O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 26 de 55

Páginas do PDF

O Falso Príncipe

Capítulo 25

 

Quando Mott e Cregan me colocaram na cama, Errol tentou cuidar das minhas costas, mas resisti tanto que, finalmente, quando acordei, era Imogen quem estava sentada ao meu lado.

Murmurei um “olá” para ela, mas ela desviou os olhos para mostrar que Errol ainda estava no quarto, encostado na parede e parecendo irritado. Então fechei os olhos e voltei a dormir.

Quando acordei novamente, ela usava um pano quente e úmido para limpar o meu rosto. Escurecia lá fora, embora apenas algumas lamparinas estivessem acesas. Olhei em volta, mas parecíamos estar sozinhos no quarto.

– Onde está Errol? – perguntei.

– Foi embora. Por enquanto.

– Então, eles deixaram que você abandonasse a cozinha para brincar de enfermeira?

– Ninguém mais quis vir. Não depois que Errol descreveu todo o incômodo que você estava lhe causando.

– Ele estava fazendo a dor piorar.

Ela franziu o rosto.

– Vou tentar fazer melhor do que ele. Deixe-me dar uma olhada.

– Não. Deve estar um horror, e você vai querer derramar aquela coisa em mim.

– Aquela coisa se chama álcool, e impede que você tenha uma infecção.

Ela me ajudou a virar de bruços, ergueu minha camisa e afastou as bandagens. Houve um longo silêncio, enquanto examinava as minhas costas. Nem parecia que ela estava respirando.

– Ah, Sage.

– É só um corte.

– Que está horrível! Você também está cheio de hematomas. Ela deslizou o dedo suavemente pelas minhas costas. – A sua mão está fria – murmurei.

– E a sua pele está quente. – Ela desamarrou e afrouxou as bandagens, e

então disse: – O ferimento fechou, isso é bom, mas ainda preciso usar álcool.

Dei um grunhido e enterrei o rosto no travesseiro. Ela derramou o

líquido em uma toalha e a pressionou contra as minhas costas, pedindo desculpas o tempo todo. Quando terminou, concentrei-me em manter a respiração regular, enquanto ela amarrava novamente as bandagens.

– Os servos disseram que você fez isso por causa de uma pedrinha –

disse ela. – Eles nos fizeram procurar por toda parte, mas ninguém conseguiu encontrá-la. Onde você a escondeu?

– Qual vai ser a sua recompensa, se eu responder? Imogen recuou, ofendida. Pedi desculpas, mas o estrago já estava feito. – Não sou espiã. Foi só uma pergunta.

– Se você soubesse, talvez eles tentassem arrancar a resposta de você

também.

– Você é a única pessoa no mundo inteiro, e isso inclui Conner, que

realmente se importa com aquela pedra.

– Ouro.

– Seja o que for, você é louco por desafiar Conner daquele jeito. – Só falta uma semana. E então tudo vai mudar. – Você não aprendeu nada no calabouço? Nada vai mudar, a menos

que você decida obedecer às regras de Conner. Você tem que encontrar um jeito de sair daqui.

– Se ele me escolher esta semana, descubro um jeito de tirá-la daqui

também.

Ela hesitou e então disse:

– Você está delirando de exaustão.

– Não estou, não.

– Está, sim – ela insistiu. – Sage, você está, confie em mim. – Se eu for o príncipe...

– Seja qual for o título que eles lhe derem, você sempre será um servo para Conner. Sempre pertencerá de algum modo a ele, o que significa que não está em posição de fazer essa oferta. Agora, já basta; você precisa comer alguma coisa. Consegue se sentar?

Com a ajuda de Imogen, consegui me sentar. Ela se ofereceu para me dar de comer, mas eu disse que preferia comer sozinho.

– Depois de me tornar príncipe, posso enganar Conner – continuei, após tomar algumas colheradas de um caldo quente de legumes. – E me libertar da influência dele. E então você poderia...

Fomos interrompidos por Tobias e Roden, que voltavam para o quarto. Eles pararam na porta, olhando de forma esquisita para mim.

– Pensaram que nunca mais me veriam? – perguntei-lhes.

– É como olhar para um morto – disse Roden.

– Não imaginamos que Conner o traria de volta para cá – disse Tobias. – Não depois do que você fez.

– Então, não tem problema que ele roube de mim, mas eu não posso recuperar o que é meu?

Eles não responderam. Em vez disso, olharam para Imogen como se quisessem que ela saísse antes de dizerem mais alguma coisa. Terminei o resto da sopa e entreguei a tigela a ela, que sacudiu a cabeça discretamente, olhando para mim, e então apanhou as coisas de que eu não precisaria e saiu rapidamente do quarto.

– Agora, de qualquer forma, isso é irrelevante para você – disse Tobias, sentando-se à escrivaninha. – Você perdeu tantas aulas que não tem como se recuperar. Não vai conseguir nem alcançar Roden. Conner vai me escolher.

– Como você sabe disso? – perguntei.

– Não, é verdade – disse Roden, obviamente desapontado. – Conner deixou bem claro durante o jantar de hoje que sou uma decepção para ele e que você é instável demais. Ele não disse nada sobre Tobias. Se Conner tivesse qualquer problema com ele, certamente teria nos dito.

– Tobias não é forte o bastante para ser rei – eu disse. – Eu e você provamos o nosso valor. E ele?

– Eu vou provar. – O rosto de Tobias já estava vermelho, e suspeitei que ficaria ainda mais, antes de ele terminar. – Não me desafie, e não se meta em meu caminho.

Fingindo não ter percebido o tom ameaçador de sua voz, encostei a

cabeça casualmente na parede.

– Esta é a sua chance com Conner, então. Seja forte. Seja ousado. Conte

a ele sobre aquelas anotações que você fez. Mostre-as para ele e prove quão esperto você se tornou.

Tobias olhou para sua pilha de papéis. Rugas de preocupação

apareceram em sua testa quando ele perguntou:

– Você andou mexendo nos meus papéis?

– E que vantagem isso me traria? Só acho que aquelas anotações lhe

mostrariam o resultado dos seus estudos, e lhe provariam que você tem seus próprios planos.

Tobias apanhou seus papéis e os atirou ao fogo. Depois se aproximou

da minha cama, apontando um dedo para o meu rosto, e gritou:

– Você acha que é muito esperto, não é? Mas, se continuar me

provocando, vai ver que é um grande tolo.

– Eu nunca neguei que fosse um – afirmei, deitando-me novamente na

cama. – Essa é a diferença entre nós.