pelo nariz, parecendo um relincho.

– Tudo bem, foi um bom esforço! – elogiou Kirk, e bateu palmas

sonoramente, o que, é claro, tornou a coisa em ainda pior do que já era.

Estava decidida a redimir-me. Fleti os joelhos e inclinei-me para a frente.

Observei Dalton na jogada seguinte, a forma como só entrelaçava as mãos

quando alcançava a bola, o modo como nivelava os ombros antes de a bater.

Era capaz de fazer o mesmo. Quando a bola foi servida pela equipa

adversária, eu estava preparada. Vi a bola voar para a minha secção do

campo e cerrei os dentes.

– É minha! – exclamou Dalton, e mal tive tempo de sair do caminho.

Dalton açambarcou a minha posição e elevou a bola no ar. Zachery lançou-a

para o outro lado.

– Ei! – reclamei.

Mas Dalton limitou-se a piscar-me o olho, como se me tivesse feito um

favor.

– Não te preocupes, eu ajudo-te.

Zombei do comentário dele, mas Dalton estava demasiado ocupado a

fazer chocar o seu peito contra o de Zachery e a apupar como um homem

das cavernas para se aperceber disso.

Sabia que o meu desempenho até então não lhe tinha dado muita

confiança nas minhas capacidades, mas ainda assim…

Quando a bola seguinte veio na minha direção, catapultei-me para ela.

– É minha! – gritei eu e Dalton ao mesmo tempo, um segundo antes de

colidirmos. Dalton caiu ao chão e eu tombei em cima dele.

– Estás bem? – perguntou Dalton, ao mesmo tempo que a poeira

assentava ao nosso redor. Dei-lhe uma palmada no peito. – Au! – queixou-

se ele.

– A bola era minha – reclamei.

– Estava apenas a tentar ajudar – alegou ele.

– Pois não ajudes.

Levantei-me e sacudi os joelhos, cobertos de terra.

– Está tudo bem, Dalton? – inquiriu Zachery. – Ela magoou-te?

– Ei, ele é que esbarrou em mim – realcei.

– Quando o Dalton diz que a bola é dele, tu sais da frente – instruiu

Zachery. – Ele é o nosso LeBron James. E o LeBron James marca sempre o

ponto que concede a vitória à equipa.

– Não vais querer mesmo dar outro passo na minha direção, Zachery –

ameacei.

– Controla a tua rapariga, Dalton – pediu Zachery.

– Que disseste tu? – indaguei, mas Dalton esticou o braço e agarrou-me

pela cintura.

– Não lhe ligues – disse ele.

Naquele momento, não tive mesmo outra opção senão ignorá-lo, porque a

bola seguinte já voava por cima da rede. Não me pertencia; iria cair logo a

seguir à rede, mas eu não quis saber. Lancei-me para a outra ponta do

campo. Vi-a mesmo antes de saltar e de elevar a mão para jogar a bola. Ali,

do outro lado da rede, à espera, estava Harper Cartwright. Ao mesmo tempo

que a palma da minha mão entrava em contacto com a bola, pensei:

mergulha, cabra. Mergulha. Bati na bola como se fosse a cara de Zachery.

Harper mergulhou, de facto, mas não foi suficientemente rápida. A bola

bateu no chão. Ponto.

Berrei de uma maneira que evidenciava muito pouco desportivismo, o

que, sem dúvida, horrorizou Kirk. Entretanto, Dalton elevou-me em ombros

e fez-me girar numa espécie de dança da vitória.

– E agora, Zachery, hã? Como é que é? – gritei.

– Lamento interromper a festança – ouviu-se uma voz.

Dalton parou de girar e pousou-me no chão. Era Mariah, a minha

orientadora vocacional.

A cada aluno que entrava em Knollwood era atribuído um orientador

vocacional, e Mariah era a minha. Tínhamos de nos reunir com os nossos

orientadores uma vez por semestre, pelo menos, e rever os nossos horários e

falar dos nossos «objetivos» e do que «queríamos alcançar», o que já seria

irritante o bastante por si só; no entanto, Mariah achava que o seu papel

devia ir além das áreas académicas e extracurriculares. Aproveitava para me

fazer perguntas acerca da minha família e de como é que eu me estava a

aguentar, e – juro que não estou a imaginar coisas – a empurrar a caixa de

lenços de papel na minha direção, como se, a qualquer momento, eu fosse desatar a chorar baba e ranho. Vira o inegável brilho de felicidade no seu

olhar da última vez que estivera no seu gabinete e pedira um lenço de papal,

e depois o seu desapontamento ao constatar que eu o usara para limpar o

batom.

Mariah era uma mulher de meia idade que andava sempre vestida de uma

maneira informal: calças de sarja, sapatos fechados e baixos e camisa.

Insistia em que os alunos a tratassem pelo primeiro nome e tinha o hábito de

enfiar as mãos nos bolsos das calças e acenar com a cabeça quando estava

absorta em pensamentos. As pessoas que enterravam as mãos nos bolsos das

calças faziam-me confusão.

– Tenho uma reunião marcada com a Charlie – declarou ela. – Posso

roubá-la por um bocadinho?

– Leve-a à vontade – respondeu Zachery.

– Marquei aquele último ponto, caso não tenhas reparado – realcei.

– Sim, parabéns. Também nos custaste muitos outros e quase lesionaste o

nosso melhor jogador. Portanto, continuas em dívida, caso tu não tenhas

reparado – argumentou Zachery.

– Oh, Zachery, vou mesmo sentir saudades deste bocadinho tão especial

que partilhámos – disse. Levantei o braço e dei-lhe uma palmadinha na

cabeça quando passei por ele.

Depois das linhas laterais, Mariah abraçou-me.

– É tão bom ver-te, Charlie – afirmou ela. – Estou tão contente que

tenhamos uma oportunidade para conversar. Sinto que não chegámos tão

longe quanto podíamos na nossa última sessão.

Desiste, mulher, tive vontade de dizer. Não vou chorar.

Rumámos à margem do lago. Mariah enterrou as mãos nos bolsos das

calças e começou a dizer que sim com a cabeça.

– Independentemente do que possas ter ouvido dos lábios dos teus

colegas, o verdadeiro objetivo desta conversa não é assustar-te, mas ajudar-

te a chegar onde queres chegar – admitiu Mariah. – Julgo que o melhor

lugar para começarmos seria tu dizeres-me onde te vês a ti mesma daqui a

um ano e meio. A maioria dos alunos da Knollwood Augustus Prep anseia

por entrar na universidade, mas alguns buscam outras oportunidades de

crescimento intelectual, como, por exemplo, cursos de formação de carácter

prático, um ano a viajar ou de trabalho voluntário.

– Os meus planos não mudaram – afirmei. – Vou para a Wharton School, na Universidade da Pensilvânia.

Mariah sorriu.

– Neste momento, é importante que sejamos honestas uma com a outra,

Charlie. Não te sintas pressionada pelos que os teus pares possam pensar ou

pelo que a tua família possa achar das tuas escolhas. Estou aqui para

perceber onde é que tu te vês a ti mesma.

– Okay – acedi. – Mas eu acabei de lhe dizer o que quero. A Wharton

School. Universidade da Pensilvânia.

– É uma faculdade na qual não é fácil entrar – respondeu Mariah. – A

taxa de aceitação é inferior a doze por cento.

– Tenho boas notas – aleguei. – E excelentes resultados nos testes.

– Sim, é verdade – concordou Mariah. – Uma média de três vírgula sete

em quatro e um percentil bem acima dos noventa por cento nos testes. Não

estou a questionar as tuas capacidades intelectuais, Charlie.

– Nesse caso, qual é o problema?

– Bem, uma universidade como a da Pensilvânia quer alunos que

mostrem que sabem lidar com os rigores académicos do curso, mas também

quer pessoas com uma formação mais abrangente, que se envolvam na vida

da universidade para lá das aulas apenas, que desbravem o seu próprio

caminho na universidade e no mundo. E tu não tens quaisquer atividades

extracurriculares, o que é muito invulgar para um aluno da Knollwood. Não

pertences a nenhum clube, nem sequer desportivo, nem revelas interesses

especiais.

– O meu ensaio de acesso ao ensino superior vai ser acerca disso –

expliquei. – É precisamente o facto de não me conformar ao modelo

convencional que me torna numa pessoa invulgar, única e equilibrada. Hoje

em dia, dir-se-ia que os currículos dos alunos tomaram esteroides. Toda a

gente faz parte de uma orquestra e faz parte de uma equipa de ténis e

pertence à Associação de Estudantes. E não é porque se interessam

verdadeiramente por essas atividades, mas porque acham que devem

cumprir esses requisitos para provar o seu valor perante a faculdade dos

seus sonhos. No entanto, não preciso de ser definida pela minha

participação num clube ou pela prática de um desporto. E isso faz de mim

uma pessoa que pensa pela sua própria cabeça e que desbravará o seu

próprio caminho numa universidade como a da Pensilvânia e,

posteriormente, no mundo.

– Já esperava esse tipo de resposta da tua parte – disse Mariah.

– E que tipo de resposta é essa, ao certo?

– Manipuladora – respondeu ela. Deteve-se e olhou para mim, de mãos

nos bolsos, a acenar com a cabeça. – És inteligente, mas penso que isso é

um obstáculo ao teu desenvolvimento, porque aprendeste a usar o teu

intelecto para deturpar as coisas a teu favor. Sabes manipular as pessoas.

Senti as faces aquecerem. Mariah nunca tinha falado comigo daquela

maneira.

– Desculpe?

– O que me preocupa é que aprendeste inclusivamente a manipular-te a ti

mesma – prosseguiu ela. – Acreditas de alma e coração no que acabaste de

me dizer.

Não reagi. Ela encostara-me a uma parede. Podia dizer que acreditava, de

facto, e ser apelidada de manipuladora, ou podia dizer que não acreditava e

ser apontada como uma mentirosa.

– Adoraria ouvir a sua opinião acerca do assunto – disse. – Se deturpei os

factos, reponha a verdade. Qual é o verdadeiro motivo por que não me

envolvo em atividades extracurriculares?

– Careces de empatia – declarou Mariah. – Não te relacionas facilmente

com outras pessoas, porque não confias em ninguém, e porque foste

ensinada a pensar que és melhor do que os outros. E ensinaram-te a explorar

os demais para teu próprio benefício. Em poucas palavras, sofres de

transtorno de personalidade narcisista.

Fiquei sem palavras, sem ar, atónita.

– Merda – respondi, porque, naquele momento, estava-me pouco

marimbando para as boas maneiras. – Partilhe comigo o que pensa

verdadeiramente. Por favor, não se contenha por receio do que eu possa

sentir, já que não tenho sentimentos.

– Pelo contrário – contradisse Mariah. – Os narcisistas têm sentimentos

profundos, mas sobretudo em relação a eles mesmos. E não estou a tentar

magoar-te, Charlie. Estou a tentar ajudar-te.

– E que tem isto que ver com a Universidade da Pensilvânia? – perguntei.

– Isto tem que ver com o teu futuro, Charlie, com o tipo de pessoa em que

te queres tornar. Não é tarde demais para mudar, para dar a volta a isto.

Mariah tirou um papel da mala que trazia ao ombro e estendeu-mo. Era o

poster do Dia dos Clubes da Knollwood Augustus Prep, igual ao que encontrara na minha caixa de correio há umas semanas.

– Dá uma vista de olhos às oportunidades que Knollwood te oferece –

aconselhou Mariah. – Escolhe qualquer coisa que te interesse, mesmo que

seja só um bocadinho. O período de inscrição nos clubes ainda não está

fechado. Experimenta. Tenta abrir-te a uma experiência nova, a novas

pessoas. Talvez te surpreendas.

*

 

Naquela noite, em redor da fogueira, Kirk sacou da guitarra e incitou toda a

gente a juntar-se a ele e a cantar «Save Tonight», de Eagle-Eye Cherry. Não

tinha grande voz e, na verdade, apetecia-me estar sozinha, por isso,

escapuli-me até à orla da luz emanada pelas chamas da fogueira. Deitei-me

com a cabeça apoiada num tronco tombado e contemplei o céu noturno,

limpo e carregado de estrelas cintilantes.

Não pude deixar de pensar em todas as pessoas cujas vozes ouvia, mesmo

ali ao lado. Conhecia todos os planos de carreira e faculdades com que os

meus amigos sonhavam. Ultimamente, não falavam de mais nada. Sabia que

Leo planeava ir para Harvard, seguindo os passos do lado materno da sua

família, e que Drew sonhava estudar Ciência Política em Wellesley, a alma

mater de Hillary Clinton. Stevie queria ir para Berkeley, para estudar

Medicina, e Yael inclinava-se para Columbia, sobretudo porque queria ficar

na cidade. Tinham todos tantas certezas; estavam decididos e já tinham os

seus futuros traçados, como eu. Interroguei-me se os seus orientadores

também tinham espezinhado os sonhos deles, como a minha fizera; e não

apenas os seus sonhos, mas as suas pessoas.

O mais certo era que tal só se tivesse passado comigo. Havia qualquer

coisa de errado em mim. Muito provavelmente, o que Mariah dissera acerca

de mim correspondia à verdade.

Ouvi um galho partir-se junto à minha cabeça e vi Leo junto a mim.

– Desculpa – sussurrou ele. – Não te queria assustar. Vim só juntar-me a

ti. – E deitou-se no chão ao meu lado.

– Olá, primo – respondi.

– Estou ansioso por ir para a universidade – confessou Leo, suspirando. –

Ou por voltar para a escola, onde ao menos há carne fresca. Já me enrolei

com todas as finalistas e pré-finalistas com mais do que seis pontos. Já não

há nada aqui para mim.

– Isso é, de facto, um problema – comentei, sarcasticamente.

– Imagina que dei por mim há pouco a considerar a Sheila Andrews –

admitiu Leo. – Quando dei conta, estava a olhar para ela, à luz das chamas,

com a voz de cana rachada do Kirk em pano de fundo, e a pensar: talvez.

Foi então que decidi vir para aqui antes que cometesse uma loucura.

– Tenho a certeza absoluta de que a Sheila Andrews te decepava os

tomates se te metesses com ela – realcei. – Se eu fosse a ti, mantinha-me

longe dela.

– Então e a Stevie? – aventou Leo, abanando as sobrancelhas. – As

pudicas e inibidas revelam-se sempre as mais divertidas na cama.

– Nem pensar – respondi. – A Stevie é demasiado esperta para perder

tempo contigo, quanto mais a sua virgindade.

– Eu aprecio um desafio – argumentou Leo. – Talvez pudesses dar-lhe

uma palavrinha em meu nome? Vencer um pouco a resistência dela?

Ocorreu-me então uma coisa e desfiz o sorriso que tinha nos lábios.

Sentei-me.

– Diz-me que não incluíste a Stevie no teu jogo estúpido.

Nunca traíra a confiança de Leo falando a quem quer que fosse do Jogo

das Conquistas, nem sequer a Drew. No entanto, se ele tivesse incluído

Stevie no jogo, seria forçada a avisá-la. Não podia ficar de braços cruzados

a vê-la ser enganada.

– Tem calma, estava a brincar – afiançou Leo. – Se bem que, tenho de

admitir, incluir a Menina Casta no jogo iria tornar tudo em muito mais

interessante.

– Promete-me que não incluíste nenhuma das minhas amigas no jogo –

insisti, porque tinha de ter a certeza.

Leo olhou para mim e fez uma careta, aborrecido por eu não ter achado

tanta graça quanto ele à piada que fizera.

– Prometo – disse ele. – Então, como é que correu a conversa com a tua

orientadora? – inquiriu ele, mudando de assunto.

– Bem, mesmo muito bem – respondi, num tom ironicamente animado, e

tornei a deitar-me. – Pelo visto, sou uma pessoa horrível.

Leo riu-se.

– Estou a falar a sério. Chamou-me narcisista, com as letras todas.

– És uma Calloway – fez notar Leo. – Somos todos narcisistas. Está-nos

no sangue.

Ri-me.

– Talvez tenhas razão – concordei.

Remeti-me ao silêncio, fechei os olhos e tentei comunicar com ele como

fazíamos quando éramos miúdos. Cada um de nós tentava captar o que o

outro estava a sentir, mesmo quando não sabíamos como o exprimir por

palavras.

Não sou má pessoa, pois não?, perguntei-lhe mentalmente. Nós, os

Calloways, somos egoístas e manipuladores, mas… mas… mas nunca

magoámos ninguém, assim a sério, com consequências graves. Pois não?

Era ridículo o tipo de coisas que me alegrava não ter de dizer em voz alta,

mas também as que gostava de pensar que Leo compreenderia, se as tivesse

verbalizado. Deitada, de olhos fechados, interroguei-me se ele me ouvira.

Então, no meio da escuridão, senti-o dar-me a mão.