O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 29 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 28

 

Estávamos fechados no quarto quando a princesa prometida chegou naquela noite. Roden sugeriu que eu escapulisse e lhes trouxesse um relatório sobre ela, o que eu estava totalmente disposto a fazer, mas Tobias disse que me delataria a Mott se eu saísse do quarto.

– Você não pode ter a vantagem de ver a princesa antes de nós – disse

ele. – Conhecendo-o, imagino que você a convenceria ainda hoje de que é o príncipe, sendo coroado no castelo antes mesmo que eu e Roden acordássemos pela manhã.

Dei uma risadinha irônica e respondi:

– Agora que você descobriu, tenho que pensar em um plano ainda mais

inteligente.

Zombar de Tobias era algo arriscado, e provavelmente injusto. Mas em

geral era muito difícil resistir. Apanhei um dos livros de sua escrivaninha e o levei para a minha cama, abrindo-o ao acaso.

– O que você está fazendo?

– A professora Havala disse que eu teria que estudar sozinho para

poder acompanhar as aulas. É isso que estou fazendo.

– Você não sabe ler.

– Eu disse que não sei ler bem. Mas prestei muita atenção na aula do

professor Graves esta manhã, e espero ler bem o suficiente para entender este livro.

Tobias cruzou os braços.

– Você nem ao menos sabe do que se trata. Sacudi a cabeça e virei uma página.

– Ajudaria se o livro tivesse mais figuras.

– É sobre história antiga cartiana. Se você vai estudar mesmo, é melhor escolher um assunto mais importante para convencer as pessoas de que é um príncipe.

– Ótimo. Dê-me um desses livros.

– Eles estão na biblioteca, e não temos permissão de sair do quarto.

Virei mais algumas páginas.

– Então, vou ter que me contentar em ler este aqui.

Roden riu e apanhou outro livro na mesa de Tobias.

– Eu também.

– Agora você também virou leitor? – A raiva era perceptível na voz de Tobias.

– Vai ser uma boa prática – disse Roden, sentando-se na cama com o livro.

O rosto de Tobias ficou vermelho.

– Vocês acham que isso vai convencer Conner de alguma coisa? Eu sou duas vezes mais esperto do que vocês dois juntos.

– E tem metade da minha força ou da força de Roden, mesmo quando estamos dormindo – respondi. – Você vai ter que se esforçar mais, Tobias.

– Isso é um desafio? – ele perguntou.

– Eu jamais desafiaria alguém inferior. Agora vá dormir. Você vai precisar descansar antes da humilhação que vai sofrer amanhã.

– Vá dormir você – retrucou ele. – Vai precisar de forças para escapulir mais tarde.

Eu ri e atirei o livro no chão, antes de me deitar. Mas não dormi. Eu não podia me dar esse luxo. Foi só muito mais tarde que finalmente decidi escapulir, dessa vez através das passagens secretas. Subir pelos muros externos de Farthenwood era uma má ideia, porque eu ainda estava me sentindo muito fraco, mas, desde que não houvesse mais ninguém nas passagens, aquele era um bom meio de explorar.

Eu estava, pouco a pouco, aprendendo os pontos de saída das passagens. Elas atravessavam toda Farthenwood, ou pelo menos todas as áreas que o arquiteto imaginara que uma pessoa quereria visitar em segredo. Uma das minhas saídas favoritas levava ao corredor próximo ao meu quarto. Era um ótimo meio de ver o que estava acontecendo do lado de fora, quando todos pensavam que estávamos trancados lá dentro. Deixei as passagens e fui para o corredor, usando aquela porta.

Como sempre naquela hora da noite, havia apenas uns poucos servos

andando pelos corredores, e, desde que eu tivesse o cuidado de permanecer nas sombras da casa de Conner, tinha acesso à maioria dos lugares para onde queria ir. Dessa vez, consegui ver quem estava guardando o nosso quarto todas as noites. Quase me engasguei com uma gargalhada quando o vi. Ele devia ser mais jovem do que nós três, e havia caído no sono. Usava uma espada na cintura, mas até mesmo o último furo do cinto ainda o deixava muito frouxo. Obviamente, Conner não considerava mais a possibilidade de que um de nós tentasse fugir.

O único quarto bem guardado não ficava muito longe do de Conner.

Os guardas na frente da porta eram desconhecidos para mim e estavam muito atentos. Aquele devia ser o quarto de hóspedes onde estava a princesa prometida, Amarinda.

Era impossível prosseguir sem me arriscar a atrair a atenção dos guardas,

então me escondi novamente nas passagens. Em algum lugar perto dali, havia uma porta que dava direto para o quarto de Amarinda, mas usá-la, por qualquer motivo, seria uma péssima ideia. Ocorreu-me que devia haver algum modo de espiar o quarto sem entrar nele. A curiosidade em ver Amarinda era muito grande.

Enquanto eu tateava as paredes, procurando uma forma de espiar o

quarto, senti uma mão em meu braço e a ponta de uma faca em minhas costas. Fora apenas uma questão de tempo antes de os outros descobrirem as passagens.

– É assim que devo provar a minha força?

A voz de Tobias era rouca, e ele fungava alto. Perguntei-me se estaria

chorando. Seu hálito tinha um cheiro ácido.

– Você andou bebendo? – perguntei.

– Um pouco. Deu-me coragem para fazer isso. Qualquer um que precisasse encontrar coragem em uma garrafa era um

covarde. Meu pai disse isso uma vez, em um de seus poucos momentos de sabedoria. Mas aquela não era a hora de repetir isso para Tobias.

– Onde você conseguiu essa faca? – perguntei calmamente. Calma era

importante naquele momento.

– Eu a roubei da cozinha. – Ele apertou a ponta da faca contra as minhas costas, e fiquei tenso ao sentir o corte. Era uma faca muito afiada. – Se as chibatadas não foram suficientes, talvez eu possa impedi-lo.

– De quê? – perguntei, soltando um gemido. O sangue escorria pelas minhas costas, embora eu não pudesse saber se ele abrira o antigo ferimento ou se causara um novo.

– De ser escolhido. Vi como Conner ficou admirado com você quando dançávamos. Como ele pode admirá-lo? Você é o menos digno do título, o mais inferior de nós três.

– E você é o maior covarde – sibilei, prendendo o fôlego ao sentir a faca cortar mais fundo.

– Não me chame de covarde – disse Tobias. – Eu não sou covarde!

– Você veio até aqui para me matar? – perguntei. – Porque eu vou gritar se você tentar, e vou acordar a princesa e provavelmente mais um monte de gente. Daí você vai estar encrencado.

– E você vai estar morto.

– Sim, mas você vai estar encrencado.

Tobias aliviou a pressão da lâmina.

– Isso é só um aviso para você recuar. Eu vou ser o rei.

– Se você não quer me matar, abaixe a faca.

Tobias soltou meu braço e então disse:

– Não tente nada comigo. Vou manter a faca a postos, se você o fizer.

Cambaleei para trás, afastando-me dele, com a cabeça girando.

– O que eu poderia tentar? Sabe, se você continuar paranoico assim quando for rei, isso vai comê-lo vivo.

– Talvez o rei Eckbert devesse ter sido mais paranoico. Então ele não estaria morto agora.

Agarrei-me à parede para me apoiar. Precisei de toda a concentração para não vomitar nele.

– Você está bem? – perguntou Tobias. Não que ele se importasse. Quando comecei a andar de novo, ele me seguiu, completando: – Qual é a graça em perambular por aqui todas as noites?

A dor diminuía pouco a pouco. Ainda era forte, mas as chibatadas haviam sido muito piores. Talvez ele não tivesse me cortado tão profundamente quanto eu pensara.

– Conner tem você e a Roden sob controle, mas não a mim – declarei. – Nem a mim – disse Tobias rapidamente, mas, pelo seu tom de voz, era

óbvio que nem ele acreditava naquilo.

– Eu gostaria de voltar para o quarto agora – eu disse. – Estou cansado e

você machucou as minhas costas.

– Não vou me desculpar por isso. Prefiro mantê-lo fraco. – Que homem de honra você é.

Tobias deu uma risada sarcástica.

– Uma afirmação como essa, vinda de você? Aquilo levou um sorriso fraco ao meu rosto. – Então, vamos esperar que Conner escolha Roden, para que Carthya

tenha alguma esperança de ter um rei honrado.

Ele não gostou daquilo e saiu andando na minha frente. – Roden destruiria este reino em menos de uma geração, com ou sem a

ajuda de Conner. Ele não tem uma ideia que alguém não tenha colocado em sua cabeça. Estremeço só de pensar que um de vocês tem chance de ser escolhido.

– Se a escolha de Conner fosse tão óbvia, minhas costas não estariam

doendo tanto agora.

– O meu aviso foi sério – disse Tobias. – E, se você tentar contar a

alguém sobre isso, vou me certificar de que Roden leve a culpa. Sei como persuadir Conner.

– Você não tem controle sobre Conner. Pode até usar a coroa um dia,

mas é ele quem vai governar.

– Vou deixar que ele pense que tem o controle, e então me livrarei dele.

Onde estamos?

Apesar da dor que eu ainda sentia, não pude disfarçar um sorriso

malicioso.

– O quarto de Conner fica do outro lado dessa parede. Reze para ele

ter um sono profundo, ou acabou de ouvir cada palavra que você disse.

Tobias emitiu um grunhido e colou a orelha na parede, para ver se

podia ouvir Conner do outro lado. Aproveitei o momento para agarrar o braço dele e torcê-lo para trás. Então peguei a faca que eu escondia debaixo da roupa.

– De onde saiu isso?

– Você não foi o único que roubou da cozinha. – Arranquei a faca do cinto dele e sussurrei-lhe no ouvido: – Você está muito encrencado, Tobias. Conner sabe a respeito das anotações que você fez, de seus planos para se livrar dele. Você já perdeu. Daqui a alguns dias, ele vai matá-lo.

Então, bati na nuca de Tobias com o cabo da minha faca e ele caiu, inconsciente.