O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 53 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 52

 

A reunião dos regentes já estava adiantada quando Conner entrou na sala do trono, sem fôlego. Ele era o único que havia chegado atrasado, e sua entrada causou uma interrupção que irritou todos os presentes.

– Se já houve uma ocasião na qual o senhor deveria chegar na hora, lorde Conner, era esta, pode acreditar.

O homem que disse isso era Joth Kerwyn, alto camareiro do rei Eckbert. Ele fazia parte do castelo quase como os tijolos e a argamassa, tendo servido ao rei por toda a vida. Não era um homem gordo ou forte. Era bem o oposto, na verdade, e ainda assim conseguia comandar uma sala com mil pessoas com apenas um gesto. Não havia ninguém mais leal ao rei Eckbert, e poucos que amassem tanto a Carthya. As rugas em seu rosto envelhecido contavam a história dos anos de preocupações e o peso de aconselhar a realeza nas mais difíceis decisões. Agora ele estava enfrentando a maior tarefa de sua carreira: encontrar pacificamente um novo rei para Carthya. Porque, se a guerra civil começasse entre as diferentes facções que almejavam o trono, os inimigos de Carthya usariam a oportunidade para avançar sobre o país e destruí-lo.

Conner cumprimentou Kerwyn com a cabeça, educadamente.

– Meu lorde alto camareiro, enfrentei sérios problemas para chegar aqui. Por favor, perdoe-me.

Havia dezenove outros regentes na sala, sentados à longa mesa retangular de acordo com sua importância. O lugar de Conner era perto da ponta, mas ele esperava que até o fim da noite pudesse substituir Veldergrath na cabeceira. Aquele era um grupo vaidoso e basicamente inútil, e poucos ali já haviam trabalhado de verdade, ainda que por um único dia na vida. Mesmo que soubessem do risco e das despesas que Conner havia encarado para levar um príncipe ao trono, eles jamais dariam valor aos seus esforços. Conner havia aceitado que era seu papel salvar Carthya. Mas aquela coleção de esnobes de pescoço duro, envoltos em seda, jamais compreenderia aquilo.

– O senhor pode tomar seu assento – disse Kerwyn. – Eu já fiz o

anúncio formal, declarando oficialmente mortos o rei Eckbert, sua rainha e seu primogênito. Em alguns instantes, o sino vai soar o toque fúnebre, uma vez para cada membro da realeza.

Quase imediatamente após ele ter dito isso, o toque dos sinos ecoou

por todo o castelo. Seu som seria levado até a periferia da capital e avisaria o povo que um membro da família real havia morrido. Três batidas dos sinos fúnebres confirmariam que os boatos eram verdadeiros: a família real inteira estava morta.

Quando os sinos silenciaram, Kerwyn continuou: – Lordes Mead, Beckett e Hentower, que viajaram a Isel nesta última

semana, confirmaram que o príncipe Jaron deve ter morrido no ataque pirata de quatro anos atrás. Assim, encontramo-nos sem alternativa além de...

– Senhores, posso garantir, essa não é a história toda. – As palavras de

Conner eram vaidosas e tendiam a soar arrogantes. Aquele era um discurso que ele havia praticado tantas vezes na mente que poderia repeti-lo dormindo. – Posso tomar a palavra, lorde Kerwyn?

Kerwyn assentiu, e Conner ficou de pé.

– Com todo o respeito a meus colegas regentes que buscaram provas da

morte de Jaron nesta última semana, eles estão equivocados. O príncipe Jaron sobreviveu ao ataque pirata há quatro anos. Ele ainda vive e é o herdeiro legítimo do trono. Por isso, deve ser coroado como rei de Carthya esta noite.

Veldergrath ficou de pé, apontando um longo dedo para Conner. – Então eu estava certo! Você o tinha mesmo escondido em sua casa. – Somente para a proteção dele, lorde Veldergrath, até a chegada deste

momento. Certamente, o senhor pode entender como o fato de ele estar vivo poderia ameaçar as ambições de qualquer outra pessoa que esperasse tornar-se rei esta noite.

– Isso é uma acusação? – e Veldergrath começou a berrar obscenidades para Conner. Os dois regentes sentados a seu lado o seguraram, e outros em torno da mesa murmuraram alto entre si.

Finalmente, Kerwyn deu um passo à frente.

– Então onde está esse seu príncipe, lorde Conner?

– Está vindo. Como eu disse antes, tivemos problemas para chegar aqui.

– É claro que tiveram. Eu soube de vários outros príncipes Jaron com problemas para chegar aqui.

Conner elevou a voz um tom mais alto que as risadas de seus pares.

– Eles não deixaram ninguém passar pelo portão. Sem dúvida, o príncipe punirá os guardas por não o reconhecerem.

– Se ele fosse o príncipe, saberia como entrar. A realeza sempre sabe como passar pela guarda.

– Ele deve ter se esquecido – retrucou Conner, pálido, apoiando-se na mesa para recuperar o equilíbrio. – Mas o príncipe Jaron logo estará aqui. Então vocês verão.

Ouvindo passos no corredor, ele se virou para as portas da sala do trono, ansioso. Quase que no mesmo instante, alguém realmente entrou. Mas não era quem ele esperava ver.

– Mott? – disse Conner.

– Apenas regentes são permitidos nesta reunião – disse Veldergrath. – Você pode esperar com os outros convidados e nobres no grande salão. É lá que o novo rei saudará o povo.

Mas Mott parecia não ver ninguém além de Conner na sala.

– Ele ainda não está aqui, senhor? Ele passou pela cozinha há muito tempo.

– Talvez seu falso príncipe esteja perdido no castelo – disse outro regente, causando uma onda de risos na sala.

– Ele cresceu aqui. Claro que não está perdido – disse Conner, tentando parecer confiante, mas com um desespero muito aparente na voz.

– Proponho que continuemos esta reunião – declarou Veldergrath, esperando até que todos os olhares estivessem sobre ele, e então acrescentou: – Não devemos manter o povo esperando. Estou certo de que quem quer que seja escolhido como rei vai querer falar com lorde Conner sobre traição.

Então algo deve ter acontecido na sala ao lado, no grande salão onde

centenas de cidadãos haviam se juntado para esperar pelo anúncio do novo rei. O que havia sido um zumbido contínuo de conversas de repente caiu em completo silêncio.

Atrás de Mott, um servo do castelo irrompeu pelas portas. – Perdoem-me, regentes – disse ele, esquecendo-se da reverência

costumeira –, mas os senhores devem vir para o grande salão. O mais rápido possível.

Apesar de serem vinte homens e mulheres de grande prestígio, todos

eles muito bem-educados quanto ao decoro e às boas maneiras, ninguém diria isso, a julgar pela maneira como correram da sala do trono. O único que não abriu caminho à força para fora da sala foi Kerwyn, que deslizou por uma porta secreta entre a sala do trono e o grande salão. Ele foi o primeiro a ver o que havia feito toda a multidão do salão ficar em silêncio.

O príncipe Jaron estava ali, no outro extremo do salão.