O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 17 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 16

 

O aroma da carne apimentada e do pão recém-assado era inacreditavelmente bom quando Mott e eu entramos em Farthenwood pela entrada dos fundos. A cozinha não ficava longe dali.

– Eu vou poder jantar, não é? – perguntei.

– Alguém levará o jantar no seu quarto depois que você tomar banho.

– Diga-me, Mott, é verdade que o rico cheira pior que o pobre?

Mott arqueou uma sobrancelha.

– Por que você diz isso?

– Desde que me juntei à Casa Conner, preciso tomar banho com mais frequência. Minhas pulgas não tiveram outra opção além de me abandonar.

– Espero que sim – disse Mott com um sorriso. E então me entregou para Errol, para outro banho cheio de esfregadelas em um canto de nosso quarto de dormir.

Meu banho foi muito rápido, e Errol disse que duvidava que eu estivesse completamente limpo. Eu lhe respondi que estava bastante limpo, considerando que me sujaria de novo amanhã. Eu não queria debater o assunto, e ele não insistiu.

– Onde está meu jantar? – rosnei. – Conner quase nos fez jejuar hoje.

– Alguém deve trazê-lo em breve – disse Errol. – O senhor deve se apressar e se vestir.

– Então, saia e espere por meu jantar. Bata na porta quando a bandeja chegar.

Ele concordou e deixou o quarto, enquanto eu me atrapalhava com as roupas de dormir. Chequei a cômoda novamente em busca de minhas roupas antigas, mas ainda não estavam lá. Daria uma palavrinha com Errol se elas não estivessem de volta no dia seguinte.

Houve uma batida na porta e gritei para que Errol entrasse enquanto

eu colocava o roupão.

Alguém fungou e eu me virei. Imogen parou à porta, segurando a

bandeja de jantar. Era nítido que ela queria que outra pessoa tivesse sido escolhida para vir trazer a comida. Para falar a verdade, eu também.

– Pensei que fosse Errol – eu disse. Como se isso fizesse alguma

diferença.

Imogen olhou para a porta para indicar que ele ainda esperava no

corredor. Então, estendeu os braços para me mostrar a bandeja e deu de ombros.

– Está certo. – Indiquei a mesa próxima da cama de Tobias. Havia alguns

papéis jogados ali, cheios de anotações. Ele estava estudando matéria avançada, algo de que Roden e eu nem chegaríamos perto antes que nossas duas semanas terminassem.

Imogen colocou a bandeja e já ia se retirar quando pedi: – Espere!

Realmente não me ocorreu o que dizer em seguida, nem qual seria a

reação dela.

Por fim, murmurei:

– Desculpe-me. Se lhe causei algum problema, lamento profundamente. Ela balançou a cabeça, gesto que torci para que indicasse uma aceitação

do meu pedido de desculpas. Depois, deu algo próximo a um sorriso.

– Meu nome é Sage – eu disse finalmente. – Sei que é estranho, mas

quem escolhe o próprio nome?

Ela apontou para si mesma, e completei:

– Sim, eu sei. Você é Imogen.

Ela começou a sair novamente, mas continuei: – Você poderia me ajudar? Preciso de linha e agulha. Rasguei uma de

minhas camisas naquela cavalgada e tenho que costurá-la.

Imogen fez um gesto com as mãos, indicando que ela costuraria a

camisa para mim, mas balancei a cabeça.

– Prefiro fazer isso pessoalmente. Se Conner descobrir que rasguei as

roupas novas, terei problemas. Você pode me conseguir a agulha?

Ela assentiu e apontou para o corte em meu rosto.

– Já está bem. Eu me machuco bastante. Estou acostumado.

Pequenas rugas apareceram entre suas sobrancelhas. Ela abriu a boca como se houvesse algo que desejasse dizer, mas por fim a fechou e baixou a mão.

– Você me é bastante familiar, Imogen.

O servo de Tobias marchou para dentro do quarto, apanhou um livro da estante próxima da porta e o arremessou na direção de Imogen, acertando-a nas costas.

– Você deveria só entregar a bandeja com o jantar dele e voltar rapidinho para a cozinha!

Em um instante, bloqueei o corpo de Imogen com o meu. Depois, puxei a faca escondida debaixo do meu travesseiro e segurei-a apontada para o servo.

– Como ousa? – gritei, tão nervoso que as palavras me espirraram da boca.

– Ela é apenas uma garota da cozinha – respondeu o servo, tenso, alarmado e claramente confuso com minha reação.

Girei a faca no ar, forçando-o a se afastar. Ele deu um grito por socorro e olhou ao redor como se quisesse correr, mas eu o encurralei.

Ouvindo a confusão, Mott entrou correndo no quarto.

– Abaixe a faca, Sage – ele me ordenou com os olhos arregalados. – Ei, essa faca é minha! – exclamou, erguendo a barra das calças, onde o objeto estivera guardado. – Quando foi que você... Ah, sim, quando cavalgamos de volta.

– Eu precisava de uma faca para cortar a carne. Eles não me deram uma.

Mott avançou em minha direção e levantou a mão.

– Devolva-me, Sage. Agora!

Virei a faca, segurando-a pela lâmina, e a entreguei com o cabo apontado para ele.

– Você viu o que ele fez a ela?

Ele colocou gentilmente a mão no ombro de Imogen.

– Você deve ir, garota.

Ela não olhou para mim quando deixou o quarto. E eu não parei de olhar para o servo de Tobias.

– Ele não é mais bem-vindo neste quarto – reclamei para Mott. – Ele não

deveria trabalhar para Conner nem mais um minuto depois do que vi.

– Você também deve se retirar – disse Mott ao servo, que tropeçou nos

próprios pés na pressa de deixar o quarto.

Mott olhou para a faca por um momento, e então limpou a lâmina com

a camisa, como se eu a tivesse sujado.

– Sua mãe era empregada da cozinha, suponho. – Ela servia mesas.

– É a mesma coisa. Obviamente, você tem alguma simpatia por Imogen. – Não se trata disso. Acontece que Imogen não fez nada de errado, e ele

jogou um livro nela!

– E você acredita que a ajudou? Você pensa que o que fez foi bom para

ela de alguma forma?

Chutei o chão com raiva de mim mesmo e de Mott também, embora

não entendesse muito bem o motivo. Talvez porque eu odiasse quando ele tinha razão.

– Ela é bem tratada aqui – continuou Mott. – O servo de Tobias será

advertido, e você deveria estar de joelhos me agradecendo por não reportar isso ao mestre Conner. O que quero saber é por que roubou minha faca.

– Já lhe disse, não posso cortar a carne sem uma. – Você se sente ameaçado aqui?

– Por Roden e Tobias? – Balancei a cabeça. – Não. – Por mim? Por Conner?

– Você trabalha para ele. Se eu estiver correndo perigo por causa de

uma ordem dele, o perigo virá de você.

Mott não discordou. Nem poderia. Colocou a faca na tira que havia no

tornozelo e então apontou para a bandeja de comida.

– Coma e tenha uma boa noite de sono. Seu dia amanhã será ainda

mais duro do que hoje.

– Não há nada para fazer aqui a não ser olhar para a pilha de livros de

Tobias.

– Tente ler um. Isso vai ajudá-lo.

– Prefiro me juntar aos outros. Não é justo que eu fique aqui enquanto Roden e Tobias se exibem para Conner.

– Conner está furioso com você por deixar escapar uma égua premiada. Confie em mim quando digo que é melhor você ficar por aqui esta noite.

– Seria um milagre Conner me escolher como príncipe.

Embora minhas palavras fossem verdadeiras, não pude conter um sorriso.

– Sim – concordou Mott, e então acrescentou: – Mas acho que nem um milagre poderá salvá-lo agora.