O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 23 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 22

 

O calabouço de Conner cheirava a urina velha. Eu me perguntei vagamente quem mais teria estado lá e há quanto tempo. Era apenas um cômodo com paredes ásperas escavadas na pedra e barras de ferro enferrujadas. Não havia janelas ou fontes de luz, exceto por algumas velas acesas em arandelas na parede do lado oposto das barras de ferro. Estava úmido lá embaixo, e estremeci com o ar frio. Nem estava tão frio, eu é que estava completamente apavorado.

Quando Cregan usou uma das mãos para abrir as grades e me jogar dentro do calabouço, aproveitei para soltar o braço e dar-lhe um bom soco no pescoço. Mott pegou meu braço e o puxou para trás, com o outro, unindo-os fortemente.

– Farei você pagar por isso – Cregan sibilou. Uma vez dentro do calabouço, ele rasgou minha camisa e algemou meus punhos com grilhões presos ao teto. Quando os ergueu, eu mal podia tocar o chão com os braços suspensos acima de mim.

Mott, que estava em um canto do cômodo, começou a vir na minha direção. Ele segurava uma espécie de chicote com empunhadura longa e uma grossa tira de couro na ponta, que havia enrolado.

– Conner disse para vocês não deixarem cicatrizes – observei, sem conseguir controlar a tremedeira na voz.

O sorriso de Cregan revelou sua ânsia por fazer aquele chicote voar sobre minha pele.

– Ele não disse nada sobre hematomas, garoto. Contanto que você seja atingido com o lado de fora da tira, vai sentir dor, mas não vai ter a pele cortada.

– Por favor, não faça isso, Mott – implorei, apavorado.

– Foi você quem provocou, Sage! – ele gritou. – Eu o avisei! – O que há de tão importante nessa pedra, afinal? – perguntou Cregan. – Não é sobre a pedra – disse Mott. – O garoto quer apenas ganhar. Esse

é seu modo de provar que Conner não é seu dono.

– Ele não é meu dono – eu disse.

Aquilo levou Mott a brandir o chicote pela primeira vez. Preparei-me

para sentir dor, mas nada me prepararia para aquilo. Meus lábios se abriram em um grito que não parecia ser meu. Mott brandiu o chicote novamente e ainda uma terceira vez. Minhas pernas entraram em colapso, o que sobrecarregou meus ombros.

– Onde está a pedra? – perguntou Mott.

Sem esperar por uma resposta, ele brandiu o chicote novamente. Senti

como se a dor me dividisse em dois, como se uma parte de mim assistisse a tudo o que estava acontecendo de fora do meu corpo. E foi essa parte de mim que se encolheu diante do som da tira de couro atingindo minha carne. A parte de mim que ainda sentia dor gritou novamente. E mais uma vez.

– Ele não é meu dono – sussurrei. – E o ouro é meu. O chicote brandiu de novo e rasgou minha pele como se fosse uma

garra. Mott fez uma careta.

– Pegue uma toalha.

– Conner disse para não tirar sangue! – disse Cregan. – Ele disse para não deixar cicatrizes. Apanhe os curativos e então vamos

deixá-lo sozinho. Vamos dar ao nosso amigo Sage tempo para pensar em sua próxima resposta.

Cregan desapareceu por um momento enquanto Mott praguejava e

jogava o chicote em um canto do cômodo. Um minuto depois, voltou com um frasco contendo um líquido claro e um pano limpo.

– Vou cuidar disso – disse Mott. – Não conte a Conner nada além do

estritamente necessário.

– Deixe-me cinco minutos sozinho com ele – disse Cregan com um

rosnado. – E descobrirei onde está a pedra.

– Saia! – ordenou Mott.

Quando estávamos sozinhos, Mott abriu o frasco. Eu cheirei o conteúdo e balancei a cabeça.

– Não. Não quero mais.

– Isso não será muito melhor que o chicote – avisou Mott.

E derramou um pouco do líquido sobre o pano, que em seguida pressionou em minhas costas. Uivei novamente e chutei o joelho de Mott, que tropeçou para trás.

– Sage, vai infeccionar se eu não limpar direito! – ele exclamou, parecendo bem irritado. – Sou o único amigo que você tem agora, então não me tire do sério.

– Se você é meu amigo, então quem são meus inimigos?

– Você é seu próprio inimigo, Sage. Procure no espelho pela causa de seus problemas. Você acha que estou satisfeito em machucá-lo com aquele chicote?

Ele pressionou novamente minhas costas com o pano, e eu o amaldiçoei.

– Cuidado com o que fala, ou Conner mandará chicoteá-lo por isso também.

– Está doendo!

Minhas costas queimavam, e cada nervo do meu corpo sentia isso.

– Eu não sei por que Conner ainda não o matou – disse Mott. – Ele é capaz de ver algo em você pelo qual vale a pena continuar mantendo-o vivo, mas a paciência dele não vai durar para sempre. Devolva-lhe a pedra, Sage.

– Não.

Mott enrolou o pano molhado em volta de mim e o amarrou firmemente.

– Você é um tolo – afirmou. – Se sua estratégia para se tornar o príncipe é essa, é uma ideia terrível. Curve-se a Conner, garoto. E devolva-lhe a pedra.

Antes de sair, ele apagou todas as velas, deixando-me suspenso pelos braços, quase nu, ferido e na mais completa escuridão.