O Falso Príncipe
Capítulo 47
A aurora chegou cedo. Eu havia dormido mal, se é que havia dormido. Pensamentos invadiam minha mente um após o outro, mais rápido do que eu conseguia processar. Nos últimos quatro anos, eu tinha basicamente aceitado a ideia de que seria Sage pelo resto da vida. Abrir mão disso e me permitir voltar a ser Jaron estava sendo bem mais difícil do que eu havia pensado.
Quando Conner tentou me chutar para me despertar, eu já estava
acordado, por isso o pé dele só conseguiu atingir minhas mãos e nenhum outro lugar mais dolorido. Depois ele chamou Imogen, ordenando que ela acordasse e descesse as escadas a fim de pedir nosso café da manhã. O nosso deveria ser servido no quarto, e então ela poderia levar algo para os garotos na carruagem. Ele não deu instruções sobre quando ela poderia comer.
– Você e eu ficaremos no quarto até a hora de partir – disse Conner. –
Tenho poucas horas para prepará-lo para a apresentação.
– Eu já estou preparado – resmunguei.
Conner deu uma risadinha sarcástica.
– Eu esperava mais humildade de sua parte hoje. A prioridade é ensaiar
a ordem em que as coisas vão acontecer esta noite. E nem tente me dizer que já sabe qual é.
Eu não tentei.
– Então me diga.
– Vista-se e arrume o quarto primeiro. Do contrário, as arrumadeiras
vão comentar sobre o nosso arranjo na noite passada. Tenho algumas tarefas para Mott executar esta manhã e preciso falar com ele sobre isso.
Quando acabei de me vestir e recolocar na cama de Imogen o lençol que servira de divisória e o cobertor no qual eu dormira, Conner estava de volta, com Imogen atrás dele. Ela carregava uma bandeja que deixou sobre uma mesa no quarto. Eu me perguntei se tinha se arriscado a falar com os empregados da hospedaria para pedir nosso café da manhã ou se havia arranjado outra forma de lhes comunicar nosso pedido.
– Talvez tenha sido bom você tê-la trazido conosco – disse Conner. – É prático ter uma serviçal durante a viagem.
– Eu achava que era para isso que Mott servia – retruquei.
– Mott é muito mais do que um servo comum. Certamente, a essa altura, você já percebeu isso.
Imogen saiu do quarto assim que pôde, e Conner me passou um prato cheio de panquecas, ovos e grossas fatias de bacon.
– É uma refeição e tanto – exclamei, faminto.
– Isso não é nada comparado ao que o espera – disse Conner. – Quando você for príncipe, poderá pedir a seus serviçais qualquer coisa que deseje comer e eles providenciarão. Poderá pedir até que lhe deem comida na boca, se quiser.
– Não vou querer. Não há necessidade de me tentar para o cargo, Conner. Você já me tem. Agora me conte sobre a corte esta noite.
– Todos os vinte regentes do rei se reunirão na sala do trono às cinco horas da tarde. Também estará lá o conselheiro mais próximo do rei, o alto camareiro, lorde Kerwyn. Não é necessário que você saiba o nome de todos eles. Jaron provavelmente não tinha a obrigação de conhecê-los, então ninguém vai esperar que você os conheça.
Eu realmente não conhecia todos eles. Mas havia alguns que esperava reconhecer. Kerwyn é o que me conheceria melhor. Ele havia aguentado meus excessos de infância ao lado de minha família. Mas será que me reconheceria depois de todo esse tempo? Eu não sabia. Eu havia mudado muito em quatro anos.
Conner continuou:
– O primeiro ato da reunião será comunicar oficialmente a morte do rei, da rainha e do príncipe herdeiro Darius.
Eu me encolhi um pouco ao ouvir aquilo. Conner não notou. Mais uma vez, não notou nada.
– O comunicado é mera formalidade. A maioria dos regentes já sabe
disso desde o começo. E os outros já terão ouvido muitos boatos para terem certeza intimamente. Então ouviremos um relatório dos três regentes que viajaram a Avenia para procurar qualquer notícia a respeito da vida ou da morte do príncipe Jaron. Eles confirmarão que ele está morto.
– Como você sabe? – perguntei.
– Porque ele está morto! – explodiu Conner. – Quem você acha que
contratou os piratas, anos atrás?
A notícia me deixou sem ar. Ela sobrepujou qualquer fingimento que
eu tivesse sido capaz de manter com ele até então. A única coisa que me impediu de atacá-lo foi saber que eu ainda o queria ao meu lado no castelo naquela noite.
– Por quê? – perguntei, com a voz rouca. Eu não confiava em mim
mesmo para dizer nada além disso.
– Eu achei que isso nos forçaria a declarar guerra contra Avenia. Eckbert
tinha ficado quieto, sem fazer nada ano após ano, enquanto Avenia ia abrindo caminho cada vez mais para dentro de terras cartianas. Mas, se piratas avenianos matassem seu filho, ele seria obrigado a agir. Infelizmente, apesar de os piratas terem me garantido que todos os passageiros a bordo daquele navio haviam afundado, o corpo de Jaron jamais foi encontrado. Eckbert pôde acalmar as pessoas que o criticavam dizendo que ele não declararia guerra até que tivesse o corpo de Jaron como prova do ataque. No entanto, Avenia recuou desde que houve suspeitas de seu envolvimento na morte de Jaron, então, de certa forma, meu plano funcionou melhor do que eu poderia esperar. Nossas fronteiras estão mais seguras, e a guerra não foi necessária.
Conner fez uma pausa, como se esperasse que eu dissesse algo. O que
ele queria? Que eu lhe desse os parabéns? Ele pareceu sentir meu desconforto, então acrescentou:
– Eu sei que esse segredo está seguro com você, porque você não pode
revelá-lo sem confessar sua verdadeira identidade.
– Não – resmunguei –, não posso revelar minha identidade – e
completei em pensamento: ainda.
Conner esfregou as mãos, como se o assunto estivesse encerrado.
– Então, vamos continuar. Quando os três regentes relatarem que o príncipe Jaron está mesmo morto, será o momento em que lorde Kerwyn, como alto camareiro, ficará de pé e declarará que um novo rei deverá ser escolhido. No entanto, antes que ele se levante, tomarei a frente e anunciarei que os regentes estão enganados quanto à morte de Jaron. Daí eu o apresentarei à corte. Haverá alguma comoção no começo, mas Kerwyn fará com que o levem até ele. Haverá muitas perguntas, você será sabatinado e cautelosamente examinado. Isso vai levar algum tempo, mas não importa o que eles digam, você deverá responder com calma e autoconfiança. E, Sage, trate de manter sua língua afiada sob controle. Você não pode cometer um único erro. Você consegue fazer isso?
– Consigo.
A resposta agradou a Conner.
– Ótimo. Vamos trabalhar em suas respostas para garantir que você saiba tudo o que tem de dizer. E, claro, eu estarei lá para garantir que você não arrume problemas.
Afastei o prato, incapaz de continuar comendo. Conner o empurrou de volta para mim.
– Você precisa ficar forte hoje.
Afastei a cadeira para trás e fiquei de pé.
– Você disse que tem provas que eu posso oferecer a eles. Quais são essas provas?
– Mais tarde – disse Conner. – Você não as terá a menos que eu esteja certo de que será declarado príncipe hoje. Temos poucas horas para você aprender tudo o que falta. Se já terminou de comer, está pronto para começar?
Fechei os olhos e tentei controlar a respiração. Meu coração disparou quando pensei em tudo o que me esperava naquele dia. Não importava o que Conner me dissesse ou tentasse me ensinar, uma coisa era certa. Eu não estava nem jamais estaria pronto. Mas não era isso que ele queria ouvir. Então olhei para ele e disse:
– Certo. Vamos começar.