O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 12 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 11

 

Mott estava esperando sozinho do outro lado da porta. Obviamente, ele sabia o que seria discutido lá dentro e tinha mandado os outros serviçais sumirem. Parei quando o vi, encolhendo-me um pouco enquanto esperava que ele me desse uma pancada na cabeça ou cometesse outra violência para me forçar a voltar para a sala de jantar de Conner. Não havia covardia em meu nervosismo; seus golpes costumavam vir sem piedade.

Mas ele apenas acenou com a cabeça.

– Você se limpou bem, para um órfão.

– Tive ajuda.

– Aonde estava indo?

Cocei o rosto.

– Ainda não pensei bem nisso. Para algum lugar onde pudesse ficar só. Mott aparentemente não tinha a menor intenção de me deixar

sozinho. Ele passou um braço pelo meu ombro e me guiou pelo corredor.

– Venha comigo.

Saímos até chegarmos a um pátio nos fundos de Farthenwood, cercado

de tochas cujas chamas dançavam na brisa. Várias espadas estavam penduradas em uma parede, todas elas diferentes umas das outras. Uma delas tinha a lâmina mais longa, outra era mais estreita, outra, ainda, era serrilhada em um dos lados. As empunhaduras variavam, de espadas com um simples punho de metal até outras cobertas de couro ou incrustadas de joias. Uma poderia servir a um guerreiro experiente, outra, a um mercenário. Suspeitei que uma delas poderia atrair um príncipe.

– Escolha uma – disse ele.

– Como vou saber qual é a certa para mim? – É aquela que chamar você – disse Mott.

Escolhi uma espada com um vinco largo ao longo de toda a lâmina de tamanho médio. A empunhadura era coberta de couro marrom e tinha um círculo de rubis de um vermelho profundo incrustado no pomo. Quase no mesmo instante em que a peguei, a espada escapou do meu controle e caiu no chão.

– Essa espada é pesada demais para você – disse ele. – Escolha outra.

– Ela é mais pesada do que parecia, mas agora está bem – respondi, erguendo-a com as duas mãos. – Eu a escolhi porque ela me chamou.

– Por quê?

Eu sorri.

– Há rubis incrustados. Eu poderia vendê-los por muito dinheiro.

– Tente fazer uma coisa dessas e usarei essa mesma espada para atravessá-lo, como castigo. Você já segurou uma espada antes?

– Claro.

Eu já havia segurado a espada do arquiduque de Montegrist depois de entrar escondido em um quarto onde ele estava hospedado. Eu erguera a espada uma noite só para admirá-la enquanto ele dormia, é claro, mas não fiquei com ela muito tempo antes de ser pego. Minha punição foi severa, mas segurar uma arma tão bela, ainda que por poucos minutos, havia valido a pena.

– Qual o seu treinamento com uma espada? – perguntou Mott.

– Desconfio que não o bastante para tornar justa uma disputa entre nós.

Ele sorriu.

– Ouvi o que Conner disse na sala de jantar. Apesar do que ele descreve como limitações de sua parte, você tem uma chance real de desempenhar o papel de príncipe. Mas é preciso observar, aprender, praticar e dar tudo de si. Agora, erga a espada.

Mott demonstrou como eu deveria fazer, segurando sua espada na vertical, quase paralelamente ao corpo e inclinada para fora.

– Assim. Esta é a primeira posição.

Eu o segui e movi minha espada como ele havia feito.

– Assim?

– Acostume-se com o peso dela em sua mão. Balance-a para a frente e para trás. Aprenda a controlá-la, a equilibrá-la.

Obedeci. Apesar do peso, gostei da sensação. Eu gostei de mim com uma

espada em punho. Aquela situação acordou lembranças de como eu costumava ser, antes de ter de lidar com as exigências cotidianas de sobrevivência que vêm com a vida em um orfanato.

Ainda na primeira posição, Mott disse:

– É assim que se começa qualquer ataque.

– Então devo evitar assumir essa posição – afirmei. Mott ergueu uma sobrancelha.

– Por quê?

– Se é um movimento tão básico, é o primeiro que todo mundo

aprende, o que significa que todo mundo sabe como se defender dele.

Ele balançou a cabeça.

– Não é assim que funciona. Luta de espadas não é um jogo de xadrez,

em que você faz um movimento e só depois seu oponente faz outro.

Suspirei.

– Evidentemente.

Mott puxou uma espada de madeira da parede, comparável à minha

em comprimento.

– Vamos testar você, então. Ver como se sai para um principiante. – Eu não deveria usar uma espada de madeira também? Minha pergunta fez Mott sorrir.

– Mesmo com uma espada de madeira, ainda posso fazer mais mal a

você do que você a mim com uma de verdade.

Assim que acabou de falar, ele cortou o ar ao lado da minha espada e

acertou meu ombro.

– Você não pode pelo menos tentar me impedir? – perguntou. Fiz uma careta e lancei minha espada em sua direção, mas ele desviou. – Nada mal! – exclamou Mott. – Mas seja mais ousado. O príncipe Jaron

era conhecido por sua ousadia.

– Parece que ele está morto. Então, qualquer que fosse sua ousadia com

uma espada, ela obviamente não o salvou.

– Ninguém poderia ter sobrevivido a tantos piratas – afirmou Mott. –

Ninguém a bordo daquele navio sobreviveu.

– E todos eles provavelmente tinham espadas – continuei, golpeando nada além do ar quando Mott deu um passo atrás. – Então me ensinar a usar uma é inútil.

– Relaxe o corpo – disse Mott –, você está tenso demais.

– Por que eu? – perguntei, abaixando a espada. – Por que eu estou aqui?

– E por que não estaria?

– Tobias é mais inteligente do que eu, e Roden é mais forte. E, pelo jeito, sou bem menos parecido do que deveria com a imagem que Conner tem do príncipe aos 14 anos.

Mott também abaixou a espada.

– Tobias pode ter recebido mais educação do que você, mas não tenho dúvida de que você é mais esperto. Roden é mais forte, mas um coração forte sempre vai dominar um corpo forte – ele sorriu. – Quanto à semelhança física, ajudaria se você cortasse o cabelo e andasse mais ereto. É impossível enxergar seu rosto na maior parte do tempo. Agora, erga a espada. O problema é que você está tentando atingir a minha. Atinja a mim.

– Mas eu o machucaria.

– É uma luta de espadas, Sage. A ideia é essa.

Ergui minha espada e fui para cima dele. Mott deu um passo em minha direção e deslizou sua espada apontando-a para cima, pelo lado de dentro da minha lâmina, então a girou e a empurrou para baixo. Minha espada caiu, fazendo barulho.

– Pegue-a de volta – disse Mott.

Depois de olhar feio para ele por um instante, eu me abaixei e a peguei, mas mantive a lâmina para baixo, deixando claro que não queria continuar com a aula.

Ele me olhou parecendo contrariado.

– Eu me enganei com você. Achei que seria do tipo lutador.

– Para lutar pelo quê? Pelo privilégio de conseguir fazer com que me matem algum dia, como fizeram com a família de Eckbert? Mesmo que eu fizesse o que Conner quer, jamais me sentiria um príncipe. Estaria apenas representando um papel, sendo nada além de um ator, pelo resto da vida.

– E o que você é agora? – Mott abaixou a espada. – Você faz de conta

que é durão, mas já o vi apavorado. Você finge não se importar com ninguém, mas não deixei de notar sua reação quando Latamer caiu. E finge que poderia fugir de sua família em Avenia sem olhar para trás, mas ouço o tom de sua voz quando fala de seu pessoal. Não acho que você odeie as outras pessoas nem metade do que quer fazer crer. Você é um ator agora, Sage. Tudo o que Conner quer é que você represente pelo bem de Carthya, em vez de apenas pelo seu próprio bem.

Mott havia chegado mais perto da verdade do que imaginava. Eu não

queria pensar sobre meus medos, ou sobre Latamer, e especialmente sobre minha família. Eu lhe entreguei a espada e disse:

– Obrigado pela aula, mas nunca serei um príncipe. – Então é muito interessante que você tenha escolhido essa espada –

disse Mott. – É uma réplica da que o príncipe Jaron tinha. Se Conner pode olhar para você e ver um príncipe, talvez seja hora de você começar a fazer o mesmo.