O Falso Príncipe
Capítulo 43
No final da semana, um homem veio se encontrar com Jaron na igreja. Se alguém tivesse perguntado, o padre diria que não sabia quem era o tal homem, apenas que ele tinha ares de ser muito importante. Mas ninguém perguntou. Até onde eles sabiam, o garoto que estava vivendo na igreja era um órfão.
Jaron reconheceu o pai imediatamente, apesar de sua extravagante tentativa de se disfarçar. Eles não se abraçaram; não era da natureza de seu pai. Mas havia lágrimas em seus olhos, e, pela primeira vez, Jaron viu o pai como um homem, não como um rei.
Eles se sentaram no meio de um dos bancos e receberam pouca atenção dos raros fiéis ali presentes naquele dia. A princípio foi estranho, pois, apesar de sentados bem próximos, pai e filho haviam se afastado muito.
– Quando eu tinha sua idade, queria ser músico – disse Eckbert, em uma tentativa frágil de estabelecer uma ligação com o filho, mas era tudo o que ele tinha. – Você sabia?
Jaron assentiu com a cabeça. Sua mãe havia lhe contado. Quando ele era muito pequeno, seu pai ocasionalmente mostrava como tocar alguns de seus instrumentos favoritos, apesar de tomar cuidado para nunca fazê-lo na presença de serviçais. Ele achava que seria embaraçoso.
Eckbert sorriu ao se lembrar da própria juventude.
– Eu gostava de tocar flauta. Confesso que não era muito bom, mas aquilo me dava muita alegria. Você se lembra de quando era mais novo? Eu ensinei uma ou duas músicas para você, eu acho.
– Eu me lembro de uma delas – sussurrou Jaron –, a favorita da mamãe.
Eckbert cruzou os braços e se recostou no banco da igreja.
– Meu pai, seu avô, não tolerava o barulho e os tons agudos de minha música e me desencorajou de tocar. Ele dizia que música era um aprendizado inútil para um futuro rei, uma perda de tempo. Apesar de na época eu não compreender, ele estava certo.
Jaron ouviu em silêncio. Era difícil imaginar que seu pai já tinha sido um
garoto, com interesses sem ligação com o trono.
– Você e eu não somos tão diferentes quanto você imagina, Jaron.
Passei boa parte da minha infância desejando ser outra pessoa, em vez do príncipe herdeiro.
– Eu não sou o príncipe herdeiro – lembrou-lhe Jaron –, apenas um
príncipe. Darius é quem vai herdar o trono.
– Como deveria. E ele vai ser um bom rei um dia. Mas e quanto a você?
O que quer para sua vida? Ser um príncipe não parece adequado para você.
Seu pai queria dizer que Jaron era capaz de fazer qualquer coisa, até
mesmo além dos muros do castelo. Mas Jaron entendeu que, para o pai, ele não estava à altura do título, e sua resposta foi apenas dar de ombros.
– Como tem sido sua vida como plebeu nas últimas semanas? –
perguntou Eckbert.
– Vou levando.
– Eu sabia que você conseguiria. E sei que consegue. Jaron olhou para o pai com olhos curiosos. O que ele queria dizer com
aquilo?
Eckbert suspirou.
– Ainda assim, haverá lições difíceis. Se você não é Jaron, então não é
ninguém para o mundo. Eles não se importarão se você passar fome, se sentir frio, se estiver jogado nas ruas, se for espancado ou estiver em dificuldades. Eu farei o melhor que puder por você, e imploro seu perdão por não poder fazer mais.
– Quero ir para casa – disse Jaron, baixinho. Era difícil para ele admitir,
mas, sendo bom ou não como príncipe, não aguentaria nem mais um dia sozinho. Sua mãe iria querê-lo de volta, e provavelmente Darius também. Quanto ao pai, ele não tinha muita certeza.
– Você não pode voltar para o castelo, meu filho – foi a resposta solene
de seu pai.
Jaron travou a mandíbula, do jeito que frequentemente fazia quando tinha que lutar contra a própria raiva.
– Essa é a minha punição por ter fugido? Ser renegado?
– Você não está sendo renegado e isso não é uma punição. É o que o seu país exige de você agora.
Jaron revirou os olhos. Seu pai não podia se eximir da culpa tão facilmente.
– Devo virar um plebeu, então? Devo chamá-lo de rei Eckbert ou esquecer seu nome de vez?
Aquelas palavras feriram seu pai, mas Jaron estava tão magoado que achou que suas palavras se justificavam.
– Você sempre será meu filho – respondeu Eckbert –, mas a situação com os piratas mudou tudo. Todos estão certos de que você morreu, e eu não posso permitir que essa certeza mude.
Eles ficaram em silêncio por vários segundos. Finalmente, Jaron falou:
– Se eu voltasse para casa, o senhor declararia guerra a Avenia por ter afundado o navio?
Eckbert suspirou profundamente.
– Eu teria de fazê-lo, porque você poderia fornecer a prova de que foram piratas avenianos que atacaram um navio com um membro da realeza a bordo. Se eu começar uma guerra contra Avenia, é quase certeza que Gelyn vai se aliar a eles, e então estaremos cercados de inimigos. Carthya não poderia sobreviver a uma guerra dessas.
– E se eu continuar desaparecido, o senhor teria que declarar guerra?
– Se você continuar desaparecido, eu posso dizer ao meu povo que não declararei guerra até que haja prova de sua morte.
– Então nós dois sabemos o que deve acontecer – disse Jaron, sem emoção. Ele havia considerado essa possibilidade, mas esperava que não acontecesse. – E quanto a Darius e mamãe?
– Darius... sente sua falta. Mas ele sabe que há sacrifícios que fazemos pelo bem de Carthya. Sua mãe não sabe que você foi encontrado. Obviamente, ela iria querer que você voltasse para casa e para ela. Sua mãe não vê os inimigos que nos cercam, não como eu os vejo.
– Nós sempre tivemos inimigos em nossas fronteiras.
– Mas não todos ao mesmo tempo. Depois que você desapareceu, eles até recuaram das fronteiras. Cortesia entre reis, em virtude de nosso período de luto por você. Mas há notícias ainda piores: tenho inimigos dentro de Carthya, dentro de meu próprio castelo. Há regentes que olham para o trono com ganância. Se eu declarar guerra como vingança por sua causa, eles podem não me apoiar. Esses são os que eu mais temo.
– O senhor acha que eles representam perigo para sua vida? Eckbert forçou um sorriso.
– Regentes são sempre a maior ameaça contra um rei. Mas tenho Darius.
Se eles chegarem até mim, a linhagem real vai continuar, do contrário Carthya se destruirá em uma guerra civil. Esse é o dever de Darius, Jaron. Você entende qual é o seu?
Ele entendia bem demais para um garoto de apenas 10 anos. – O meu é continuar desaparecido. É não voltar para casa. – Você compreende que não pode revelar sua identidade verdadeira?
Você deve mudar tudo o que puder em si mesmo. Clareie o cabelo com algumas tinturas, deixe-o crescer para mudar de aspecto. Disseram-me que você fala com sotaque aveniano. Então, mantenha-o.
– Posso usar a mão esquerda – ofereceu Jaron. – Sempre achei mais
cômodo mesmo.
– E livre-se de qualquer coisa que possa ter aprendido no castelo, meu
filho. Aprendizado, cultura, habilidades. Há um orfanato em Carchar, não muito longe daqui, mas dentro das fronteiras de Carthya. Ele é dirigido por uma mulher com boa reputação, a sra. Turbeldy. Agora, você deve entender que eu não posso pagá-la para cuidar de você. Você estará lá como um órfão, sem nenhuma vantagem sobre os outros. Serão alguns anos bem difíceis até que você chegue a uma idade em que possa viver por conta própria.
Lágrimas fizeram arder os olhos de Jaron, mas ele as limpou
bruscamente. Não daria ao pai a satisfação de ver sua dor.
Se Eckbert notou o coração partido do filho, não demonstrou. Ele deu
a Jaron um punhado de moedas de prata.
– Crie uma história para ser admitido no orfanato. Diga que roubou
essas moedas ou arrume uma desculpa qualquer. Elas facilitarão sua entrada lá.
– Posso fingir estar doente quando as moedas acabarem – disse Jaron. – E deixá-la pensar que ela arrancou a verdade de mim.
Eckbert sorriu.
– Você sempre usou esse truque com seus professores. É irônico pensar que isso pode mantê-lo vivo agora. Sempre existe a possibilidade de a sra. Turbeldy tentar vendê-lo como escravo, mas não creio que ela encontrará compradores.
– Não – concordou Jaron –, eu sou difícil demais para qualquer pessoa me querer.
– Exatamente – disse-lhe o pai. O significado integral das palavras de Jaron provavelmente não lhe ocorreu, e por pouco o garoto não ficou ainda mais magoado.
Eckbert desamarrou uma pequena bolsa que tinha na cintura e a pôs na mão de Jaron.
– Aí dentro tem um presente para você, o melhor que eu posso oferecer-lhe. Há uma carta junto, instruindo-o sobre como usá-lo.
Jaron olhou dentro da bolsa e então a fechou novamente. Aquilo não significava nada para ele.
Quando Eckbert se pôs de pé para partir, Jaron colocou a mão no braço do pai e sussurrou:
– Fique mais um pouco.
– Se eu ficar, o padre desconfiará – disse Eckbert.
– É para valer, então? – O coração de Jaron acelerou, mas ele não sabia dizer se de tristeza ou de medo do futuro. – Quando o senhor for embora, não serei mais o príncipe Jaron. Não serei nada além de um plebeu. Um órfão.
– No seu íntimo, você sempre será da realeza – disse Eckbert, com ternura. – Pode haver um tempo em que você tenha de ser o príncipe Jaron novamente pelo seu país. Você saberá se esse dia chegar.
– Estou sozinho?
Eckbert fez que não com a cabeça.
– Eu irei disfarçado, meu filho, sempre no último dia de cada mês, até a igreja mais próxima do orfanato da sra. Turbeldy. Se você precisar me ver, estarei lá.
Então ele partiu.
E, daquele momento em diante, eu me tornei Sage, de Avenia. O filho
órfão de um músico fracassado e de uma atendente de bar. Que não sabia quase nada do rei e da rainha de Carthya e com eles se importava ainda menos.
Eu estava completamente só.