O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 18 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 17

 

Eu já estava na cama quando Tobias e Roden entraram no quarto. Sem se importar em verificar se eu dormia ou não, começaram a falar comigo.

– Ouvimos falar do truque que você fez com a faca de Mott – disse

Roden. – Conner queria lhe dar umas chicotadas, mas Mott disse que já tinha lidado com você.

– Quem vai ser meu servo agora e me ajudar com as roupas e o banho?

– perguntou Tobias.

– Vista-se sozinho – murmurei. – Você se virou sozinho a vida inteira. – Conner nos transformou em cavalheiros – disse ele. – Um cavalheiro

nunca se abaixaria para se vestir sozinho.

– Se ele nos colocasse em vestidos, não nos transformaríamos

repentinamente em mulheres – respondi. – Você é um órfão em uma fantasia, Tobias. Nada mais.

O servo de Roden estava no quarto pegando as roupas de dormir

deste. Tobias olhou para ele e disse:

– Acenda a lareira para nós.

Roden e eu gememos juntos.

– Mas já está quente aqui – reclamou Roden. – Você quer que

cozinhemos na cama esta noite?

Tobias começou a juntar os papéis da escrivaninha perto da cama. – Quero queimar isto.

– Por quê? – perguntei, colocando-me sobre os cotovelos. – O que tem

neles?

– Anotações que fiz estudando para ser o príncipe. Não quero que você

ou Roden leiam e ganhem com meus esforços.

– Nenhum de nós sabe ler – disse Roden. – Para mim, o que está nessas páginas não passa de rabiscos sem sentido.

– Sage sabe ler um pouco – Tobias disse.

Bocejei.

– É verdade, mas você é um imbecil. Se eu quisesse saber algo importante, você seria a última pessoa para quem eu pediria alguma informação.

Tobias fechou com força o livro que tinha nas mãos.

– Espero que continue agindo assim. Esse tipo de atitude torna a decisão final do mestre Conner muito mais simples.

– A decisão de Conner já está tomada – falei.

– É mesmo? – perguntou Tobias. – E quem ele escolheu?

– Você. – Agora eu estava sentado na cama. – Você é o mais disposto a obedecer às ordens dele e o mais fácil de lidar. Ele sabe que não me deixo dominar e sabe também que Roden é uma incógnita. Mas você, você é o fantoche dos sonhos de todo titereiro.

Tobias abriu a boca e depois a fechou. Por fim, disse:

– Conner pode pensar o que quiser. Sou o mais inteligente de nós três e, se eu me tornar o príncipe, serei eu a governar. Sozinho.

– Se Conner o colocar nessa posição, ele também pode tirar você dela – disse Roden. – Como você sabe que não será do modo como Sage diz?

Tobias balançou a cabeça.

– Não se preocupem comigo. Em vez disso, pensem num modo de se safar dessa.

As lições no dia seguinte foram basicamente as mesmas do dia anterior. O professor Graves bateu em minhas mãos várias vezes por me pegar com os olhos perdidos no espaço, quando deveria estar prestando atenção no quadro-negro. A professora Havala nos ensinou os nomes de todas as pessoas ligadas à família do rei Eckbert.

– Poucos membros da família Eckbert estão vivos, e a maior parte deles é formada de parentes distantes, então é muito remota a chance de vocês encontrarem alguém que tenha conhecido o príncipe o suficiente para perceber a troca – disse ela. – Mas é necessário que vocês conheçam esses nomes.

Tobias tomou notas imediatamente. Comi parte de seu almoço, e ele nem percebeu.

A professora Havala usou o tempo de aula que tínhamos depois do

almoço descrevendo o irmão mais velho do príncipe Jaron, Darius.

– Ele era tudo o que um futuro rei deveria ser – disse. – Educado,

compassivo e sábio.

– Isso é o que os cartianos esperarão de... Bem, do escolhido, seja ele

quem for – disse Tobias. – Temos que fazer melhor do que apenas imitar Jaron. Temos que superar as expectativas que o povo tinha em relação a Darius.

– Se deixarmos por sua conta, lá pelo fim da semana o príncipe

escolhido terá que trazer os mortos de volta também – zombei. – Nenhum de nós será melhor do que Darius.

– Você não será – disse Roden.

Eu não soube o que responder. Minha vida inteira era uma confirmação

daquele fato.

Havia um velho ditado em Avenia que dizia: “Só porque é mais calmo

do que uma tempestade de granizo, não quer dizer que seja calmo”. Pensei nisso várias vezes durante nossas lições de montaria no final do dia. A tensão no ar era espessa e tangível. Cregan e eu logo selamos uma trégua e decidimos silenciosamente não conversar.

Ou melhor, eu não estava falando com ele. Ele, por sua vez, tinha

muito que me dizer.

– Conner me culpou por você ter perdido Windstorm – disse ele. – Você

acha que pode mesmo dizer qualquer coisa que queira para mim, desafiar minha autoridade e eu ainda levar a culpa? Você pensa que é um cavalheiro fino agora, que pode me olhar de cima, com o nariz empinado? Bem, você continua sendo um órfão patético, Sage. Você fedia como um porco quando chegou aqui. Não importa quais aromas eles ponham na água de seu banho, você sempre vai feder.

Rangi os dentes e lembrei a mim mesmo que com toda a certeza eu

cheirava bem mal quando cheguei.

– O mestre disse que vou ter que pagar por aquele cavalo – continuou

Cregan –, o que levará tantos anos de trabalho que nem posso calcular. Mas não serei servo dele por muito mais tempo. Tenho meus próprios planos.

Cregan queria que eu perguntasse quais eram seus planos, certamente para ter a satisfação de me dizer que aquele não era problema meu. Acontece que eu não dava a mínima para os planos dele. Encarei-o sem piscar e sem dizer nada, o que o enfureceu ainda mais.

– De agora em diante, qualquer cavalo que você montar será amarrado ao meu. E a você será destinado o mais calmo, o mais manso do estábulo. Você não vai ser capaz de incitá-lo a fazer nada que eu não queira que ele faça.

– Espere aí! – disse Tobias. – Se ele pegar o cavalo mais dócil, Conner vai pensar que ele é o melhor cavaleiro.

Sorri para Tobias, cujos olhos se estreitaram.

– Esse era seu plano o tempo todo – sussurrou Roden.

– Eu não tenho o cérebro de Tobias nem a sua força – eu disse para eles. – Deem-me essa vantagem na competição.

Cregan olhou para nós por um momento, claramente tentando decidir se me daria o cavalo mais manso ou não. Ele não queria me ajudar, mas também não queria correr o risco de se meter em problemas novamente ao me dar um cavalo que eu não conseguisse controlar.

– Eu nem sou o servo mais hábil com os cavalos – disse ele. – Sou um espadachim, mas Mott ordenou que eu ficasse aqui para que ele pudesse ensinar vocês a manejar as espadas.

– Ensine as duas coisas para nós – pediu Roden. – Eu vou aprender.

Tobias revirou os olhos.

– Até agora não aprendemos nem a montar nem a lutar com espadas. Nosso tempo de aula está passando rápido, senhor.

– O diabo quis me punir por tudo que já fiz de errado na vida – resmungou Cregan, dirigindo-se para o estábulo –, e por isso me mandou vocês três.

No final, todos recebemos cavalos dóceis, e nossa cavalgada pelos campos de Conner foi tão enfadonha que pensei que ia enlouquecer. E não fui o único.

– Você tem que nos ensinar mais do que cavalgar como noviças em uma tarde de sábado – disse Tobias. – Espera-se que o príncipe seja um cavaleiro muito hábil.

– Agradeça a Sage pela aula – disse Cregan. – Não posso correr o risco de

que se machuquem como ontem.

Roden e Tobias me olharam feio mais uma vez. – Acho que você planejou isso tudo, Sage – disse Roden para mim. –

Acredito que você deliberadamente estragou as aulas de montaria para que Tobias e eu não tivéssemos chance de aprender.

Dei um sorriso discreto. A ideia nunca me ocorrera, mas era excelente.

Eu deveria ter pensado naquilo.

Depois de aproximadamente uma hora cavalgando, fomos chamados

por Mott, que nos esperava para uma aula de esgrima.

– Como Sage não estava aqui ontem, vamos ter que repor uma aula –

disse ele, levando-nos pelo pequeno pátio onde ele e eu tínhamos praticado duas noites antes.

Mostrando-nos uma parede onde várias espadas estavam penduradas,

anunciou:

– Ao final destas duas semanas, vocês irão duelar com estas espadas,

rapazes. Mas, hoje, usaremos espadas de madeira.

Cruzei os braços.

– Onde está a espada do príncipe?

Mott virou-se para olhar. A espada de Jaron tinha desaparecido. – A espada do príncipe estava aqui? – perguntou Tobias. – Era só uma cópia – respondi. Mott olhou para mim como se tivesse

sido pessoalmente insultado pelas minhas palavras. Não entendi o motivo. Eu tinha razão.

– Como você sabe sobre a espada, Sage? – perguntou Roden. – Mott e eu praticamos aqui outra noite.

Roden e Tobias se entreolharam espantados, exatamente como eu sabia

que aconteceria. Mas eles não tiveram muito tempo para reclamações.

– Mestre Conner vai querer saber disso – disse Mott, ignorando as

lamúrias deles. – Sigam-me.

Encontramos Conner em seu escritório, debruçado sobre um livro

grosso e empoeirado. Mott nos deixou esperando no corredor enquanto falava com ele em particular. Depois, mandou que entrássemos.

As paredes do escritório de Conner eram cobertas por estantes cheias de livros, mas que também exibiam bustos e outras miudezas. Na parede oposta à porta, havia uma mesa maciça de frente para quem entrasse no cômodo e duas cadeiras com estofamento confortável. Todo aquele luxo fez com que eu me perguntasse se Conner tinha um negócio próprio com o qual ganhava dinheiro ou se aquele era o tipo de riqueza que passava de pai para filho por gerações. Supus que a última alternativa era a verdadeira.

Conner nos examinou com as mãos unidas.

– Aquela não era uma espada comum, garotos. Era uma réplica quase exata da espada do príncipe Jaron antes de seu desaparecimento. Foi vista pela última vez em sua cintura durante o jantar, na noite anterior ao seu embarque no navio que enfim o levaria para a morte. Creio que um de vocês pensou que, ao roubá-la, teria algum tipo de vantagem. Talvez nosso ladrão acredite que possa usar a espada para fortalecer sua imagem de herdeiro da coroa quando for apresentado à corte. Bem, saibam que isso é inútil porque, como eu disse, aquela não é uma réplica exata. Qualquer um com um mínimo de experiência saberá facilmente que é uma cópia. Talvez um de vocês a tenha roubado buscando vantagem sobre os outros nos treinos de esgrima. Novamente, é uma tentativa inútil. Qualquer um de vocês pode praticar com Mott tanto quanto desejar, aprimorando-se o máximo que puder. E, se um de vocês a roubou para que os outros dois não pratiquem com ela, lembrem-se de que há várias espadas disponíveis para as aulas. Dessa forma, desejo ouvir uma confissão. Quem de vocês pegou a réplica da espada do príncipe?

Nós três permanecemos em silêncio. Era provável que Conner não acreditasse que o ladrão fosse confessar. Nenhum de nós era tão estúpido assim.

– Sage deve tê-la pegado, senhor – acusou Tobias.

– Por que você acha isso? – perguntou Conner.

– Ele foi o único que já manuseou a espada.

– O que não prova nada – disse Conner.

– Ela estava aqui enquanto os meninos estavam na aula de montaria ontem – disse Mott. – Nós sabemos onde Sage estava nessa hora. Todos os meninos foram supervisionados desde então.

– Onde você e Roden estavam durante esse tempo? – perguntou Conner a Tobias.

O garoto hesitou.

– Depois que Sage disparou com Windstorm, Cregan foi atrás dele. Ele

nos mandou para o pátio onde treinamos esgrima e disse que esperássemos por Mott lá. Mas, depois de alguns minutos, um serviçal apareceu e nos disse que Mott também tinha ido procurar por Sage, então deixamos o pátio.

– Saímos de lá juntos, senhor – disse Roden rapidamente. – Se qualquer

um de nós a tivesse pegado, o outro saberia.

– E o que vocês fizeram depois que voltaram para a casa? – perguntou

Conner.

Os olhos de Tobias revelavam todo o medo que sentia. – Eu fui para a biblioteca.

Roden franziu a testa.

– E eu voltei para o quarto.

– E algum de vocês pode provar onde esteve? Depois de um longo e muito desconfortável silêncio, balancei o corpo e

sorri.

– Pela primeira vez, acho que estou feliz por aquele cavalo ter

disparado comigo.