O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 10 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 9

 

Pareceu se passar uma hora antes que Conner continuasse a falar. Quando finalmente o fez, foi em voz baixa, como se esperasse que os serviçais estivessem com a orelha colada às portas da sala.

– Alguns de vocês podem acreditar que já adivinharam meu plano –

começou ele –, mas eu lhes garanto que não se trata de traição. Na verdade, de uma forma tortuosa, meu plano pode evitar que ocorra uma traição na corte do rei Eckbert. Carthya está à beira de uma guerra civil, e bem poucos cidadãos sabem disso. Uma grande mudança está para acontecer.

– E o que será? – perguntou Tobias. Todos nós tínhamos a mesma

curiosidade, mas o olhar de Conner refletiu sua irritação por ter sido interrompido.

– Vou chegar lá em um instante – disse ele. – Vocês se lembram do que

lhes contei sobre Veldergrath? Ele vem planejando esse dia há muito tempo, e agora mesmo já começou a reunir os que são leais a ele, para poder forçar o resto de nós a coroá-lo. Mas outros regentes também aspiram à coroa. Eles estão silenciosamente reunindo seus aliados. Em duas semanas, a guerra vai eclodir em Carthya. O conflito vai dividir o país em lealdades ou alianças, e pode jogar famílias umas contra as outras, amigos contra amigos, cidades contra cidades. Milhares de pessoas inevitavelmente morrerão nessa guerra. Avenia, seu país de origem, Sage, está aguardando atentamente, esperando pela oportunidade de atacar. Eles estão ávidos pelas nossas terras férteis e pelos minérios que nossas montanhas escondem. Quando Carthya estiver mais fraca e dividida, Avenia atacará e engolirá Carthya com a força de uma inundação. Avenia é um esgoto, para dizer pouco. Em uma geração, não seremos melhores que isso. – Ele inclinou a cabeça para meu lado. – Não finja estar horrorizado com minhas palavras, Sage. Você sabe que minha descrição de Avenia é verdadeira.

– É sim – concordei em voz baixa.

– Então você espera evitar a guerra civil – disse Tobias –, mas você mesmo disse que jamais poderia esperar tornar-se rei.

– Vocês se lembram de quando lhes perguntei, esta manhã, quantos herdeiros tem o rei Eckbert? – disse Conner. – Qual foi sua resposta, Sage?

– Dois. Mas, como Tobias bem corrigiu, eu estava errado. Somente o príncipe herdeiro Darius ainda vive. O filho mais novo de Eckbert se perdeu no mar.

– O filho mais novo se chamava Jaron. Desde que vim para a corte, já ouvi muitas histórias sobre ele, algumas das quais não poderiam ser verdade, já que o castelo ainda está de pé.

– Eu ouvi dizer que ele pôs fogo na sala do trono quando era pequeno – disse Tobias.

– E que ele desafiou o rei de Mendenwal para um duelo pela honra, aos 10 anos de idade – acrescentou Roden. – É claro que ele perdeu, mas não por muito, é o que dizem.

– Todos nós já ouvimos uma porção de histórias sobre os herdeiros da coroa – interrompi –, mas qual é a importância delas?

– Deixe-me terminar – disse Conner. – Quatro anos atrás, quando tinha quase 11 anos de idade, Jaron foi mandado para o norte, para Bymar, um país que sempre foi aliado de Carthya. Ele foi enviado para lá não só para ser educado no exterior, mas também, francamente, para parar de embaraçar o rei e a rainha. No entanto, no caminho para lá, seu navio foi atacado por piratas. Não houve sobreviventes. Pedaços da embarcação continuaram a dar na praia durante meses, mas o corpo de Jaron nunca foi encontrado.

– Eu ouvi algo sobre isso, uma vez – comentei. – Avenia foi acusada de ter contratado os piratas. Se o rei Eckbert tivesse a menor prova disso, teria partido para a guerra.

– Pelo menos você conhece bem seu próprio país – disse Conner. – Provavelmente foi mesmo Avenia quem armou o ataque pirata. Pirataria é bem o estilo deles. Há quem diga que os piratas têm mais poder por lá que o rei aveniano. Mas Eckbert não podia excluir a possibilidade de que Gelyn, outro país fronteiriço, os tivesse contratado. Ambos os países tinham acesso fácil às águas onde o navio de Jaron foi a pique.

– Meu pai acompanhou essa notícia atentamente – falei. – Ele não

queria ir para a guerra, não importava o que tivesse que sacrificar.

– Se ainda estivesse vivo, meu pai teria ficado honrado em lutar por

Carthya – disse Tobias. – Eu não sou filho de um covarde.

Teria sido bom defender a honra do meu pai com um soco na cara de

Tobias. Mas, apesar de meu pai não ser um covarde, ele teria evitado a qualquer custo ir para a guerra. Esse foi o motivo de uma das últimas brigas que nós dois tivemos.

– Três regentes foram a Isel, a cidade portuária de onde o navio do

príncipe Jaron zarpou. Eles procuram por qualquer prova de sua morte. Ou de sua vida.

– Sua vida? – Roden se inclinou para a frente na cadeira. – É possível que

Jaron esteja vivo?

– Bem, o corpo dele nunca foi encontrado, Roden. Mas, se o príncipe

Jaron estivesse vivo, seria o próximo na linha de sucessão. Nem Veldergrath nem qualquer outro nobre poderia reclamar o trono, e Carthya estaria a salvo da guerra civil. Sem guerra civil, não nos enfraqueceríamos e não daríamos oportunidade para Avenia nos atacar.

– Mas isso é irrelevante – disse Tobias. – Eckbert e Erin reinam agora. E,

no futuro, o príncipe herdeiro Darius ocupará o trono.

Conner se inclinou, aproximando-se de nós. – E este é o maior segredo da vida de vocês até agora: eles estão mortos,

todos os três, toda a família real. Os poucos de nós que sabemos a verdade espalhamos que a família real está em missão diplomática em Gelyn. Entretanto, seus corpos foram enterrados em segredo, em profundas covas sob o castelo.

Ficamos lá parados, chocados e horrorizados demais para conseguir

respirar. A notícia de que não apenas um, mas todos os três membros da família real estavam mortos, era insuportável. Meu estômago pareceu se agitar quando pensei nisso, mas abafei minhas emoções.

– Como eles morreram? – sussurrei.

– Assassinato. Acreditamos que foram envenenados durante a ceia. Eles nunca acordaram.

– Há suspeitos? – perguntou Roden.

Conner dispensou a pergunta com um aceno de mão.

– Não seja ingênuo. Eckbert tinha muitos inimigos, e, para ser franco, eu também não confiaria na maioria de seus amigos. Acredito que a morte de todos os três membros da família foi proposital, com o intuito de abrir caminho para que um nobre viesse a se tornar rei.

– Então foi Veldergrath? – perguntei.

– Muitos dos regentes suspeitam dele, mas não há provas – disse Conner. – Vamos ver quem se apresenta para ser o novo rei, e então formaremos um juízo.

– E o senhor espera encontrar o príncipe Jaron e evitar que os nobres lutem pelo trono – disse Tobias.

– Não exatamente – disse Conner. – O príncipe Jaron está morto há anos, e eu posso provar isso.

– Como? – perguntei.

Conner sorriu.

– Temo que, por enquanto, devo pedir que confiem em mim. É meu segredo, e somente meu. No entanto, uma vez que os regentes não sabem da minha certeza, a viagem deles a Isel servirá apenas para acabar com qualquer dúvida oficial antes que outro rei seja escolhido. E é aí que vocês entram. Porque, saibam, muitos cartianos têm alguma esperança de que Jaron esteja vivo. Ninguém o vê há quase quatro anos. Ele estaria com 14 anos agora, mais ou menos a mesma idade de vocês. Certamente, os três já notaram que têm certas semelhanças físicas. – Então ele fez uma pequena pausa, e seu sorriso se alargou. – E também têm a aparência semelhante àquela que o príncipe Jaron teria atualmente. Meu plano é simples, na verdade: pretendo convencer a corte de que um de vocês é o príncipe Jaron.