O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 51 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 50

 

 

O plano de Conner era que Cregan nos levaria a ambos diretamente ao castelo, a tempo para o anúncio. Eu insisti para que Tobias, Roden e Imogen fossem conosco, mas Conner proibiu expressamente. Então me despedi de Imogen com um aceno de cabeça e apertei a mão de Roden.

– Ainda há tempo de voltar atrás – disse-me ele, com um forte aperto

de mão. – Você nunca quis isso.

– Não, eu nunca quis – nisso nós estávamos de acordo –, mas esse é o

meu futuro, não o seu.

Uma expressão de raiva passou como um raio pelo rosto de Roden, mas

ele saiu de perto enquanto eu apertava a mão de Tobias.

– Acho que era mesmo seu destino ser o rei – disse ele, sorrindo. – As

estrelas estão brilhando para você esta noite.

Ele deve ter sentido o bilhete que coloquei na palma de sua mão

enquanto trocávamos o cumprimento, e o escondeu bem quando nos separamos.

A viagem até o castelo foi muito silenciosa. No começo, Conner havia

tentado me sabatinar com detalhes de última hora. Garanti a ele que já sabia tudo e lhe pedi que me deixasse aproveitar o silêncio.

Observei o castelo se erguer no horizonte enquanto nos

aproximávamos. Eu não estivera ali por quatro anos e, quando parti, não esperei voltar a vê-lo. Era um dos castelos mais novos na região e, por isso mesmo, havia sido inspirado na arquitetura de outros países. Era construído com os enormes blocos de granito das montanhas de Mendenwal e sustentava as torres redondas e pesadamente decoradas de Bymar, em vez das comuns e quadradas de outros lugares. Assim como na arquitetura de Gelyn, o centro do castelo era alto e em vários níveis, e as alas, longas e quadradas. E, como era comum em Carthya, pequenos parapeitos se estendiam abaixo das janelas. Para o povo de Carthya, era o centro do governo, um símbolo do poder do rei e o sinal da prosperidade de que sempre havíamos desfrutado. Para mim, era meu lar.

No entanto, rapidamente ficou claro que não éramos os únicos que tentavam entrar pelos portões. Uma dúzia de carruagens estava enfileirada diante de nós, e um dos guardas do castelo abordava pelo menos um dos passageiros de cada uma. Ele deixava passar algumas, mas a maioria era mandada embora.

Conner pôs a cabeça para fora da porta e fez sinal para uma das carruagens, cuja entrada havia sido recusada.

– O que está havendo? – perguntou ao ocupante.

– Não sei com certeza. Mas não importa o que eu diga ao guarda, ele continua nos mandando embora. O senhor consegue conceber um comportamento tão rude? Acontece que tenho aqui comigo o filho de Carthya há muito perdido, o príncipe Jaron!

Comecei a me inclinar para dar uma olhada nele, mas Conner me empurrou de volta para o assento.

– Todas essas carruagens estão com o príncipe desaparecido? – ele perguntou.

– Temo que haja várias fraudes, sim. Muitas carruagens trazem nobres para saudar quem quer que seja nomeado rei, e eles estão conseguindo passar. Mas meu garoto, hummm, o príncipe, está comigo, então eles fizeram uma má escolha.

– Vamos esperar que o garoto certo seja coroado esta noite – disse Conner, e então lhe desejou boa sorte, enquanto nossa carruagem seguia em frente. Quando ficamos sozinhos outra vez, ele acrescentou:

– O garoto dele não se parecia nada com o príncipe Jaron. Os guardas devem estar filtrando as fraudes no portão, deixando apenas os candidatos mais prováveis entrarem. Não se preocupe, Sage, sua semelhança bastará para que nos deixem passar.

Eu não estava preocupado.

Mas, quando chegamos ao portão, Conner descobriu a verdade sobre a triagem.

O guarda olhou para mim e arqueou uma sobrancelha. Pelo menos ele

estava impressionado.

– Quem é esse? – perguntou a Conner.

– Príncipe Jaron de Carthya, como você pode muito bem ver. Ele deve

ser apresentado à corte antes que um novo rei seja nomeado.

– Eu vi muitos príncipes Jaron hoje – disse o guarda. – O senhor tem

mais alguma coisa a dizer?

Essa era a deixa para uma senha. Era uma velha tradição entre a família

real ter uma senha, para o caso de algum impostor tentar entrar no castelo ou se tivéssemos de entrar disfarçados. Os guardas dos portões eram os únicos além de nós que sabiam qual era a senha ou até sobre a existência dela. Se Conner soubesse, teria perguntado se a rainha planejava usar verde para o jantar nesta noite, porque era a única cor que ele havia trazido para combinar com o seu vestido. Pelo menos esse era o código quatro anos antes.

Tudo que Conner pôde fazer foi balançar a cabeça. – Lamento – disse o guarda –, mas o senhor não pode entrar no castelo

esta noite.

– Mas sou Bevin Conner. Um dos vinte regentes. – Nesse caso, o senhor pode entrar – o guarda olhou feio para mim –,

mas o garoto que o acompanha, não.

– Ele é o príncipe Jaron.

– Todos eles são.

Conner gritou para Cregan dar a volta em nossa carruagem. – Tolos! – sibilou ele, batendo na porta da carruagem com o chapéu. –

Será que fomos derrotados assim, tão facilmente?

Eu me recostei no assento.

– Há uma entrada secreta para o castelo.

Conner parou de bater.

– O quê? Como você sabe?

– Eu já a usei.

– Você já esteve dentro do castelo? Por que não me contou? – Você nunca perguntou. Há um rio que passa por baixo da cozinha.

Enquanto a comida é preparada, o lixo é jogado na água e a corrente o leva embora. O rio é fechado com portões, mas há uma chave para que eles possam ser limpos de obstruções maiores.

– E você tem essa chave?

Tirei um grampo do bolso da casaca. Imogen não percebera que eu o havia tirado de seu cabelo na noite anterior.

– Posso abrir a fechadura com isso.

Conner sorriu, impressionado com o que pensava ser minha engenhosidade. Na verdade, eu havia desconfiado o tempo todo de que isso pudesse acontecer e, por essa razão, trouxera o grampo.

A expressão de Conner desabou quando ele pensou um pouco mais na minha sugestão.

– Nós vamos ficar imundos se entrarmos por ali. E então não poderemos ficar na sala do trono.

– Aquele guarda disse que você pode entrar pelo portão. E eu posso entrar pela cozinha.

Ele balançou a cabeça.

– De forma alguma. Devemos ficar juntos.

O que, infelizmente, também suspeitei que ele diria.

Então dei de ombros e retruquei:

– Nós podemos ficar na estrada. Há uma trilha de terra ao lado do rio, larga o bastante para que possamos caminhar por ela em fila indiana. Por lá chegaremos até a porta da cozinha. Ela nunca fica vigiada, mas vamos precisar de ajuda para imobilizar os ajudantes da cozinha enquanto eu e você entramos no castelo.

– Mott, Tobias e Roden. – Os olhos de Conner se estreitaram, desconfiados. – Você sabia que isso iria acontecer? Foi por isso que você...

– Eu os trouxe para que você não os matasse. Tenho mais uma condição. Não quero Cregan conosco. Ordene que ele fique para trás.

– Mas, se ele puder ajudar...

– Não quero que ele venha.

– Está bem – disse Conner. Ele pensou um pouco, e então perguntou: – Como você sabe de tudo isso?

– Eu pegava muita comida naquela cozinha quando era mais novo.

Conner não entendeu o sentido exato da minha resposta e disse:

– Pela primeira vez, Sage, estou feliz por ter escolhido um órfão ladrão

para ser meu príncipe.