O Falso Príncipe
Capítulo 42
Jaron Artolius Eckbert III de Carthya era o segundo filho de Eckbert e Erin, rei e rainha de Carthya. Todos os regentes concordavam que teria sido melhor se aquela criança tivesse nascido menina ao invés de menino. Uma filha poderia ser prometida em casamento ao reino de Gelyn, como meio de preservar a paz.
O jovem príncipe também não era um membro particularmente
interessante da família real. Era mais baixo que o irmão, tinha grande talento para causar problemas e parecia preferir usar a mão esquerda, uma característica condenável pela realeza de Carthya.
Na intimidade do lar, Erin adorava o filho mais novo. O mais velho,
Darius, já estava sendo preparado e treinado para ser o futuro rei. Ele pertencera à política desde o momento em que nascera e se encaixava bem no papel. Era decidido, controlado e distante, pelo menos de sua mãe. De Jaron, se esperava muito menos, e ele podia pertencer um pouco mais a ela.
Erin nunca se sentira confortável como rainha de Carthya. Seu papel
nos negócios de Estado a forçava a esconder seu verdadeiro espírito e seu amor pela aventura. Na verdade, seu romance secreto com o jovem Eckbert fora a maior aventura de sua juventude. Ela não havia parado para pensar nas consequências, até que já fosse tarde demais e estivesse apaixonada.
Erin fora garçonete em uma pequena taverna em Pyrth durante um
ano e trabalhava para pagar as dívidas que seu pai havia contraído depois de ficar seriamente doente no mar. Era um trabalho humilhante. Até então, sua família tivera uma posição social relativamente alta, e Erin sabia quanto eles haviam decaído. Mas suportou sem se queixar, e finalmente a taverna começou a prosperar sob seus cuidados.
Uma noite, quando Eckbert e sua comitiva atravessaram Pyrth durante uma viagem, ele a viu. Voltou na noite seguinte, disfarçado, encantado por sua beleza, seu charme e sua lealdade à família. Na terceira noite, Erin percebeu quem Eckbert realmente era. Ele implorou que ela guardasse segredo para poder continuar a vê-la.
Depois de uma semana, Eckbert pagou as dívidas do pai dela e deu ao dono da taverna uma soma generosa, com a ordem real de nunca revelar a ninguém a origem humilde de Erin. Em seguida, levou-a consigo para Drylliad e fez dela a sua rainha.
Eckbert e Erin eram felizes no casamento, mas, como rei e rainha, discordavam sobre o governo de Carthya. Erin via inimigos no rosto daqueles que Eckbert tentava agradar com leis de comércio favoráveis e ignorando violações claras de tratados. O filho mais velho, Darius, teria um dia que lidar com as consequências do medo de conflito de Eckbert. Jaron teria mais liberdade para seguir seus próprios interesses. E Erin o amava por isso.
Jaron ainda era muito pequeno quando ficou claro que puxara muito mais à mãe que ao pai. Quando ele incendiou a sala do trono, não foi por mal. O príncipe fizera uma aposta com um amigo, um pajem do castelo, o qual afirmara que tapeçarias não queimavam. Ele pretendia provar o contrário, queimando apenas um canto escondido da tapeçaria. Mais de trezentos anos de história bordada à mão viraram cinzas antes de os servos conseguirem apagar o fogo.
O povo também adorava a história do príncipe Jaron, aos 10 anos de idade, desafiando o rei de Mendenwal para um duelo. O que ninguém sabia é que Jaron ouvira o rei acusar a rainha Erin de não ter sangue real. Todos simplesmente riram com a visão de um menino de 10 anos enfrentando um rei quatro vezes mais velho do que ele. O rei de Mendenwal, bem-humorado, aceitou o desafio e sem dúvida se conteve durante o duelo. Embora o rei tivesse vencido facilmente, Jaron ficou satisfeito por tê-lo ferido, causando-lhe um corte feio na coxa. E começou a praticar com a espada com muito mais afinco a partir daquele dia.
À medida que Jaron crescia, Eckbert ficava cada vez mais zangado e envergonhado com as travessuras do filho. Em vez de se comportar como um membro modelo da realeza, como seu pai desejava, Jaron se rebelava mais e mais, fugindo pela janela do quarto durante a noite sempre que o clima permitia, e mesmo em ocasiões quando o mau tempo deveria tê-lo dissuadido. As alturas nunca o perturbaram, nem mesmo quando despencou de uma torre de mais de três metros, salvando-se ao se agarrar em um ornamento na cumeeira. Ele aprendeu a escalar as paredes externas, descalço e de mãos nuas. Pouca gente sabia disso, porque a única pessoa que já o apanhara fora seu irmão mais velho. Jaron nunca entendeu por que Darius acobertava suas muitas travessuras. Talvez fosse porque Darius soubesse que um dia seria rei e esperava que Jaron não o envergonhasse. Ou porque quisesse poupar seu pai dos boatos que se espalhariam por Carthya e no exterior, sobre como um rei que não conseguia controlar nem o próprio filho era capaz de controlar um país. Nunca ocorreu a Jaron que Darius o amava e o protegia, para que seu irmão caçula pudesse ter a vida que ele jamais teria.
Na verdade, Jaron jamais percebeu completamente que as pessoas de
sua família, além de sua mãe, de fato o amavam. Até ser tarde demais e estarem todos mortos.
Pouco depois de seu décimo primeiro aniversário, os pais de Jaron o
chamaram para um conselho familiar privado. Gelyn e Avenia estavam cercando as fronteiras de Carthya, ameaçando declarar guerra. Os regentes estavam em alvoroço, ameaçando depor Eckbert se ele não afastasse os inimigos. Jaron era uma distração para o país, e algo precisava ser feito. Eckbert encontrara uma escola no norte de Bymar que Jaron poderia frequentar. Lá ele teria uma excelente educação e aprenderia o decoro apropriado a um príncipe.
Jaron protestou, irritado. Ele jurou ao pai que, se fosse obrigado a ir
para Bymar, fugiria e jamais seria encontrado novamente. Eckbert retaliou, dizendo a Jaron que, se ele não fosse, aquilo poderia significar o fim de Carthya. Ele precisava provar para seu país e para os inimigos nas fronteiras que era um rei decidido, mandando o próprio filho para longe e acabando assim com a vergonha.
Erin implorou a Jaron que aceitasse a decisão de Eckbert. Que fizesse
aquilo por Carthya. Que fizesse aquilo por ela.
– Farei isso por você, mamãe – disse Jaron. – Eu a deixarei para o seu próprio bem. Mas você nunca mais vai me ver.
Ele não falava sério quando disse aquelas palavras. Estava zangado, e se sentiu muito mal quando a ameaça lhe escapou dos lábios. Mas também estava magoado, de uma forma que nem conseguia descrever. Os inimigos não estavam cercando as fronteiras de Carthya por causa dele. Eles estavam lá porque seu pai tinha ignorado o perigo por muito tempo. Talvez houvesse cartianos que rissem das travessuras do príncipe, mas ficariam ao lado de seu rei quando ele os chamasse.
Jaron partiu no dia seguinte, de forma muito discreta. Não houve jantar de despedida nem uma grande comitiva para acompanhar o príncipe até as docas, em Isel. Apenas alguns oficiais viajariam com ele a Avenia, cruzando o mar Eranbole até os portões de Bymar.
Jaron subiu a bordo do navio e imediatamente reclamou de enjoo, embora eles nem tivessem deixado o porto. Os oficiais ofereceram-lhe um calmante e aconselharam-no a ir para o quarto, no convés inferior, a fim de descansar.
Jaron nunca tomou o remédio. Mesmo sendo menor do que a maioria dos garotos de 10 anos, não foi fácil para ele escapulir pela minúscula janela do quarto, mas, depois que seus ombros passaram pelo vão, o resto foi simples. Sem saber que Jaron fugira, o navio partiu sem ele e foi atacado por piratas na tarde seguinte.
Quando a notícia do ataque chegou a Carthya, foi feita uma busca para tentar encontrar sobreviventes. Não havia nenhum. Todos haviam morrido, afogados ou lutando contra os piratas. Como o corpo de Jaron nunca foi encontrado, buscas foram organizadas em Avenia e em Carthya, na esperança de que ele tivesse sobrevivido. Mas, depois de pouco tempo, a maioria das pessoas começou a acreditar que ele se juntara às dezenas de outros corpos no fundo do mar.
São e salvo em terra, Jaron descobriu rapidamente que tinha habilidades que lhe permitiam se misturar aos avenianos. Ele era bom com sotaques e tinha estudado bastante sobre culturas estrangeiras para se comportar como um nativo. Roubava moedas ou fazia pequenos trabalhos sempre que os encontrava.
Ainda assim, passava fome na maioria dos dias e, durante a noite, escondia-se nas sombras, esperando passar despercebido pelos ladrões e criminosos das ruas.
Foi Darius quem encontrou Jaron. O garoto colocara uma moedinha na
bandeja de oferendas em uma igreja. O padre reconhecera o jovem príncipe e mandara avisar Darius, que estava procurando pelo irmão em uma cidade próxima. Para ganhar tempo, o padre dissera a Jaron bondosamente que tinha alguma comida sobrando e que, se o menino concordasse em lavar as escadarias da igreja, poderia passar a noite ali. Darius chegou na manhã seguinte, bem cedo e sozinho. Durante o café da manhã simples com o irmão, descreveu o sofrimento de seus pais, que se torturavam pela perda do filho.
Jaron irrompeu em lágrimas e disse que ficaria feliz em voltar, se seus
pais assim o permitissem. Darius lhe disse para ficar na igreja, até ele perguntar ao pai o que deveria ser feito.
Deixou Jaron em seu quarto, agradeceu ao padre por seus serviços e
informou-lhe que, infelizmente, aquele jovem não era o príncipe perdido de Carthya. Entretanto, expressou sua piedade pelo menino e pagou ao padre para continuar cuidando dele por mais uma semana.
Uma semana depois, Jaron finalmente começaria a entender seu papel
no futuro de Carthya.