O Falso Príncipe
Capítulo 20
Havia algumas poucas janelas abertas nos quartos dos servos, mas não parecia uma boa ideia tentar entrar por nenhuma delas. O pessoal da casa acordaria em breve. Além disso, depois que eu entrasse por um dos quartos, teria que percorrer todo o caminho até chegar ao meu andar e ainda por cima passar por Mott ou qualquer um que estivesse de guarda do lado de fora de nosso quarto. E sem ser visto.
A janela de Conner estava um pouco aberta e era a única que me
permitiria entrar na casa já no andar certo. Uma vez lá dentro, eu ganharia os corredores e espiaria com atenção, torcendo para que houvesse um serviçal dorminhoco ou que se distraísse facilmente guardando a porta. Por mais arriscado que fosse usar o quarto de Conner para entrar, aquela era a melhor escolha. Talvez a única.
O quarto de Conner contava com uma pequena varanda do lado de
fora. A porta estava fechada por um parafuso para impedir que abrisse durante uma rajada de vento, mas a janela ao lado da varanda estava aberta o suficiente para permitir que uma leve brisa entrasse. Ela cedeu facilmente quando a pressionei. Era muito mais larga que a janela próxima à minha cama, então não tive dificuldade em deslizar o corpo para dentro do quarto.
Permaneci parado por um bom tempo para me certificar se o ritmo do
sono de Conner estava regular, se sua respiração estava tranquila e se ele não estava de alguma forma inquieto. Ele roncou levemente, o que gostei de ouvir, porque dava cobertura para algum som que eu pudesse fazer.
O amplo dossel de sua cama era drapeado com muito tecido, o que
tornava difícil ver seu corpo. O som de seu ronco teria de bastar para assegurar que eu estava indo bem.
No orfanato da sra. Turbeldy, eu gastava mais noites do que dias vagando pelos cômodos. Sabia como testar o chão para saber se rangia antes de soltar meu peso nele. Sabia como abrir uma porta, um armário ou uma cômoda de modo que isso não alterasse o equilíbrio do quarto, denunciando meu movimento. E sabia como ficar invisível.
Bem, eu sabia como fazer isso lá.
Aqui, era um pouco mais complicado. Eu não estava familiarizado com a disposição das coisas no quarto de Conner, e não tinha muita luz com a qual pudesse trabalhar.
O quarto dele era maior que o nosso. Ridiculamente grande para apenas um homem, mas ele era o senhor ali; se era esse o quarto que ele queria, ele o teria. Em um dos cantos, à minha esquerda, ficava a cama e vários guarda-roupas grandes ao longo da parede mais distante, para que suas muitas roupas requintadas fossem guardadas apropriadamente. Perto de mim havia uma cadeira estofada, de onde ele podia ver o gramado dos fundos por cima da varanda enquanto tomava seu chá pela manhã. À minha direita, fileiras de estantes cheias de livros. Ele tinha mais uma porção de livros em seu escritório lá embaixo, e eu não pude deixar de me perguntar se ele realmente tinha lido todos aqueles livros ou se eram meramente para exibição. Provavelmente Conner lera todos. Ele era um intelectual. Eu estava um pouco curioso sobre os títulos dos livros que o interessavam. Conner murmurou algo ininteligível em seu sono e se agitou. Era hora de ir.
A porta para o corredor estava bem fechada. Um dos problemas que me afligiam era não saber o que encontraria do outro lado. Seria o quarto dele guardado ou vigiado por um serviçal? Um homem da nobreza frequentemente é bem cuidado, vinte e quatro horas por dia, mas eu não saberia se era o caso de Conner até que abrisse a porta, e o castigo seria duro se eu estivesse errado.
Então, à luz do luar, algo chamou minha atenção, sugerindo a possibilidade sobre a qual eu suspeitara antes, mas não tivera nenhuma confirmação. A franja de uma tapeçaria pendurada na parede parecia estar presa entre as ranhuras desta. Conner nos dissera que sabia todos os segredos de Farthenwood. Torci para que ele estivesse se referindo àquilo. Ou o interior das paredes era incomumente largo ou Farthenwood tinha passagens secretas.
Perdi um bom tempo atravessando o quarto de Conner. Pisos de
madeira eram famosos pelo barulho que faziam ao ranger sob o peso de quem andava sobre eles, e eu não queria fazer barulho e acordar o mestre. Assim que alcancei a parede, descobrir como abrir a porta que me levaria para a passagem secreta foi consideravelmente fácil. Havia três buracos escavados na parede e escondidos pela borda da tapeçaria, onde pude enfiar os dedos.
Abri a porta para a passagem tão devagar quanto possível e não mais
do que necessário. Em uma enrascada, posso passar por espaços bem pequenos. E aquela, Deus sabe, era uma grande enrascada, que me deu um espaço muito pequeno para passar.
Uma vez lá dentro, notei que a passagem era mal iluminada, com
lamparinas a óleo presas em arandelas e espaçadas o bastante para que uma pessoa pudesse achar o caminho através delas. Era estreita e não sinalizava as saídas, que só podiam ser percebidas quando se encontrava uma maçaneta discreta que servia para abrir portas escondidas. Dei algumas voltas que não resultaram em nada, entrando sem querer em quartos de hóspedes que, felizmente, estavam vazios.
Quando cheguei ao nosso quarto, imediatamente vi o motivo de
Conner ter escolhido nos colocar ali. Havia um pequeno buraco na base da parede que eu, anteriormente, pensara ser um buraco de rato. Não era. Conner nos colocara naquele quarto porque, se quisesse, poderia escutar nossas conversas.
Conner, ou um de seus serviçais, ainda usava a passagem secreta. Essa
era a razão pela qual as lamparinas queimavam o tempo todo. Eu teria que tomar cuidado se voltasse a usar aquela passagem algum dia.
Silenciosamente, pressionei a porta secreta para abri-la e entrei no
quarto. Tobias e Roden estavam dormindo. Observei-os por um tempo, imaginando se em circunstâncias diferentes nos tornaríamos amigos. Então, balancei a cabeça. Fazia um bom tempo que eu ousara chamar alguém de amigo. O conceito era apenas teórico para mim agora.
Tobias acordou cedo naquela manhã, me viu dormindo na cama e não entendeu nada. Quando finalmente acordei, ele olhava para mim sem acreditar no que via. Dei uma espiada nele, virei e voltei a dormir. Tobias nunca me perguntou como eu havia conseguido voltar para o quarto. E eu nunca me ofereci para explicar.