O Falso Príncipe
Capítulo 13
Na manhã seguinte, meus olhos se abriram antes que os servos viessem nos acordar. A luz suave da manhã entrava pela janela em um ângulo baixo, então era provável que fosse bem cedo. Fiquei na cama por vários segundos, orientando-me em meio às sensações inusitadas de calor e conforto. Nesse momento, lembrei-me de onde estava e do estranho jogo ao qual estava preso. A realidade era nítida e fria. Sentei-me na cama para ter uma visão melhor do lado de fora.
– Acordado também? – perguntou Roden, baixinho. – Não consigo mais dormir.
– Eu não dormi quase nada.
Por um momento, ficamos em silêncio, então Roden perguntou: – O que você acha que vai acontecer aos garotos que Conner não
escolher?
Nenhum de nós pensou muito na conveniência de falar “os garotos”,
como se fossem estranhos. Depois de respirar fundo lentamente, respondi:
– Você sabe a resposta.
Roden suspirou como se esperasse que eu tivesse algo melhor a dizer. – O mais triste é que não haverá ninguém para sentir nossa falta
quando tivermos partido. Nem família, nem amigos, ninguém esperando em casa.
– É melhor assim – eu disse. – Vai ser mais fácil para mim, sabendo que
minha morte não causará dor a mais ninguém.
– Se você não pode causar dor a ninguém, então não pode dar alegria
também – disse Roden, cruzando os dedos atrás da cabeça e olhando para o teto de gesso. – Somos uns joões-ninguém, Sage. Eu deveria ter deixado o orfanato meses atrás, mas não pude. Sem educação ou profissão, não havia nada para mim do lado de fora. Como eu conseguiria me manter?
– Tobias ficaria bem por conta própria – eu disse. – Ele poderia trabalhar em um negócio ou abrir uma loja. Provavelmente seria muito bem-sucedido.
– Quais eram seus planos? – perguntou Roden.
Dei de ombros.
– Para mim, tudo se resumia a continuar vivo por mais uma semana, Roden. – A ironia da coisa me pareceu quase engraçada. – Agora só tenho que viver por mais duas.
– Conner tem que me escolher – declarou Roden. – Não é que eu queira ser rei nem nada assim; todos nós sabemos que será Conner quem governará. Mas, para mim, pode ser a única chance na vida. Eu sei que isso soa mal por causa do que significa para você e Tobias, mas é assim que eu me sinto. Sabe aquele dia, quando você quase conseguiu fugir, na carroça?
– Sim.
– Eu queria que tivesse conseguido. E, se você tiver a chance de fugir em algum momento nas próximas duas semanas, acho que deveria tentar.
– Bom saber, Roden.
Bem que ele gostaria que as coisas fossem assim tão fáceis.
– Por que vocês dois não falam um pouco mais alto? Talvez assim consigam acordar a casa inteira – disse Tobias, com um gemido.
– Shhhhh – sibilei. – Assim que eles souberem que estamos acordados, vão vir para cá.
Tobias se levantou, apoiado em um braço.
– Você e Roden ficaram conversando feito velhos amigos esse tempo todo, e agora você manda eu me calar?
– Cale-se – disse Roden.
Tobias voltou a se deitar.
– Imagino o que Conner planejou para nós hoje.
– Temos duas semanas para aprender tudo o que o príncipe Jaron saberia – disse Roden. – Acho que esse pode ser o último momento de tranquilidade que teremos até o fim dessa história.
– Na verdade, não é um mau plano – disse Tobias. – Conner está certo. Esse pode ser o único jeito de salvar Carthya.
– Isso é um insulto ao verdadeiro príncipe – protestei. – Quando tudo
for descoberto, e todos nós sabemos que será um dia, o que estamos fazendo aqui será considerado muito pior do que um simples ato de traição. Um órfão joão-ninguém fingindo ser um príncipe? Quem pensamos que somos?
– Calma aí – disse Tobias. – Quem disse que tudo será descoberto um
dia? Conner estará lá a cada passo para nos guiar. Ele tem que fazer isso, porque também irá para a forca se formos descobertos.
– Nenhum de nós tem a aparência exatamente igual à que o príncipe
teria a esta altura – continuei –, sem mencionar que duas semanas não é nem de longe tempo suficiente para aprendermos tudo o que ele saberia, com Conner por perto ou não. Se nós três nos unirmos, ele não pode nos forçar a fazer isso.
– Mas eu quero tentar, Sage – disse Tobias, sentando-se e jogando os
pés para fora da cama. – Vocês dois podem ficar deitados se quiserem, mas eu pretendo começar a aprender o que devo o quanto antes.
No corredor, ele surpreendeu os servos, que insistiram ter estado
esperando por nós, apesar de seus olhos sonolentos afirmarem o contrário. Errol remexeu nas gavetas do meu guarda-roupa, abafando um bocejo.
– Pode voltar para a cama se quiser – eu lhe disse. – Estou bem aqui. – Não é o senhor quem dá as ordens – lembrou Errol. – Só obedeço às
ordens de mestre Conner. Suas roupas serão mais casuais hoje, para permitir as atividades vespertinas.
Deixei a cama quente a contragosto, para me vestir e me livrar logo de
Errol. Fiz com que ele ficasse parado lá enquanto eu me vestia sozinho. Quando terminei, ele insistiu em me inspecionar.
– Não quero ofendê-lo – ele disse enquanto eu lutava com uma fivela –,
mas é óbvio que o senhor nunca vestiu roupas como estas antes.
Eu sorri.
– Se eu conseguir o que quero, não vou ter que vesti-las por muito
tempo mais.
Mott estava esperando por nós quando deixamos o quarto. Ele
informou que Tobias trabalharia com um tutor na biblioteca, enquanto Roden e eu seríamos treinados em leitura e escrita no andar de cima, em uma sala que havia muito tempo tinha sido um quarto de bebê. Tobias riu de nós enquanto seu serviçal o acompanhava. Ele provavelmente pensou que ser mais instruído lhe dava vantagem junto a Conner, e provavelmente estava certo. Roden sussurrou para mim que não ia mesmo querer estudar com Tobias. Concordei.
Nosso tutor nos instruiu a chamá-lo de professor Graves,[1] um nome apropriado, já que ele parecia mais um coveiro que um professor. Era alto e magro como uma pá, com a pele pálida e o cabelo murcho e preto, penteado de forma a fazê-lo aparentar ser mais volumoso do que realmente era. Imediatamente decidi não gostar dele. Roden, no entanto, parecia estar mantendo a mente aberta sobre se ele era ou não um defunto ambulante. Por fim, quando sussurrei sobre essa possibilidade com Roden, ele sufocou um sorriso e rapidamente mandou que eu me calasse.
O professor Graves ordenou que Roden e eu nos sentássemos em cadeiras que haviam claramente sido feitas para crianças pequenas, de frente para um quadro-negro.
Ele começou a escrever o alfabeto e então me disse:
– Eu mandei que você se sentasse para começarmos.
Roden olhou para cima. Ele já estava sentado, com os joelhos quase tocando o peito.
Cruzei os braços, decidido.
– Eu não vou me sentar em uma cadeira feita para alguém de 5 anos. Arrume uma cadeira de verdade.
O professor Graves entortou a cabeça para poder me olhar melhor de cima.
– Você é Sage, obviamente. Fui avisado sobre você. Jovem, não me confunda com um dos serviçais de Conner. Sou um cavalheiro e um estudioso, e exijo que me respeite. Sente-se na cadeira que tenho disponível.
Já que ele claramente ainda estava por ali para evitar que eu fugisse, chamei Mott. Quando ele enfiou a cabeça na sala, eu disse:
– O professor Graves acha que ele não é um dos serviçais de Conner. Mas você é. Preciso de uma cadeira.
– Já tem uma – ele retrucou, indicando com a cabeça a que estava ao lado de Roden.
– Essa é pequena demais. Não posso aprender assim. – Que pena. Sente-se.
– Tudo bem, mas, quando Roden e eu não aprendermos a ler, você
pode explicar a Conner o porquê.
Mott suspirou e saiu da sala. Voltou vários minutos depois, com uma
cadeira maior em cada mão. O professor Graves ficou furioso e disse que, como punição por minha interrupção, eu teria que escrever o alfabeto mais dez vezes naquele dia.
– Se eu escrever mais dez vezes, vou aprender melhor, então – respondi.
– Que estranho o senhor me punir garantindo que eu acabe mais instruído que Roden, que tentou obedecer desde o começo.
Os nós dos dedos de Graves ficaram quase tão brancos quanto o giz,
enquanto ele começava a nos ensinar sobre os sons das letras. Roden realmente parecia interessado e se esforçava para acompanhar Graves. Quanto a mim, caí no sono lá pela letra M.
Graves já tinha ido embora quando Mott me sacudiu para me acordar,
algum tempo depois.
– Ele falou que você é incorrigível – disse Mott. – Honestamente, Sage,
você está tentando perder?
– Eu já disse a vocês que sabia ler um pouco. Esta manhã foi uma perda
de tempo para mim.
– Eu achei ótimo – disse Roden, parecendo mais feliz do que eu jamais o
havia visto. – Nunca esperei ter a chance de aprender a ler, e o professor Graves disse que vai me dar uma cartilha amanhã.
– Ótimo. Depois me conte o que a cartilha tem a dizer sobre fingir ser
um príncipe.
Mais cedo naquela manhã, os servos haviam nos trazido um desjejum
simples, com leite e ovos cozidos, para comermos enquanto estudávamos. Com um começo tão frugal, não era surpresa que tanto Roden quanto eu já estivéssemos com fome novamente.
– Vocês vão comer depois das próximas aulas – disse Mott. – Que aulas? – perguntei.
– História de Carthya. O almoço vem depois e, em seguida, terão esgrima e equitação. E, após o jantar, durante o qual terão uma aula de etiqueta com o mestre, vão estudar para se prepararem para as aulas de amanhã.
Roden me deu um tapa no ombro.
– Ele ainda vai nos transformar em cavalheiros!
Concordei, mas permaneci em silêncio. Aquilo em que Conner estava nos transformando não merecia comemoração.
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Nota:
* Em inglês, grave quer dizer cova, sepultura. (N. da T.)