O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 16 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 15

 

Estava quase escuro quando finalmente os ouvi gritando, chamando por mim. Não respondi nas primeiras vezes. Eles não estavam perto o bastante para me escutar, então não havia motivo para gastar o pouco de energia que eu ainda tinha.

Finalmente, Mott se aproximou e pude vê-lo através das árvores. Ele montava um cavalo e carregava uma lanterna.

– Por todos os demônios do inferno, Sage, responda-me! Onde você está?

– Aqui! – respondi. Tive mesmo esperança de ser resgatado por Mott. Se fosse encontrado por Cregan, ele provavelmente terminaria de me arrasar como castigo. Mott parecia me odiar menos. Talvez com ele eu tivesse uma chance.

Ele me encontrou deitado na margem do rio, com as pernas meio submersas na água. A água estava fria e minhas pernas estavam entorpecidas já há algum tempo, mas o entorpecimento era preferível à dor que eu sentia antes.

Mott interrompeu o galope e desceu do cavalo.

– Ah, você está aí – disse ele, parecendo mais aliviado que bravo. – Como pôde vir tão longe?

A maior parte da cavalgada era um borrão em minha mente, então não me dei o trabalho de responder.

Ele se abaixou ao meu lado.

– Eu disse a Conner que ele era um tolo por considerar usá-lo como príncipe.

– Príncipes andam em carruagens, não a cavalo – respondi.

– Caso você não saiba, príncipes muitas vezes andam a cavalo.

– Não em um cavalo como esse. Mott sorriu.

– Não, não nesse cavalo. Onde ela está?

– Disparou a toda velocidade. Não sei nem dizer para que lado foi. – Conner vai ficar furioso. Ela seria domada logo. Você está machucado? – Acho que os hematomas são o pior. Ela parou para beber um pouco

de água, e eu caí.

Ele sorriu novamente.

– Você aguentou firme durante toda a cavalgada e caiu quando ela

parou aqui? Cregan vai rir disso a noite toda.

Rolei para tirar as pernas de dentro d’água e me encolhi. – Apenas diga a ele que eu aguentei o galope e me mantive na sela por

muito tempo. Ou ele tornará minha vida um inferno durante as aulas de amanhã.

– Lamento, mas em algum momento você terá que aprender que não

pode dizer o que quiser a quem quiser. Você tem que arcar com as consequências dessa sua língua afiada, e essa é uma delas. Espero que tenha sido uma boa lição para você.

Boas lições são palavras-código para uma dor pela qual ninguém se

desculpa. Já tive inúmeras boas lições para uma vida.

– Estou com frio. Podemos voltar?

– Você cortou o rosto.

Passei o dedo no corte, mas, naquela escuridão das árvores e com

aquela mão imunda, não dava para saber se eu ainda estava sangrando. Não parecia molhado.

– Acho que parou de sangrar.

– Conner não gostará nada disso. Ele não quer apresentar um príncipe à

corte cheio de cortes e hematomas pelo corpo todo.

– Até lá já terei sarado.

Mott estendeu um braço para me ajudar a subir na garupa de seu

cavalo. Olhei para o chão por um momento, e então o encarei.

– Preciso de sua ajuda, Mott. Conner nunca me escolherá apenas como

sou.

Ele pegou minha mão e me ergueu.

– Não mesmo. Não como você está agora. Vou levá-lo de volta e limpá-lo.

– Perdi a aula de esgrima?

– Nós a cancelamos para procurar por você.

– E o jantar?

– Eles estão comendo agora.

– Posso imaginar as coisas que Roden e Tobias dirão sobre mim para Conner.

Seria um milagre se eles não o convencessem a me enforcar na primeira oportunidade.

Galopamos de volta, rumo ao estábulo. A noite de primavera havia esfriado, e tremi naquelas roupas molhadas. Mott deve ter sentido pena de mim, porque passou boa parte da cavalgada me instruindo sobre como manejar um cavalo selvagem. Infelizmente, eu tinha outras coisas na cabeça, o que me fez perder boa parte de seus conselhos, algo nada bom, pois aquilo tudo parecia interessante.

Então, Mott me perguntou:

– Qual é seu interesse em Imogen?

Dei de ombros.

– Nenhum. Por quê?

– Ela me passou um bilhete mais cedo hoje pedindo que eu o impedisse de olhar para ela. Então, vou perguntar de novo: qual é seu interesse naquela garota?

– Nenhum – insisti. – Só que ela me parece sempre muito ansiosa. Ela está segura aqui?

Mott hesitou por um momento, depois respondeu:

– Quando os servos acham que um deles se destacou ou se tornou favorito de alguém, tendem a sentir ciúme. E isso é potencialmente perigoso.

Pensei um pouco sobre o que acabara de ouvir.

– Então, você está dizendo que, quando presto atenção em Imogen, torno a vida dela mais difícil?

– É, é isso.

Aquilo fez com que eu me sentisse péssimo. Eu só estava olhando para ela para entender a causa de seu medo, observando como ela agia, quando, na verdade, a causa de seu medo era justamente o fato de eu a olhar.

Quando estávamos próximos do estábulo, algum tempo depois, Mott

disse:

– Conversamos sobre suas habilidades de cavaleiro. – É mesmo?

– Mestre Conner disse acreditar que você fosse um cavaleiro com alguma

experiência. Ele imaginou que você havia forçado uma situação com Cregan para que ele colocasse um cavalo em suas mãos e você pudesse fugir. Nós não estávamos certos de que ainda o veríamos depois de hoje à noite.

Sorri timidamente.

– Sim, teria sido um bom plano.

– Então você sabe montar? – perguntou Mott. – Ou é realmente tão

estúpido a ponto de montar um cavalo selvagem sem estar preparado?

Meu sorriso tímido se transformou em uma gargalhada, e coloquei a

mão sobre o peito.

– Sinto dor quando rio, Mott. Devo ter quebrado uma costela. Se você

quer que eu confesse minha estupidez, eu confesso. Meus hematomas que o digam.

Mott balançou a cabeça.

– Você não precisa dizer isso, Sage. Mas você precisa se controlar, rapaz.

Essas duas semanas vão passar rápido, e você está mais atrasado que os outros.