O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 49 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 48

 

 

Conner me sabatinou sem parar por quatro horas. Ele se recusou a responder a qualquer batida na porta com algo além de um “Vá embora!”, e negou meus pedidos para que parássemos de vez em quando porque eu estava exausto. Eu não me importava realmente com a maior parte do que ele me disse, mas precisava me lembrar de tudo, palavra por palavra, para repetir quando ele perguntasse.

Finalmente, no fim da tarde, Conner disse que eu estava pronto para

aparecer diante da corte. Orgulhoso de si mesmo, ele se declarou um excelente professor. Mal imaginava quanto seu aluno já conhecia de todos aqueles assuntos. Ainda assim, havia algumas coisas que eu não sabia. Coisas que eu era jovem demais para entender quando partira, ainda criança. Conner me dera uma porção de detalhes da infância de Jaron, com tal intimidade que tive que perguntar como ele podia saber tanto.

– Eu li os diários da rainha – disse ele. – Ela escrevia sempre sobre Jaron. – É mesmo?

Era impossível parecer que eu não me importava com o que minha mãe

realmente pensava a meu respeito, e a curiosidade queimava meu coração. Eu sabia que ela me amava, porque todas as mães amam seus filhos. Mas ela havia apoiado meu pai quando ele decidira me enviar para longe, e eu nunca conseguira esquecer isso.

– Jaron tinha a reputação de ser uma criança difícil – eu disse. – Ela

chegou a perdoá-lo por isso?

Conner sorriu.

– Interessante sua escolha de palavras, Sage. Engraçado você achar que

ela pensava que havia algo em Jaron que precisasse ser perdoado. Ela acreditava que ele era exatamente igual a ela. Ele pode ter sido difícil, mas ela o amava ainda mais por isso.

Nós tínhamos que mudar de assunto, rápido. Aquilo tudo estava muito próximo de mim, e era muito difícil pensar naquelas coisas.

Conner também me forneceu uma história conveniente sobre como eu havia escapado dos piratas. De acordo com ele, eu teria visto o navio deles se aproximando e fugido em um bote salva-vidas. Depois, teria ficado escondido em orfanatos avenianos por medo, todo esse tempo, só aparecendo quando ouvi os boatos da morte de Eckbert e Erin.

Eu o convenci a mudar um pouco a história.

– Deixe que eu diga que estava no orfanato da sra. Turbeldy. Assim, se alguém de lá disser que me conhece, podemos confirmar que era eu mesmo, mas disfarçado o tempo todo.

O rosto de Conner se iluminou.

– É por isso que você vai convencê-los esta noite! Você tem um grande dom para pensar rápido quando necessário.

Conner declarou que eu estava finalmente pronto para me apresentar à corte, mas eu não estava preparado para o que aconteceu a seguir. Ele chamou Mott, que entrou no quarto carregando uma corda numa mão e um pedaço de pano na outra. Seu rosto estava pálido e ele entrou no quarto quase sem conseguir olhar para mim.

– Você se sente mal, homem? – perguntou Conner.

– Não, senhor. Eu só... nós não podemos fazer isso.

Então ele olhou para Conner com os olhos úmidos, e eu entendi. Mott balançou a cabeça.

– Se o senhor soubesse... esse garoto... ele...

– Ande logo – eu disse, virando-me para Mott. Tive de usar toda a minha força para dizer o que precisava ser dito, sabendo o que estava por vir. – Você é o cão desgraçado de Conner, não é?

Sem avisar, Conner me agarrou pelo pescoço e me segurou enquanto Mott amarrava minhas mãos. Eu notei que ele deixou a corda frouxa em torno dos pulsos, mas isso não importava. Apesar de estar revirado por dentro, eu tinha que deixar Conner fazer o que ele desejava. Então Conner me soltou, e Mott pôs uma mordaça em minha boca. Ele ainda se recusava a olhar para mim, mas vi rugas profundas em seu rosto. Ele não estava mais contente do que eu com o que ia acontecer.

– Lembre-se, Mott, não deixe marcas – disse Conner. Mott pôs uma das mãos em meu ombro e, pela primeira vez, olhou em

meus olhos. Ele apertou meu ombro de leve, em uma tentativa de se desculpar, e então me deu um soco no estômago.

Cambaleei para trás e caí no chão. Era difícil respirar, especialmente com

a mordaça entre os dentes, e mal tive tempo de me recuperar antes que Mott me pusesse de pé de novo com um tranco. Ele desabotoou os três primeiros botões da minha camisa, e aí caminhou atrás de mim e passou os braços pela dobra dos meus cotovelos, puxando minhas mãos amarradas contra meu corpo. Gemi por causa da dor nos ombros e nas costas, mas ele não me deixou espaço para qualquer movimento.

Conner tirou uma faca da bainha e caminhou até bem perto de mim.

Encostou a ponta da lâmina no meu peito e a manteve ali.

– Eu sei que foi Tobias quem tentou matá-lo antes – disse ele –, mas ele

não pôde fazê-lo, porque é um fraco. Um líder tem de ser forte, Sage. Você acredita nisso?

Não me mexi. Eu só conseguia pensar na ponta da faca. – É claro que você acredita. Você matou o homem de Veldergrath

quando ele tentou atacar Imogen. Então você pode ser forte, e eu admiro isso. Mas você deve saber quando ser forte e quando abrir mão do controle. Dentro de muito pouco tempo, você se tornará o líder de Carthya. Antes que isso aconteça, preciso deixar muito claro qual será o arranjo entre mim e você.

– Sem marcas, mestre Conner – disse Mott.

Ele olhou feio para Mott, claramente irritado, então diminuiu a pressão

da faca e me disse:

– Você será rei em todos os sentidos e estará à frente do governo. No

entanto, de tempos em tempos, terei sugestões para você. Você vai obedecer a elas sem questionar e sem hesitar. Se não o fizer, eu o exporei como traidor da coroa, e acredite em mim quando digo que posso fazê-lo sem perigo para mim. Se não me obedecer quando eu lhe der uma ordem direta, você será publicamente torturado e enforcado na praça da capital por traição. Se a princesa Amarinda for sua esposa, ela será humilhantemente expulsa de Carthya, e, se vocês tiverem filhos, eles morrerão de fome e de vergonha. Você duvida que eu possa fazer isso acontecer?

Continuei sem me mexer. O rosto de Conner se contorceu de ódio. Ele recuou e, com a mão livre, socou-me novamente no estômago. Mott ainda me segurava por trás, então não havia nada que eu pudesse fazer além de morder a mordaça e gemer de dor. Ele me bateu mais duas vezes, uma no peito e outra no ombro. Depois me arrancou das mãos de Mott e me jogou no chão. Ajoelhou-se ao meu lado e sibilou no meu ouvido:

– Você não é nada além daquilo em que eu o transformei. Eu cumpri minhas ameaças contra a realeza. Tente me trair e terá o mesmo destino que eles. Fui claro?

Assenti com a cabeça, e ele me ajudou a sentar.

Então continuou:

– Seu primeiro ato como rei será destituir Veldergrath do cargo de regente. Diga à corte que você suspeita de que ele tem algo a ver com a morte de sua família e que se recusa a tê-lo como regente em sua corte. Seu segundo ato como rei será nomear-me primeiro regente. Não me importo com quem você nomeie para substituir Veldergrath, mas, como seu primeiro regente, ficarei feliz em recomendar alguns nomes, se você não souber a quem dar o cargo. Concorda?

Fiz que sim com a cabeça outra vez. Com a faca, Conner cortou as cordas que atavam meus pulsos e depois a mordaça. Assim que o fez, cuspi nele. Ele limpou a saliva do rosto e então me deu um tapa com força na cara.

– Isso seria mais fácil se você aceitasse que o que eu quero é uma situação melhor para nós dois – disse ele. – Você é a mais primitiva forma de vida que Carthya tem a oferecer, e, ainda assim, estou fazendo de você um rei. Pare de lutar comigo, Sage, sejamos amigos.

Ele pareceu desapontado por não obter nenhuma resposta. Então ficou de pé e disse a Mott:

– Limpe-o e faça com que se vista. Vou mandar Imogen trazer algo para comer muito em breve. Não o deixe só até que eu volte.

Com isso ele limpou as mãos, arrumou a casaca e saiu do quarto.