O Falso Príncipe
Capítulo 54
A cerimônia de meu coroamento foi bem rápida. Kerwyn trouxe o Livro da Fé, o qual Conner leu para administrar a Bênção do Rei. Quando terminou, Kerwyn lhe deu um anel, que ele pôs no meu dedo.
– Isto pertenceu ao rei Eckbert – disse Conner. – Era de seu pai.
– O anel do rei.
Pesava bem mais do que eu imaginava, era feito de ouro e exibia a insígnia da minha família em relevo. Era muito grande e parecia estranho em minha mão, como se fosse algo que eu tivesse roubado, e não herdado por direito de nascença.
Então, de uma almofada cor de rubi, ele levantou minha coroa, ainda molhada, por ter sido lavada recentemente.
– Esta é uma coroa de príncipe. Uma nova será encomendada para você imediatamente, mas, por ora, esta lhe servirá.
Então ele a colocou na minha cabeça, dessa vez com mãos muito mais humildes e cuidadosas do que as que haviam me coroado na hospedaria.
Conner ajoelhou-se novamente e disse:
– Salve, rei Jaron.
– Salve, rei Jaron! – ecoou a multidão.
– Seja um rei melhor do que o seu pai – disse Conner, baixinho. – Você chegou ao trono em uma época de grandes revoltas.
– Sempre há revoltas – retruquei. – Só os motivos para os problemas é que mudam.
– Você tem a princesa prometida. Ela vai apoiá-lo.
– Ela me odeia.
– Eu também. Mas acabo de coroá-lo rei.
Conner sorriu enquanto dizia isso, mas provavelmente não estava brincando.
– Eu cumpri a promessa que fiz a você – declarei, ainda mantendo a voz
tão baixa que apenas ele poderia ouvir. – Já tem o cargo que queria.
– Você é o verdadeiro rei – disse Conner. – Pode me colocar onde
quiser.
– É o que vou fazer. – Então, mais alto, acrescentei: – Quero o primeiro
regente, lorde Bevin Conner, preso pela tentativa de assassinato do príncipe Jaron há quatro anos. Prendam-no pelo assassinato de um garoto órfão chamado Latamer. E também pelo assassinato do rei Eckbert, da rainha Erin e do príncipe herdeiro Darius.
Cochichos e sussurros encheram a sala. Conner se virou para mim com
os olhos cheios de pânico.
– Não, eu não...
Tirei um pequeno frasco do bolso da casaca. – Isto é um óleo obtido da prensagem de uma flor chamada dervanis –
declarei. – Levei muito tempo para descobrir que tipo de veneno poderia ter matado minha família. Passei noites inteiras procurando nos livros de sua biblioteca. Não sou um grande leitor, é verdade, mas, se o assunto for de meu interesse, posso ler vários livros bastante rápido. Estranhamente, foi no seu quarto que encontrei a resposta. O óleo de dervanis não tem gosto e requer apenas uma gota para ter efeito letal. Mas não mata imediatamente. A pessoa envenenada vai dormir sentindo-se bem, mas nunca mais desperta. Esse óleo é difícil de obter e, no entanto, estava em um cofre em seu escritório.
Conner balançou a cabeça, depois olhou rapidamente para a esquerda
e enfiou a mão em sua casaca.
– Como eu sempre disse, Sage, se eu cair, você também cai! Mas ele não pôde encontrar o que procurava. Recuou e procurou nos
outros bolsos.
Soltei o punho da minha manga, e a faca que ele havia escondido em
sua casaca caiu na minha mão.
– Se é isto o que procura, então terei que aumentar as acusações contra
você.
Dois guardas apareceram ao lado de Conner, e cada um pegou um de seus braços.
– Imagino o prazer que você deve estar sentindo neste momento – disse ele, cheio de rancor.
Minha raiva só aumentou.
– Prazer? Estou olhando para o homem que matou minha família inteira. O que quer que eu esteja sentindo agora, acredite que não tem nada a ver com prazer.
– Você disse que era meu príncipe. É isso o que aquilo significa para você?
– Eu sou seu príncipe. Mas sou o rei de Carthya. Você vai compreender por que, na hierarquia dos meus títulos, você não tem como sair ganhando, Conner.
– Por que você não me disse desde o começo? Se você tivesse me dito quem era...
– Então eu não poderia tê-lo desmascarado. Teria condenado meu próprio governo, assim como minha família foi condenada.
Kerwyn suspirou atrás de mim. Dirigindo-se a Conner, ele disse:
– E se Jaron fosse mesmo apenas um órfão? Certamente você não poderia esperar que ele conseguisse enganar a corte por muito tempo.
– Ele não precisava de muito tempo – eu disse, mantendo os olhos em Conner. – Ele precisava de um príncipe apenas pelo tempo necessário para ser nomeado primeiro regente. Não importa o que acontecesse depois, ele tomaria o poder e o controle de Carthya.
– Muito bem – disse Conner. – Jaron sempre foi descrito como um garoto esperto, mas eu o subestimei.
Comecei a fazer um gesto para dispensá-lo, mas ele acrescentou rapidamente:
– Você é culpado de crimes também, Majestade.
Arqueei uma sobrancelha e o encarei.
– É mesmo?
– Mesmo quando dizia que não queria o trono, estava o tempo todo planejando consegui-lo. Você mentiu para mim.
A raiva me subiu à cabeça e não consegui disfarçá-la. Eu me inclinei para perto dele e disse, entre dentes:
– Sim, eu menti para você, mestre Conner, mas nenhuma de minhas
mentiras foi grave. Eu estava lhe dizendo a pura verdade quando afirmei que não tinha vontade alguma de ser rei! Se houvesse alguém, qualquer pessoa, que eu achasse que poderia tomar o meu lugar sem destruir todo o reino, eu o cederia a ela alegremente. Se eu pudesse voltar a ser o garoto que você tirou do orfanato, partiria agora sem olhar para trás. Se você soubesse o que significa ser rei... – suspirei e balancei a cabeça. – De todos os cartianos, eu sou o menos livre.
– E quanto à minha liberdade? – perguntou Conner. – Devo pedir
clemência?
– Peça clemência aos demônios – respondi-lhe, mais calmamente agora.
– Você disse que venderia sua alma a eles por esse plano. Seu plano funcionou, e os demônios podem ficar com você.
– Se os demônios têm a mim, então você é o rei deles – cuspiu Conner. –
Amaldiçoarei para sempre o dia em que nos encontramos!
– Levem-no para a prisão – eu disse a meus guardas. – Ele vai ficar lá por
um tempo. Conner, parece que você não estará disponível para cumprir seus deveres como primeiro regente. Assim sendo, está dispensado do cargo e destituído de seu título de nobreza.
Quando Conner foi arrastado para fora do salão, ordenei aos músicos
que tocassem. Então, exausto, desabei no trono de meu pai. Não, no meu trono. Eu era o rei agora. A realidade disso me parecia incompreensível.
Um a um, os vários membros da audiência vieram até mim para me
cumprimentar pessoalmente. Eu não conhecia a maior parte deles, apesar de ter reconhecido muitos dos nomes de família. Eles não me interessavam quando eu tinha 10 anos, e não eram muito mais interessantes agora.
– O senhor voltou para um país que lamentou sua perda pelos últimos
quatro anos – disse Kerwyn, de pé a meu lado. – Veja como o povo comemora sua vida. Não quer se juntar a eles nisso?
Não era tão simples.
– Ainda me sinto como um garoto de orfanato – murmurei. – Estou
perdido aqui.
– Mas aqui é o seu lar.
Passei um dedo ao longo dos entalhes no braço do trono.
– Era meu lar, porque minha família estava aqui. Agora estou só, e não sei por onde começar.
– O senhor ainda é jovem, Jaron. Talvez fosse apropriado ter um tutor...
– Eu sou o rei agora, Kerwyn. Ninguém mais.
Ele baixou a cabeça, reconhecendo isso, e olhou para a audiência comigo. Em voz baixa, disse:
– Nem todos estarão felizes com seu retorno. Os inimigos em nossas fronteiras se sentirão enganados. Haverá problemas em breve, meu senhor.
– Eu sei.
– A guerra está próxima, Jaron.
Eu podia sentir isso em meus ossos. No entanto, olhei para ele e ergui uma sobrancelha:
– Mas certamente os espiões deles não podem viajar rápido o bastante para estragar esta noite. Ainda temos algum tempo para rir.
Ele começou a protestar, mas eu me levantei e disse:
– Eles devem me ver rindo, Kerwyn. Pelo menos esta noite.
Com isso, caminhei até a multidão, que novamente abriu caminho para mim. Dessa vez, vi a pessoa por quem tinha procurado a noite toda.
Imogen estava no fundo da sala, parecendo muito pequena e assustada. Quando me aproximei dela, ela se abaixou em uma reverência e continuou assim.
– Por favor, levante-se – eu disse. – Ainda sou eu.
Ela obedeceu, mas balançou a cabeça.
– Não, eu não acho que seja.
– Quanto você viu?
– Tudo, Alteza.
– Você precisa me chamar assim?
A voz dela fraquejou.
– Preciso.
– Você me perdoa? Você consegue?
Ela baixou os olhos.
– Se o senhor ordenar, então eu o farei.
– E se eu não ordenar?
– Por favor, não me peça isso.
Kerwyn apareceu ao meu lado.
– Quem é essa, rei Jaron?
Eu peguei a mão de Imogen e a levei até o centro do grupo. – É uma dama disfarçada, assim como permaneci disfarçado de órfão
por quatro anos. Ela é Imogen, e sua família tem dívidas com mestre Conner. Ela já me pagou esses débitos completamente nas duas últimas semanas, com cuidados de enfermagem e com sua compaixão. Seu pai está morto, mas, usando meu poder como rei, eu o declaro postumamente um nobre de Carthya. Ela é filha de um nobre e deverá ser tratada como tal.
Imogen balançou a cabeça.
– Não, eu não sou. Eu não posso retribuir isso. Eu me virei para ela e baixei a voz.
– Imogen, você não me deve nada. Você é livre, e quero que sua vida
seja boa. – Então entreguei sua mão a Kerwyn. – O senhor poderia providenciar para que lhe deem um quarto confortável e roupas de acordo com seu título? Ela pode ficar pelo tempo que desejar, e, a qualquer momento que pedir, garanta que seja levada para casa.
Ela sorriu através das lágrimas e fez outra reverência. – Obrigada... rei Jaron.
Eu sorri de volta.
– Obrigado, Imogen. Eu não poderia ter sobrevivido a essas duas
últimas semanas, se não fosse por você.
Kerwyn a levou pelo salão, mas, quando ele olhou para trás, para mim,
quase pude ver um novo peso cair sobre seus ombros. Tempos difíceis se avizinhavam, para Carthya e para mim. Mas nem mesmo a guerra iminente deveria arruinar uma boa festa. Com um sorriso no rosto, eu me virei para o grupo e disse:
– Cartianos, esta noite eu voltei para casa. Que seja uma celebração. Esta
noite, dançaremos!
Você terminou O Falso Príncipe
Jennifer A. Nielsen
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