Magníficos Estranhos
Vinte e sete CHARLIE CALLOWAY
Vinte e sete
CHARLIE CALLOWAY
2017
No dia seguinte, Dalton e eu iniciámos a viagem de regresso a Knollwood
mais tarde do que seria desejável. Margot telefonou para a escola a avisar
que não iríamos chegar a horas do recolher obrigatório e a administração
deu o seu consentimento, se bem que com grande relutância, mas estipulou
que tínhamos de nos apresentar perante os supervisores das respetivas
residências na manhã seguinte. No caminho de volta, encostei a cabeça ao
vidro frio da janela do passageiro, fechei os olhos e fingi que me doía a
cabeça. Estava demasiado abalada pelas conclusões a que chegara acerca de
Jake para manter uma conversa com Dalton. Queria ficar sozinha com os
meus pensamentos. Era como se, de súbito, todas as peças se estivessem a
encaixar. Ali estavam, por fim, os elos que eu procurava, as ligações que eu
sentira que existiam, logo abaixo da superfície, à espera que eu as
encontrasse.
Quanto mais pensava nisso, porém, mais me convencia de que estava
errada. O clube A atrever-se-ia mesmo a matar alguém? Ainda que um
recruta não conseguisse cumprir uma tarefa, um desafio, mesmo que um
iniciado ameaçasse denunciar os membros do A, seria isso motivo
suficiente para… matar alguém? Valeria mesmo a pena? Era certo que o
clube tinha uma faceta sombria e desvirtuada e cruel, mas… Homicídio?
Mais importante ainda, não era capaz de compaginar tudo isso com o
desaparecimento da minha mãe. Então, Jake e o meu pai tinham-se
conhecido em Knollwood e eram ambos membros do A. Quiçá tivesse sido
o meu pai quem atribuíra a Jake a tarefa de roubar o exame. Este acabara
por ser apanhado e, uma vez que se arriscava a ser expulso, suicidara-se por achar que a sua vida tinha acabado. Que poderia isso ter que ver com o
desaparecimento da minha mãe uma década e meia mais tarde?
Quando as peças pareciam estar a encaixar-se, eis que tornavam a
baralhar-se. Já não tinha certeza nenhuma em relação às respostas que me
haviam parecido tão indiscutíveis no restaurante. Pareciam-me então pouco
sólidas e mesmo ridículas. Nada fazia sentido, uma vez mais.
– Toma isto – disse Dalton.
Abri os olhos e vi que ele apontava para uma garrafa de água que estava
no suporte entre os dois bancos.
– Obrigada – agradeci, pegando na garrafa –, mas julgo que não é um
problema de hidratação.
Dalton sorriu.
– Não, palerma – disse ele, e inclinou-se na direção do meu banco para
abrir o guarda-luvas com a mão direita, mantendo a outra no volante. – Isso
é para tomares isto.
Tirou uma embalagem cor de laranja de comprimidos e entregou-ma.
Percebi que eram analgésicos receitados por um médico.
– Onde é que arranjaste isto? – perguntei.
– São o que restou da lesão que fiz no pé no ano passado – respondeu ele.
Fechou o porta-luvas e concentrou-se de novo na estrada. – Quando o idiota
dos Xavier me pregou aquela rasteira nas semifinais, não te lembras?
Recordava-me vagamente de Dalton ter andado de canadianas na
primavera anterior, com uma fila de caloiras atrás dele a carregar-lhe os
livros.
– Obrigada – disse, e aceitei os comprimidos.
– Gostei de conhecer o teu pai – realçou Dalton.
– Ainda bem – respondi.
– Mas, para te ser franco, fiquei com a sensação de que, na verdade, não
fiquei a conhecê-lo mesma nada – confessou Dalton. – Parece ser uma
daquelas pessoas que, não sei, não se abrem facilmente ou que resistem ou
não se deixam conhecer.
Não respondi, e fingi que não o podia fazer porque tinha a boca cheia de
água para engolir os comprimidos.
Mas a minha vontade foi dizer-lhe: nem sabes da missa a metade.
*
Dirigimo-nos ao Rebordo mal chegámos a Knollwood. Harper fez uma cara
de poucos amigos ao ver-nos chegar juntos. Fomos os últimos a comparecer
e eu apressei-me a enviar a Ren as fotografias que Leo tirara de mim e do
professor Andrews. Os restantes recrutas do A colocaram os itens referidos
nos seus cartões em cima do capô do carro de Crosby.
Não obstante os acontecimentos do dia anterior, sentia-me aliviada e, no
fundo, bem-sucedida, porque conseguira. Cumprira duas tarefas, já só
faltava uma. Era praticamente um membro do A. Olhei em redor do círculo
e cruzei o olhar com o de Leo.
Estamos quase lá, disse-lhe mentalmente.
Procurei Drew no círculo. Queria partilhar aquele momento com ela
também. Estava desejosa de ficar acordada até mais tarde para ouvir a
história de como ela roubara o exame de Trigonometria ao professor
Franklin. Examinei o grupo uma vez mais e não a encontrei. O meu coração
disparou. Olhei para o capô do carro de Crosby, à procura do exame do
professor Franklin, mas também não o vi ali.
Só então me dei conta de que Drew não tinha conseguido cumprir a tarefa
que lhe havia sido destinada.