O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 13 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 12

 

Mott me acompanhou de volta para dentro de Farthenwood. Estava claro que tinha ordens para garantir que eu nunca fosse deixado sozinho. Ele me descreveu em detalhes como a cópia da espada de Jaron fora forjada a partir de um simples desenho que o pai de Conner havia feito certa vez, de memória, já que ela havia se perdido com o ataque pirata ao navio. Eu não ligava a mínima para a história nem me preocupava em fingir prestar atenção.

– Acho que eu deveria voltar para a sala de jantar – resmunguei.

– Você está suado. Um cavalheiro jamais entraria em uma sala de jantar cheirando desse jeito.

– Então aonde eu vou?

– De volta ao quarto. Roden e Tobias irão se juntar a você em breve.

– Não tem nada para fazer no quarto.

– Durma um pouco. Amanhã começa o treinamento para que o plano de mestre Conner funcione, e asseguro que será exaustivo.

– Você vai se acorrentar a mim de novo?

Ele sorriu.

– Claro que não. Mas seu quarto será vigiado. Se tentar fugir, um dos guardas vai pegá-lo. Acredite em mim quando lhe digo que você vai se arrepender se perturbar meu sono por duas noites seguidas.

– Você é um dos servos de Conner também? – perguntei a Mott. – Ele é seu dono?

– Eu lhe sirvo, mas ele não é meu dono. Meu pai trabalhou para o pai dele, então era natural que eu trabalhasse para o filho. Acredito nele, Sage. Espero que com o tempo você também acredite.

– Ele matou Latamer. Depois de dizer ao garoto que estava livre para ir embora, ele o matou.

– Para ser preciso, Cregan matou Latamer, apesar de ter sido por ordem

de Conner.

Mott ficou calado por um instante, e então disse: – Mestre Conner não é aspirante a padre e não quer ser adorado como

herói. Mas é patriota, Sage, e faz o que acredita ser melhor para Carthya. Latamer nunca deveria ter sido escolhido para vir conosco. Era melhor ele morrer do que falhar nos desafios das próximas duas semanas.

– Acho que Conner queria que nós o víssemos matar Latamer. Então

saberíamos quanto ele leva esse plano a sério.

– Talvez – disse Mott. – E, se essa era a ideia dele, certamente funcionou. Parei de andar por um instante, forçando Mott a parar também e a

olhar para mim. Em voz baixa, perguntei-lhe:

– E quanto aos dois garotos que não forem escolhidos para o plano? Ele

vai matá-los também?

Mott pousou a mão em meu ombro e me fez voltar a andar. – Ele tem que proteger o sigilo do plano. Garanta que seja você o

escolhido, Sage.

Errol estava esperando em um banco ao lado da porta do quarto

quando chegamos. Mott pediu que ele entrasse comigo e me ajudasse a me vestir para dormir.

– Não preciso de ajuda para me vestir – disse a ambos. – Resolvi o

mistério de como abotoar uma camisa há muito tempo.

– Ajude-o – repetiu Mott.

Errol olhou para mim, silenciosamente suplicando que eu aceitasse a

ordem para que ele não tivesse que lidar com Mott. Suspirei alto o suficiente para que Mott percebesse minha irritação, e então concordei.

– Certo. Vamos acabar logo com isso.

Mott esperou do lado de fora. Errol fechou a porta e começou a mexer

nas gavetas do meu guarda-roupa enquanto eu explorava o quarto. A sra. Turbeldy poderia ter enfiado todos os garotos do orfanato em um quarto daquele tamanho. Parecia um desperdício ter apenas três camas ali dentro. Em um forte contraste com tudo o que eu já havia experimentado no orfanato, os colchões nas camas eram grossos, e os cobertores, espessos. Cada cama tinha um pequeno guarda-roupa do lado, e havia uma escrivaninha no centro do quarto, de frente para a lareira. O pensamento de que talvez eu nunca mais tivesse que viver em um orfanato me deixou momentaneamente atordoado. Se pelo menos aquela nova vida não tivesse um preço tão alto.

– Qual é a minha cama? – perguntei.

Errol apontou a que ficava do outro lado do quarto.

– Aquela, senhor.

– Eu quero essa, perto da janela.

– Essa é do mestre Roden.

– Mestre Roden?

Errol não notou o sarcasmo.

– Sim, senhor.

– Bem, o mestre Roden pode ficar com a minha cama. Vou ficar com essa ao lado da janela.

– Mestre Roden já foi informado de que essa é a cama dele.

Puxei as cobertas e cuspi no travesseiro.

– Conte a ele o que eu fiz. Se ele ainda quiser essa, vai dormir com meu cuspe.

Errol sorriu.

– Sim, senhor. Pronto para se vestir?

Estendi os braços e deixei Errol fazer seu trabalho. Ele trabalhava calado e rapidamente, o que me fazia me sentir mais ridículo.

– Errol, enquanto comíamos, havia uma garota servindo. Mais ou menos da minha idade, cabelo escuro, olhos escuros.

– Seu nome é Imogen, senhor. Ela veio para cá há um ano.

– Como?

– Bem, mestre Conner aumentou o aluguel da casa da família dela. Eles se afundaram cada vez mais em dívidas. Mestre Conner fez uma oferta para que Imogen viesse trabalhar aqui a fim de abater a dívida, mas com o aluguel tão alto sobre a casa da família, ela nunca vai conseguir.

– Por que ela?

– A maioria de nós acha que é vingança. A mãe de Imogen é viúva. Conner lhe propôs casamento anos atrás, mas ela recusou. Alguns acreditam que ele queria Imogen aqui para que pudesse se casar com ela quando crescesse, mas ele perdeu o interesse rapidamente e a colocou para trabalhar na cozinha.

– Por quê?

– Ela é muda, senhor. E não é especialmente inteligente, também.

Consegue dar conta do serviço, mas nunca será mais do que uma ajudante de cozinha. Pronto, o senhor está vestido.

Eu ri quando olhei para minhas roupas de dormir. Talvez estivesse

muito acostumado a dormir vestido com as roupas de sempre, mas estava me sentindo arrumado demais.

– O que é isso? – perguntei, puxando a vestimenta externa. – Um robe. O senhor vai tirá-lo antes de ir para a cama. – Mas estou a três passos da minha cama.

Errol sorriu novamente. Alguma coisa em mim frequentemente o

divertia.

– O senhor gostaria que eu tirasse o robe para o senhor? – Não. Eu mesmo faço isso.

– Posso fazer mais alguma coisa pelo senhor esta noite? – Onde estão minhas roupas? Aquelas com as quais eu cheguei aqui? – Eu as guardei para o senhor. Estão sendo lavadas. – Elas não precisavam ser lavadas.

Errol tossiu.

– Eu lhe asseguro de que precisavam, mas, fora o fato de que estarão

limpas, eu as manterei do jeito que estavam antes.

Ele se ocupou dobrando as roupas que eu havia usado à tarde. – Quando elas voltarem à sua gaveta, eu ganharei algo em troca? Se ele estava esperando por uma recompensa imediata, ficaria

desapontado. Assenti sem demonstrar emoção.

– Quando elas estiverem em minha gaveta, você receberá. Pode ir agora,

Errol. Diga aos outros que entrem calados, porque estarei dormindo.

Errol fechou as portas do meu guarda-roupa. Vi Mott me espiar

quando as portas se abriram, mas, quando Errol saiu, finalmente fiquei só.

Abri a janela, pretendendo fugir por ela, mas parei quando a brisa

fresca da noite tocou o meu rosto. Fui tomado por muitas emoções de uma só vez, como se fossem uma onda. O plano de Conner era pior do que eu previra, e não importava o que Mott dissera – eu sabia que não estava à altura do desafio. Olhei para fora, para a noite escura, e imaginei quanto tempo eu levaria para correr através das terras de Conner. Além delas, havia um rio que poderia esconder o meu rastro. Eu poderia caminhar a noite toda e pelo tempo que fosse preciso até alcançar Avenia e a liberdade.

Mas eu não poderia fazê-lo. Agora que eu sabia seu segredo, Conner jamais pararia de me caçar. Eu estava preso naquele lugar. E minha escolha era bem clara: ou eu me transformava no príncipe, ou ele me mataria.