O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 9 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 8

 

 

Errol estava me chamando quando voltei para o quarto, transpirando e cansado. Não fui muito longe, apenas o bastante para dar uma olhada, pessoalmente, nas terras de Conner. Ainda assim, perguntei-me por quanto tempo ele estivera me chamando.

– Acho que peguei no sono – respondi, molhando um pouco a mão. – O que você quer?

– Sua água deve estar fria agora, senhor – disse ele. – Devo trocá-la?

A água estava fria. Mas também estava perfeitamente limpa, e eu, mais sujo do que quando ele deixara o quarto.

– A água está boa – respondi, enquanto tirava a roupa o mais rápido e silenciosamente possível. – Já estou acabando!

– Os outros meninos já saíram do banho faz tempo!

– Sim, mas eles provavelmente estavam se lavando enquanto eu dormia. Dê-me mais alguns minutos.

Entrei na água e esfreguei as partes do corpo que ficariam à mostra. Errol deixara uma pilha de roupas novas ao lado da banheira. Eram roupas de cavalheiro e, provavelmente, tinha custado a Conner muita prata comprá-las para nós três. Meu traje consistia em uma camisa de linho amarrada na frente, uma túnica de couro macio, com mangas três-quartos e botões de osso esculpido, calças longas de linho e um par de botas altas. Achei que não haveria muita pele a exibir.

De qualquer forma, aquele foi apenas o meu primeiro banho, porque, quando abri a porta, Errol inspecionou meus braços por baixo das mangas e observou que eu ainda cheirava a orfanato. Ele insistiu em me esfregar uma segunda vez.

– A água está congelando – disse Errol. – O senhor quer o seu banho desse jeito?

– Está mais gelada agora do que quando você perguntou – respondi,

rabugento. – E eu nunca disse que a preferia assim, só disse que estava boa.

Os modos gentis de Errol não se refletiram em seus gestos ao me

banhar. Fiquei surpreso ao ver quanta sujeira ainda havia em mim. Enquanto ele esfregava uma bucha em meus pés, eu olhava para minhas unhas.

– Não me lembrava de que elas fossem dessa cor – observei, tentado a

puxar meu pé. – Ei, isso faz cócegas! Já acabou? Não me sinto muito confortável tendo outro homem me ajudando a tomar banho.

Errol sorriu.

– Devo mandar uma mulher para ajudá-lo, senhor? Eu ri e disse a ele que não queria que ninguém me ajudasse em meus

próximos banhos.

– É evidente que mestre Conner tem um conceito de limpeza diferente

daquele do orfanato. Agora que sei que é para lavar o corpo todo, farei os ajustes necessários.

Depois que terminamos, mandei Errol sair enquanto me vestia

novamente. Tive que admitir que o rapaz fizera um excelente serviço. Acho que nunca estivera tão limpo na vida.

– Onde estão minhas roupas antigas? – perguntei a Errol depois que

terminei de me vestir.

– Lá fora, senhor. Creio que serão queimadas. Não servem para mais

nada.

– Vá buscá-las – pedi com seriedade, e depois acrescentei: – E garanta

que estejam intactas, Errol. Exatamente como eram.

Ele pensou por um momento, antes de responder: – Suponho que conseguirei pegá-las de volta. – Se você conseguir, vou recompensá-lo com uma moeda de prata pelo

serviço.

Errol inclinou a cabeça.

– Onde o senhor conseguiria uma?

– Esse é só um detalhe, e não é problema seu. Creio que uma moeda de

prata pagaria um bom montante de sua dívida com seu senhor, não? – Abri os braços. – Estas roupas não são minhas, não fazem parte de mim. Acho que vou querer aquelas roupas de volta em duas semanas.

Errol deu de ombros.

– Verei o que posso fazer. Agora, vamos lá. O mestre está esperando o senhor para jantar.

Conner tinha tomado banho e feito a barba. Estava muito arrumado. Agora mais parecia um nobre que um viajante cansado. Roden e Tobias já estavam sentados em seus lugares quando entrei. Era uma pequena sala de jantar, que parecia reservada às refeições cotidianas e aos encontros íntimos. Havia sido claramente arrumada para impressionar quem fizesse as refeições ali. A riqueza da família Conner estava em cada detalhe. Eu não poderia deixar de fazer as contas de quanto um ladrão esperto lucraria ao roubar um garfo de prata polida, uma daquelas taças douradas ou simplesmente um dos cristais que pendiam nos suportes na parede.

– Sente-se, por favor – disse Conner, indicando o assento à sua esquerda.

Tobias estava acomodado à direita de Conner, Roden ao lado de Tobias, claramente aliviado por ser eu, e não ele, quem teria que se sentar junto a Conner.

Tão logo me sentei, os servos começaram a nos servir. A refeição começou com um queijo tão macio quanto manteiga e frutas maduras. No orfanato, recebíamos as sobras da cozinha dos ricos depois que elas estavam murchas ou podres para serem servidas à mesa deles. Para ser franco, comíamos o que estava a segundos de se transformar em puro mofo.

Conner foi servido primeiro, e esperou que o resto de nós também o fosse para começar. Embora eu tivesse sido o segundo, presumi que deveria esperar também. Era uma tentação terrível ignorar o exemplo de Conner e atacar a comida como um lobo.

Meus sentidos estavam sobrecarregados com os aromas gloriosos que traziam os vapores do meu prato, assim como os que me alcançavam vindos da cozinha.

– O senhor come assim todos os dias, mestre Conner? – perguntei, encantado.

– Todos os dias – disse Conner. – Você gostaria de uma vida com essa

fartura, não?

– Isso sinceramente excede qualquer expectativa que eu possa ter para

minha vida – respondi.

– Esta é uma refeição humilde comparada ao banquete do rei – disse

Conner.

– Mas quem iria querer o banquete do rei se tivesse isso tudo? –

perguntou Roden enquanto seu prato era servido. Depois, olhou para Conner, sabendo que tinha cometido um erro, mas sem ter certeza de qual era. Procurou pelas palavras para se corrigir, mas falhou.

Tobias tomou sua deixa.

– Eu não me incomodaria em comer como um rei. Uma garota se debruçou sobre meu ombro e colocou uma tigela de

uma sopa alaranjada à minha frente. A menina tinha cabelos castanho-escuros amarrados em uma trança simples que descia pelas costas. Não era exatamente bonita, mas algo nela era muito interessante. Seus olhos me fascinaram, calorosos e castanhos, mas assombrados, talvez temerosos. Ela franziu a testa quando me pegou olhando para ela, mas continuou a servir.

– Obrigado – eu disse, chamando sua atenção novamente. – Que tipo

de sopa é essa?

Esperei pela resposta à minha pergunta, mas a moça não disse nada.

Talvez, na casa de Conner, não fosse permitido que os servos falassem com os convidados durante as refeições. Não insisti, desejando não ter causado nenhum problema para ela.

Conner começou a tagarelar, dizendo-nos o que poderíamos esperar

para o jantar daquela noite: pão crocante ainda quente do forno, pato assado glaçado, cuja carne estava tão tenra que poderia ser cortada com uma colher, e um pudim de frutas mantido frio em seu resfriador subterrâneo. Eu o ouvia, mas continuava observando a garota, que servia uma nova rodada de bebidas. Quando se aproximou de Tobias com a jarra, levou um esbarrão de outro servo e acabou derrubando água no colo do garoto. Conner olhou para ela irritado. Abri a boca para defendê-la, mas a moça deu outro guardanapo para Tobias se secar e se apressou para fora da sala antes que qualquer coisa pudesse ser dita.

Quando fomos todos servidos, Conner pegou a colher que estava acima de seu prato e ensinou:

– Esta é a colher de sopa. Ela serve para tomar a sopa e apenas a sopa.

Seguindo seu exemplo, peguei minha colher, tentando segurá-la do mesmo modo como ele segurava a dele. E devo admitir que era um jeito bem esquisito e desconfortável de segurar uma colher. Mas o que é que eu sabia? Talvez cavalheiros se alimentassem assim. Pobres órfãos arrasados, não. Eu costumava segurar a colher do mesmo modo que seguraria um machado.

– Você come com a mão esquerda? – perguntou-me Conner. – Isso é inaceitável. Você pode fazer isso com a mão direita?

– Você pode fazer isso com a mão esquerda? – devolvi.

Conner pareceu ofendido.

– Não.

– Ainda assim, você pede que eu mude para minha direita.

– Obedeça. Só isso.

Troquei a colher de mão, mas sem tentar imitar a forma delicada como Conner segurava a dele. Em vez disso, com meu jeito de segurar machado, fui direto para a sopa.

– Não, Sage – disse Conner. – Sirva-se com um pouco de sopa com a sua colher empurrando o líquido para longe de você, deste modo, veja.

E demonstrou como fazê-lo de forma correta, acrescentando:

– Assim, se você deixar cair, derrubará sopa na mesa, não no colo.

A última vez que eu tomara sopa fora segurando uma tigela com as duas mãos, como se fosse uma caneca. Eu não tinha muita coordenação com a mão direita e, tão logo Conner olhou para outro lado, voltei a usar a esquerda. Ele percebeu, mas não disse nada.

Conner corrigiu Roden sobre como ele segurava a colher.

– Isso não é um martelo, menino.

E falou a Tobias a respeito de debruçar-se sobre a tigela.

– Traga a comida para a boca, não a boca para a comida.

Mas não disse mais nada sobre meus modos. Suspeitei que ele tivesse desistido de mim.

Depois da sopa, tivemos mais um pouco de pão e queijo. Conner demonstrou como usar o fatiador de queijo e as facas de pão. Achei aquilo tudo muito óbvio, então não prestei muita atenção. Roden e Tobias pareciam cativados.

A garota que chamara minha atenção voltou à sala para recolher as

tigelas de sopa, o pão e o queijo, enquanto outros servos nos serviam o prato principal. Ela franziu a testa para mim novamente, o que me incomodou, porque eu não conseguia ver o que poderia ter feito para irritá-la tanto.

– Eu já estou cheio – falou Tobias.

– Essa expressão é considerada extremamente rude, Tobias – disse

Conner. – O bom anfitrião planeja os pratos que servirá aos seus convidados com muito cuidado. Ele não imagina que metade da refeição será forçada goela abaixo de seus hóspedes.

Tobias se desculpou e disse que seu prato cheirava bem, o que Conner

parecia considerar também um pouco rude. Mas não me pareceu que Tobias quisera ser grosseiro. Era apenas o modo como ele dizia certas coisas que o fazia parecer arrogante.

Eu estava bastante faminto, mesmo depois dos dois primeiros pratos.

Fazia quase dois dias desde que comera algo realmente substancial, e meses que comera o suficiente para me considerar cheio.

Comida era encarada como um luxo nos orfanatos de Carthya,

instituições geridas com qualquer dinheiro que os órfãos tivessem herdado depois da morte dos pais. Na prática, isso significava pouco mais do que a camisa pendurada no corpo, depois de pagas todas as dívidas que a família tivesse. Doações particulares chegavam, de tempos em tempos, de cidadãos abastados que desejavam comprar perdão para seus pecados favoritos. E, como acontecera conosco, as crianças às vezes eram vendidas a famílias ricas, para trabalharem como servos até que suas dívidas fossem pagas.

Crescendo em lugares com pouca comida, aprendemos a comer rápido e

de forma egoísta. Por isso eu não havia entendido a raiva da sra. Turbeldy com o meu roubo do dia anterior. Afinal de contas, eu havia roubado para todos nós.

O último prato era a sobremesa, uma torta de cereja com canela e

açúcar. A mesma garota que havia nos servido antes retornou. Mas, dessa vez, não lhe dei atenção extra. Ainda que ela pudesse estar com problemas, eu já tinha o bastante para me preocupar por mim mesmo. Tinha que prestar toda a atenção em Conner, que ainda não revelara o pior de suas intenções para nós.

– Deixem a sala agora – ordenou Conner a todos os servos. – Não precisarei de vocês novamente até terminarmos o jantar.

Quando o último servo fechou as portas ao sair, Conner abaixou o garfo e a faca e uniu as mãos.

– Bem, rapazes, aqui estamos – disse ele olhando para cada um de nós cuidadosamente. – Estou pronto para lhes contar o meu plano.