O Falso Príncipe
Capítulo 46
Não era um quarto grande, mas era limpo e agradável, e seria suficiente para nós três por uma noite. Duas camas pequenas ficavam ao longo de uma parede. Eu ajudei Conner a empurrar a cama de Imogen contra a parede oposta, e então rapidamente me ofereci para dormir no chão.
– Eu ainda sou um órfão, e você ainda é um nobre – eu disse a Conner.
– Fique com a outra cama.
– É claro que vou ficar. E dobre essa língua antes de dizer que eu ainda
sou um nobre. Sempre serei um nobre, se você espera continuar sendo um príncipe.
– Engano meu – retruquei, tentando fazer a expressão de humildade
que ele esperava ver.
Imogen e eu tiramos um lençol da cama dela e o prendemos no teto.
Não era a solução perfeita para sua privacidade, mas era a melhor que qualquer um de nós dois poderia esperar. Ela tirou um dos cobertores da cama para que eu o usasse para dormir no chão. Eu me coloquei bem no meio do quarto, entre a cama dela e a de Conner.
Ele percebeu.
– Você acha que eu tentaria qualquer gracinha com essa garota
repulsiva? Eu conheci a mãe dela, uma inútil também. Imogen está segura comigo, garoto. É com você que ela deveria se preocupar.
Deixei o comentário sem resposta. Sem dúvida, ela estava preocupada
comigo, mas por razões inteiramente diferentes.
Era tarde da noite quando a ouvi sair da cama. O ronco de Conner era
feroz, então não foi surpresa que ele não a tivesse ouvido e, com isso, despertado. Ela saiu detrás do lençol pendurado e tocou meu ombro. Eu me sentei e ela pôs um dedo sobre os lábios, então gesticulou para que eu a seguisse.
Arrumei o cobertor de modo que, na escuridão, parecesse ter alguém dormindo ali, se Conner acordasse. Mas eu havia aprendido, depois de estar em sua presença durante a noite mais de uma vez, que ele nunca acordava.
Quando ficamos do outro lado do lençol, Imogen apontou para a janela.
– Você está com calor? – perguntei.
– Você pode me levar lá fora? – sussurrou ela. – É seguro?
Abri um pouco a janela, examinei a parede à luz do luar e assenti. No típico estilo de arquitetura cartiano, havia um parapeito logo abaixo da janela. Eu a pulei primeiro, depois a ajudei a pular também.
A noite estava fresca, e soprava uma brisa um pouco mais forte. Imogen não parecia me odiar tanto naquele momento. Aquela provavelmente seria nossa última chance de conversar em particular. Sentamo-nos no parapeito e recostamo-nos na parede da hospedaria, balançando as pernas.
– Você sempre fica pendurada na janela à noite? – perguntei.
– Você é quem fica. Vi você uma vez, escalando as paredes de Farthenwood. – Ela deu de ombros e disse: – Acho que você não percebeu que eu o observava.
Realmente eu não a vira. O que era incrível, porque eu sempre procurava cuidadosamente para ver se alguém estava me olhando do chão.
– Eu não conseguia dormir – acrescentou ela –, não parava de pensar na viagem até aqui. Roden está com muita raiva de você.
– É mesmo? Com tanta alegria naquela carruagem, eu mal reparei.
Ela ignorou o comentário.
– Ele não entende por que você o trouxe? O que teria acontecido se você o tivesse deixado para trás?
Fiquei em silêncio. Não era novidade nenhuma ter alguém zangado comigo, mas a raiva de Roden me incomodava, e eu não conseguia entender bem por quê.
– Lá em Farthenwood, eu disse coisas horríveis a você – continuou Imogen. – Não sei por que fiz isso.
– Talvez eu tenha merecido.
– Não, não mereceu. Culpei você porque tive medo de vir para cá, de
deixar a segurança de Farthenwood. Mas, agora que saí de lá, não posso me imaginar voltando. Qualquer coisa é melhor que Farthenwood – ela baixou os olhos. – Lamento. Eu deveria ter confiado em você.
Eu não merecia confiança, e, no entanto, ela pedia o meu perdão? Será
que ela conseguia me enxergar na escuridão e ver como suas palavras se cravavam no meu coração? Ou eu não tinha um coração, uma alma? Conner dissera que nós deveríamos nos preparar para sacrificar nossa própria alma a fim de levar o príncipe Jaron até o trono. Eu havia feito exatamente isso, apesar de não ter sido do jeito que Conner pensava.
– Você está nervoso com o que vai acontecer amanhã, Sage? – Estou.
Mesmo com a verdade do meu lado, muita coisa podia dar errado. – Não fique. Você se parece tanto com ele naquela pintura que estou
certa de que todos vão aceitá-lo. Eu o observei enquanto viajávamos. Se não tomar cuidado, eu mesma posso começar a chamá-lo de Jaron.
– Você faria isso?
Por motivos que eu não sabia explicar nem para mim mesmo, eu sentia
falta de ser chamado pelo meu próprio nome. Estava cansado de Sage. Ultimamente, havia muitas coisas nele das quais eu não gostava.
Ela hesitou por um instante, antes de sorrir. – E agora? Como devo chamá-lo, de Jaron, de príncipe, de Vossa
Majestade ou o quê?
Balancei a cabeça.
– Todos esses nomes soam muito mal para mim. Mas, depois de
amanhã, não vai haver mais Sage. Apenas Jaron.
Seu sorriso sumiu. Eu podia ver a curvatura de seus lábios à luz do céu
da meia-noite.
– Eu não irei conhecer Jaron. E não queria ter que dar adeus a Sage
ainda.
Não havia nada que eu pudesse responder. Uma mecha de cabelo dela
se agitou na brisa noturna. Eu a peguei e a prendi atrás da orelha. Ela sorriu, então pegou um grampo e prendeu a mecha novamente, sempre mantendo arrumada a trança de serviçal. Eu me perguntei se ela poderia um dia aprender a se ver como algo além de uma serva, algo bem mais importante.
– Acho que devíamos entrar – disse Imogen, endireitando-se. – Não posso imaginar o que aconteceria se Conner nos visse aqui fora.
– Não estamos fazendo nada de errado – eu disse. – Além do mais, não tenho medo dele.
– Mas eu tenho. Você me ajuda a entrar?
Fiquei de pé e, quando me senti seguro, a ajudei a se levantar. Mas, em vez de se virar para entrar pela janela, ela me encarou e disse:
– Lá em Farthenwood, você me disse que havia mais coisas acontecendo do que eu poderia entender. O que você quis dizer com aquilo?
Comprimi os lábios e então respondi:
– Eu quis dizer que há uma grande diferença entre agir como um príncipe e ser um príncipe. Se você me vir depois que eu for coroado, vai tentar falar comigo como Jaron? Você pode fazer isso?
Ela se agachou pela janela e não respondeu. Antes de voltar ao quarto, parou por um instante e disse:
– Amanhã você vai se tornar um rei, a pessoa mais poderosa desta terra. Mas eu ainda serei Imogen, uma serviçal. Depois de amanhã, não será mais apropriado que eu fale com você.
Antes que eu pudesse responder, ela desapareceu do outro lado. Quando pulei de volta e fechei a janela, ela já estava deitada na cama. Sua mensagem era bem clara. Eu era um príncipe agora, e ela voltara a ser Imogen, a muda.