O Falso Príncipe
Capítulo 3
Eu conhecia Tobias. Talvez ele não tenha me reconhecido porque entrei e saí do Orfanato de Caridade de Gelvins rapidamente. Mas, em minha curta estada, Tobias se destacara entre os outros. Ele não era um órfão comum. Fora educado quando criança e continuara a ler qualquer coisa em que conseguisse pôr as mãos. Tinha privilégios especiais no orfanato porque as pessoas acreditavam que ele era um dos poucos com alguma probabilidade de, algum dia, fazer da própria vida um sucesso.
Tobias olhou de relance em minha direção. – Você está sangrando.
Esfreguei a marca do corte em meu pescoço. – Já está quase estancado.
Aquilo era o máximo de preocupação que ele desejava investir. – Conheço você de algum lugar?
– Fiquei aqui cerca de seis meses atrás.
– Sim, eu lembro. Trancou o diretor para fora do orfanato por uma
noite inteira, não foi?
O sorriso em meu rosto foi minha confissão. – Admita, comemos bem aquela noite. Uma vez na vida. – Não tem graça – repreendeu Tobias. – Talvez não comamos bem a
maior parte do tempo, mas é porque não há muita comida para ser distribuída. Você distribuiu a comida de uma semana inteira aquela noite. A semana seguinte à sua saída foi bem longa, passamos muita fome.
O sorriso morreu em meu rosto. Eu não ficara sabendo daquilo. Andamos por mais de uma hora em uma planície solitária coberta de
tojo e urtiga. Tobias comentou que achava aquilo bonito, de um jeito desolado. Eu via a desolação, mas a beleza me escapava. Finalmente escureceu, e Mott sugeriu que encontrássemos um lugar para passar a noite. A cidade mais próxima ainda era Gelvins às nossas costas em vez de qualquer coisa à frente, por isso pensei que o lugar onde iríamos acampar não importaria muito. Mas Mott levou-nos para ainda mais longe, até a vegetação mudar e ele encontrar uma pequena clareira cercada de chorões altos e arbustos espessos.
– Estão nos escondendo – murmurei para os outros garotos.
Roden balançou a cabeça em minha direção e disse:
– É mais seguro aqui do que a céu aberto. Estão nos protegendo.
Mott saiu da carroça e começou a gritar ordens para cada um de nós, dizendo o que cada um deveria descarregar e onde colocar, principalmente cobertores e, assim eu esperava, comida. Fui encarregado de permanecer na carroça e passar as coisas para os outros do lado de fora.
– Medo de que eu fuja? – perguntei.
– Qualquer confiança que você tiver aqui terá de ser conquistada – disse Mott. – Eu diria que você tem de conquistar bem mais do que os outros – e indicou um saco perto do meu pé. – Dê-me isso.
Embora Conner fosse o mestre do grupo, estava claro que era Mott quem resolvia as coisas práticas. Ele não era um capanga comum e inútil. Ou, ao menos, percebi que não precisava pedir a permissão de Conner para tudo. Quando Mott deu ordens para Cregan, este fez o que lhe fora mandado. Enquanto trabalhávamos, Conner acomodou-se em uma tora caída para folhear um livro velho de encadernação de couro. De vez em quando, levantava o olhar, estudando cada um de nós de modo mais que casual, então voltava para o livro.
Cregan acendeu uma lareira, e depois Mott nos instruiu a sentar em torno dela para que Conner pudesse conversar conosco.
– Conversar conosco? Quando vamos comer?
– Depois da conversa – disse Conner, fechando o livro e ficando em pé. – Venham, garotos, sentem-se.
Pulei da carroça e me espremi na beirada de uma tora que Roden e Tobias haviam arrastado para perto da fogueira. Eles não estavam muito contentes de me ver ali, mas não reclamaram. Latamer estava agachado no chão. Pensei em oferecer-lhe meu lugar, já que ele ainda estava tossindo, mas pensei que não o aceitaria.
Conner também tossiu, porém sua tosse era para chamar nossa atenção.
Mas isso não era necessário. Já o estávamos observando.
– Não falei muito sobre o motivo de tê-los reunido, garotos – começou
Conner. – Tenho certeza de que, em suas cabeças, vocês criaram todo tipo de especulação, das prováveis e plausíveis às loucas e impossíveis. O que tenho em mente está mais próximo desse segundo tipo de especulação.
Tobias endireitou-se. Eu sentia tanta aversão por ele quanto por
Roden, embora houvesse tido muito mais tempo para aprender a odiar Roden.
– Não posso negar que meu plano seja perigoso – disse Conner. – Se
falharmos, as consequências serão terríveis. Mas, se formos bem-sucedidos, as recompensas irão além da imaginação.
Eu não tinha tanta certeza daquilo. Era capaz de imaginar umas
recompensas bem grandes.
– No fim, apenas um de vocês pode ser escolhido. Preciso do garoto
que se mostre mais adequado ao meu plano. E meu plano é muito exigente e muito específico.
Tobias levantou a mão. Um sinal de que recebera educação. No
orfanato de onde eu vinha, uma pessoa só levantava a mão se estivesse a ponto de usá-la para bater em alguém.
– Senhor, qual é o seu plano?
– Excelente pergunta, Tobias, mas o plano também é muito secreto.
Então, o que eu gostaria de fazer primeiro é oferecer a vocês a chance de partirem agora. Podem partir sem nenhum sentimento de arrependimento ou covardia. Fui muito honesto sobre o perigo e também sobre as recompensas. Se acham que isso não é para vocês, podem ir embora.
Roden olhou para mim. Franzi as sobrancelhas em resposta. Ele queria
que eu partisse, estava claro. E eu teria levantado ali mesmo, não fosse uma insistente voz em minha cabeça que me dizia haver algo errado. Então, fiquei quieto.
Latamer levantou a mão. Não porque ele fora treinado para isso, mas
porque funcionara para Tobias.
– Senhor, acho que eu gostaria de partir. Não sirvo para competir com esses outros garotos e, francamente, não sou de enfrentar perigos, mesmo que por grandes recompensas.
Aparentemente, a voz insistente não visitara a cabeça de Latamer.
– Claro que você pode partir – Conner educadamente ergueu a mão em direção à carroça. – Por que não sobe ali de novo? Mandarei Cregan levá-lo até a cidade mais próxima.
– Hoje?
– Nós que ficamos temos mais coisas para discutir ainda hoje, então, sim, vá imediatamente.
Latamer nos lançou um sorriso de desculpas e agradeceu a Conner por compreender. Acenei-lhe um adeus e me perguntei, como tenho certeza de que Roden e Tobias faziam, se seria inteligente fazer a mesma escolha. Conner não dissera o que aconteceria com os garotos que ele não escolhesse para seu plano. Nem quão perigosas as coisas poderiam ficar.
Então percebi o que meus instintos estavam tentando me dizer. Mott estava à nossa frente, conduzindo Latamer em direção à carroça. Onde estava Cregan?
Levantei e gritei:
– Latamer, pare!
Mas meu aviso só lhe deu tempo de se virar em vez de subir na carroça. Seus olhos se arregalaram quando viu o que pressenti. Uma flecha voou por mim e lhe perfurou o peito. Latamer ganiu como um cão ferido e caiu de costas no chão, morto.
Com um grito furioso, pulei sobre Cregan, que ainda estava parcialmente oculto pelas sombras atrás de nós, e o derrubei no chão. Ele tentou pegar a faca, presa à cintura, mas, como uma das mãos ainda segurava o arco que usara para matar Latamer, eu a alcancei primeiro. Comecei a rastejar sobre Cregan, mas Mott avançou por trás de mim e caí de cara no chão. Cregan respirou fundo, sentou e arrancou facilmente a faca de minha mão. O que provavelmente foi uma coisa boa. Não sei o que eu teria feito com ela se Mott não tivesse me impedido.
– Você o matou – grunhi, sentindo o gosto de lama na boca.
Conner ajoelhou-se ao meu lado e abaixou-se para que eu pudesse ver seu rosto. Sua voz estava assustadoramente calma.
– Latamer estava doente, Sage. Não iria melhorar, e acho que deu uma
boa lição a vocês. Agora você pode levantar e se reunir aos outros garotos, ou pode ir para a carroça com Latamer. A escolha é sua.
Impeli o maxilar para a frente e encarei Conner, até que finalmente
disse:
– Suponho que Latamer não seja uma boa companhia agora. Ficarei
aqui.
– Excelente decisão – respondeu Conner, dando um tapinha em minhas
costas como se fôssemos velhos amigos. Então acenou para Mott, que me soltou, e acrescentou: – Tenho certeza de que a morte de Latamer é um choque para vocês, mas foi muito importante para os três entenderem a seriedade do que estamos fazendo.
Quando sentei, a perna de Cregan roçou bruscamente na minha
quando ele foi ajudar a colocar o corpo de Latamer dentro da carroça. Normalmente, eu o teria chutado de volta, mas naquele momento estava chocado demais para pensar.
– Enterre-o bem fundo – disse Conner.
Ainda sentado na tora, Tobias estava pálido e perfeitamente imóvel.
Roden estava com cara de quem não conseguia respirar. Minha respiração também não estava grande coisa. O fato de que Mott pressionara o joelho rudemente em minhas costas pelos últimos dois minutos não ajudava.
O sorriso de Conner era uma linha fina no rosto. – Sage, acho que sua pergunta anterior era por que faríamos a reunião
antes de comermos. É por isso. Para que não desperdiçássemos comida. – Seus olhos passaram por Roden e Tobias. – E então? Alguém mais quer partir?