O Falso Príncipe

Jennifer A. Nielsen · Capítulo 28 de 55

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O Falso Príncipe

Capítulo 27

 

 

No dia seguinte, Mott estava esperando por nós depois das aulas para nos dizer que não haveria treino de montaria nem de esgrima naquela tarde.

– Cregan acha que vocês já estão todos montando bem para passar por

uma avaliação inicial, e mestre Conner tem outros planos para os três esta tarde.

Os outros planos de Conner eram aulas de dança no pomposo salão da

Casa Conner. Então, ele aparentemente tinha outros meios de nos torturar, além das paredes do calabouço.

Apertei o flanco com a mão e me sentei em uma cadeira perto da porta. – Não vou dançar. Vai doer.

– Hoje é o único dia que podemos usar para essas aulas – disse Conner

entrando no salão, seguido por um pequeno grupo de mulheres. – Certamente, um jovem e belo príncipe jamais se sentiria tão cansado a ponto de se recusar a dançar com uma linda moça.

Levantei-me relutantemente, engolindo uma gargalhada ao ver nossas

três parceiras de dança. Nenhuma delas era moça, e a palavra “linda” era um exagero. Estavam vestindo roupas parecidas com as dos outros serviçais e tinham a pele áspera de mulheres acostumadas ao trabalho pesado.

Roden sorriu para mim. Tobias endireitou a espinha, mas parecia um

pouco nervoso.

– Não sejam tímidos, rapazes – disse Conner. – Vocês não precisam

cortejá-las. É apenas uma dança, e todas são ótimas dançarinas.

Nós nos aproximamos e tomamos a decisão sobre quem seriam nossas

parceiras baseando-nos simplesmente em quem estava mais próxima de nós. Minha parceira era uma mulher na casa dos 40, que sussurrou para mim que seu nome era Jean. Tinha cabelos encaracolados que provavelmente eram de um lindo tom de castanho, antes de ficarem grisalhos. Os olhos eram grandes, contrastando com os lábios e o nariz finos. Não era um rosto bonito, mas era interessante.

Conner começou a nos instruir com um minueto básico, demonstrando os passos ele mesmo com a parceira de Roden, e então começou a bater palmas no ritmo da música enquanto o imitávamos. Jean era simpática e procurava ajudar. E perdoava cada erro que eu cometia.

– Você está indo bem – disse ela. Era mentira, e nós dois sabíamos disso, mas apreciei o gesto mesmo assim.

Nem Tobias nem Roden pareciam estar indo muito melhor. Conner continuou sendo paciente conosco, entretanto, e, depois de várias tentativas, todos começamos a fazer os passos de forma até respeitável.

Durante um intervalo, Conner me perguntou se meu pai fora músico.

– Eu já lhe disse isso mais de uma vez, senhor.

– Certamente, você toca algum instrumento, então.

– Eu também já lhe disse que meu pai era um músico medíocre. O senhor não pode acreditar que o aluno supere o professor.

Conner foi até o canto do salão, onde uma pequena maleta estava apoiada. Retirou dela uma flauta e encaixou as peças do instrumento.

– Gostaria de ouvi-lo tocar, Sage. Se você foi mesmo ensinado pelo seu pai músico.

– Eu teria que deixar minha adorável parceira sozinha, senhor.

– Eu dançarei com ela, se você tocar algo com que possamos dançar.

Olhei para Conner.

– Isso é um teste?

Inclinando a cabeça, ele disse:

– Tudo é um teste.

Então, apanhei a flauta. Precisava de um pouco de afinação, o que me deixou meio confuso no começo. Na verdade, eu nunca havia tocado uma, mas era um instrumento básico de sopro, e, após alguma dificuldade, consegui acertar as notas.

– Se eu esquecer algum pedaço, vou ter que improvisar – alertei a todos. – Perdoem-me se eu não fizer justiça a essa música.

Então, comecei a tocar. Não era uma música para dançar, mas uma melodia triste que sempre me trazia imagens de solidão em uma praia deserta à noite. Era uma música que costumava fazer minha mãe chorar, e, depois de algum tempo, meu pai parou de tocá-la. Em breve, ele não tocaria mais nada. Mas eu nunca me esqueci daquela música.

Quando terminei, houve um murmúrio no salão. Devolvi a flauta a

Conner, que disse, solenemente:

– Você estava certo, Sage. O aluno não pode superar o professor.

Vamos dançar novamente.

Olhei nos olhos de Conner algumas vezes durante a próxima dança,

imaginando o que ele pretendera quando me pedira para tocar. Se eu tivesse mentido sobre o passatempo de meu pai, só precisaria ter dito a Conner que ele jamais me ensinara.

Depois que a dança terminou, Conner mandou que descansássemos

um pouco, cruzou os braços e riu.

– Nenhum de vocês será um grande dançarino, mas pelo menos não

passarão vergonha. Vamos praticar um pouco mais, e depois devem trocar de roupa. Vocês vão trabalhar na cozinha esta noite para aprender com os empregados como os convidados devem ser servidos. Precisam aprender essas regras porque quero que sirvam a prometida princesa Amarinda amanhã à noite.

– Quando ela vai chegar, senhor? – perguntou Tobias. – Espero recebê-la esta noite, embora ela não esteja planejando cear

conosco antes de amanhã. Sage, você tem praticado o seu sotaque? Se for chamado para falar com ela, não quero que lhe responda com sotaque aveniano.

– Eu passei muito tempo sozinho estes dias – completei, com sotaque

cartiano. – Tive a chance de praticar bastante.

– Nada mau – disse Conner, com um sorriso. – Mas os sons das

consoantes ainda estão muito suaves. Endureça-os um pouco, e nunca mais me faça ouvir o sotaque aveniano.

Assenti, então ele anunciou:

– Vamos treinar uma valsa, agora. Tomem as mãos de suas parceiras, por

favor.

O trabalho na cozinha, naquela noite, foi entediante. Nossa instrutora na cozinha era a minha parceira de dança, Jean, que eu descobri ser uma supervisora, não uma serva. Conner tinha uma cozinha enorme, e Jean teve muito orgulho em nos mostrar como tudo funcionava na mais perfeita ordem.

– O mestre recebe alguns convidados inesperados de vez em quando, e sempre temos um plano para refeições de última hora – disse Jean, orgulhosa. – Temos nos divertido muito nesta semana, desde que vocês chegaram, rapazes. Estamos preparando muito mais comida que de costume, e os pratos sempre voltam vazios.

– Tudo é muito gostoso aqui – disse Roden. Tobias e eu sorrimos ao ouvir aquilo. Não era decisão dela quem seria o príncipe, e nenhum de nós podia imaginar o que ele esperava ganhar ao elogiá-la.

Roden respondeu àquela pergunta um instante depois, quando percebeu nosso sorriso.

– Mas é gostoso mesmo – sussurrou ele. – Vocês precisavam ver o que eles nos serviam no orfanato. Acho que aquilo nem era comida de verdade.

Jean nos instruiu sobre a forma correta de segurar uma bandeja e nos ensinou como servir e retirar os pratos da mesa. Ela nos mostrou como servir bebidas e até deixou que provássemos um pouco do melhor vinho de Conner. Eu estava interessado, de maneira um pouco distante, assim como Roden. Era bom saber tudo aquilo, mas não me serviria de muita coisa. Tobias, contudo, inclinou-se para nós em determinado momento e sussurrou:

– Se Conner não tivesse nos tirado do orfanato, esse provavelmente teria sido o nosso futuro.

– Não o meu – eu disse de modo firme, uma vez que nada me faria aceitar uma vida como aquela. Roden concordou rapidamente.

– Muito bem, vocês já aprenderam tudo – disse Jean, por fim. – Agora, façam algo de útil por aqui. Sempre há muito o que fazer, e, se temos vocês para ajudar...

Ela nos mostrou uma pilha de pratos para lavar. Comentei que havia lugar apenas para duas pessoas ali e me ofereci para amassar o pão, do outro lado da cozinha. Roden e Tobias pareceram não se importar, e Jean concordou, dispensando-me com um aceno.

Fui até a mesa de madeira no canto e apanhei um pedaço grande de

massa. Depois de um minuto, Imogen entrou na cozinha, e Jean lhe pediu que viesse me ajudar. Para minha surpresa, ela não pareceu se incomodar, apenas retirando algumas facas da mesa e abrindo espaço para trabalhar com a massa.

– Eu já fiz isso antes – eu lhe disse, enterrando os dedos na massa

morna. – Era uma das tarefas no orfanato. Mas a massa aqui é muito melhor. O que nós comíamos era feito com ingredientes doados, o que quase sempre significava que não eram apropriados para as classes mais altas.

Ela olhou rapidamente para mim, e eu continuei: – Não sei por que as classes mais altas rejeitam a farinha com carunchos.

Eles são muito nutritivos.

Aquilo finalmente me rendeu um sorriso de verdade, embora estivesse

longe das coisas mais engraçadas que eu já havia lhe dito. Então, percebi que aquele sorriso não tinha nada a ver comigo; algo havia mudado nela.

– Você está diferente – eu disse, baixinho.

Sem olhar para mim, ela assentiu. Não podia me dizer o que era, mas

não precisava. Havia menos medo nela do que antes.

– Imogen! – gritou um homem alto e corpulento, do outro lado da

cozinha. Pelas roupas que ele vestia, dava para ver que era um dos cozinheiros de Conner. – Sua menina preguiçosa!

Imogen se virou. Eu comecei a me adiantar, mas ela agarrou meu pulso

para me deter.

– A massa ainda não está pronta? – ele perguntou. – Preciso assá-la esta

noite!

– Como ela poderia ter acabado? – escarneci. – Toda vez que você entra

aqui, manda que ela faça outra coisa!

O cozinheiro-chefe se aproximou de mim e me empurrou contra a

parede de tijolos. A dor se espalhou das minhas costas feridas para todo o meu corpo, mas, de algum modo, segurei a língua.

– Não venha me dizer como administrar a minha cozinha! – rosnou ele. – Solte-o! – disse Mott, agarrando-me pela camisa e fazendo um gesto para que Tobias e Roden o seguissem. – Já terminamos o que tínhamos que fazer por aqui.

Quando nos afastamos, ele me perguntou:

– Você não pode ir a lugar algum sem causar problema?

– É ele o responsável pelos hematomas de Imogen?

Mott cerrou os dentes.

– Está claro que, se você trabalhar na cozinha hoje, um de vocês vai acabar matando o outro. Então vou lhe designar uma tarefa diferente.

E, com um olhar severo, foi andando.

Tobias e Roden me alcançaram, enquanto seguíamos Mott.

– Ele machucou suas costas – disse Roden. – Posso ver pelo jeito como você está andando.

– Está tudo bem com as minhas costas.

Não era verdade, mas eu me sentia mais corajoso dizendo aquilo.

– A culpa é sua se ele o machucou – disse Tobias. – Por que você faz isso?

Dei de ombros.

– O quê?

– Por que provoca as pessoas, como sempre faz? Parece que quer fazer inimigos por aqui.

– E você insiste em fazer falsos amigos. Não é diferente. Você nunca se cansa de fingir ser algo que não é?

– Como o príncipe? – perguntou Tobias, inclinando a cabeça. – Não, eu poderia fingir ser o príncipe pelo resto da vida. Não me julgue só porque você não é capaz de fazer o mesmo.

As palavras dele me atingiram fundo, e eu o segui, ao lado de Roden, enquanto voltávamos para o quarto. Ambos sabíamos que ele havia vencido aquele round.