O Falso Príncipe
Capítulo 44
Minha cabeça pulou quando a carruagem atingiu uma pedra na estrada. Conner, sentado de frente para mim, observou-me com óbvia aversão. Eu sabia que ele odiava ter tido que me escolher como seu príncipe. Mas Tobias, que estava dormindo à minha direita, era um completo fracasso, e Roden, sentado ereto à minha esquerda, não seria capaz de convencer os regentes.
Imogen estava à esquerda de Conner. Ela olhava fixamente para frente, recusando-se a reconhecer que via qualquer coisa. Mott ia sentado à direita de Conner, e acenou de leve com a cabeça para mim quando olhei para ele.
Eu não via mais motivo para continuar mentindo para Mott. Antes, no rio, ele não tinha perguntado se eu era o príncipe. Ele sabia. E soube, pela minha reação, que estava certo. Sem dúvida, ele tinha uma centena de perguntas a fazer, e havia muita coisa que eu queria lhe dizer, só para ter alguém com quem pudesse falar abertamente. Mas Conner estava ansioso pela nossa partida, e não havia tempo para isso. Tudo o que eu tinha pedido a Mott fora que ele mantivesse nosso segredo para si. Julgando pela expressão azeda de Conner, Mott havia obedecido.
Eu me recostei e fechei os olhos novamente, não para dormir, mas para ficar sozinho com meus pensamentos. Depois de quatro anos de fingimento, de mergulhar tão completamente na identidade de Sage, será que eu poderia reemergir convincentemente como Jaron?
O regime de aulas de Conner durante a semana anterior havia sido realmente útil. Eu esquecera o nome de vários dos oficiais da corte e até de alguns de meus ancestrais, nomes que seria de esperar que o príncipe soubesse. Quando pequeno, eu fora bem treinado em esgrima e equitação, até que fossem atividades tão instintivas quanto respirar. Apesar de tê-las praticado sempre que possível no orfanato, essas habilidades haviam se deteriorado um pouco nos últimos quatro anos, e tinha sido bom voltar a exercitá-las.
Mesmo fingindo dormir, não pude evitar sorrir com a lembrança da
raiva de Cregan quando o desafiei com seu cavalo mais selvagem. O animal que ele tinha me trazido do estábulo realmente estava além das minhas habilidades como treinador, e eu quase não consegui controlá-lo para roubar a espada falsa enquanto todos estavam distraídos em algum outro lugar.
Outras coisas tinham sido uma perda de tempo. Evidentemente, eu
sabia ler bem melhor do que tinha dado a entender, mas confessar isso teria sido desastroso para meu disfarce. Eu deveria me desculpar mais tarde com Tobias por aquela mentira. Ele teria protegido seus papéis com mais cuidado se soubesse que à noite eu lia cada palavra escrita neles, enquanto ele dormia. Claro, minhas costas ainda ardiam onde ele havia me cortado, e isso era um crime bem pior. Eu concordaria em perdoá-lo se ele também me perdoasse.
Havia muitas coisas pelas quais eu teria que pedir perdão. E temia não
receber nem metade do perdão de que precisava.
Provavelmente eu não teria o perdão de Imogen, que havia me
confiado o maior segredo de sua vida, o de que não era muda. Quanto a mim, eu não havia lhe confiado nada.
Talvez não tivesse também o perdão de Amarinda, que implorara, com
o coração partido, pela verdade sobre se Darius, o príncipe para o qual estava prometida e a quem amava, estava vivo. Ou sobre a existência de seu irmão mais novo, com quem ela acabaria tendo que se casar se Darius estivesse realmente morto.
Eu jamais teria o perdão de minha mãe, que encontrara a morte ainda
acreditando que eu havia morrido no ataque dos piratas avenianos. Nem o de meu pai.
Pela maior parte dos últimos quatro anos, eu o havia culpado por me
manter longe do castelo. É verdade que eu aceitara seu pedido sem discutir, mas como eu poderia ter imaginado quanto esses anos seriam difíceis? Ele devia saber muito bem o que me esperava, e ainda assim colocou a paz de seu país acima do próprio filho. Talvez fosse a coisa certa a fazer; eu ainda não sabia dizer. Mas isso não diminuía em nada minha vergonha por eles terem me mandado para longe. Nem a raiva que eu sentia de meu pai, que, em seu primeiro reencontro comigo, na igreja, já tinha planos para me manter a distância.
Voltei todos os meses à igreja perto do orfanato para ver meu pai. Mas nunca o deixei saber que eu estava lá. Nós nunca nos falamos novamente.
Foi só depois que Conner me disse que meus pais e meu irmão haviam sido assassinados que comecei a compreender meu pai de uma forma diferente.
Ele tinha dito que seus maiores inimigos eram os regentes. Conner havia me contado que a morte de todos os três membros da família fora premeditada, para que um regente pudesse ser coroado.
Enquanto estava em Farthenwood, pouco a pouco comecei a entender que desde aquela época, quatro anos antes, meu pai havia previsto a possibilidade de que um dia todos eles fossem assassinados. Ele não havia me mantido a distância para se proteger de embaraços nem para evitar ter que declarar guerra contra Avenia. Meu pai tinha me mantido longe para me manter vivo. Depois que piratas tinham tentado me matar, ele deve ter ficado preocupado, pensando que a vida do resto da família estava em perigo. Ele me dissera naquele dia, na igreja, que a linhagem real deveria continuar para salvar Carthya. Então, se o pior acontecesse e todos eles fossem mortos, eu continuaria vivo para reclamar o trono. Ele me dera até uma forma de voltar. Só que eu nunca tinha esperado precisar dela.
Ele havia me deixado pensar as piores coisas dele por quatro anos, e eu havia feito isso com vontade. Eu jamais poderia ter o perdão dele por isso.
Quando Conner me levou para Farthenwood, cheguei a acreditar que ele sabia que Jaron estava vivo e que estava procurando pelo príncipe, esperando usá-lo para algum tipo de resgate. Por isso, resolvi que ele nunca deveria suspeitar da minha verdadeira identidade. Isso já teria sido ruim o suficiente, mas o plano verdadeiro de Conner era muito pior.
Ele esperava enganar o reino todo com um príncipe falso. Eu sabia que a melhor maneira de agir era jogar de acordo com seu plano, fazer com que ele me escolhesse em meus próprios termos e depois voltar a Drylliad para provar minha identidade. Conner tinha seu plano, e eu tinha o meu. Se algum dos dois funcionaria, era o que veríamos.
Conner chutou meus pés para conseguir minha atenção. – Estamos quase lá – disse ele. – Sente-se direito e pelo menos tente
parecer um príncipe.
– Nós vamos para o castelo a essa hora da noite? – resmunguei,
enquanto olhava pela janela para a escuridão lá fora.
– Claro que não. Vamos ficar em uma hospedaria. A cerimônia de
escolha será amanhã à noite.
– Se vamos para uma hospedaria, então vou como estou – afirmei,
esparramando-me de novo no assento. A brincadeira de ser Sage estava quase no fim. Eu planejava aproveitá-la até o último momento.