O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 31 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 30

 

Ao longo do dia, ficou claro que eu me alimentaria melhor durante aquele período sendo castigado por Mott do que em todo o tempo que se passara desde a minha chegada a Farthenwood.

Tobias me deu mais da metade de seu café da manhã, e Errol deixou um pouco de comida no meu quarto enquanto o limpava, dizendo com uma expressão de falsa surpresa, depois que eu comera, que “era para outra pessoa”.

Deveríamos permanecer no quarto, porque a princesa Amarinda era hóspede na Casa Conner e não deveria nos ver, mas, depois que nos trouxeram o almoço, Tobias me deu toda a sua porção, e Roden, a metade da que lhe cabia.

– Você não me deve nada – eu disse a Roden.

– Ainda não, mas, se Conner escolher mesmo você, espero que me faça a mesma promessa que fez a Tobias, de salvar a minha vida.

– E você vai me fazer a mesma promessa?

Roden deu de ombros.

– Não posso forçar Conner a fazer o que eu quero. Nem mesmo se eu for o rei.

Dei um tapinha no ombro dele.

– Então, pela minha vida, vou ter que continuar esperando que seja eu o escolhido.

Perto de nós, Tobias levantou-se, bateu à porta e chamou seu servo. Quando ele chegou, o garoto disse que precisava usar o banheiro, o único motivo pelo qual tínhamos permissão de sair. Até mesmo nossas aulas seriam dadas no quarto naquele dia.

– Você acha que Tobias está tão furioso a ponto de tentar matá-lo de novo? – Roden perguntou, depois que Tobias saiu.

– Ele não estava tentando me matar ontem à noite. Só queria que eu

pensasse que ele poderia.

– Para mim, é a mesma coisa. Embora eu ache que, no fim das contas,

você tenha se dado melhor. Ah – os olhos de Roden se arregalaram –, então você planejou aquilo?

– Tobias estava ficando desesperado. Quando ele pegou a faca,

enquanto estávamos na cozinha, eu sabia que algo aconteceria muito em breve.

– E por que você simplesmente não contou a todos que ele tinha uma

faca?

– Haveria perdão para isso. Mas Conner não perdoaria o que ele fez

ontem à noite, e Tobias sabe disso, então teve que concordar com os meus termos.

Roden sacudiu a cabeça lentamente.

– Você deixou que ele o cortasse.

Um sorriso se espalhou pelo meu rosto.

– Bem, eu deixei que ele fizesse o primeiro corte. Pensei que aquilo o

assustaria e o faria parar. E eu gostaria que ele tivesse parado, porque está doendo muito.

Roden riu e sacudiu a cabeça, incrédulo.

– Você é a pessoa mais louca que eu já conheci. Tobias pode ser mais

educado que você, mas você é o mais inteligente de nós três. – Dei risada, mas Roden ficou sério e completou: – A disputa está mesmo entre mim e você, Sage. E eu ainda preciso tentar vencer, você sabe disso.

– É muito cruel esse nosso jogo. Entre nós dois, você é o favorito de

Conner agora.

Ele assentiu.

– Você pode me provocar quanto quiser. Eu não vou tentar matá-lo. – Mas poderia – continuei. – Já vi você e Cregan lutando com espadas. – Cregan espera que Conner me escolha e quer que eu esteja pronto

quando isso acontecer. – A voz de Roden subiu de tom. – O que há de errado nisso?

– Nada. Só estou feliz de saber que você está treinando para agradar a Conner, e que isso não tem nada a ver comigo. Já não tenho mais onde ser ferido.

– Não vejo graça nenhuma. Acho que você deve gostar de sentir dor, porque está sempre provocando as pessoas até elas o machucarem.

– Definitivamente não gosto de sentir dor – declarei com firmeza. – Portanto, se quiser me matar, seja rápido.

Roden deu uma risada forçada, e terminamos de almoçar sem muita conversa. Quando Tobias voltou, alguns minutos depois, o professor Graves já tinha chegado e começara uma aula particularmente entediante sobre os grandes livros e as artes plásticas de Carthya. Tobias ficou deitado na cama durante toda a aula, fazendo o professor Graves comentar que nunca pensara que veria um aluno mais preguiçoso do que eu. Eu me senti um pouco mal por Tobias, vendo-o fingir ser menos do que realmente era. Mas, infelizmente, era essa a nossa situação agora.

Errol e os outros dois serviçais vieram no meio da tarde, a fim de nos preparar para a encenação de servirmos a princesa Amarinda naquela noite.

– Por que tão cedo? – perguntou Roden.

– Vocês podem ter sido órfãos limpinhos esta semana – disse-lhe o servo –, mas ainda são órfãos. Vão precisar de muito mais antes de serem dignos da princesa prometida.

– Você a viu? – perguntei.

Se ele a encontrara, não admitiu. Mas, enquanto apanhava as minhas roupas, Errol sussurrou para mim:

– Eu a vi. Ela é linda, como toda princesa deve ser. Você tem sorte de poder servi-la esta noite.

Eu estava cansado demais para me sentir com sorte ou para me importar com a aparência da princesa. Disse a Errol que ele poderia me substituir naquela noite, e ele concordou, se eu lavasse as roupas em seu lugar. Esse foi o fim da nossa barganha.

Fazer de nós servos dignos incluiu aparar as pontas dos cabelos, para podermos prendê-los direito, lixar as unhas e ter uma aula sobre a importância de manter as costas eretas para servir os convidados.

Infelizmente, e apesar de todos os esforços de Errol, as mechas mais curtas dos meus cabelos não paravam no lugar e caíam no meu rosto. Por fim, ele desistiu e me disse para afastá-las para trás sempre que chegasse perto da princesa. Ambos sabíamos que eu provavelmente não faria aquilo.

Quando terminamos, eles nos levaram para a frente do espelho. As

camisas brancas que usávamos haviam sido cortadas no alto das mangas, para evitar que tocassem a comida enquanto servíamos. Os coletes sobre elas eram simples, cor de terra e amarrados na frente, e as botas eram baixas, de segunda mão.

Sufoquei uma risada.

– Tudo aqui gira em torno das roupas. Não sabemos nada sobre o

trabalho dos servos, mas eles certamente nos vestiram bem para desempenhar o papel.

– Este é o meu papel – murmurou Tobias, a meu lado. – Agora. – Eu gosto das roupas – disse Roden, virando-se para tentar ver como se

parecia de costas. – É mais fácil nos movimentarmos com elas do que com as roupas que Conner nos fez usar a semana inteira.

Mott entrou no quarto e examinou cada um de nós. Perguntei-me se

ele havia polido a cabeça careca, pois ela parecia mais brilhante que de costume, e usava roupas quase tão elegantes quanto as de Conner. Naquela noite, ele era mais do que um servo, embora ainda não fosse digno de se sentar à mesa. Com um tom de voz muito sério, ele disse:

– Desde que nenhum de vocês faça algo estúpido, acho que esta noite

será um sucesso. Mas há algumas coisas das quais vocês devem se lembrar. Nunca dirijam a palavra a alguém, e nunca olhem ninguém nos olhos, a não ser que eles estejam falando diretamente com vocês. Sigam as minhas instruções, e nunca tomem nenhuma iniciativa com a princesa, a menos que eu ordene que façam isso.

Olhando diretamente para mim, Mott completou: – Vocês três devem se lembrar de que estão disfarçados. A pior coisa que

pode acontecer é a princesa se lembrar de tê-los visto aqui, esta noite, depois que vocês forem apresentados à corte. Esse ferimento ainda está muito visível em seu rosto, Sage.

– Mas vai sarar antes de eu ser apresentado à corte – afirmei. – Além

disso, Imogen nos serviu uma vez com um hematoma no rosto, então isso só pode me ajudar a me misturar melhor aos outros servos.

Mott não mordeu a isca.

– E como estão os machucados nas costas, mais especificamente aquele causado pela... janela?

– Se eu tivesse comido melhor hoje, talvez estivesse sarando mais rápido.

Ele sorriu e olhou para Errol, esperando uma resposta.

– Não há sinais de infecção, senhor – relatou Errol.

– Isso é bom – disse Mott. – Porque imagino que uma janela suja poderia causar uma séria infecção. Mas ouvi falar que uma faca havia desaparecido da cozinha ontem, uma das lâminas mais afiadas do cozinheiro-chefe. Elas estão sempre muito limpas.

– Só estava faltando uma faca? – Tobias olhou para mim, desviando rapidamente os olhos quando inclinei a cabeça em resposta à pergunta silenciosa. Ele resmungou algo por entre os dentes, certamente alguma praga dirigida a mim. Aquilo não era um problema. Os demônios estavam acostumados a ouvir pragas com o meu nome nelas.

– Sim – disse Mott, aproximando-se e parando bem na frente de Tobias. – Com uma lâmina longa como o ferimento de Sage. Você sabe de alguma coisa a respeito disso?

Tobias deu um passo para trás e olhou ao redor como se procurasse uma resposta, mas fui eu quem falou.

– Nenhum de nós tem como saber onde o cozinheiro-chefe perdeu essa faca. E, felizmente, não tenho a intenção de tentar passar por aquela janela outra vez. Portanto, não vai haver mais ferimentos daqui para a frente.

Mott deu uma risada irônica, deixando bem claro que não acreditava em mim, mas tudo o que ele disse foi:

– Entrem na fila atrás dos seus servos, rapazes. O jantar estará pronto mais cedo do que imaginam.