O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 33 de 55

Páginas do PDF

O Falso Príncipe

Capítulo 32

 

 

– Aonde você vai? – perguntou Mott quando comecei a andar. Ele nunca estava muito longe.

– Para o meu quarto. Minhas costas estão doendo. – O que vai parecer para os convidados do jantar se o servo que saiu

com Amarinda não voltar para o salão?

– O que vai parecer se as bandagens do servo começarem a se encharcar

de sangue, e o sangue pingar sobre a mesa de Conner?

– Venha – disse Mott com um suspiro. – Vou acompanhá-lo até o seu

quarto.

– Não precisa. Eu sei o caminho.

– Não é para impedir que você se perca que eu estou aqui. Diga-me, o

que achou da princesa prometida?

– Acho que ela ama Darius.

– Há muito tempo para ela aprender a amar Jaron. Além disso, a vida é

assim para membros da realeza. Eles cumprem o seu dever para com seu país, e, se tiverem muita sorte, às vezes isso lhes traz alguma felicidade.

– Não quero que ninguém cumpra um dever por mim – resmunguei. –

Uma encenação como essa não é para ela.

– Conner está preparando você para usar uma máscara pelo resto da

vida – disse Mott. – É melhor a sua rainha fingir amar você, porque, se ela o amasse de verdade, amaria apenas uma mentira.

Aquilo não me fez sentir nada melhor.

Errol estava sentado no banco do lado de fora do quarto e se levantou

ao nos ver chegar.

– O senhor está doente? – ele perguntou.

– Vá buscar o meu jantar – rosnei, passando por ele e entrando no quarto. – E não, eu não preciso de ajuda para me vestir.

Ironicamente, eu precisava sim de ajuda. Meus ombros e minhas costas estavam rígidos por causa das longas horas que eu passara em pé, e, a cada movimento, sentia que meus ferimentos se abririam de novo. Quando Errol voltou com uma bandeja de comida, vários minutos depois, encontrou-me sentado no chão, com a camisa e o colete desabotoados.

Ele colocou a bandeja na mesa de Tobias e foi silenciosamente até o armário apanhar minhas roupas de dormir. Conseguiu tirar a minha camisa sem me causar muita dor e, sem dizer nada, verificou minhas bandagens.

– Imogen está ocupada com o jantar lá embaixo – ele disse. – O senhor deve deixar que eu limpe esses ferimentos. Eles parecem infeccionados.

Eu me inclinei para a frente, o que deu menos trabalho do que discutir com ele. Errol encharcou um pano com álcool e o pressionou nas minhas costas. Arqueei a espinha com o ardor inevitável e então relaxei, enquanto a sensação aos poucos diminuía.

– Todos os servos em Farthenwood sabem que Tobias o cortou – murmurou Errol. – Eu ficaria surpreso se o mestre não ouvisse falar disso em breve.

– Os servos estão errados. Eu estava tentando sair por uma janela.

– Nós ouvimos coisas, Sage. Mais do que qualquer um pode pensar.

– Então, você obviamente sabe por que Roden, Tobias e eu estamos aqui. Os servos de Conner são leais a ele, a esse plano?

– Logo depois que vocês chegaram, mestre Conner nos falou sobre a natureza do que ele está fazendo e quanto isso é importante para Carthya. Obviamente, ele nos ameaçou seriamente se uma palavra sobre o plano atravessar os muros de Farthenwood. Mas ele não precisa se preocupar, nem você. É um segredo que todos nós vamos levar para o túmulo. Se você for escolhido príncipe, vou tratá-lo como a um verdadeiro membro da família real.

E, dizendo aquilo, terminou de ajustar as bandagens. Então me ajudou a colocar as roupas de dormir, amarrando-as na frente, o que eu não me sentia capaz de fazer.

Quando se levantou para sair, eu disse:

– Obrigado por me ajudar esta noite, Errol. Obrigado por me ajudar todas as noites. Sei que sou difícil.

– Vou considerar isso como um pedido de desculpas, senhor. Seu jantar

está na mesa. Boa noite.

 

Eu estava na cama quando Roden e Tobias entraram no quarto. Tobias

entrou mais silenciosamente do que de costume e se deitou na cama com indiferença. Roden se aproximou de mim e disse:

– Conner ficou furioso porque você não voltou para o salão, Sage. Eu o

ouvi dizer a Mott para vir buscá-lo imediatamente.

Dei um grunhido.

– Como ele espera que nos consideremos da realeza, quando nos trata

como escravos?

Errol entrou no quarto e começou a remexer minhas gavetas. – Sinto muito, senhor, mas é verdade. Conner pediu para vê-lo. Mott

está esperando lá fora, para levá-lo até ele.

Fiz uma careta de dor ao rolar para fora da cama. Errol estendeu as

roupas para mim, mas sacudi a cabeça.

– Se ele me chama durante a noite, vai me encontrar de roupas de

dormir.

– Isso não é apropriado – disse Errol.

– E é indecente da parte dele me chamar quando sabe que estou

dormindo!

Abri a porta para sair, mas Mott bloqueou meu caminho e sacudiu a

cabeça para mim.

– Não vou levá-lo até o mestre desse jeito. Deixe que Errol o vista, ou eu

o farei.

Bati a porta na cara dele e estendi os braços para Errol, que correu para

mim com as roupas nas mãos. Minutos depois, Mott estava me acompanhando, totalmente vestido, até o escritório de Conner.

– Estou encrencado? – perguntei.

– Depende das suas respostas para as perguntas dele. Conner estava escrevendo alguma coisa quando entramos em seu

escritório. Mott fez um gesto para que eu ficasse de pé na frente da mesa dele, mas eu me sentei. Um minuto ou dois se passaram antes de ele reconhecer a minha presença. Finalmente, abaixou a pena e olhou para mim.

– O que achou dela?

– Da princesa? – Dei de ombros. – Ela é linda. Eu tinha ouvido falar que a princesa prometida se parecia mais com um cavalo do que com uma mulher.

– Engula suas palavras – sibilou Conner. – Você está falando da futura rainha de Carthya. Isto é, se o príncipe for encontrado. E, sim, ela inesperadamente se tornou uma bela jovem. Por que o escolheu para acompanhá-la?

– Porque eu disse a ela que seu rosto estava sujo, e acho que ela gostou da minha sinceridade.

– Você tem sorte por ela ter gostado desse seu comentário. Ela poderia facilmente mandar que você fosse chicoteado por desrespeito.

– Eu já fui chicoteado.

– E esfaqueado, pelo que eu soube.

– Mott já ouviu a minha explicação sobre esse incidente, senhor.

– Uma explicação que provavelmente é mentira.

– Em Farthenwood, mentiras e verdade se confundem.

– São mentiras em busca da verdade, Sage.

Meu corpo doía de cansaço. Tudo o que eu queria era terminar aquela conversa sem sentido e voltar a dormir. Mas havia uma pergunta que eu precisava que ele respondesse.

– Por que o senhor permitiu que eu a acompanhasse? Quando o senhor me levar à corte, ela vai me reconhecer.

– Se eu o levar à corte. Não confunda minha tolerância com algum tipo de preferência por você. É exatamente o contrário.

– Minha pergunta não foi respondida, senhor. Por que permitiu que eu fosse com ela?

– A possibilidade de ela o reconhecer me preocupou por um momento. Então, decidi que você pode facilmente explicar que eu o mantive escondido até você poder ser apresentado à corte. O fato de vocês já terem se encontrado pode ser uma vantagem. Agora, eu tenho algumas perguntas para você.

– Eu tenho mais algumas perguntas primeiro. Conner arqueou a sobrancelha.

– Como?

– E se o príncipe Jaron estiver vivo? E se ele voltar ao castelo e me

encontrar sentado em seu trono? Não acho que vá gostar nem um pouco disso.

– Jaron está morto. Eu já lhe disse que tenho provas disso. Além do

mais, os piratas da costa de Avenia são impiedosos. O motivo pelo qual o corpo não foi encontrado é que eles provavelmente destruíram tudo o que pudesse identificá-lo. E, por mais problemas que ele causasse à família, o rei e a rainha o amavam. A rainha, particularmente, nunca desistiu de procurar qualquer pista que levasse a ele nos anos que se seguiram. E foi tudo em vão. Eu duvido que ele estivesse vivo quando o navio afundou.

– Qual é a prova que o senhor tem?

– Eu a apresentarei ao garoto que escolher como príncipe, e a ninguém

mais.

– Se o senhor pode provar que Jaron está morto, também pode provar

aos regentes que ele sobreviveu?

– Na corte, Jaron vai confessar que esteve escondido em um orfanato

durante todos esses anos, bem debaixo do nariz deles. Ele usou o nome de Sage, ou Roden, ou Tobias, mas voltou para reclamar o trono.

– E se outro órfão disser que nos conhecia antes de Jaron ser morto? – Diremos que ele está enganado, e talvez uma noite esse órfão

desapareça. Tronos já foram reclamados com menos provas do que as que temos, Sage. Além disso, o meu príncipe terá provas de sua identidade.

– Quais?

Conner sacudiu a cabeça levemente.

– Vou guardar essa resposta até meu príncipe ser escolhido, mas fique

tranquilo, é algo que vai identificar o meu escolhido sem sombra de dúvida. Agora, as minhas perguntas. O que a princesa Amarinda lhe disse, depois que vocês saíram do salão?

– Que está preocupada com a possibilidade de a família do rei estar

morta, apesar de suas tentativas de tranquilizá-la. Ela não parece acreditar que haja alguma esperança de Jaron estar vivo, e eu não acho que ela o aceitaria, mesmo que ele estivesse. Ela está com medo, senhor.

Conner sorriu.

– Podemos usar isso a nosso favor. Usar o medo dela para torná-la mais aberta a aceitar o príncipe, quando eu o apresentar. Então, mesmo que tenha dúvidas, ela o aceitará, porque precisa que seja verdade.

Não consegui esconder meu desprezo ao olhá-lo. Era nojento que ele pensasse tão rapidamente em como poderia se beneficiar da dor da princesa.

– Não faça essa cara para mim! – gritou Conner. – Deve ser muito conveniente para você bancar a vítima piedosa quando isso o beneficia, ou ser o príncipe, ou o servo, ou o órfão! Enquanto isso, eu preciso, o tempo todo, ser o guardião desse plano dos infernos. Não comemoro meu papel no futuro de Carthya, mas o aceito. E você?

Qualquer traço de sentimento desapareceu do meu rosto.

– Sim, senhor, eu o aceito. Eu sou o seu príncipe.

– Você se orgulha muito de si. Não posso mais confiar em Tobias, mas Roden tem algumas vantagens muito interessantes. Acredito que ele tenha sido subestimado esta semana. Ele aprendeu mais do que vocês dois, em um tempo muito curto.

Não havia nada que eu pudesse dizer sobre aquilo. Era verdade.

Conner continuou:

– O que ando me perguntando é se você quer ser o príncipe. Percebo que está em conflito com essa decisão, Sage. Talvez porque tenha medo das consequências de ser apanhado, ou talvez porque não consiga se imaginar sentado no trono. E, ainda assim, aqui está você, dizendo na minha cara que é o meu príncipe.

Ergui as mãos, mas me arrependi do gesto imediatamente quando o movimento fez minhas costas doerem.

– O senhor escolheria Roden, que corre para o trono sem pensar nas consequências? Ele não tem ideia do que está aceitando. Tenho pensado a respeito, Conner. E sou eu o seu príncipe.

Ele entrelaçou os dedos das mãos e uma faísca de triunfo apareceu-lhe nos olhos.

– Acredito que o que suspeitei o tempo todo é verdade. Você só precisa

de disciplina e motivação. Posso ver que está finalmente se curvando à minha vontade, e isso me agrada.

Aquilo não me agradava. Cansado como estava, eu ainda tinha energia

para ficar zangado com a satisfação dele. Entretanto, apenas perguntei:

– Posso ir agora, senhor?

Ele hesitou por um momento, então assentiu, e saí sem olhar para ele.

Enquanto Mott me levava de volta para o quarto, tentou puxar conversa, mas o ignorei. As palavras de Conner ainda ecoavam em meus ouvidos. A cada passo que eu dava rumo ao trono, sentia que me curvava também. Eu só esperava poder chegar até o fim antes que Conner me destruísse completamente.