O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 39 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 38

 

Imogen e eu permanecemos lá até as buscas terminarem e Veldergrath e sua comitiva partirem. O próprio Conner veio nos buscar nas passagens secretas. Ele encontrou Tobias e Roden primeiro, e em seguida eles desceram as escadarias para nos encontrar.

Conner me estendeu a mão; eu ainda estava sentado no chão,

entorpecido. Eu nunca havia matado ninguém, nem por acidente, nem para me defender, nem por qualquer outro motivo que as pessoas decidissem alegar naquela noite. Minha única intenção fora impedi-lo de machucar Imogen, sem alertar ninguém sobre a minha presença na casa. Aquilo, pelo menos, eu conseguira fazer. E estava pagando caro por isso.

Por mais que eu tentasse evitar a comparação, naquele momento eu me

via como Cregan, disparando uma flecha direto no peito de Latamer para proteger o maldito plano de Conner. Tudo o que eu conseguia sentir era dor, e mal tomei conhecimento de Conner quando ele veio me buscar.

Segurei sua mão, mas foi ele quem me puxou. Eu não tinha forças para

me levantar. Percebi que a imitação da espada do príncipe Jaron havia desaparecido. Mott devia tê-la levado, quando saiu para cuidar do ferimento. Conner nos acompanhou até o quarto, onde me sentei na cama. Roden se sentou ao meu lado, Tobias apanhou um banquinho e Imogen ficou em pé, longe de nós. Mott estava no quarto quando chegamos. Tinha o braço envolto em bandagens e o rosto sério. O chão já havia sido esfregado, para limpar o sangue.

Conner se dirigiu primeiro a Imogen.

– Devo assumir que você estava nas passagens porque esteve de algum

modo envolvida na morte daquele homem?

Imogen assentiu lentamente.

– A culpa foi minha – declarei. – Não tive a intenção de feri-lo mortalmente.

– Mas foi por um bom motivo – disse Mott. – Todos nós sabemos o que aconteceria se você não tivesse agido, não apenas com Imogen, mas com vocês, garotos, também.

Eu sabia, mas aquilo não me fazia sentir melhor.

– Em primeiro lugar, por que você saiu da passagem? – perguntou Conner. – Você poderia ter sido facilmente encontrado.

Imogen respirou fundo e abriu a boca. Ela iria falar para assumir a culpa, mas revelaria o único segredo que a protegera desde que chegara a Farthenwood.

Eu a interrompi, tirando os papéis de Tobias do bolso.

– Esses papéis foram deixados aqui, e, se tivessem sido descobertos, seriam provas contra nós.

Mott apanhou os papéis e os entregou a Conner. Ele os desdobrou, leu um pouco e então disse:

– Você escreveu isso, Tobias?

– Sim, senhor.

A voz dele tremeu um pouco quando ele falou, e me perguntei o que haveria naqueles papéis.

– Você é um excelente arquivista. Presta-se mais para ser o escrivão do rei do que o rei, presumo.

Tobias baixou os olhos.

– Sim, senhor.

Então Conner se voltou para mim, com uma expressão diferente de antes. Seria respeito? Gratidão? Era tão raro que alguém olhasse para mim de maneira favorável que não consegui reconhecer aquela expressão. Por fim, disse:

– Se esses papéis tivessem sido encontrados, nenhum de nós estaria aqui agora. Os homens de Veldergrath foram excepcionalmente cuidadosos, mas Mott foi capaz de encobrir a sua presença em um ato de extrema bravura. Veldergrath saiu daqui envergonhado e irritado ao ver que sua entediante busca não rendeu provas da presença de vocês ou da existência daquela caixa de esmeraldas.

– Mas ele estava certo – balbuciei. – Você está planejando uma falsa

ascensão ao trono e realmente roubou aquela caixa do rei Eckbert.

– Não peço desculpas por nada disso – disse Conner, com uma

expressão fria. – Você quer o trono, Sage? Quer que eu o escolha?

Eu não me importava com a resposta.

– Eu aceito o trono, se a alternativa for Veldergrath – afirmei, com a voz

soando tão cansada como eu me sentia.

– Não é a mesma coisa. Diga-me que você será um rei bom e nobre, que

deseja a mão da princesa prometida e que está feliz por eu ter feito isso por você. Minta, se for preciso, mas diga-me que é isso que você quer.

Olhei para ele com uma expressão vazia.

– Você não está cansado de mentiras? Eu estou. Conner suspirou, desgostoso.

– Eu escolheria você, Sage, se não fosse isso. Só há uma coisa da qual

você nunca deve se cansar, pelo resto da sua vida, e é de mentir. O garoto que eu escolher terá a mentira tão encravada no coração que acreditará verdadeiramente que é o rei e deixará de pensar em seu próprio nome, respondendo pelo nome de Jaron. Ele deve se convencer tão profundamente de suas mentiras que, se sua mãe aparecesse ao seu lado e o chamasse pelo nome, ele teria de lhe responder, sem derramar uma lágrima, que sente muito por sua perda, mas que é o filho de Eckbert e Erin. O garoto que eu escolher deve ter lembranças de uma educação real que nunca aconteceu. E deve fazer todas essas coisas, todos os dias, pelo resto de sua vida, nunca se arrependendo da mentira que o levou até ali.

Mal consegui ouvi-lo. A única coisa que conseguia era olhar para o chão,

para o lugar onde antes havia sangue. Imogen me olhou nos olhos e me ofereceu um sorriso de gratidão e simpatia. Pelo menos ela estava a salvo.

Conner se virou para Roden.

– Você pode mentir, Roden, pelo resto de sua vida? Ele se endireitou.

– Posso, senhor.

Conner fez um gesto para Imogen.

– Traga o jantar dos rapazes para o quarto. Vocês todos devem ter uma

boa noite de sono, porque amanhecerá logo. Roden, você é o meu príncipe. Você e eu partiremos para Drylliad depois do café da manhã.