O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 54 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 53

 

Eu não tinha pressa. Tudo o que importava era a ordem segundo a qual eu completaria o plano. Fiquei na tribuna, na ponta da sala, uma plataforma reservada para a realeza e os cortesãos convidados para aquele espaço formal. Atrás de mim, estavam os tronos do rei, da rainha e de Darius. O trono de Jaron não estava mais ali. Eu me perguntei quanto tempo eles haviam esperado para retirarem-no dali.

O salão estava repleto com algumas centenas de pessoas e, apesar de não me lembrar de nenhuma delas, elas claramente me reconheceram. Eu havia entrado no salão através de uma porta que levava diretamente aos aposentos privados da família real. Não houvera nenhum anúncio de minha chegada, mas aparentemente isso não era necessário. Os olhos arregalados e o total silêncio de todos enquanto me encaravam confirmavam isso.

Vi Kerwyn vir pela porta da sala do trono, onde ele e os outros regentes tinham estado reunidos. A ele eu reconheci. Ele mal havia mudado nos últimos quatro anos, era ainda uma presença poderosa, e alguém a quem eu sempre havia respeitado. Por sua expressão, era óbvio que ele sabia quem eu deveria ser. Mas parecia estar lutando contra os próprios olhos.

– Quem é você? – perguntou Kerwyn, cauteloso como sempre.

A primeira coisa que eu havia feito tinha sido recuperar minha espada – a verdadeira, que pertencera ao príncipe Jaron. Antes de deixar o castelo, quatro anos antes, eu a havia escondido sob uma tábua solta no meu quarto, acessível apenas a quem se dispusesse a rastejar até debaixo da cama. Meu quarto permanecera exatamente como estava na noite em que parti. Minha espada também ainda estava lá e, apesar de estar coberta por uma fina camada de poeira, tinha exatamente a mesma aparência de antes.

Eu a equilibrei horizontalmente sobre a palma das mãos e me ajoelhei

diante de lorde Kerwyn quando ele se aproximou de mim.

– O senhor me conhece, lorde Kerwyn. Eu sou aquele garoto que

queimou a sala do trono e que desafiou o rei de Mendenwal para um duelo. Eu sou o príncipe mais jovem de Carthya. Eu sou Jaron.

Um sussurro se espalhou pelo salão. Kerwyn não pareceu muito

impressionado, mas continuou ouvindo.

Eu fiquei de pé e apontei para uma pequena marca na lâmina da

espada.

– Depois de perder o duelo para aquele rei, joguei a espada longe, com

raiva, e ela bateu na quina afiada de uma das paredes do castelo. O senhor a devolveu para mim mais tarde, em particular, e me disse que, se eu não respeitasse minha espada, ninguém me respeitaria. Depois o senhor se desculpou, porque também tinha ouvido o que o rei dissera sobre minha mãe, mas não ousara desafiá-lo.

Kerwyn vacilou por um instante, mas se recuperou. – Alguém pode ter ouvido isso.

– Talvez, mas foi comigo que o senhor falou naquele dia. Sem desviar o olhar do seu, remexi no bolso e tirei de lá uma pequena

pedra dourada. Era o último presente que meu pai me dera, dentro de uma bolsa, na igreja. Depois que eu a roubara de volta de Conner, ela nunca estivera especialmente bem escondida. Qualquer pessoa que desejasse se aventurar pelos parapeitos das janelas mais altas de Farthenwood a teria encontrado. Mais tarde, eu a mudara de lugar, para a margem do riacho nos confins das terras de Conner, onde ela ficara cuidadosamente escondida em seu lugar entre mil outras pedras comuns.

– Isto é para o senhor – eu disse, colocando a pedra na mão de Kerwyn. Ele a revirou nas mãos, sem se impressionar. – Ouro de tolo? Isso não vale nada.

– Não, é ouro real. Eu sou real, lorde Kerwyn. Lágrimas brotaram nos olhos de Kerwyn. Ele puxou um papel surrado e

vincado do bolso e o desdobrou. Suas mãos tremiam cada vez mais enquanto o lia. Então se voltou para a multidão e disse:

– Este bilhete me foi dado pelo rei Eckbert cerca de um mês depois que o navio do príncipe Jaron foi atacado, há quatro anos. Eu fui instruído a guardá-lo comigo o tempo todo, e a lê-lo apenas se algum dia alguém aparecesse dizendo ser o príncipe. Eis o que ele diz – e Kerwyn passou a ler em voz alta: – “Vários jovens se apresentarão dizendo ser o príncipe perdido de Carthya. Eles serão bem ensaiados e alguns poderão até se parecer com ele. Você saberá quem é o verdadeiro príncipe Jaron por um único sinal: ele lhe dará a mais humilde das pedras e lhe dirá que é ouro”.

Então Kerwyn dobrou o papel novamente e disse para as pessoas ali reunidas:

– Senhores e senhoras da nobreza de Carthya, eu lhes apresento o filho do rei Eckbert e da rainha Erin. Ele é o membro perdido da realeza de Carthya, que vive e está diante de vocês agora. Salve, príncipe Jaron.

Daí se virou para mim e se ajoelhou à minha frente. Pegou minha mão, colocou nela o bilhete e então me beijou as costas da mão.

Em uníssono, todos no salão se ajoelharam e disseram:

– Salve, príncipe Jaron.

Kerwyn olhou para mim, e uma única lágrima correu por seu rosto.

– Suas calças estão imundas, como se você tivesse rolado no chão antes de entrar aqui. Eu não esperaria nada menos que isso do garoto que conheci.

Eu sorri.

– Eu voltei para casa. Agora o senhor me reconhece?

– Em uma multidão de mil garotos clamando ser o príncipe, haveria apenas um com a mesma promessa de encrenca nos olhos. Prometo não esquecê-lo outra vez.

De repente, por mais que eu pensasse que tinha tudo planejado, fiquei perdido. Será que eu deveria lhes dizer para se levantarem ou dar alguma ordem? Todos eles me observavam, esperando para ver o que eu faria a seguir.

Havia apenas uma pessoa no salão que não se ajoelhara. Bevin Conner estava de pé, congelado, no fundo da sala. Caminhei em meio à multidão, que ficou de pé e abriu caminho, como por mágica, à minha frente.

Conner reencontrou as palavras e as disse lentamente:

– Não pode ser. Você... Eu desconfiei uma ou duas vezes, mas... Meu Deus, como pude ser tão cego?

– Você viu o que queria ver, Conner, nada mais. – Ele não vê nada além de uma fraude, e eu também – disse

Veldergrath, atrás de mim. – Está claro que é um impostor.

Eu me virei e sorri para ele.

– O senhor está dispensado de seus deveres como primeiro regente,

lorde Veldergrath.

Então, virei-me para Conner e disse:

– Viu como cumpro minhas promessas? Por enquanto, você é meu

primeiro regente.

Conner não devolveu o sorriso. Ele ainda estava meio paralisado. – Você não pode fazer isso! – desdenhou Veldergrath. – Quem é você,

na verdade? Ouvi dizer que Conner passou por todos os orfanatos de Carthya. Sem dúvida o encontrou lá, entre as outras pulgas e parasitas.

– É verdade. Eu vivi em vários orfanatos em diferentes épocas, e

chamavam-me de Sage. Procure meu rastro até onde puder. Vai descobrir que a primeira vez que apareci foi há cerca de quatro anos, pouco depois que Jaron desapareceu.

Veldergrath riu.

– Então você admite ser um deles? E agora espera que eu me ajoelhe

diante de você?

Eu sorri.

– O senhor tem razão. É engraçado.

Então eu ri com ele, ri tanto que pus a mão em seu ombro para

compartilhar melhor a piada. Ele não gostou disso e empurrou minha mão, como quem afasta um inseto de cima da roupa.

Com a outra mão, tirei uma moeda de seu colete e a fiz rolar entre a

ponta dos dedos.

– Você me conhece, não é, lorde Veldergrath? Ele esfregou seu anel de prata enquanto sinais de ansiedade tomavam

conta de seu rosto. Eu indiquei seu anel com a cabeça.

– Eu roubei isso do senhor uma vez, tirei do seu dedo bem debaixo do

seu nariz. Você se lembra disso, tenho certeza. Levou horas para perceber. E disse à minha mãe que eu era incorrigível.

– Aparentemente, você mudou muito pouco – resmungou Veldergrath.

Mais alto, perguntei:

– Tenho guardas aqui? Acompanhem lorde Veldergrath para fora deste castelo – e joguei a moeda de volta para ele. – Pense em todas as perguntas que possa ter para verificar minha identidade. Nós nos veremos de novo em breve, e prometo que satisfarei sua curiosidade.

Dois guardas apareceram, um de cada lado de Veldergrath. Um pegou seu braço e começou a puxá-lo para fora, mas ele se soltou e disse:

– Não, Vossa Alteza. Agora que eu o vejo de perto... não haverá perguntas.

Então, como um cachorro que houvesse sido repreendido, ele saiu, caminhando à frente dos guardas.

– Eu tenho perguntas – disse alguém atrás de mim. Eu já tinha ouvido aquela voz antes. Era a pessoa que eu menos queria ver, apesar de ser a mais inevitável.

A princesa prometida Amarinda estava no centro da clareira que eu havia criado ao caminhar por entre a multidão. Seu penteado era muito mais elaborado do que da última vez que havíamos nos visto, amontoado bem alto na cabeça e cheio de cachos e fitas. Ela usava um vestido creme de decote quadrado, com um emaranhado de estampas em tons dourados e detalhes feitos para combinar com a fita no cabelo. Ela já ouvira os sinos dobrando pela morte da família real. Eu mal podia imaginar a dor que ela devia ter sentido, pensando em quem teria sido escolhido como novo governante de Carthya e o que ele faria a respeito dela. Não importava o que ela tivesse antecipado para esta noite, uma coisa era certa: ela não esperava por mim.

Caminhei até ela e me inclinei educadamente:

– Princesa, é bom vê-la novamente.

A expressão dura em seu rosto deixava claro que ela não sentia o mesmo.

Consciente dos muitos olhares sobre nós, cheguei mais perto dela e sussurrei:

– Podemos conversar?

Ela foi fria ao responder:

– Conversar com quem? Com um serviçal atrevido, um órfão

esfarrapado ou um príncipe?

– Comigo.

– Aqui, em público? – Hesitei e ela acrescentou: – Vamos fazer uma cena

se ficarmos apenas conversando. Dance comigo.

Comecei a protestar, mas ela estava certa. Uma dança poderia ser a

melhor proteção para a conversa que deveríamos ter. Então fiz um gesto para os músicos que estavam em um canto, para que tocassem. Com pouco esforço para disfarçar a aversão, ela pegou minha mão e começamos a dançar.

– O corte em seu rosto ainda não sarou, apesar de estar bem melhor do

que antes – disse ela, finalmente.

– Não era para você ter me notado aquela noite – expliquei. – Então você não deveria ter falado comigo como fez. – Eu às vezes não tenho o talento de saber quando falar e quando me

calar.

– Isso não é verdade – rebateu ela. Então inspirou profundamente e

voltou a se concentrar no ritmo da dança. – Você teve todas as oportunidades de ser honesto comigo sobre a única coisa que mais importava! Não foi falta de talento. Você fez de propósito.

– Eu não menti para você naquela noite, nenhuma vez. – Mesmo depois que eu implorei para que o fizesse, você não me

contou a verdade. Só os demônios sabem a diferença entre isso e uma mentira. Você me feriu e me insultou.

Eu não tinha resposta para aquilo, então disse apenas: – Você nunca mais vai me ver sendo desonesto, princesa. – Espero que não. Nem para poupar seus sentimentos, nem os meus.

Como devo me dirigir a você agora? Você não é mais Sage.

O passo da dança pedia que eu me inclinasse à minha direita. Se ela

notou minha careta pela dor que eu sentia nas costelas, não deixou transparecer. Quando me endireitei, pude falar novamente.

– Chame-me de Jaron.

– Você dança como alguém da realeza, Jaron. Melhor que seu irmão. – Não me compare com ele.

Ela ficou tensa.

– Estava tentando elogiá-lo.

– Darius e eu somos pessoas muito diferentes. Se você pensar nele quando pensar em mim, serei sempre um fracasso para você.

Ela piscou rapidamente, várias vezes, tentando afastar as lágrimas, e ficamos em silêncio. Ambos sabíamos que havia mais a dizer, muito mais, e ainda assim completamos o restante da dança sem trocar mais nenhuma palavra.

Quando a música terminou, Amarinda se afastou de mim.

– O que vai acontecer agora, comigo?

– O que você quiser – respondi.

– Tudo o que eu quero é ser feliz – disse ela suavemente. – Mas temo que seja pedir demais.

Meu sorriso para ela foi fraco e conciliador. Eu não havia causado a morte de meu irmão, mas minha presença ali e em sua vida era uma consequência dela.

– Conversaremos mais tarde. Em particular.

Ela concordou, apesar de a expressão de repulsa ter voltado ao seu rosto.

– Posso ter sua permissão para sair agora? Estou indisposta e gostaria de ficar só.

Eu assenti e, enquanto Amarinda desaparecia na multidão, fiquei novamente sozinho com um monte de estranhos.

Ainda na ponta do salão, Kerwyn disse:

– Vossa Alteza, deve haver uma cerimônia para oficializar seu novo título. Lamento que sua coroa esteja há muito perdida.

– Ela está comigo! – exclamou Tobias, abrindo caminho e segurando nos braços algo enrolado em um pano de prato. Ele estava molhado e cheirava muito mal. Perguntei-me como havia conseguido chegar tão longe dentro do castelo. Quando me viu, parou e fez uma reverência. – Então você era o príncipe o tempo todo. Como eu não consegui ver? – ele perguntou, com o rosto pálido. – Ah, e os crimes que eu cometi contra você...

– Você os cometeu contra um órfão chamado Sage. Contra Jaron, não cometeu crime algum.

Tobias acenou com a cabeça e desembrulhou o pano de prato. – Sua coroa, meu príncipe.

Conner subitamente apareceu ao lado dele. Agarrou a coroa e disse: – Eu sou seu primeiro regente. É meu dever coroá-lo na cerimônia. Enquanto caminhávamos juntos, Conner sussurrou: – Se você puder me perdoar, eu o servirei para sempre. Em seus

termos... Jaron.

Fiquei quieto. Apesar de as coisas não terem corrido exatamente como

ele gostaria, o plano de Conner fora completado. O meu não.