O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 24 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 23

 

 

Mott e Cregan ainda vieram me espiar mais duas vezes naquele dia. Na primeira vez, Cregan trouxe uma tigela de sopa quente. Ele disse que sabia que eu não tinha comido muito durante o dia e que devia estar faminto. Tudo o que eu tinha que fazer era lhes dizer onde a pedra estava escondida, e eles me deixariam sair dali.

Disse-lhe que a sopa cheirava mal e que eu preferia lamber o chão do

calabouço. Cregan respondeu que isso poderia ser arranjado. Então, recostou-se na parede e tomou a sopa. Quando ficou satisfeito, jogou o resto em mim e riu.

– Pedi a mestre Conner que me deixasse matar você logo para acabar

com essa história de uma vez por todas – disse ele.

– Se você for capaz de fazer isso rápido, então vá em frente. Eu estava falando sério.

Cregan chegou tão perto de mim que eu podia sentir o cheiro de cebola

da sopa em seu hálito.

– Ah, não. Eu não faria isso rápido. Eu gastaria um bom tempo com

você, Sage. Mas acho que terei que ser paciente porque, infelizmente, o mestre quer mantê-lo por aqui mais algum tempo.

– Saia daqui, então.

Ele pareceu divertir-se com minha tentativa de mandá-lo fazer algo e

resolveu que era ele quem daria as ordens.

– Onde está a pedra?

Virei o rosto e isso foi recompensado com um soco no estômago. – Eu posso fazer o que quiser com você, rapaz – disse ele. – É só não

deixar cicatrizes.

– Continue – balbuciei, quando recobrei o fôlego. – Quando eu for rei, isso diminuirá minha culpa por executá-lo.

Cregan me encarou, fez algumas ameaças sobre o que faria comigo da próxima vez que viesse ao calabouço e subiu as escadas resmungando.

Algumas horas depois, Mott veio com uma pedra que disse ser tão brilhante como a que eu tinha antes. Mencionou que era um pouco maior que a outra e parecia mais valiosa. Disse que eu poderia ficar com ela. Tudo o que eu precisava fazer era devolver a outra para Conner.

– Essa é uma imitação de ouro – falei, irritado com a tentativa dele de me tratar com condescendência. – A minha é de verdade.

– A sua é apenas uma pedra sem valor, Sage – disse Mott. – Até eu sei, só de olhar para ela.

– E por que Conner a quer, então?

– Por que você a quer, garoto? – disse Mott. – Nenhum de vocês se importaria com algo tão insignificante largado por aí. Conner a quer porque você a quer, e você a quer para desafiá-lo. Se você pensa que esse embate prova alguma coisa, está errado, garoto.

– Diga a Conner que ele precisa de mim para ser o príncipe – falei. – Nem Roden nem Tobias serão capazes de convencer os regentes. Mas eu posso, e ele sabe.

– Direi isso a ele. Mas acho que Conner seria um tolo se fizesse você se passar pelo príncipe. Na primeira chance que aparecesse, depois que aquela coroa estivesse sobre sua cabeça, você armaria uma tremenda vingança contra ele.

– Apenas lhe diga. Diga-lhe que serei o príncipe.

Na próxima vez que ouvi passos nos degraus, esperei por Mott ou Cregan. Mas os passos pareciam mais leves. O calabouço estava imerso na escuridão, e, quando o brilho de uma vela apareceu no canto, a luz, ainda que fraca, machucou meus olhos.

Fiz uma careta e minha voz seca estava rouca quando perguntei:

– Quem está aí?

Não houve resposta. A porta para o calabouço se abriu, e então reconheci Imogen. Ela estava com um dedo nos lábios para indicar que eu deveria me calar e parar de fazer perguntas. Imogen retirou um frasco de dentro da blusa, levou-o até a minha boca e deixou-me beber da água fresca até que eu balançasse a cabeça em sinal de que estava satisfeito. Ela também estava escondendo na blusa um bolinho quente, e me ajudou a comê-lo. Então limpou minha boca com os dedos, para que não restasse nenhum sinal de que eu havia comido ou bebido.

– Obrigado – agradeci.

Depois de uma breve hesitação, ela sussurrou: – Você parece péssimo.

Meus olhos se arregalaram.

– Você pode falar?

A voz dela era um sussurro macio.

– Você deve guardar dois segredos meus. Que posso falar e que estive

aqui esta noite.

– Por que você veio?

– Já faz mais de um dia que o trouxeram para cá. Não sei por mais

quanto tempo Conner vai mantê-lo preso. Você não pode dar ao mestre Conner o que ele quer?

Balancei a cabeça.

– Ele quer ser meu dono. Se eu ceder, não me restará mais nada. Ela me ofereceu mais água, que aceitei agradecido. – Queria ter trazido mais alguma coisa para você comer – disse ela –, mas

fiquei com medo que o pessoal da cozinha notasse.

Fechei os olhos para descansá-los por um momento, depois olhei para

ela de novo e perguntei:

– O machucado que vi na outra noite foi por minha culpa? – Eu já tinha problemas antes de você chegar, e eles vão continuar

depois que você se for. Além disso, agora você deve se preocupar mais com você do que comigo.

– Quem a machuca, Imogen?

– Você sabe quanto essa pergunta é ridícula vinda de alguém em sua

posição? – O sorriso corajoso que ela se obrigou a dar logo morreu em seus lábios. – Eu estou bem. Alguns dias são mais difíceis do que outros, isso é tudo. E é mais fácil quando eles me escolhem, porque sabem que eu nunca vou falar.

– Por que você finge ser muda?

Ela baixou os olhos, depois me olhou de volta.

– Isso desvia a atenção de Conner. É melhor assim, acredite.

Ficamos em silêncio por um momento, depois Imogen inclinou o frasco.

– Acabou. Depois eu lhe trago mais, se conseguir escapar.

– Não corra nenhum risco por mim. Ele vai me soltar em breve. Ele tem que me soltar.

Imogen saiu do calabouço, deixando a porta como estava antes. Olhando através das grades, disse:

– Não desista, Sage, e não ceda, por favor. Muitos de nós estamos observando você, e precisamos ver que é possível vencer.

E desapareceu tão rápida e silenciosamente como veio. Com um pouco de comida no estômago, eu até era capaz de relaxar. E, pela primeira vez na vida, entendi como se dorme em pé.