O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 32 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 31

 

 

O jantar da Casa Conner, naquela noite, seria servido no salão formal, não na sala onde havíamos feito as refeições durante toda a semana. Vários convidados já estavam presentes, mas a princesa e seus pais, que aparentemente a haviam acompanhado a Farthenwood, ainda não haviam chegado.

Fui designado como porteiro, sem função aparente a não ser

permanecer ao lado das portas do salão e observar os outros servos indo e vindo. As tarefas de Tobias e Roden não eram muito melhores. Eles deveriam ficar no fundo do salão para fechar as cortinas, caso a luz do sol incomodasse algum convidado.

Mott anunciou a chegada da princesa Amarinda, de seus pais e do

restante da comitiva.

Amarinda era tão bela como Conner a descrevera, com cabelos

castanho-escuros penteados para trás e caindo em grossos cachos pelas costas. Os olhos eram castanhos e penetrantes, e pareciam absorver tudo ao redor. Quando ela reconheceu Conner, seu rosto se iluminou com um sorriso quente e afável. Ali, na casa dele, a convidada fizera o proprietário se sentir bem-vindo.

Conner se levantou, juntamente com todos os outros na mesa, e fez

uma mesura para a princesa Amarinda e os pais dela. O professor Graves havia nos falado sobre eles, e sobre como Amarinda viera a se tornar a princesa prometida.

A aliança entre Amarinda e a casa do rei Eckbert fora selada quando ela

nascera, três anos após o nascimento de Darius, como resultado de uma longa busca realizada pelo rei. Ele queria uma moça estrangeira, cujas relações fossem poderosas o suficiente para um casamento que criasse um laço entre seu país e Carthya, mas não uma herdeira direta do trono, que tivesse ambições políticas próprias.

Amarinda era uma das sobrinhas do rei de Bymar. Antes que ela tivesse idade para engatinhar, seus pais a haviam prometido a quem quer que herdasse o trono de Eckbert, muito provavelmente Darius. E, embora ela nunca tivesse tido o direito de escolha quanto ao casamento, quanto mais Amarinda crescia, mais sua admiração por Darius aumentava. Dizia-se que ambos estavam ansiosos para atingirem a maioridade e poderem se casar.

Amarinda parou quando passou por mim, junto à porta.

– O que você está olhando?

Quaisquer regras que Mott tivesse nos instruído a obedecer se confundiram em minha cabeça. Eu poderia falar com ela se ela se dirigisse diretamente a mim, mas ela estava se dirigindo a mim apenas porque eu a olhara, o que não era permitido.

– Perdoe-o, Alteza – disse Mott, dando um passo à frente.

– Não há nada para perdoar. Simplesmente fiquei curiosa para saber o que um servo está vendo de tão interessante.

Olhei para Mott, para ver se ele iria responder. Com uma expressão de alerta nos olhos, ele me concedeu permissão, e eu disse:

– A senhorita está com o rosto sujo.

Ela ergueu as sobrancelhas.

– Isso é alguma brincadeira?

– Não, Alteza. Há alguma coisa em seu rosto.

Amarinda virou-se para sua aia, que corou e limpou o rosto da princesa.

– Por que você não me avisou antes de eu vir para cá? – a princesa perguntou a ela.

– A senhorita seguiu na frente, Alteza. Eu não vi.

– Mas ele viu, e é apenas um servo. – Ela se virou para mim, como se pedisse desculpas. – Antes de sair do quarto, eu parei diante da janela. Alguma coisa deve ter voado no meu rosto.

– Eu não disse que a sujeira diminuía a sua beleza, Alteza – falei. – Eu só disse que havia alguma coisa em seu rosto.

Com um sorriso um tanto envergonhado, ela fez um sinal com a cabeça e então prosseguiu, tomando seu lugar à mesa. Pelo canto do olho, percebi que Conner olhava para mim, embora sua expressão fosse tão controlada que eu não sabia dizer se ele estava feliz, aliviado ou furioso.

O jantar cheirava tão bem enquanto era servido que precisei de

considerável força de vontade para não revelar aos convidados que eu estava disfarçado e que me sentaria para comer com eles. Um grande assado fora preparado, com cenouras e batatas cozidas, pão quente e um tipo de queijo importado, cujo nome não fui capaz de reconhecer quando Conner o ofereceu a Amarinda.

Imogen era uma das pessoas que serviam a refeição. Notei um corte em

sua testa e imaginei se Conner iria ignorar aquilo, como se fosse o resultado de um momento de desatenção. Não importava quanto eu olhasse para ela enquanto trabalhava, ela evitava o meu olhar sempre que entrava ou saía do salão. Eu a teria ofendido de algum modo? Ou será que ela estava tentando se manter distante do perigo cada vez maior que envolvia os planos de Conner?

Do outro lado do salão, Tobias parecia apático e entediado. Ele olhava

para o chão e logo desapareceu nas sombras. Roden parecia faminto, e eu o apanhei olhando para a princesa com uma expressão de forte admiração.

A conversa à mesa começou com uma troca de gentilezas. Conner

descreveu sua vida no interior, longe da política de Drylliad. Amarinda comentou sobre suas viagens, já que andava percorrendo Carthya nas últimas semanas. Seus pais entendiam que, como futura esposa do herdeiro do trono, ela era muito mais importante do que eles, e deixavam que ela liderasse a conversa.

Depois que o prato principal foi servido, Conner levou a conversa

diretamente para o assunto que eu tinha certeza de que ele queria que ouvíssemos: os planos para o futuro casamento de Amarinda e sua ascensão ao trono.

Ela apertou os lábios e então disse:

– Talvez nunca haja um casamento. – E olhou para Conner, que fingiu

uma preocupação apropriada. Depois de um instante, completou: – Existe um boato, que chegou aos meus ouvidos há apenas alguns dias, a respeito do rei, da rainha e de seu filho.

– Oh.

Os olhos de Conner realmente demonstravam curiosidade. Ele sabia exatamente qual era o boato, e não pude deixar de admirar seu talento como ator.

– O senhor não ouviu falar sobre isso?

– Eu soube que o rei, a rainha e seu filho estão viajando pelo norte do país, o que frequentemente acontece nesta época do ano.

– E posso lhe perguntar quando o senhor os viu pela última vez?

– Já faz algumas semanas – disse Conner. – Antes da viagem deles a Gelyn.

– E eles estavam bem?

– Certamente.

O pai de Amarinda falou:

– Então, o boato não pode ser verdadeiro – e deu um suspiro de alívio, tomando a mão da esposa. Ela também parecia aliviada.

– Boatos sempre cercaram a família real – disse Conner, como se o assunto estivesse encerrado. – É a diversão mais barata para o povo.

Houve risadas à mesa, exceto de Amarinda, cuja voz solene tomou conta do salão.

– Ouvi dizer que eles estão mortos. Assassinados. – As risadas silenciaram, e ela continuou: – Todos os três, envenenados durante o jantar e mortos pela manhã.

Mott olhou para mim de sua posição e sacudiu a cabeça, alertando-me a não reagir. Forcei o rosto a assumir uma expressão desinteressada e neutra, apesar do aperto no estômago. Se eu reagisse, Conner mudaria de assunto. Mas eu precisava que eles continuassem falando sobre aquilo, porque, não importava quão facilmente ele conseguisse evitar nos dar mais detalhes, teria dificuldade em se esquivar da princesa. Contudo, a única pergunta em que eu conseguia pensar era a que ela nunca faria: Será que a pessoa que assumisse o lugar do príncipe se tornaria a próxima vítima?

Conner se inclinou para a frente e uniu as mãos.

– Alteza, a senhorita planeja chegar ao castelo em Drylliad amanhã, certo? – Quando ela assentiu, ele disse: – Deixe o boato correr até então. Se é falso ou verdadeiro, vai saber quando chegar lá.

– Esperar é algo mais fácil de falar do que de fazer – disse Amarinda, com a voz pesada de tristeza. – Se não houver herdeiro, não há princesa prometida. Serei viúva sem jamais ter me casado.

– Mesmo que o boato seja verdadeiro, pode haver uma saída – disse

Conner. – Talvez nem tudo esteja perdido para a senhorita, ou para Carthya.

Amarinda ergueu uma sobrancelha, curiosa. Conner esperou vários

segundos para continuar, o que eu sabia que era para aumentar a expectativa dela. Era uma atitude cruel, sem coração. Finalmente, ele disse:

– E se o príncipe Jaron estiver vivo?

Amarinda ficou imóvel. Todos à mesa ficaram imóveis, exceto Conner,

que estava gostando um pouco demais daquele momento. Ele manipulava as pessoas à sua volta como se todos fossem peças em um jogo de tabuleiro. Eu detestava o fato de a minha vida ter se ligado à dele.

Finalmente, a mãe de Amarinda disse:

– Todos sabem que o príncipe Jaron foi morto por piratas há quatro

anos. O senhor está nos dizendo que isso não aconteceu?

– Estou dizendo que sempre existe uma esperança. – Ele se dirigiu a

Amarinda. – Alteza, talvez a senhorita reclame o trono em breve.

– Eu pareço tão superficial assim? – Amarinda se levantou, zangada. – O

senhor acha que eu me importo com o trono, e não com o príncipe? O senhor fala sobre o retorno de Jaron como se isso resolvesse todos os nossos problemas, mas é com Darius que estou preocupada. Eu preciso saber se ele está vivo! – Ela fechou os olhos por um momento, recuperando a calma, e então disse, mais suavemente: – Os senhores hão de me perdoar, mas preciso voltar para o meu quarto. Estou com uma terrível dor de cabeça.

O pai da princesa se levantou para acompanhá-la, mas ela ergueu a mão

para impedi-lo.

– Não, papai, o senhor deve ficar e aproveitar a noite. Minhas damas me

acompanham.

– Um de meus homens a levará até o seu quarto – disse Conner,

indicando Mott.

Amarinda olhou para mim e abaixei a cabeça, rezando para que ela

desviasse o olhar.

– Aquele garoto pode me acompanhar.

Conner hesitou, mas depois sorriu e assentiu, concedendo-lhe permissão. Perguntei-me se ele não podia lhe recusar nada ou se realmente havia gostado da sugestão. Eu não gostara.

– Não sei o caminho, Alteza – respondi. Era uma mentira estúpida e mal contada. O quarto dela era aquele em que eu me banhara quando cheguei a Farthenwood.

– Eu sei. Só preciso de companhia.

Conner me dispensou, eu me inclinei para ela, e então saímos juntos do grande salão. Eu a conduzi pela escadaria principal, que parecia interminável. Tudo o que eu queria era levá-la para o quarto e desaparecer.

Atrás de mim, Amarinda disse:

– Obviamente você nunca acompanhou um membro da realeza antes. Espera que eu corra, andando rápido assim? Eu determino o passo, garoto.

Parei, mas não me virei.

– Minhas desculpas – murmurei.

– Você ainda não tem o meu perdão. Vamos ver como se comporta a partir de agora.

Quando ela me alcançou, comecei a andar novamente, um pouco mais devagar.

– Qual é o seu nome? – ela me perguntou.

– Sage.

– Só isso?

– Sou um servo, Alteza. Preciso de mais de um nome?

– A maioria das pessoas me conhece apenas como Amarinda. Será que eu também sou uma serva? – Ela mesma deu a resposta. – Claro que sou. Eu existo apenas para assegurar que haja uma rainha respeitável em Carthya, quando a hora chegar. Você já ouviu falar do príncipe Darius?

– Claro que sim.

– Já ouviu o boato sobre a morte dele?

– Ouvi. – E não era boato.

Então ela tocou no meu braço, para chamar a minha atenção. Parei, mas mantive os olhos baixos.

– Ele está mesmo morto, Sage? Se você souber, deve me dizer. Talvez você conheça alguém que trabalha no castelo em Drylliad. Certamente, os servos conversam uns com os outros.

Pela primeira vez, eu me virei para encará-la, embora não me atrevesse a

olhar em seus olhos.

– Os servos se perguntam o que a senhorita faria se tivesse que se casar

com o príncipe Jaron para subir ao trono. Se ele estiver vivo, claro.

Amarinda demorou muito tempo para responder. Finalmente, disse: – Você fala muito diretamente para um servo. Comecei a andar de novo. Ela me alcançou e perguntou: – Jaron está mesmo vivo? Não importa se a família do rei está viva ou

morta; se Jaron está vivo, ele deve ser apresentado à corte.

Parei diante da porta do quarto de Amarinda, ainda mantendo os

olhos no chão.

– Seu quarto é este, senhorita.

– Você me disse que não sabia onde era.

Então percebi rapidamente a mentira estúpida que eu havia dito. Em

vez de responder, perguntei-lhe:

– Há mais alguma coisa que eu possa fazer pela senhorita? – Você sabe por que lhe pedi para me acompanhar, Sage? Sacudi a cabeça, e talvez tenha dado um suspiro alto demais. Minhas

costas doíam, depois de passar tanto tempo em pé; eu ainda não tinha comido nada e estava cansado de fingir. Além disso, não queria ouvir que a moça com quem eu deveria me casar um dia, se fosse declarado príncipe, realmente amava o irmão mais velho dele.

– Eu lhe pedi que viesse porque você falou comigo honestamente antes.

Se eu tivesse perguntado a outro servo como estava, quando entrei naquele salão com o rosto sujo de lama, ele teria feito uma reverência e dito que eu estava mais linda do que nunca. Quando você está na minha posição, Sage, começa a perceber que há muito poucas pessoas em quem pode confiar.

Ela fez uma pausa, esperando que eu respondesse. Quando ouviu

apenas o meu silêncio, continuou:

– Então, confio em sua opinião sobre o meu dilema. Devo continuar a

viagem para Drylliad, esperando que o príncipe Darius me receba quando eu chegar, mas sabendo no fundo do coração que há algo errado? Ou devo me afastar, sabendo que, se não há Darius, não sou mais uma princesa prometida e não tenho lugar em Drylliad?

Desta vez, olhei diretamente para ela, embora seus olhos fossem tão perceptivos que imediatamente desviei os meus.

– A senhorita deve ir ao castelo, Alteza. Sempre se deve escolher o lado da esperança.

– É um bom conselho. Minha dor de cabeça melhorou um pouco, Sage. Obrigada por isso – ela sorriu tristemente. – Você me inveja, como membro da realeza?

Sacudi a cabeça. Quanto mais perto eu chegava do castelo de Drylliad, mais o temia.

– Muitos me invejam. Fico feliz por você apreciar seu lugar na vida, como servo. Sou uma serva também, você sabe. Talvez com roupas mais elegantes e com meus próprios servos, mas poucas escolhas em minha vida pertencem a mim. Não somos tão diferentes, você e eu.

Ela estava mais perto da verdade do que imaginava, mas segurei a língua e olhei para o chão.

– Você não vai olhar para mim?

– Não, senhorita. Se não posso olhar para a senhorita como igual, não vou olhar.

Ela tocou uma de minhas faces, beijou a outra suavemente e sussurrou:

– Lembre-se deste momento então, Sage, quando alguém da minha posição demonstrou gentileza a alguém da sua. Porque, da próxima vez que nos encontrarmos, se Darius estiver morto, eu não serei mais importante.

Então, ela entrou no quarto, seguida por suas damas. Só depois que fechou a porta, me atrevi a erguer os olhos novamente. Darius estava morto, e muito em breve ela e eu nos encontraríamos como iguais. Mas eu tinha a sensação de que aquele não seria um dia feliz para ela.