O Falso Príncipe
Capítulo 6
Conner nos ensinou sobre Carthya por quase toda a viagem, aonde quer que estivéssemos indo naquela manhã. Ele ia sentado de costas para a estrada, no banco do condutor, enquanto Mott conduzia e Cregan vigiava, na parte de trás.
Falou das várias cidades por toda Carthya, mostrando a região onde estariam a partir de onde estávamos e descrevendo em detalhes as qualidades dos maiores povoados.
– Para aquele lado fica Drylliad – disse ele, apontando para o sul –, a capital de Carthya e o lar da família real. Algum de vocês já esteve lá?
Tobias falou:
– Meu pai me levou lá quando eu era bem pequeno, mas não me lembro.
– Eu também já estive lá, mas foi há algum tempo – acrescentei. – Tentei roubar um pombo do pombal do rei. Não deu muito certo.
Eles riram, o que foi estranho, já que eu não tinha dito aquilo como piada. Estava faminto na ocasião e por pouco consegui escapar sem ser pego. Torci o tornozelo em uma queda, enquanto fugia, e não pude andar direito por uma semana.
Eu já estivera em muitas das cidades das quais ele havia falado. Estava claro que eu era mais viajado que Roden e Tobias. Roden disse que nascera em algum lugar no sul de Carthya e fora deixado nos degraus do orfanato em Benton. Ele não fazia ideia de quem eram seus pais, nem de nada sobre eles. Nunca havia saído de Benton até Conner aparecer.
Tobias disse que havia nascido em uma cidade perto de Gelvins, mas que sua mãe morrera no parto, e seu pai, de doença, poucos anos depois. Sua avó tomara conta dele desde então, mas, depois que ela morrera, havia dois anos, ele fora mandado para o orfanato.
– Quem educou você? – perguntou-lhe Conner. – Minha avó. Ela trabalhava para um homem que tinha uma grande
biblioteca, e ele deixava que ela pegasse emprestado um livro diferente por semana para ler para mim. Sinto quase tanta falta dos livros quanto dela.
– Você sabe ler? – perguntou Conner a Roden, que balançou a cabeça
em negativa.
– Mas eu sempre quis aprender – disse Roden. – Sou bom em
caminhadas e pensei em entrar para o exército do rei. Mas, para subir na hierarquia, seria preciso saber ler.
– Quer dizer que você é um patriota – disse Conner, admirado. – Então
vamos ter de ensiná-lo a ler. E quanto a você, Sage? Sabe ler?
Dei de ombros.
– O senhor já não me perguntou isso?
– Você preferiu me insultar a me responder – disse Conner. – Imagino
que não tenha tido muita educação.
– Meu pai certa vez me disse que uma pessoa pode ser educada e ainda
assim ser burra, e um homem pode ser sábio sem ter educação alguma.
– Seu pai era um músico inútil – disse Conner –, e pelo jeito era tão
burro quanto sem educação. E a sra. Turbeldy me disse que sua mãe servia mesas em um bar. Não gosto nem de pensar no tipo de educação que ela pode ter lhe dado.
Olhei para minhas mãos, pousadas nos joelhos. – Se o senhor puder me convencer de que vale a pena ler, eu aprendo. – Quem de vocês sabe andar a cavalo? Como um cavalheiro? Mais uma vez, nenhum de nós respondeu. Eu havia cavalgado várias
vezes antes, mas, em todas as minhas experiências recentes, normalmente o cavalo era roubado e eu sempre estava tentando escapar do dono dele. Isso provavelmente não era muito cavalheiresco.
– Mal ouso perguntar se algum de vocês aprendeu boas maneiras, e
como se comportar em sociedade.
– Eu aprendi um pouco – disse Tobias.
Roden chegou a rir alto da pergunta de Conner, mas se corrigiu
rapidamente.
– Mestre Conner, me transforme em um cavalheiro. Eu aprenderei.
– Todos vocês aprenderão – disse Conner. – E, ao fim das próximas duas semanas, pretendo fazer um cavalheiro de cada um de vocês, e deixá-los tão perfeitamente ensinados que poderiam passar por nobres mesmo perante o próprio rei.
– Nós vamos ver o rei? – perguntei.
Conner balançou a cabeça.
– Eu não disse isso. Só disse que vocês poderiam ficar frente a frente com ele e fazê-lo acreditar que são nobres.
Roden olhou para mim e sorriu. Eu não compartilhava do seu entusiasmo.
– Duas semanas? – perguntei. – Por que a pressa?
Conner me encarou.
– Porque é quando o garoto que eu escolher será testado.
Tobias limpou a garganta e então perguntou:
– O que vai acontecer com os outros dois garotos, senhor? Os que não forem escolhidos?
Conner olhou para cada um de nós antes de responder. Quando finalmente abriu a boca, foi para dizer:
– Duas semanas, garotos. Rezem para ser aquele que vou escolher.
Depois virou as costas para nós, e continuamos a viagem.
Tobias, Roden e eu nos entreolhamos. Cregan entendeu nossa conversa silenciosa e deu uma risadinha. Roden pareceu um pouco mais pálido novamente. Tobias perdeu toda e qualquer expressão, como se seu rosto tivesse virado pedra.
Sem dúvida, nós três estávamos pensando na tranquilidade com que Conner havia ordenado a morte de Latamer e em quanto havia sido rápido em justificá-la, baseado na alta estatura moral de seu plano.
Ele escolheria o vencedor em duas semanas, e na mesma ocasião os outros dois garotos, muito provavelmente, teriam o mesmo destino de Latamer.