O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 50 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 49

 

 

Assim que Conner saiu, Mott surgiu ao meu lado. Ele me ajudou a ficar em pé e a ir até a cama. Eu me deitei de costas e gemi com a mão no peito.

– Acho que ele trincou uma de minhas costelas – reclamei. – Ele bate

bem mais forte que você.

– Para ser justo, Vossa Alteza, eu estava me segurando – disse Mott. Eu queria rir, mas, nas últimas duas semanas, aprendera quanto aquilo

poderia doer. Então apenas fechei os olhos enquanto ele desabotoava minha camisa, procurando por outros ferimentos.

– Por que não me deixou dizer-lhe a verdade? – perguntou Mott. – Ele

logo vai descobrir, de qualquer modo, e o senhor poderia ter se poupado de toda essa dor.

– Ele nunca teria acreditado – respondi. – Ele deveria saber quem eu sou

melhor do que ninguém, mas só o que consegue enxergar é o garoto do orfanato. É o que Conner sempre verá em mim.

– Pode ser – disse Mott. – Além de um corte pequeno no seu peito, não

consigo ver nenhum outro estrago.

– Acredite em mim, há estragos. Você não poderia tê-lo impedido? – Só você poderia.

Ele começou a deslizar minha camisa pelos braços, para tirá-la. Eu o

deixei fazer todo o trabalho.

– O que foi que passou pela sua cabeça, para cuspir nele daquele jeito

no final? Estava pedindo mais?

Respondi com um “ai” quando Mott empurrou meu braço esquerdo

para trás. Ele se desculpou e passou a ser mais cuidadoso.

– O senhor é o garoto mais tolo que eu já conheci – disse Mott. Com a

voz um pouco mais suave, continuou: – Mas servirá muito bem a Carthya.

– Eu gostaria de me sentir pronto para fazer isso – falei. – Mas, quanto mais o momento se aproxima, mais vejo as falhas em meu caráter que fizeram com que meus pais me mandassem embora, para começar.

– Pelo que ouvi dizer, o príncipe que eles mandaram embora era egoísta, malicioso e destrutivo. O rei que retorna é corajoso, nobre e forte.

– E um tolo – acrescentei.

Mott riu.

– Isso também.

Vestir-me com a roupa que Conner havia planejado para minha primeira aparição levou um bom tempo. Era mais sofisticada que as que eu habitualmente usara em Farthenwood, e imediatamente me lembrou da única coisa da vida no castelo da qual eu não sentira a menor falta. A túnica era longa e preta, com uma fita dourada de cetim que ia do peito até a barra. Debaixo dela, eu usava uma camisa branca, que apertava o pescoço, com mangas largas que se franziam nos punhos. Uma capa púrpura pendia-me dos ombros, presa a uma corrente de ouro mais pesada do que parecia.

– Isso é ouro de verdade? – perguntei. Mott fez que sim com a cabeça e me ofereceu um par de botas novas de couro e um chapéu ridículo com uma longa pluma branca. Peguei as botas e ignorei o chapéu.

Sentei-me à frente do espelho, enquanto Mott penteava meu cabelo e o prendia com uma fita.

– Sua bochecha ainda está vermelha onde mestre Conner o acertou – disse ele –, mas já terá voltado ao normal antes de chegarmos ao castelo.

– Espero que não. Para lembrar a Conner quanto ele acha que é importante para mim. – Olhei o reflexo de Mott nos olhos. – Eu tenho sua lealdade?

Ele assentiu.

– Tem a minha vida, príncipe Jaron.

Ele acabou de dobrar a lapela da minha casaca, e então disse:

– Como o senhor se vê agora?

– Estou tão bem quanto posso ser.

Alguém bateu na porta. Mott a abriu, e Imogen entrou com uma bandeja de comida. Seus olhos estavam vermelhos, mas secos. Eu queria que Mott saísse para que eu pudesse falar com ela, mas sabia que ele tinha que obedecer à ordem de Conner e ficar. E também, na verdade, não havia mais nada que eu pudesse dizer a Imogen além do que já tinha sido dito. Ela seria a maior vítima naquele plano, o que era inteiramente minha culpa. Se fosse possível pedir perdão a ela, eu não saberia como.

Ela pousou a bandeja na pequena mesa de centro. Mott mandou que

ela trouxesse a bandeja para mim, mas ergui a mão e disse que iria pessoalmente até lá. Ela deve ter notado algo diferente no jeito dolorido com que eu caminhava, porque franziu a testa e olhou inquisitivamente para mim. Eu sorri para ela, mas acho que ela não acreditou.

– Quer que ela saia enquanto você come? – perguntou Mott. Ignorei-o e perguntei a ela:

– Você já comeu hoje?

Ela olhou de lado para Mott, mas eu disse:

– Imogen, fui eu quem perguntou, não ele. Ela balançou a cabeça lentamente. Tirei a tampa da bandeja e encontrei

uma torta de carne e uma grossa fatia de pão.

– Há comida suficiente para nós dois aqui.

Ela disse não para mim só com os lábios, em silêncio, mas fingi não ver.

Com uma colher, tirei para ela uma porção de bom tamanho, que coloquei no prato onde estivera o pão. Eu o entreguei a ela com a colher e disse que comeria minha metade depois que ela tivesse usado o talher.

– Você já comeu, Mott?– perguntei.

– É melhor repartir essa refeição só por dois – disse ele. Imogen devorou a refeição como se fosse a primeira coisa que comia em

dias. Ela terminou a torta de carne, então pegou o guardanapo e limpou cuidadosamente a colher antes de devolvê-la para mim.

– Quer mais? – perguntei. – Eu não estou com fome. Ela balançou a cabeça e ficou de pé, saindo de perto da mesa com a

cabeça baixa.

– Ela irá para o castelo conosco esta noite – eu disse a Mott. – Isso não faz parte do plano de Conner... – ele começou a dizer. – Mas faz parte do meu. O que Tobias e Roden fizeram o dia todo? – Conner ouviu um boato a noite passada. Ele os mandou para a cidade, para ver se descobriam alguma coisa.

– Que boato?

– De que há outros príncipes, Vossa... outros príncipes, Sage. Parece que Conner não é o único com esse plano.

– Sim, mas Conner tem uma vantagem que os outros não têm, certo? – argumentei com um sorriso, ao que Mott respondeu com outro. Imogen notou, mas evidentemente não disse nada.

Conner voltou ao quarto no momento em que eu acabava de comer. Ele ordenou a Imogen que devolvesse a bandeja, e a Mott que esperasse do lado de fora. Então fechou a porta, com dois pacotes nos braços.

– Você está com boa aparência – disse ele.

– Melhor do que minha saúde – respondi friamente.

Conner olhou para mim sem remorso nos olhos.

– Acredito que os hematomas manterão minhas palavras em sua memória por um bom tempo.

Seria mais correto dizer que eu jamais as esqueceria. Um enjoo incrível subia pela minha garganta toda vez que eu pensava em suas malditas palavras. Indiquei os pacotes com a cabeça.

– O que há neles?

Ele começou a desembrulhar o primeiro, que era também o menor.

– Você já viu isso antes – ele disse, revelando a caixa incrustada de esmeraldas. – Pertencia à rainha Erin. Há algo sobre ela que poucas pessoas sabem. Na verdade, eu mesmo não sabia, até que peguei esta caixa após a morte da rainha e vi o conteúdo.

Então ele enfiou uma estreita chave de bronze na fechadura e abriu a caixa. Tudo o que pude ver foram alguns papéis dobrados.

– O que são?

Ele os entregou a mim.

– Você vai colocá-los no bolso. Acho que já temos provas suficientes de sua identidade, mas é melhor sempre ter mais uma garantia.

Desdobrei os papéis e não pude abafar um gemido de surpresa. Eu sabia que minha mãe tinha dons artísticos, mas nunca valorizara suas habilidades quando criança. Era um desenho simples de mim, com a idade que eu tinha quando ela e meu pai me mandaram para longe.

Eu me fixei na forma como ela havia retratado meus olhos. Não me

mostrava com a arrogância ou o ar de desafio que os artistas do castelo inevitavelmente me conferiam, mas com os detalhes sutis que só uma mãe perceberia, como se ela visse coisas em seu filho que ninguém mais notasse. Olhando para o desenho, eu me vi como ela devia ter me visto e passei de leve o polegar sobre o papel. Então pude sentir como ela me amava.

Percebi Conner me estudando enquanto eu olhava o retrato.

Rapidamente dobrei o papel e o enfiei no bolso da túnica.

Ele continuou a me observar.

– Príncipe Jaron?

Cocei o rosto.

– Acho que vou ter que me acostumar com as pessoas me chamando

assim. Você acha que em algum momento eu posso adotar Sage como apelido?

– Não, não pode – Conner sorriu e sua expressão relaxou. – Mas acho

que eu deveria começar a chamá-lo de Jaron, para que você vá se habituando – disse ele, hesitante. – Por um momento, agora há pouco, eu pensei...

– O que há no outro pacote? – perguntei.

Ele se distraiu.

– Ah! – Conner deixou a caixa e começou a desembrulhar o outro

pacote. – Esta é a prova que vai selar sua identidade. Quando o príncipe embarcou naquele navio, há quatro anos, ele usava esta coroa. Ela esteve perdida todo esse tempo. Todos presumiram que estava no fundo do mar. Na verdade, mesmo que um mergulhador a tivesse encontrado com a intenção de apresentar um falso príncipe, o metal e as joias da coroa teriam estragado em virtude da água salgada. Mas veja com seus próprios olhos – e ele abriu o pacote, tirando de lá a coroa que eu havia usado pela última vez naquele navio.

Era um pequeno círculo de ouro, com rubis na base de cada arco e fios

de ouro trançados nas bordas. A coroa havia sido feita para que eu a usasse enquanto crescia, por isso desconfiei que me serviria melhor agora do que na época. Estava em perfeitas condições, exceto por um amassado que eu mesmo havia feito ao cair de uma árvore enquanto a usava.

– Os piratas a resgataram do navio antes que afundasse – disse Conner. – Eles a mostraram a mim como prova da morte de Jaron.

Eu havia deixado a coroa para trás antes de escapar do navio. Queria que ela fosse um símbolo de que eu havia abandonado a família real para sempre.

– Olhe-se no espelho – disse Conner.

Obedeci e observei enquanto ele pôs a coroa em minha cabeça. O peso dela fez fluir um rio de lembranças em mim. A partir daquele momento, eu era o príncipe novamente. E em breve o país inteiro saberia disso.